Bah!
Como eu escuto Sui Generis quando a coisa tá assim, lenta, preguiçosa, a luz quente do fogo... Pressinto que, na rua, o frio está gaúcho!
Alguém ouviu uma música minha na internet, dei uma entrevista na qual defendi a desorganização. O André me ligou, está muito satisfeito com estes resultados finais da montagem. Um alguém, que nem sei, pensa que eu posso ser uma turista. Ela só errou de cidade, se referia a um lugar que me aquece sem precisar de aquecedor. No mais, sei lá que dá na gente quando ouvimos um vocábulo qualquer num e-mail qualquer, mas aquela palavra isolada nos incíta, é interjeição. Eu, Turista de qual ou de quando? 'Eu sorrisando deslizo' (tenho folheado Cummings).
Eu me lanço rindo. No entanto, estou de novo leitora do Tennessee Williams.
Tem épocas que fico tão misantrópica, seja aqui, seja onde estiver, daí, quando saio
sou uma turista com sede de tudo. Fico boba! Sorrio toda. Faço fotos.
Me lanço sorrindo. Ele também não é muito de gente, só que não tenta disfarçar e vamos assim, convivemos gentilmente com esta fundamental diferença.
Estou querendo tanto fazer estes dois video-clipes!!
Desde fevereiro entrei nestas pseudo-tratativas.
Mas demoro tanto. Ontem não fui assistir ao ensaio da banda e matutei:
- Será que daria pra fazer isto sem sair de casa?
- Olha, eu estou convicta que sim, respondi, faria um vídeo-clipe à distância,
pela internet, soluções, tecnologia, sen-sa-ci-o-nal!!
Ou nem precisaria, segunda vou sair pra dar uma entrevista no Café Coletânea.
Quem sai na segunda, pega uma ou duas câmeras e sai na terça,
depois quarta, até que acostuma. A RUA!!! Eu turista!
A esposa do prefeito canta uma música que, se não me engano,
tem uma parte que é 'Porto Alegre me dói..'
Ai dona prefeita, a mim dói também, mas deve ser de um outro jeito, sem dúvida!!Menos a noite, à luz de velas, num dos lugarezinhos quentes, tomando vinho, um espumante ou uma cachaça. Raras as saídas.
E logo viajo de novo, em um mês acho que o principal tá feito
pra premier do Bitols, daí to livre e vejo de novo a ponte do Guaíba ficando
pequena, até sumir nas nuvens. Daí o Rio, com certeza,
uns 3 meses se der. Sair de lá só pra ir a Natal e Sampa.
Mas aqui, Porto Alegre 'é demais', outra parte da música da esposa do prefeito.
Não sentimos o D+ do mesmo jeito, eu e a esposa do prefeito!
Mas no pouco que vejo as ruas, acho tudo lindo e limpo e dourado. Os sebos da Riachuelo, o sol que demora mais pra apagar que em outros lugares, os casacos e a ponte.
Meu primeiro filme tem um ponto de vista da ponte. Rodei em Super8, mas gravei aproveitando uma viagem pra locação de outro filme, um 16 mm. Vários filmes nossos nos levam pela ponte, depois o pedágio.. Buscar uma imagem, apanhar uns figurinos, certos movimentos se repetem.
Também gravamos ultimamente o ponto de vista da ponte Rio-Niterói.
A reunião do tal filme me pareceu ilusória.
Não sei bem como explicar... Não acho que minha personagem precisasse
de tantos piercings.
O fato é que tenho ficado vários dias sem ver a rua e, sózinha, vejo muito meu proprio corpo. Em casa nos vemos diferente, ando faz tempo sem personagem. Meu corpo não tem sequer um mínimo brinco. Mas quem sou eu pra dizer se a personagem terá furos ou não.
Eu, os gatos, o computador, aquecedores e café.
Porque alguém precisaria de rua se é só ler, pensar e escrever?
Escrever, tomar um vinho e deitar sem hora pra acordar.
Trabalho meio de turista este meu, olhando tudo aqui de dentro. O mundo todo lá fora, aceso, trejeitos rutilantes.
Amanhã tem encontro do Clube de Nadismo. E se eu saísse daqui e caminhasse até lá? O parque, os códigos translúcidos do Marboh, o nada.
Em mim o raro tátil, o ver de perto, ou não. De perto sempre se vê?
biAh weRTHer
sexta-feira, 30 de maio de 2008
terça-feira, 27 de maio de 2008
domingo, 25 de maio de 2008
Clãs Inenarráveis e a Estática dos LPs
Domingo quase cinza.
Aguardo para a noite uma chuva
pois fiquei de rodar certa cena
misantrópica que vai contar sua interação com o ambiente,
o movimento e tudo o mais.
Mas o filme não é meu, só vou rodar uma cena de chuva.
Sempre esperei tão ansiosamente essa água que cai do céu...
Tem gente que não gosta, eu morria de amores pelos temporais e os pós-temporais.
Na infância parece que tinha mais! Final de tarde nos verões.
Gravei alguns arco-iris, mas isto foi mais tarde, já na época do Hi-8. Nunca digitalizei.
Quanta coisa a gente roda e nunca usa, ficam essas fitas pela casa.
Rolinhos super8, latas de 16 já provavelmente mofadas,
até fitas VHS-C.
Voltando à chuva, lembro-me de uma cena antiga que descrevi num
texto do blog velho. Fato real que tirei da memória
pra dar um pouco de vida pra Rita, minha personagem no Bitols.
Escrevi, postei, enviei pra o diretor e pra os colegas do elenco.
Era da época dos LPs a cena, as gotas de inverno que a gente olhava da janela
e pras quais dávamos nomes. Geralmente nos pareciam bailarinas,
parte de um clã muito misterioso, brilhante e inatingível.
Um pedaço do texto?
"A chuva dos anos 70 chovia por longos dias. Mais que uma semana, dez lições de casa. Bafejávamos o vidro, nossos narizes amassados aguardando as gotas que se lançavam do telhado, se exibiam nas folhas feito lagartixa em parede e mergulhavam na areia fina caindo sempre no mesmo ponto a modelar laguinhos que iam formando mínimos rios e arrastando pequenos mundos vivos. As gotas gigantes batiam nos lagos e no segundo seguinte eram bailarinas muito frescas e exibicionistas. Nós dávamos gritos, batíamos palmas e batizávamos todas elas e eles, as gotas e os pingos obscenos em sua orgia que durava uma eternidade. Mas este parágrafo não cabe aqui, é de outra Rita, a do Moscas Volantes, tênue, que eu nem deveria citar ... "
E isto aí eu escrevi em 2006, agora vou limpar a bandeja dos gatos.
biAh weRTHer
Aguardo para a noite uma chuva
pois fiquei de rodar certa cena
misantrópica que vai contar sua interação com o ambiente,
o movimento e tudo o mais.
Mas o filme não é meu, só vou rodar uma cena de chuva.
Sempre esperei tão ansiosamente essa água que cai do céu...
Tem gente que não gosta, eu morria de amores pelos temporais e os pós-temporais.
Na infância parece que tinha mais! Final de tarde nos verões.
Gravei alguns arco-iris, mas isto foi mais tarde, já na época do Hi-8. Nunca digitalizei.
Quanta coisa a gente roda e nunca usa, ficam essas fitas pela casa.
Rolinhos super8, latas de 16 já provavelmente mofadas,
até fitas VHS-C.
Voltando à chuva, lembro-me de uma cena antiga que descrevi num
texto do blog velho. Fato real que tirei da memória
pra dar um pouco de vida pra Rita, minha personagem no Bitols.
Escrevi, postei, enviei pra o diretor e pra os colegas do elenco.
Era da época dos LPs a cena, as gotas de inverno que a gente olhava da janela
e pras quais dávamos nomes. Geralmente nos pareciam bailarinas,
parte de um clã muito misterioso, brilhante e inatingível.
Um pedaço do texto?
"A chuva dos anos 70 chovia por longos dias. Mais que uma semana, dez lições de casa. Bafejávamos o vidro, nossos narizes amassados aguardando as gotas que se lançavam do telhado, se exibiam nas folhas feito lagartixa em parede e mergulhavam na areia fina caindo sempre no mesmo ponto a modelar laguinhos que iam formando mínimos rios e arrastando pequenos mundos vivos. As gotas gigantes batiam nos lagos e no segundo seguinte eram bailarinas muito frescas e exibicionistas. Nós dávamos gritos, batíamos palmas e batizávamos todas elas e eles, as gotas e os pingos obscenos em sua orgia que durava uma eternidade. Mas este parágrafo não cabe aqui, é de outra Rita, a do Moscas Volantes, tênue, que eu nem deveria citar ... "
E isto aí eu escrevi em 2006, agora vou limpar a bandeja dos gatos.
biAh weRTHer
sábado, 24 de maio de 2008
Porque você está amarelo ?!
Ou: meus vários tons de vento
Este sábado de ventos.
Um deles lá na rua, mudança de lua?
Outro aqui dentro de casa, é preciso circular o ar!
E um vento dentro de mim,
Uma náusea.
Assim... uma premonição,
Adivinhação.
Sábado de vento. Vai esfriar.
Consigo eu esfriar?
Preciso, precisamente.
Dentro de mim dói o vento,
Que a verdade dá gazes, eu acho,
Quando fica presa, apertada, tolhida
De ser escutada. Medo?
O vento a farfalhar perguntas.
Noite de vento.
Meu pijama é azul de céu.
Meus gatos do cinza ao branco.
Estou te vendo todo amarelo?
biAh weRTHer
Este sábado de ventos.
Um deles lá na rua, mudança de lua?
Outro aqui dentro de casa, é preciso circular o ar!
E um vento dentro de mim,
Uma náusea.
Assim... uma premonição,
Adivinhação.
Sábado de vento. Vai esfriar.
Consigo eu esfriar?
Preciso, precisamente.
Dentro de mim dói o vento,
Que a verdade dá gazes, eu acho,
Quando fica presa, apertada, tolhida
De ser escutada. Medo?
O vento a farfalhar perguntas.
Noite de vento.
Meu pijama é azul de céu.
Meus gatos do cinza ao branco.
Estou te vendo todo amarelo?
biAh weRTHer
quinta-feira, 8 de maio de 2008
SEM MAIS DELONGAS, RUGIDO POLÊMICO NO PRIMEIRO MIAU
5 de maio, segunda de sol em todo o Centro-Oeste. De manhãzinha fiquei sabendo que um ciclone tinha passado por Porto Alegre, que o Inter humilhou o Juventude na final do campeonato gaúcho e que segue na moda tornar celebres os infanticidas endinheirados do planeta.
Vesti minha camiseta do Inter e botei um sorriso tão grande na cara que me lembrei do Edu gritando 'Força Gaúcha!' nas ruas de Sampa, na cara dos torcedores do São Paulo. Mas isto já tem dois anos e já fizemos outros filmes, conhecemos outras gentes e rimos de outras torcidas.
A Daniella Saba, de SP, foi minha parceira de quarto no hotel Papillon durante a semana. Nos dois primeiros dias ficamos vizinhas de todo o time do São Caetano, muito barulhentos! Nós duas soubemos com atraso que o nome do motel onde o Ronaldão levou os travestis, que ficaram famosos enquanto estivemos absortas no cinema livre, também era Papillon. Mas o nosso Papillon era muito mais legal tá?
O filme da Dani é o 'Cineasta, a Menina e o Homem-Sanduíche' e tenho que escrever a ela a respeito. Tenho que escrever tanta coisa...
Enquanto o Douglas nos levava ao aeroporto tínhamos uma sensação de dever cumprido... mais ou menos isto. O Rafael fez leves nossos dias e me deu seu puro e apertadíssimo abraço. Embarquei de volta ao Rio junto com o Mikael, do curta 'Prisma'.
Voei com a nítida impressão de que a nova cena de cinema de Goiânia está muito além do meu discurso mântrico pela paz e pela gentileza. Ali, o povo do circuito livre é tri 'impej'. Tu não sabe o que é 'impej' (diz-se impéi, com i)?? Pois deveria saber! Dã!
Mesmo antes de começar o festival eu descrevia no meu não-blog algumas nuvens úmidas por conta dos filmes goianos que recebemos no FLõ e que revisitei pra entender mais o mundo onde iria adentrar. Eu, mochileira, que nunca visitei os festivais de Goiás, finalmente fui convidada a desembarcar ali, com minha seleção de curtas floridos e a flâmula da desconstrução na primeira Mostra Independente de Audiovisual Universitário. Estava muito envolvida pelos filmes da terra.
Como sou insuportável, já no primeiro debate questionei esse recorte 'universitário' e, ao longo dos dias, mais eu tive certeza de que os significativos trabalhos curtos dos festivais de circuito desatrelado - grande parte de escola - são cinema independente e livre. Se são universitários, não vejo relação com estética e autoria.
Assim como o Perro Loco, também de Goiania, e tantos festivais universitários do país,
tais mobilizações têm seu valor pelo teor político no sentido bruto, tão raro nestes dias de composições em quartos de hotel. O valor está na vontade de dialogar com um (im?)possível mercado, na crítica às deficiências da academia, na auto-crítica que se lê em vários curtas, na ação coletiva e voluntária. Mas não creio que os trabalhos devam ser reduzidos a filmes de estudantes. São filmes, muitos deles bastante relevantes, outros nem tanto, mas é só isto, cinema vivo e imprescindível.
Quanto a minha morada no MIAU por aqueles dias, devido a correria dando oficina, palestrando, rodando um curta, um piloto e ainda sendo jurada, ufa!, precisei deixar os diários pra o retorno. Até pra manter esta sensação de dois corações, deglutindo a invasão à Goiânia enquanto armamos aqui de Niterói a próxima ação. O Edu Marino tá ali na sala fazendo uma seleção pra o Edu Ioschpe divulgar lá na Espanha, onde faremos um flozinho em breve. A lista atrasou tanto e tenho medo de estar prejudicando as coisas por lá.
Em meus relatos destaco a tarde do Cinema na Mochila no Cine Ouro. Tarde dourada quando o FLõ invadiu o MIAU com trilhas psicodélicas na abertura e, entre outros filmes, o 'Hollywood sem filtro', do nosso homenageado do biênio, Luiz Rosemberg Filho.
Super dia, emocionante o debate, o carinho e a interação do público. Êxtase meu quando o Uma e o Borboletas no Estômago foram super aplaudidos.
Lembro também de ficar sempre orgulhosa dos meus novos amigos que fizeram um festival sem coquetel e sem frescura de foyer. À hora das sessões todos entravam na sala e não sobrava ninguém a tomar scóti paraguaio e vociferar discursos de entidades. Isto nem teve. E sem líderes a paz anáquica reinou sem que tivessemos que aguentar os conversês de canto e as politicagens que tornam tão nauseantes e pesados vários eventos 'culturais' cheios de códigos secretos. O bom é estar impej meu! No MIAU foi assim. Os debates foram todos sobre estética, melhorias, troca... Conheci gente e troquei filmes. Um surto de cinema onde as oficinas lotaram desde a manhã, o que nos envolveu numa maratona diária de umas 16 horas de cinema, fora as boas conversas no almoço e jantar. Tenho certeza que quem varreu depois não encontrou uma só purpurina ou pena de pavão. Pri-mo-ro-so.
Finalmente revelo o MIAU pelo seu miado final, mais um rugido, a polêmica em torno do grande premiado, 'Sem Mais Delongas', melhor ficção, do gaúcho Frederico Ruas.
Meus métodos de concentração são tão herméticos, então ninguém viu que, pra começo de conversa, abri meu coração em segredo ao mesmo tempo que fui mais exigente com filmes do RS, mas será só desta vez. Assistir a alguns filmes gaúchos atuais como jurada me fez rever alguns conceitos. Claro, havia um filme equivocado, mas afinal vários estados trataram de enviar ao menos um representante sofrível. Daí, desconsiderei o único representante
sem qualidade de Porto Alegre e me deixei refletir um pouco a respeito dos curtas realizados nas novíssimas escolas tecnológicas do RS. Eu que sou muito careta e desconfio um pouco do curso rapidinho, dedicado quase que só à ferramenta, com pouco exercício reflexivo... talvez... acho que repensei um pouco estas teorias. A escola não salva nada. Demorado ou curtinho, curso alimenta a intuição que já vive, a curiosidade já plena. Mas isto não é nenhuma novidade!
Seguindo minhas impressões, era muito diferente assistir friamente ao filme mais recente do colega super8itista Christian Schneider, que me rendeu felizes prêmios até há poucos meses e,
portanto, não pude considerar na minha lista de prediletos mesmo eu não figurando em sua equipe no filme da competição, 'Outono'. Foi também diferente meu olhar
sobre 'Um Filme Chamado Sfincter', do Zeca Brito, prêmio 'Filme de Escola' no FLõ 2007. Mas também não me senti a vontade pra destaca-lo em reunião de júri justo porque
me deu um certo orgulho ver a ótima reação do público. Já 'O Retorno da Lua', de Tobias Rodil, eu não conhecia a obra nem o realizador. Me tornei uma
entusiasta do filme, redondo, perfeito. Uma ode ao Méliès pode parecer arremedo de muitos arremedos, mas o diretor foi muito feliz. Entrou em minha lista de destaques até o último instante.
Finalmente o grande premiado do MIAU, 'Sem Mais Delongas', do antigo colega de Cinema8ito, Fred Ruas. Assistir de longe mudou meu entendimento sobre o filme. Ver de fora mais esta metalinguagem porto-alegrense, especialmente num momento em que estou tão sem pátria, me deu a distância necessária e entendi melhor do que antes. Elaborei outra crítica, menos pessoal, menos apaixonada, menos irmã, mais responsavel quem
sabe... Mas de início não o citei aos colegas do júri, mesmo não tendo nada a ver com o filme. Me voltei a procurar uma melhor ficção nos outros estados. Ponderei o '7 Minutos', que nao ganhou nada no FLõ, o falso doc 'Deu na TV', até porque o cinema curto de Floripa é riquíssimo. Entrou em minha lista também o 'Anfitriões', um dos melhores curtas que assisti na vida, considerando-se que assisto cerca de 600 filmes curtos por ano!!
Abro aqui um parêntese: as animações e os docs também estavam dificultando nossas vidas porque a curadoria foi feliz. Acho que o 'Moradores do 304', por exemplo,
é uma animação invejável, mas era impossível não premiarmos 'Crisálidas'.
E voltando ao prêmio de ficção, Fred Ruas já vinha sendo comentado mesmo antes da exibição. A curiosidade, a princípio, era até mais pelo olhar do
cineasta do que pela obra em si. Entre jurados, curadores, professores locais, já crescia pelos cantos a possibilidade do seu filme levar um 'Pirandello'. No dia
da exibição, sala lotada, o filme foi muito aplaudido, deixou o júri ainda mais envolvido, virou assunto no coffee break, mas deixou os realizadores
presentes profundamente incomodados. O Carlos Cipriano, professor de cine em Goiânia e uma espécie de combustível, me cantou a pedra mesmo antes
de eu perceber o encantamento dos colegas de júri. Objetivamente, o que os 'adultos' viam era um curta com uma ironia esperta sobre o cinema
universitário. Daí a polêmica e o desafeto de vários realizadores. Eu mesma, ao assistir o filme ali, entendi uma auto-crítica bem sacada, solução sonora
inteligente, piada e drama, direção adulta (isto pensamos todos, mas eu ando com mania de adultisse, então podem desconsiderar essa parte).
Foi aí que, na derradeira reunião de júri, só após estar convicta da certeza de todos os demais, me rendi e somei meu voto a favor do Sem Mais Delongas.
Fiquei tranquila porque mesmo sem meu voto ele seria o premiado, e decidimos que o cineasta soube brincar com suas referências. Pronto, melhor ficção!
Os jovens realizadores presentes ficaram em choque, de modo saudável eles nos questionaram bastante em todas as circunstancias seguintes, sem peso ou malícia, mas insistentes, até que alguém me traduziu a pergunta geral:
O que afinal vimos de tão fantástico num filme que não se leva a sério, debocha dele próprio e começa com o cartão 'Sem mais delongas, o filme universitário'?
Fiquei de escrever uma resposta e só me vem esta: 'É aí que me refiro!!'
Finda mais esta mochilagem vou refletindo. A vida real, se nos levarmos a sério ou não, sempre parece um mundo todo novinho, incomum, quando acaba um evento do circuito livre e finalmente ligamos a tv ou voltamos a ler os fóruns de cineastas. Na verdade são só novas personas em velhas fofocas, ou vice-versa. Acho que a gente se aliena no ideal e na volta até parece que algo se renova na mesmice urbana e umbilical, é como uma ressaca com vários flashbacks do que sonhamos que fosse pra sempre, apenas o cinema pelo cinema. Comprei um presente rápido pra minha mãe em Brasília, um certo friozinho a nos esperar no Galeão, inclusive no estômago, as minhas borboletas ao recomeçar as andanças. O frescão tinha uns alemães ripongas querendo que eu explicasse onde era o Copacabana Palace. Hoje tem um show de uma banda paulista que conheci em Cuiabá nos idos de 2005. Um roquenrou bem que seria uma buena... É aí que me refiro!
Impej, Paz & Gentileza \o/
biAh weRTHer
Visita: http://www.mostramiau.com.br/
(Na foto estamos alguns dos cineastas e
organizadores do Miau, vou destacar só o Guilherme Vaz, de óculos grisálios e sorridentes. Nada menos que o responsavel por trilhas do Bressane e Ruy Guerra. Também pude conhecer pessolmente o Jose Araripe da Bahia. Nós tres ministramos as oficinas do festival. Até me senti importante, rerere. Um dia chego lá :)
Vesti minha camiseta do Inter e botei um sorriso tão grande na cara que me lembrei do Edu gritando 'Força Gaúcha!' nas ruas de Sampa, na cara dos torcedores do São Paulo. Mas isto já tem dois anos e já fizemos outros filmes, conhecemos outras gentes e rimos de outras torcidas.
A Daniella Saba, de SP, foi minha parceira de quarto no hotel Papillon durante a semana. Nos dois primeiros dias ficamos vizinhas de todo o time do São Caetano, muito barulhentos! Nós duas soubemos com atraso que o nome do motel onde o Ronaldão levou os travestis, que ficaram famosos enquanto estivemos absortas no cinema livre, também era Papillon. Mas o nosso Papillon era muito mais legal tá?
O filme da Dani é o 'Cineasta, a Menina e o Homem-Sanduíche' e tenho que escrever a ela a respeito. Tenho que escrever tanta coisa...
Enquanto o Douglas nos levava ao aeroporto tínhamos uma sensação de dever cumprido... mais ou menos isto. O Rafael fez leves nossos dias e me deu seu puro e apertadíssimo abraço. Embarquei de volta ao Rio junto com o Mikael, do curta 'Prisma'.
Voei com a nítida impressão de que a nova cena de cinema de Goiânia está muito além do meu discurso mântrico pela paz e pela gentileza. Ali, o povo do circuito livre é tri 'impej'. Tu não sabe o que é 'impej' (diz-se impéi, com i)?? Pois deveria saber! Dã!
Mesmo antes de começar o festival eu descrevia no meu não-blog algumas nuvens úmidas por conta dos filmes goianos que recebemos no FLõ e que revisitei pra entender mais o mundo onde iria adentrar. Eu, mochileira, que nunca visitei os festivais de Goiás, finalmente fui convidada a desembarcar ali, com minha seleção de curtas floridos e a flâmula da desconstrução na primeira Mostra Independente de Audiovisual Universitário. Estava muito envolvida pelos filmes da terra.
Como sou insuportável, já no primeiro debate questionei esse recorte 'universitário' e, ao longo dos dias, mais eu tive certeza de que os significativos trabalhos curtos dos festivais de circuito desatrelado - grande parte de escola - são cinema independente e livre. Se são universitários, não vejo relação com estética e autoria.
Assim como o Perro Loco, também de Goiania, e tantos festivais universitários do país,
tais mobilizações têm seu valor pelo teor político no sentido bruto, tão raro nestes dias de composições em quartos de hotel. O valor está na vontade de dialogar com um (im?)possível mercado, na crítica às deficiências da academia, na auto-crítica que se lê em vários curtas, na ação coletiva e voluntária. Mas não creio que os trabalhos devam ser reduzidos a filmes de estudantes. São filmes, muitos deles bastante relevantes, outros nem tanto, mas é só isto, cinema vivo e imprescindível.
Quanto a minha morada no MIAU por aqueles dias, devido a correria dando oficina, palestrando, rodando um curta, um piloto e ainda sendo jurada, ufa!, precisei deixar os diários pra o retorno. Até pra manter esta sensação de dois corações, deglutindo a invasão à Goiânia enquanto armamos aqui de Niterói a próxima ação. O Edu Marino tá ali na sala fazendo uma seleção pra o Edu Ioschpe divulgar lá na Espanha, onde faremos um flozinho em breve. A lista atrasou tanto e tenho medo de estar prejudicando as coisas por lá.
Em meus relatos destaco a tarde do Cinema na Mochila no Cine Ouro. Tarde dourada quando o FLõ invadiu o MIAU com trilhas psicodélicas na abertura e, entre outros filmes, o 'Hollywood sem filtro', do nosso homenageado do biênio, Luiz Rosemberg Filho.
Super dia, emocionante o debate, o carinho e a interação do público. Êxtase meu quando o Uma e o Borboletas no Estômago foram super aplaudidos.
Lembro também de ficar sempre orgulhosa dos meus novos amigos que fizeram um festival sem coquetel e sem frescura de foyer. À hora das sessões todos entravam na sala e não sobrava ninguém a tomar scóti paraguaio e vociferar discursos de entidades. Isto nem teve. E sem líderes a paz anáquica reinou sem que tivessemos que aguentar os conversês de canto e as politicagens que tornam tão nauseantes e pesados vários eventos 'culturais' cheios de códigos secretos. O bom é estar impej meu! No MIAU foi assim. Os debates foram todos sobre estética, melhorias, troca... Conheci gente e troquei filmes. Um surto de cinema onde as oficinas lotaram desde a manhã, o que nos envolveu numa maratona diária de umas 16 horas de cinema, fora as boas conversas no almoço e jantar. Tenho certeza que quem varreu depois não encontrou uma só purpurina ou pena de pavão. Pri-mo-ro-so.
Finalmente revelo o MIAU pelo seu miado final, mais um rugido, a polêmica em torno do grande premiado, 'Sem Mais Delongas', melhor ficção, do gaúcho Frederico Ruas.
Meus métodos de concentração são tão herméticos, então ninguém viu que, pra começo de conversa, abri meu coração em segredo ao mesmo tempo que fui mais exigente com filmes do RS, mas será só desta vez. Assistir a alguns filmes gaúchos atuais como jurada me fez rever alguns conceitos. Claro, havia um filme equivocado, mas afinal vários estados trataram de enviar ao menos um representante sofrível. Daí, desconsiderei o único representante
sem qualidade de Porto Alegre e me deixei refletir um pouco a respeito dos curtas realizados nas novíssimas escolas tecnológicas do RS. Eu que sou muito careta e desconfio um pouco do curso rapidinho, dedicado quase que só à ferramenta, com pouco exercício reflexivo... talvez... acho que repensei um pouco estas teorias. A escola não salva nada. Demorado ou curtinho, curso alimenta a intuição que já vive, a curiosidade já plena. Mas isto não é nenhuma novidade!
Seguindo minhas impressões, era muito diferente assistir friamente ao filme mais recente do colega super8itista Christian Schneider, que me rendeu felizes prêmios até há poucos meses e,
portanto, não pude considerar na minha lista de prediletos mesmo eu não figurando em sua equipe no filme da competição, 'Outono'. Foi também diferente meu olhar
sobre 'Um Filme Chamado Sfincter', do Zeca Brito, prêmio 'Filme de Escola' no FLõ 2007. Mas também não me senti a vontade pra destaca-lo em reunião de júri justo porque
me deu um certo orgulho ver a ótima reação do público. Já 'O Retorno da Lua', de Tobias Rodil, eu não conhecia a obra nem o realizador. Me tornei uma
entusiasta do filme, redondo, perfeito. Uma ode ao Méliès pode parecer arremedo de muitos arremedos, mas o diretor foi muito feliz. Entrou em minha lista de destaques até o último instante.
Finalmente o grande premiado do MIAU, 'Sem Mais Delongas', do antigo colega de Cinema8ito, Fred Ruas. Assistir de longe mudou meu entendimento sobre o filme. Ver de fora mais esta metalinguagem porto-alegrense, especialmente num momento em que estou tão sem pátria, me deu a distância necessária e entendi melhor do que antes. Elaborei outra crítica, menos pessoal, menos apaixonada, menos irmã, mais responsavel quem
sabe... Mas de início não o citei aos colegas do júri, mesmo não tendo nada a ver com o filme. Me voltei a procurar uma melhor ficção nos outros estados. Ponderei o '7 Minutos', que nao ganhou nada no FLõ, o falso doc 'Deu na TV', até porque o cinema curto de Floripa é riquíssimo. Entrou em minha lista também o 'Anfitriões', um dos melhores curtas que assisti na vida, considerando-se que assisto cerca de 600 filmes curtos por ano!!
Abro aqui um parêntese: as animações e os docs também estavam dificultando nossas vidas porque a curadoria foi feliz. Acho que o 'Moradores do 304', por exemplo,
é uma animação invejável, mas era impossível não premiarmos 'Crisálidas'.
E voltando ao prêmio de ficção, Fred Ruas já vinha sendo comentado mesmo antes da exibição. A curiosidade, a princípio, era até mais pelo olhar do
cineasta do que pela obra em si. Entre jurados, curadores, professores locais, já crescia pelos cantos a possibilidade do seu filme levar um 'Pirandello'. No dia
da exibição, sala lotada, o filme foi muito aplaudido, deixou o júri ainda mais envolvido, virou assunto no coffee break, mas deixou os realizadores
presentes profundamente incomodados. O Carlos Cipriano, professor de cine em Goiânia e uma espécie de combustível, me cantou a pedra mesmo antes
de eu perceber o encantamento dos colegas de júri. Objetivamente, o que os 'adultos' viam era um curta com uma ironia esperta sobre o cinema
universitário. Daí a polêmica e o desafeto de vários realizadores. Eu mesma, ao assistir o filme ali, entendi uma auto-crítica bem sacada, solução sonora
inteligente, piada e drama, direção adulta (isto pensamos todos, mas eu ando com mania de adultisse, então podem desconsiderar essa parte).
Foi aí que, na derradeira reunião de júri, só após estar convicta da certeza de todos os demais, me rendi e somei meu voto a favor do Sem Mais Delongas.
Fiquei tranquila porque mesmo sem meu voto ele seria o premiado, e decidimos que o cineasta soube brincar com suas referências. Pronto, melhor ficção!
Os jovens realizadores presentes ficaram em choque, de modo saudável eles nos questionaram bastante em todas as circunstancias seguintes, sem peso ou malícia, mas insistentes, até que alguém me traduziu a pergunta geral:
O que afinal vimos de tão fantástico num filme que não se leva a sério, debocha dele próprio e começa com o cartão 'Sem mais delongas, o filme universitário'?
Fiquei de escrever uma resposta e só me vem esta: 'É aí que me refiro!!'
Finda mais esta mochilagem vou refletindo. A vida real, se nos levarmos a sério ou não, sempre parece um mundo todo novinho, incomum, quando acaba um evento do circuito livre e finalmente ligamos a tv ou voltamos a ler os fóruns de cineastas. Na verdade são só novas personas em velhas fofocas, ou vice-versa. Acho que a gente se aliena no ideal e na volta até parece que algo se renova na mesmice urbana e umbilical, é como uma ressaca com vários flashbacks do que sonhamos que fosse pra sempre, apenas o cinema pelo cinema. Comprei um presente rápido pra minha mãe em Brasília, um certo friozinho a nos esperar no Galeão, inclusive no estômago, as minhas borboletas ao recomeçar as andanças. O frescão tinha uns alemães ripongas querendo que eu explicasse onde era o Copacabana Palace. Hoje tem um show de uma banda paulista que conheci em Cuiabá nos idos de 2005. Um roquenrou bem que seria uma buena... É aí que me refiro!
Impej, Paz & Gentileza \o/
biAh weRTHer
Visita: http://www.mostramiau.com.br/
(Na foto estamos alguns dos cineastas e
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