sexta-feira, 12 de junho de 2009

Un ange passe

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Todo ano escrevo sobre merlots de outono. São passagens onde só no auge os momentos se parecem. O cheiro até poderiiiia ser igual, entretando desta vez entendi porque eu nasci com um olfato tão privilegiado e irritante. Foi pra entender que nunca teve um perfume igual ao teu neste planeta e mesmo distante há cem anos e milhões de kilômetros, sinto como ninguém.

Tá certo, minha vida não sei se é uma vida, é viva demais, tudo máximo, tudo impossível, possível, inesperado e sôfrego. Insuportável. E você acha que eu sou louca enquanto eu sinto nos outonos como se o espelho viesse aqui pro outro lado numa descarga elétrica. Ou sou eu que entro no espelho? Ou não há um lado definitivo? Uma coisa só.

Sei lá. Un ange passe...

O que me transforma é que busco um poema pra você e ele são todos.
Quem sabe um mero hay kay a me entregar planando entre folhas douradas nas ruas de Porto Alegre, o lugar pra onde eu corro nos intervalos mesmo que seja pra não sair de casa quase nunca, mesmo que eu esteja longe daqui contando coisas de cinema pras pessoas em outra cidade.

Como você saberá do poema se eu reviso em segredo as coisas até a próxima estação? Das vísceras até as rimas num cuidado de relojoeiro do século retrasado. Daí, quando você o ler, o sol terá outra posição no horizonte e só eu saberei o que realmente foram tais sensações, mas não terei mais as concordâncias do momento.

Nesta lentidão egoísta reside o infinito que deixa o corpo sempre tremendo. Hoje estou com febre e o dia começa úmido.

É como quando as pessoas enviavam cartas por navios, a vida lenta, o sangue grosso, vagaroso, inenarrável. Adoro adjetivos deste tipo, inenarráveis. Também curto superlativos. Ainda sobre o tempo? Quando o poema chegava ao seu destino, o poeta já seria outro porque as pessoas são assim, outras por dentro, uma a cada outono.

Eu mudo muito e não mudo nada. Como artista sim, mudei tudo, tudo em mim, de novo. Passei um século sumida entre pessoas que não entendiam minha língua e voltei outra, mais perplexa, ainda louca pra fazer este impossível poema pra você. Das contradições unidas pelo fascínio diante do teu perfume.

Eu tenho gravado músicas sozinha para as trilhas. Uso instrumentinhos que compro em viagens. Apitos de soprar com o nariz, ocarinas, chocalhos, palo d'água, até berrante... não consegui construir meu próprio theremin.

O Edu batizou minha mais recente vídeo arte de Cantilena.

No Rio, na mostra do Cinemathéque em maio, os 8itos me contaram
que apareceu por lá um rançoso que repetia alto e insistente que é um famoso escritor gaúcho e ele tentava durante a exibição de meus filmes distrair a atenção do público ansiosamente. Ria aos pulinhos com as guampinhas na cabeça e lhes dizia que eu não sou uma artista, mas apenas a esposa de um cineasta. Viu? Me olha! Te pago uma bebida, dizia ele. Se eu estivesse lá este senhor inseguro não teria tal (falta) de coragem, porque muita gente tem medo de mim. Afinal, eu sou louca.
Só que eu estava aqui mudando meus paradigmas e construindo pra ti um novo poema de outono. Perdi duas datas de passagens já, tomada que fiquei com este teu silêncio estanque.

E, claro, estou envolvida com os animais que resgatamos na Lomba do Pinheiro. Hoje eles vão ser vacinados, amanhã saem da clínica de castração. Eles precisam de lares.

Daqui eu edito novas cores e sons, no carro eu ouço o Nei Lisboa, Sui Generis e o Lô Borges. Leio coisas que você me citou enquanto
tento escrever uma rima que entre na sua alma, uma coisa Jules Simon, sabe? C’est une âme qui son âme demande...

Num domingo destes, noitinha, de pijama, três dias sem ver a rua, eu me tranquei no quarto e entrei no guarda-roupas com o
laptop e um microfonezinho e um gravadorzinho digital e uns fones e um software bem simples e pantufas.

Entrei ali e gravei o vocalize repetitivo do Cantilena pensando em você. Esse meu filme esquisitamente romântico, um poema que bem poderia ser o seu. Mas eu tenho outro especial e um dia, quando eu exibi-lo numa tela grande,
depois publica-lo na internet, só nós dois saberemos que é o seu poema, o nosso. E só eu saberei que todos os outros são seus também, todos eles desenhei pra ti.

Em julho tem outra mostra 8ito no Japão. Acho que seria excitante,
um certo ar de poder do amor, uma certa esperança de parar de sentir a morte através da falta se eu terminasse sua poesia nos primeiros dias do inverno e antes que você a conhecesse eu a exibisse lá em Tokyo! E não é chique?? Romântico como subir
pelas raízes frágeis das heras só pra entregar uma flor no balcão e a pessoa simplesmente não estar ali pra receber.

Mas bem, tudo no outono tem estas formas indevassáveis.
Hmm, mais louco é quem me diz que não é feliz. Eu sou feliz...

Eu sempre me lembro que a primeira vez que me senti meio doida varrida lendo as nuvens foi aos 6 anos de idade e dali as lembranças que tenho tem a ver com livros de edições muito antigas e amareladas que
vieram pra cidade com um cheiro de guardado da fazenda e que o meu pai
os leu na mesma época em que estudou latin e francês no colégio interno em Passo Fundo, tão longe de sua casa. Eu ficava imaginando como seria ser grande e já ter vivido aquelas coisas.

Era pra mim outonal e inspirador como foi viver num lugar onde as pessoas falavam dialeto italiano e viviam dééécadas atrás do tempo real, esquecidas do calendário.
O vulto misterioso de dona Veneranda (creio que ela pensava que estava ainda em sua infância fugida da guerra) me dizia muito sobre esse espírito da loucura. Eu aguardava o raio de sol na hora exata, especial para iluminar a máquina de costura diante da janelinha de sua casa, quando só então daria pra olhar pra ela. Proibida.

Dentro disto, outro dia, por conta de uma conversa com o Alex, eu usei um novo nick no msn: Ana Crônica. Tem vezes que prefiro Miss Antropia, noutras curto AgorafobiAh, mas daí é outra história.

Nesta segunda fazia frio e chuva. De manhã algumas pessoas da equipe foram pro Arteplex ver a primeira cabine de aprovação do longa. Eu não, fiquei aqui com meus bichos. À noite, combinei com o Sheila Colomy de curar uma sessão do cineclube Mojito, que aliás, eu batizei.

Uma da manhã, chegamos na Felipe Camarão e a rua estava como foi em nossa adolescência anos 80, neblina na alameda verde, linda linda e doce.
Fiz uma sessão até as três da manhã. Só filmes que já exibi e repeti,
eu relendo curtas, comentando um a um, prolixa. Sem querer fui pra Goiás naquela madrugada, ainda não cansei dos curtas de Goiás.

Vou tomar um café, depois um pó de guaraná.
Me levo pra São Paulo em agosto, inverno em São Paulo... muita saudade.

Certo, não sei se isto que eu tenho é exatamente uma vida. Não almejo coisas, não pretendo nada concreto pra mim, só queria desta passagem fazer uma poesia pra ti e que ela te deixasse mais próximo, tão perto que tu pudesse apalpar a minha normalidade e perdesse a graça sair dizendo por aí que eu sou louca ou sentindo medo de mim. E você apenas fecharia os olhos e lembraria que a noite brilha na absoluta perfeição quando nos encontramos e só você entende que me chamo ana beatriz.

biAh weRTHer

A seguir, Obstáculo Perenes, um Vídeo de biAh weRTHer especialmente pra exibir no Cine Mochila do Japão em maio de 2009.

2 comentários:

May disse...

bonito, Bia, como sempre... saudades dos teus textos finos e das imagens que você provoca através deles (dentro do armário de pantufas e wireless
é ótimo!.
aqui, o tempo começa a esquentar (de-ver-da-de), colhemos urucum na fazenda, minhas dívidas crescem mais rápido que os abacaxis que plantei.. E eu estudando para dois concursos em universidades públicas ao mesmo tempo... agora começo a editar o filme da cajuína e depois dessa fase extrema vou ter calma o suficiente para começar a pensar em um evento na unviersidade...

biAh weRTHer disse...

Oi May...

Acho que urucum e cajuína dão mais o que imaginar que meus textos urbanos!! :)

Bah, que lindeza se rolarmo/rodarmos algo aí ne?
Emoção.

Quero ver o filme. Quem sabe exibi-lo?
bj