segunda-feira, 13 de julho de 2009

As mortes da década

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Como eu ia dizendo e parei de escrever no meio do post porque deu preguiça,
tenho acordado muito cedo porque as minhas gatas começam a morder minha bunda as 5 da manhã e não tem quem consiga ficar na cama ...
É tão energética esta fase, tão diferente dos períodos em que viro a noite editando ou escrevendo, porque a noite... ah, não importa.

O que sei é que as coisas andam vagorasas por estes dias. Estou traindo a mim mesma com muita vontade. Errando pra mudar as coisas ao redor. Vou pro Rio no final do mês depois de um outono e início de inverno gaúchos. Tanta coisa mudou. Mas antes vou ficar uns dias num lugar que ninguém sabe, no interior, vou fazer imagens e vou cozinhar. Desde o verão não brinco desse negócio into the wild. Tão importantes pra mim estes sumiços de mochila e coisas secretas.

E daí me questionam:
- Quando tu vai atualizar o blog?

Então eu faço o login, paro e me pergunto sobre o que eu iria escrever. Sobre o dia do rock não, né! Quando uma coisa ganha um dia especial é porque já morreu. Falar de morto nem se fosse do 'Maicol, Maicol eles não ligam pra gente'!! Coidado do Maicol.

Repetir fora Sarney? Isso tá na cara que eu to dizendo. E também seria falar de morto. Uma pessoa de minha família sofreu muito no intercâmbio que fez na américa do norte porque uma professora chegou na aula e disse que Brasília era uma capital que não tinha dado certo e estava em ruínas e a floresta amazônica tinha já invadido os belos prédios tão modernos. Ninguém levou a sério quando ela pediu a voz e afirmou que isto não era verdade. Hoje eu acho que tinha um fundo de razão na fantasia da professorinha americana. A morte do nosso sistema não é causo que se comente porque seria notícia requentada.

Comentar o que então neste blog??

A morte do jornalismo como conhecíamos antes de a revolução tecnológica deixar todo mundo perdidão?
Até tentei falar um pouco mas alguns amigos se ofenderam e não quero perder amigos legais.

Nós do cinema também estamos discutindo nossas mortes e muitos resistem e sofrem e levantam o punho socando o ar. Mas é só o medo do inevitável desconhecido. No entanto, que tesão quando não sabemos direito o que vem!

Tentei argumentar com amigos jornalistas que na escola você aprende forma, decora o número de toques, aprende a digitar, aprende o 'o que, quando e como'- que ultimamente vem sendo usado para desvendar a rotina dos famosos. E até aprende muito mais sim, mas não se vê muita gente aplicando porque estão muito dominados. Além do mais, você já nasce curioso e escrevendo. Não se forja um jornalista na escola, você aparelha - ou não - mas esta não é uma profissão que precise título porque é de todos nós. Não adianta espernear e não adianta fazer um quadrinho do diploma e esfregar na cara do resto do mundo nos chamando de zés manés. Todos nós somos e geramos e editamos notícias e muitos poderão viver disto, com ou sem diploma. Mas então, a parte a falta de tato de alguns profissionais que saíram gritando que somos todos zés ninguéns quando não temos um canudo pra usar o megafone - e isto é uma questão de educação, esta sim dá pra aprender na escola - o que realmente temos que discutir é a revolução que as novas mídias trouxeram pra o modo como pensamos e noticiamos pensamentos e ações e eventos do nosso presente.

O que muda nestes tempos? Onde os veículos se rediscutem? Porque o jornalismo das grandes redes está fazendo quase que só fofoca? Devemos dar canudos pra fofoqueira do teu prédio então? Quantos dias faltam pra morrer o jornal impresso? Isto tem alguma coisa a ver com a morte da qualidade do que se publica na grande imprensa?

A revolução na notícia se dá quando ela transcende o furo do dia e vira história, não apenas manchete lavada no papel reciclado de amanhã. Dos jornalistas amargurados e agressivos com os não jornalistas que escrevem sem canudo, muitos se detém no seu dia a dia em falar dos famosos, celebridades da política, da música, da tv. Daí a morte, porque desprezar gente de carne e osso é erro estratégico. Desde os anos 70 já se previa que manifestações como artes das ruas e novas mídias trariam a voz do homem comum. E cineastas previam as religiões eletrônicas e o assassinato dos livros.

Viram que aconteceu a morte da globalização? Esta aí durou pouquinho. Então, pra que nos serviria o modelo de escola que prima pela objetividade e pela formula?

E quem pode afirmar que responder a pergunta ainda não formulada não é jornalismo? Não resposta e sim pergunta? Sem o 'como quando onde'?

E não somos todos nós jornalistas? Todos e cada qual? Da fofoqueira ao dono da padaria? Acaso a diferença não é apenas na editoria mais ou menos livre, mais ou menos tendenciosa? O limite das laudas, o conceito de furo, o furor, o caixeiro viajante da notícia, a pressa antes da verdade.

Destaquei aqui no podcast do blog, faz uns dois meses, uma entrevista do Peréio com um jornalista que decretava a morte da profissão de jornalista no modelo como conhecemos. E, claro, ele falava dos blogs e das novíssimas mídias, das mil janelas.

Hoje vi uma entrevista com o Gay Talese e ele falava da subjetividade e do noticiar o homem comum, coisa que segundo ele, embora a imprensa do formato quadrado diga que é um jornalismo de vanguarda, na verdade é apenas o óbvio que vem permeando o jornalismo desde antes de ser inventado.

E daí já penso novamente nas inevitáveis novas mídias e na resistência a elas quando se pensa uma redação de formato tradicional. Ocorre que todos nós escrevemos as novidades, assim como todos nós contamos a história do nosso tempo.

O que fazer com os blogueiros zé ninguém? Não são milhares deles jornalistas sem canudo? Como regulamentar, como impedir alguém de publicar o que quiser, quando quiser?

Estamos em meio à milhões de notícias do homem que não tem nenhum destaque na grande mídia e não dá matéria aos olhos da imprensa que já não vende tanto jornal, a não ser que tenha o Obama supostamente olhando a bunda de uma brasileira. Alguém me diga porque alguém precisa de um canudo pra noticar isto?! As coisas passam a ser éticas se quem as produz tem passagem pela academia? O que é ética mesmo? É na escola que você descobre o significado?
E o que fazer com os jornalistas que passam o dia inteiro buscando um furo sobre a vida da atriz da novela? Estudaram 4 anos pra terminar aí? O que há pra regulamentar nisto?

Ninguém perde o emprego de jornalista se for um jornalista que nasceu pra ser jornalista. Mas se é tão importante, pombas!, lhes deixem então enquadrar o canudo! Títulos, títulos....

Longe disto, na vida real, a mudança continuará se dando e o homem sem canudo, se tiver o que dizer, se tiver alguma resposta a dar ou pergunta a fazer continuará, seja ele médico ou açougueiro, escrevendo. Um fazendo um jornal de bairro, outro um fanzine, algum até ganhando um bom salário pra trabalhar num grande jornal, outro cuidando de uma radiozinha comunitária. Porque a comunicação será sempre de todos.

Porque quem tem o que dizer, vai arranjar uma folha de papel, um microfone ou um blog. E se ele for bom, vai viver disto, irá se profissionalizar. Isto é o que se dá, com ou sem corporativismo. A primeira vez que escrevi pra um jornalzinho da escola eu tinha uns 8 anos e nunca mais parei. Não quis estudar jornalismo, prefiro as artes integradas como profissão, mas continuei publicando, já tive fanzines e um jornalzinho de cultura e várias vezes recebi pra escrever artigos sobre os assuntos que domino. Será que estive à margem da ética? Será que alguém teria conseguido impedir minhas publicações? Acho que não. Afinal era simples, a imprensa não dava atenção aos releases? Eu ia lá, fazia meu próprio veículo e dava a notícia! Do mesmo modo que muitos jornalistas o fizeram em tempos de censura. Falando nisto, o corporativismo não tem um tanto de censura?

Noticiar, escrever, falar, se comunicar pelos canais de informação, inventar novos meios, deva ser algo que qualquer um que domine alguma língua e uma ferramenta pode e deve fazer. E tomara que todo mundo no mundo domine uma língua e desenvolva uma ferramenta. Sem restrição alguma. Porque noticiar é tão importante e livre quanto receber a notícia passivamente.

Em algum momento, em algum nicho, em tradicionais veículos será necessário ter decorado a forma? Sim,sim. Mas em outros, ao contrário, será preciso desconstruir a forma. Notícia dada pelo zé ninguém sobre o zé ninguém é o que realmente interessa para que o mundo respire. Quem dará esta notícia? Qualquer um de nós! Quem resolver fazê-lo, tenha ou não frequentado a escola de jornalismo.

E afinal, quando os jornalistas, que deveriam ter a cor da novidade se assustam com o novo é que realmente a morte é iminente. Mas morte é só vida. Mil novas faces, mil novas línguas, tantos milhões de veículos quanto de gente no planeta.


biAh weRTHer

7 comentários:

marlon disse...

Biah, legal seu texto. Mas acho que você confunde direito a comunicação, informação, que todos devem ter; com a regulamentação de uma profissão séria. O que tem de picareta agora com cartãozinho de jornalista, só para dar 171, sem a mínima noção de ética profissional...por favor, repense a questão ok?. Quanto ao rock, é claro que morreu como vc disse, há muuiiito tempo. Mas para o demais (o espírito do texto) vale a velha máxima do finado Morrison: "learn to forget". saudações!

biAh weRTHer disse...

Oi Marlon, não sei se é bem uma questão de repensar, mas de aprofundar. Enfim, como eu disse tenho trilhões de amigos jornalistas e, casualmente, a maioria deles é muito ética. E também já fui vítima de jornalistas não éticos. Mas o que digo é que conheço grandes jornalistas que não tem diploma e revolucionaram o jornalismo. Então não sei. Tanta gente com diploma fazendo coisa feia. Você não acha? Tenha certeza que nestes programas que varam a tarde na tv aberta, todo mundo tem diploma. E olha que ética tem nisto que fazem? É complexo, confio nos jornalistas que eu conheço de perto e sei que estes já eram jornalistas antes de terem diploma. Porque são talentosos, porque nasceram pra fazer isto.

Cláudia disse...

É isso ai Bia. E o que falar de programas como CQC e Pânico os mais visto e comentados da tv? Que inventam as notícias em cima de alegorias, que mastigam os fatos tornando-os paulatáveis ao gosto comum? Nada contra, confesso. A pilhéria pode infomrar sim e rprovocar reflexão. Acho que fatos são olhares, impressões. O que se coloca público é passível de manipulação. E olha que os caras têm diploma. Mas nem precisavam.

fale com ela disse...

Biah, abri o meu e-mail antigo e tinha lá o link do teu blog. Bom te encontrar de novo. Te linkei no mundo das ervilhas. Aparece. Bjo

marlon disse...

Para quem não sabe, o CQC é um plágio VERGONHOSO, IDÊNTICO nos mínimos detalhes a um programa da TV uruguaia. Ou será argentina? Não sei, assisti em Montevidéu. Até a maneira de falar do apresentador ( careca ) é IGUAL. Como diria o guasca: "fiquei bege"...

biAh weRTHer disse...

heheeheh. mas enfim, boa parte do que assistimos é formato copiado. do Jo aos programas alarmistas. é ae que me refiro...

Ariela disse...

"Ninguém perde o emprego de jornalista se for um jornalista que nasceu pra ser jornalista." A realidade da vida dos jornalistas demonstra BEM o contrário, Bia. Já vi duas redações serem varridas por demissões, e os que se deram mal eram ótimos profissionais. Quem ficou com o emprego tinha filhos, fazia o feijãozinho-com-arroz ou o cardápio que o dono do jornal obrigava, atropelando ética, bom senso e mesmo a realidade.
Ser jornalista hoje é algo muito duvidoso, ou, se não, perigoso.

Beijos.