31 de Dezembro de 2011.
Compromissos inadiáveis me impediram de pegar a estrada em direção ao mar. Chove, falta energia em meu prédio confortável; divisa dos bairros Mont' Serrat e Boa Vista. Me deixo ficar na cama, lendo Calvin e Haroldo. Relaxar - digo à mim -, relaxar... Lembro dos invernos de chuva na infância, chácara de Belém Velho divisa com a Vila Nova, zona rural de Porto Alegre, dialetos italianos fora do tempo e do espaço; eu atirada na cama dos meus pais engolindo livros, a fortuna misteriosa, pronta pra desvendarmos, que meu pai trouxera da estância. Meu pai, que parou de respirar pra sempre este ano, em uma madrugada de início de primavera.
Outra cama me atiça a memória, a da praia nestes dias de chuva, onde e quando me deixo ficar, um olho em um livro outro no mar, coração à toda, eu sempre dividida - morrerei dividida. Sempre me emociona a chuva, umedece a dureza que as relações humanas obrigam. Um emoliente da alma, a chuva. Nos dias de chuva, o mar, a vista do quarto que habito em muitos verões, é branco e espumante, imenso e entorpecente. E as aves brancas e negras dão vôos rasantes e cantam alto. Não bem um canto, mais como um grito de dor feliz. Sublime.
O verão de 2011 chegou sem tanto calor. Sinto frio e coloco um pijama de pelúcia cor de rosa todo de corações que comprei numa das idas pro Uruguay, numa lojinha de fronteira. Ando pela minha casa e fico olhando os cantos e tentando saber quem sou, o que pensaria um estranho se observasse estes detalhes íntimos do meu lar.
Sento para escrever o meu diário, chuva lá fora, o barulho de água na pequena fonte onde minhas gatas bebem água no meu ateliê, tudo é líquido ao meu redor, tudo mole, tudo escorre. A vida por vezes é cristalina, às vezes lodo.
Quanta gente vai e vem.Quantos ainda virão? Pessoas úmidas, pessoas secas.
Um turbilhão na minha cabeça, as tardes lentas ao canto da cigarra, os ventos instigantes de outono, a fumacinha que sai da boca no inverno e os mares de flores onde eu brincava na infância.
Compromissos inadiáveis com a minha solidão e com o meu espelho, me fizeram derreter pra dentro de mim neste ano novo. Ficar aqui com meu umbigo, tateando o princípio pra aprender a forjar um novo início e um fim.
FELIZ 2012 PRA TODO MUNDO!!!
sábado, 31 de dezembro de 2011
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