sábado, 29 de abril de 2017

O Elo.

Todo mundo sabe que não acredito que pessoas adultas são as que tem mais poder de compra.
Acho que adultos são aquelas pessoas que já entenderam que gente grande é uma ponte, o elo entre os que estão nascendo e os que estão chegando ao fim.
Ando faz dias pensando
sobre nossos velhos pais e avós (pra quem ainda os tem).
Hoje mesmo, estive conversando com uma amiga sobre como cada velhinho está enfrentando essa fase da vida, quando se deparam com solidão, preconceito, dores...
Estou percebendo alguns idosos felizes e cheios de graça, outros ranzinzas e sem paciência... Mas todos nos deixam preocupados, sem dúvida, pois ficam mais a mercê das maldades do mundo.
Claro, cada pessoa é uma pessoa, mas estou começando a ver o quanto é fundamental nós sermos corajosos ao longo da vida. Sermos verdadeiros, não guardarmos nada, não fingirmos o que somos, não cedermos ao senso comum, não nos obrigarmos a um modelo, padrão de comportamento que nos sufoque, que nos faça guardar a verdade do que somos nas profundezas secretas.
Desavisados e egoístas, pensamos que ao ficarem velhinhas as pessoas, tal qual os bebês, não seguram apenas o xixi, os gases. Só se pensa nisso.
Mas tem outra coisa que pessoas mais velhas soltam. É a personalidade, que fica mais livre. Eles se mostram e a gente nem sempre percebe.
Se você passar a vida fingindo ser o que não é apenas pra agradar, você pode se tornar um velhinho ácido e com mais dificuldade de socializar.
Velhos não são apenas corpos delicados, são um infinito interior. Velhos são mais vida do que morte.
Então, me preocupo com nossos velhos porque nossa vida atual de adultos nos deixa sem tempo e não sei se estamos educando os mais novos a serem melhores do que nós em relação aos velhos.
E sobre nós mesmos, como faremos quando
somos uma geração quase sem filhos? Muitos com apenas um filho, outros optaram por não tê-los e outros por serem pais aos 40 anos.
Ou seja, já percebemos que quando for nossa vez nós talvez sejamos uma geração de solitários em milhões de apartamentos, viciados em remédios,
pois nós mesmos dividimos as pessoas em gerações e interesses excludentes como nos comerciais?
E me pergunto se não somos infantilizados demais numa sociedade que comercializa a eterna juventude, de modo que não saberemos ver as muitas belezas de histórias vividas pois só pensamos em bobagem. (Leio muitos textos de velhos azedos dizendo que não há nada de bom em ser velho).
Não consigo acreditar que não existe beleza na velhice, pois se você tiver coragem de sair por aí abrindo as portas e sabendo escolher os nãos e os sins que não trairão a sua transparência, você talvez se relacione com mais felicidade com o inevitável ponto final. Você entenderá sua utilidade.
Nada é mais lindo do que não se arrepender dos arrependimentos. Nada é mais tranquilo do que ver o tempo como uma parte de algo imenso e não um filme de terror. Deve ser triste passar a vida escondendo você de você mesmo e dos demais. A velhice das pessoas demasiadamente controladas e obedientes pode ser mais revoltada do que um adolescente.
 Sei lá... Ando pensando nisso tudo, pois muitos da minha geração estão levando um susto ao descobrirem que os pais estão velhos e a gente, muitas vezes ainda com reações adolescentes, não viu que agora está chegando uma outra fase, a de cuidar dos velhinhos, perdoá-los pelos erros, ter paciência para a troca de papeis, arranjar tempo pra ser a ponte. Nós no meio, no olho da pré e pós memória, o elo do qual depende a continuidade.
Um beijo, vou pra rua louquear enquanto é tempo. Tentar despir meu eu pra não perder tempo.

biAhweRTher

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Anorexia

Fazer greve é incomodar, paralisar o que não vai bem.
Sendo assim,
fazer greve hoje, no meu caso, é existir, insistir e trabalhar porque nossa existência incomoda mais existindo.
Sendo artista, a frente de uma startup que 90 por cento dos possíveis investidores (inclusive as instituições públicas) não entende pois é desconstruída, pensei... pensei...
e cheguei a esta conclusão.
É trabalhando que gente como nós incomoda uma sociedade que olha pra nossas obras, textos, ideias e confrontos e pergunta onde está o trabalho e nos tem por vagabundos.
Quem sentirá minha falta se eu hoje fizer greve e não escrever uma crítica sobre a superficialidade dos adultos brasileiros e um machismo que derruba as fronteiras entre direitistas e esquerdistas em ambientes de trabalho?
Se eu parasse hoje, no máximo, atrasaria ainda mais algumas contas que nem são minhas, mas da sociedade que troca cultura e arte por entretenimento e pouco apoia mas exige gratuidade.
Quem perderia com a minha parada? Alguém perdoará os trabalhos e pagamentos que estão atrasados.
Meu patrão são todos e quem quiser.
Greve contra os trabalhadores da cultura a esmagadora maioria da sociedade faz todo santo dia, nos esmagando contra os muros; nos escondendo nos sótão e porões de suas vidas; nos excluindo, tanto que muitos cidadãos tem raiva de greve pois incorporaram dóceis a cultura da submissão.
Greve, os trabalhadores da cultura e do auto retrato social fazem todo santo dia contra sua própria sanidade, para conseguirem levar projetos para um país que os desdenha. Independente da posição política, a política da maioria é consumir mais e mais produtos industrializados; mais e mais roteiros adivinhados.
A greve no mundo dos artistas - não marionetes da grande mídia e das majors, falo de artistas de fato - é a de fome.
Estou trabalhando hoje e esta é a minha greve. E não me importa o que os detentores do pensamento crítico com suas mãos macias, sentados sobre seus textos acadêmicos e títulos me digam a respeito de traição. Eu hoje estou trabalhando.

sábado, 15 de abril de 2017

Beco do Batman

Peguemos dois pontos a respeito da arte no mundo contemporâneo:

Peguemos dois pontos a respeito da arte no mundo contemporâneo:

1) Arte de rua é tão arte quanto a arte de museu. Não adianta o leigo ou parte dos entendidos espernearem que sua reprodução na sala, dividindo espaço com a tela gigante de tv é mais respeitável. Não pague mico, você lacrimeja diante da obra do Basquiat, se masturba por Nova Iorque, então caia na real. A arte escapuliu dos espaços sagrados, limitados à alguns entendidos e colecionadores com tacinha na mão e um dicionário de sinônimos.
2) Seja nas novíssimas e diversas expressões, seja na arte clássica, a obra se separa do autor, como um filho sai da casa do pai, leve consigo uma herança ou uma porta na cara.
Ou seja, não é de arte que falamos quando um senhor toca tinta cinza sobre obras de rua, inspirado em um prefeito playboy, colecionador de relógios de ouro.
Quando alguém se desentende com um artista arrogante e cobre sua obra com tinta cinza, estamos falando de política e ignorância.
Nem os piores fascistas desconsideram a arte, é só ver os espólios de guerra. Quem depreda a arte são os extremistas religiosos, com sua política de fingir que a história pode ser apagada.
Por exemplo, Monteiro Lobato era racista, porém os mais lúcidos não entendem que sua obra deva ser queimada em praça pública num Fahrenheit 451 às avessas. Na história da humanidade encontramos artistas que serviram aos piores fascistas, há mafiosos e líderes religiosos medievais; outros abusaram de mulheres ou foram até assassinos.
Ou seja, se alguns artistas de rua se tornaram invasivos, você não muda sua relação com a sociedade, matando suas obras.
Você não coloca em julgamento a obra, entende? Ela é para discutirmos nosso estado de vida, de morte, de direito, de opressão.
A arte é a parte boa. o resultado, o espelho. A parte a qualidade, o preço do pincel utilizado; se o suporte é o muro ou a tela; o tema ou não-tema, o local onde está exposta, o discurso, a possibilidade de ser levada no bolso ou modificada pela chuva.
A arte é a discussão em vida e depois da morte.
Um beijo.
biAhweRTher

quinta-feira, 6 de abril de 2017

S O L

Encontrei este texto, de 6 de abril de 2013, no meu segundo perfil do facebook.
Não é um material tão incrível, penso eu, como leitora. Contudo, me trás a memória de um momento importante da vida, de início de uma longa transição, o encontro comigo e a necessidade da solidão. Tomada de decisões que me levaram à atual fase profícua e entre muitas pessoas... Além do mais, algumas leitoras que admiram minha escrita se sentiram tocadas quando publiquei.
Assim, copio aqui no blog pra não perdê-lo.
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S O L

Solidão deveria ter outro nome. Deveria ser um palíndromo que começa e termina com sol.
Nunca parei antes a comparar as intensidades da solidão sozinha e da solidão acompanhada. 
Essa semana, nas passeatas, eu encontrava e me perdia dos amigos. Prender-se, perder-se. Su-bli-me! 
Até os 18 anos eu tinha uma coisa que um espírita chamou de desdobramento e a psicóloga chamou de: hum-hum. 
Era mágico. Muitas vezes, quando estava na minha cama, eu me via, fora do corpo. Queria pedir ajuda, claro. Mas quem diz que a voz saía? Minha consciência estava com o corpo de cima, que voava sobe mim, preso ao meu corpo real por feixes de luz multicolorida que saíam do meu umbigo. Um dia, vivo, meu segundo corpo quase saiu pela janela, flutuando. Pavor! E se eu nunca mais voltasse em mim?
Casualmente, quando eu saí da casa de meus pais pra descobrir o mundo, nunca mais vi os feixes de luz saindo do meu umbigo. O que não significa que não tenho mais de um corpo, um na terra, outro no céu, mas não consigo mais ver aquilo que os prende um ao outro. O certo é que, hoje, aprecio como se fosse um orgasmo quando me perco na multidão. O corpo que voa, saindo pela janela, deixando o outro ali a descansar seus medos.
A propósito, acho que já escrevi várias vezes sobre isso, de não saber nada sobre turmas e bandos. Distraio-me e traio (não confundir lealdade com fidelidade, por favor!).
É uma emoção sem limites falar com estranhos – que são todos - num diálogo contínuo, pela vida afora. Uma vez, as 6 da tarde, no meio da Cinelândia lá no Rio, eu e um amigo começamos a gritar coisas loucas de braços abertos, rodando e, ao nosso redor, todos estavam loucos, vendendo, tocando guitarra por moedas, falando de futebol, discutindo, se rindo, reclamando da chuva, correndo pra algum lugar. Ninguém nos via!!! Foi nesse dia que tive a certeza de que pode ser lindo quando ninguém me percebe.
Nesse mundo cheio de bengalas que nós inventamos pra fugir de nós mesmos, talvez o mais próximo do auge de liberdade que possamos conhecer, seja estarmos sós. De preferência, sem referências, mas daí é pedir demais. Fechar-se num pequeno grupo talvez dê uma sensação de confiança. Assim, você é sempre obrigado a ser muleta de alguém e, claro, exigir que outros se prestem ao mesmo papel.
Hoje, tirei a tarde de sábado pra esse silêncio da garganta, falação dos pensamentos. Algumas horas sem ninguém é tão ou mais incrível que as festas loucas entre vários amigos, bebendo, fumando, dançando.
Nunca perguntei se todos pensam como eu, se todos sentem essa mesma explosão luminosa, metafísica, quando tiram um tempo pra se sentirem sós, soltos no mundo, pequenos, uma gota, uma bolha, um micro ponto.
Não consigo lembrar-me quando foi a primeira vez que me escondi das outras pessoas a pensar, ler, fotografar, fazer nada, olhar as nuvens, sentir o cheiro dos jasmins lá no sítio. Desde que me conheço por gente, faço isso, eu fujo em direção a ninguém. Depois, já adolescente, veio essa mania de viajar sozinha, perder-me, falar com estranhos, sumir. Insegurança de não ter ninguém ao redor que saiba meu nome. Ninguém a me julgar, ninguém para me ajudar. 
Combustível. Substância. Solidão. 
Sol
Uns emprestam sua companhia, alguns se prestam, outros se dão.
Lua. Vou a uma festa!
biAhweRTher

sexta-feira, 10 de março de 2017

A minha parte mais bonita.

As mudanças que se operaram em mim, para melhor, vem do meu feminismo. Esta verve, esta coisinha, essência que estava aqui desde que eu era um mero grão e que tentaram sepultar desde cedo, então só se mostrava quando me sufocavam pela décima vez, quando me oprimiam de novo, quando me abusavam novamente. O feminismo em mim só vinha em forma de raiva, de ira, de revolta, de urro, de não aguentar mais, tornando-se uma parte difícil, um lado meu do qual me peguei tento vergonha muitas vezes porque ele era rude e o usavam contra mim, me apontando, me excluindo, me julgando.
Porém, num certo dia quando acordei, notei que ele estava livre, solto no meu peito, na garganta, pelo quarto. E era parte real, fluído, natural, belo, intrínseco.
Um dia - ou aos poucos - não vi mais sentido em envergonhar-me do meu estado crítico diante do meu eu covarde e da cultura que me rodeia.
Meu feminismo já não precisava ficar oculto até não poder mais.
Meu feminismo, num certo momento veio todo, floresceu em mim e não havia mais como separá-lo de qualquer das minhas células, poros, neurônios... Descobriu a senha, me tomou toda e ficou plácido, me trouxe respostas.
Nunca fui tão bonita porque meu feminismo é a melhor parte de mim; nunca fui tão completa, nunca tão honesta, tão tranquila e tão segura... Nunca fui tão feliz antes de entender que feminismo é o meu feminino liberto dos modelos, meu eu sem máscaras, minhas vontades respeitadas e minha coragem aumentada.
Se eu gritar é porque preciso, se eu sorrir é de verdade, se eu trepar é porque quero, se eu chorar é porque sou humana, se me revoltar é porque penso, se sou perfeita é porque sou imperfeita, se estou linda é porque sou única, se digo não é porque não. 
biAhweRTher

quinta-feira, 9 de março de 2017

Dando a luz.

Hoje estávamos iniciando a pré-produção das montagens do eixo de Artes Visuais do FLõ festival do livre olhar, lá na La Photo Galeria e numa certa hora uma chuva gigante veio lavando tudo e trazendo a noite. 
Algo começou a mudar dentro de mim naquele momento. Vi minha equipe se empoderando, sentindo-se dona do festival. Fiquei pequena, observando. Meu nervosismo de pré festival foi dando lugar a uma sensção de segurança e paz. Vi as pessoas que eu apresentei umas as outras convivendo, trocando ideias e se tornando amigas, tomando pra si decisões, enriquecendo o nosso mundo.
Percebi que chegou o momento em que o festival se liberta um pouco do meu útero criativo, intelectual, conceitual.
Senti que ele começa a tomar forma não só a partir dos meus sentidos, leituras, interpretações.
O Bom Fim estava às escuras, andei nas ruas e, pela primeira vez em meses, tive uma necessidade de perder o controle do que acontece, descansar algumas horas da liderança.
Comprei um malbec e só penso em ficar sozinha ou com alguém que não esteja sabendo nada sobre o festival.
Vejo pessoas que não conheço divulgando e comentando os eventos. Assisto os artistas (são cerca de 100 obras/projetos no programa), mais de 300 envolvidos direta e indiretamente em cada exposição, espetáculo, sessão de filmes...
Observo-os partilhando orgulhosos suas participações, alguns sem mesmo saber que há uma pessoa chamada biAhweRTher que inventou esta casa cheia de janelas.
É que não importa quem foi, importa quem seremos.
Nunca desisto do que eu quero, sou workaholic e idealista no nível máximo. O envolvimento das pessoas é diretamente proporcional à minha paixão, mesmo que eu, em algum momento, já não tenha a mínima importância.
O festival é como nossos filmes, nossas músicas, nossos escritos e invenções. Há o momento em que não temos mais domínio algum sobre elas.
Ainda assim, apesar de isto ter crescido e não ser mais só um projeto meu no silêncio do meu lar estúdio, eu consigo entender onde eu queria chegar e sinto orgulho de mim, por unir tantas pessoas, por fazer o quase impossível num país que odeia artistas independentes.
É como estar sentada sobre essas nuvens cinzas, sentindo o ar mais fresco e gostando de si mesma.
Sem falsa modéstia, não sei porque eu faço tudo isto, mas sei porque aprendi a gostar de mim.
Que a semana do dia 21 a 26 de março de 2017 seja o melhor que pudermos fazer, ser e subverter.
Um beijo

biAhweRTher

quarta-feira, 8 de março de 2017

O PECADO INFINITO.

É sobre levar o mundo nas costas desde que nos conhecemos por gente, sejamos anarquistas, subversivas, carolas ou niilistas; libertárias, covardes, amordaçadas no porão, de baton, tensas, intensas, vazias recatadas do lar. O elo é uma ferida.
É sobre o fardo e um grito. 
E é sobre essa emoção que está envolvendo boa parte de nós no mundo inteiro no dia de hoje. 
Cada uma é um pequeno mundo gerador de vidas e de mortes - normalmente a própria.
Apenas mais uma, me sinto uma formiguinha, me sinto um dragão, uma leoa, uma ET, uma moça que usa o manto da invisibilidade... Só sei que estou com borboletas no estômago, na garganta está meu coração.
E sendo prática, preciso, devo parar algumas horas para participar da mobilização mundial de hoje. Como dizemos no cinema8ito... 8... i n f i n i t o, 8ito é par, 8ito é coletivo.
Se eu não for encontrar minhas iguais hoje, se eu não sair às ruas, minha culpa será imensa.
Se eu for, a produção do FLõ festival do livre olhar vai parar por algumas horas e minha Culpa também será imensa.
C U L P A. A chave que manipula as minas e nos torna, HOJE, manas. Culpa, o segredo criado pelas instituições para controlar nossos passos. Seja ateia, seja carola, seja puta, seja virgem, seja velha, seja nova, há sempre um espectro apontando um delito inexistente, eficiente.
Precisamos discutir, superar,
desconstruir a culpa.
A propósito de pecado, esta foto foi censurada várias vezes pelo facebook. Fiquei de "castigo" por publicá-la inteira então, aqui, a cortei. Certa vez, um rapaz, ao vê-la, me disse que sentia nojo e avisou que estava "denunciando". A expressão denunciada, censurada, era só minha pele nua suja de vermelho. Infração.
Um beijo e força para todas as manas neste dia de LUTA! Que todos os dias sejam assim. Que não exista competição entre nós, só o olhar e a voz de cada uma, diferente, única, a complementar os milhões de outros olhos e vozes. #NenhumaaMenos
biAhweRTher
Clandestina
Biah Werther II


terça-feira, 7 de março de 2017

Pelos Pelos

Existe cultura, cultura, cultura e cultura. Umas para nosso sim, outras para o não.
Quando eu tinha uns 13 anos comecei a depilar partes do meu corpo por uma imposição. Cegamente comecei a fazer algo que nunca tinha feito parte dos meus pensamentos a respeito do meu corpo porque algumas amigas começaram a me cobrar isto e alguns meninos riam de meninas com pelos no corpo.
A primeira vez fiz escondida de minha mãe, usando um aparelho de barba do meu pai. Cortei minha perna embaixo do chuveiro e saiu muito sangue. Me senti num rito de passagem sozinha naquele banheiro de azulejos azul calcinha.
Foi ruim passar a fazer parte de tal cultura, espécie de obrigação.
É tão fora dos meus valores, tão irrelevante me depilar para me sentir mais mulher ou mais bela, que nunca fui num desses lugares onde as mulheres se torturam com ceras quentes. Só conheço pelos filmes e acho meio ridículo.
Hoje, infantilizar o corpo da mulher tirando todos os pelos, em determinados nichos, é uma obrigação, uma lei. Claro que não faço parte disto, mas me depilo como quem carrega um fardo. Pra ter menos trabalho e porque me machuco  s e m p r e  com lâminas, compro uns cremes caros que facilitam mas pesam no orçamento, então eu sou daquelas que podem passar por você de biquini na praia toda linda com os pelinhos das pernas bem faceiros e se você não curtir dou muita risada e penso:
Você tá revoltadinha porque ainda não me viu no inverno, por debaixo de mil casacos!!
Depilação não é higiene. Higiene é banho. Depilação é uma bobagem cultural pra agradar caras machistas e uma sociedade patética que quer todas as mulheres fingindo que tem doze anos para excitar senhores pedófilos.
Um beijo.
biAhweRTher

domingo, 5 de março de 2017

Fastfood de carne humana.

Desconfio de quem consegue sorrir, dormir, entrar num fastfood, neste domingo, 
sentir-se em casa dentro do ambiente frio de cores estudadas e mensagens subliminares.
Não confio em alguém que consegue viver normalmente após o assassinato do menino João,
que teve seu frágil corpo espancado até a morte por seguranças do fastfood Habib's. 
Ele foi jogado na calçada a espera dos corvos da nossa cultura: Nós.
O apelo que todxs devemos fazer não é o da hashtag do dia para amenizar nossa responsabilidade.
O apelo é para nossa própria consciência, ao som dos gases de nossas entranhas.
O apelo é diante do espelho, é sobre empatia.
Sinta vergonha se você é um pai que pensa que só importa na sua sociedade aquilo que acontece "da porta pra dentro", pois sua ignorância o impede de entender que somos um corpo só.
Envergonhe-se se você é uma mãe que ensina competição e arrogância pois dignidade, amor e respeito são direitos de todos, não apenas dos seus filhos.
Não se iluda, não se entenda imune, não se julgue imaculado.
Cada um de nós matou João e matamos a cada minuto dos nossos dias boçais todos os outros meninos e meninas sem lar, viciados, sem pais, sem país, com seus olhos que são o espelho do qual fugimos idiotizados, ruminando, rosnando, correndo dessas crianças como se os monstros fossem eles e não nós.
Todas as crianças são de todos os pais, responsabilidade de todos. Assim está escrito nas leis mais básicas de todas as sociedades desde que o mundo é mundo. Você não sabe porque está ocupado fazendo compras e chutando crianças de rua.
Se você não sabe nada sobre isto, está na hora de entender antes que seus muros não sejam suficientemente altos para segurar a culpa lá fora. Sinta medo de você mesmo, tome um banho na vergonha e mude antes que o seu bunker seja invadido por você próprio, pelo lado seu que está lá fora, espelhando o seu escárnio. Todo o ódio que se revelará contra a injustiça e virá contra você, emanou do seu egoísmo. Não haverão muros suficientes. Você não é vítima, você é cumplice.
#BoicoteHabibs
biAhweRTher

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Mãe Artista

Sempre fui a mãe menina, amiga, companheira, baixista, parceira de pular na cama até quebrar as molas do colchão tri caro e ficar um sábado todo assistindo maratona da Hora de Aventura. 
Nunca mandei nada, tudo decidido democraticamente. Não creio em organismos verticais.
Quando ele estava na barriga eu era o auge do grunge. Minha banda até nem tanto, mas eu sim. A MTV era massa naquela época. Jimmi Hendrix e Nirvana nas madrugas. Eu tocava violão e tinha certeza que a acústica devia ser ótima dentro da barriga.
Até os 3 anos eu o amamentei e andávamos pelados pela casa. Lá pelos 6 anos, achei que não era mais legal ele me ver pelada e comecei a mudar um pouco esse comportamento. E seguimos felizes, especialmente quando íamos para o mar.
Mas os colegas não o compreendiam muito bem. Nesta mesma fase, ele estava em seu quarto com amiguinhos e, emocionado, quis mostrar uma música nova que conhecera: Geni e o Zeppelin, do Chico. Quando terminou de cantar junto, todo emocionado, encontrou os amigos meio chocados sem entender sua língua. Ele tentou explicar a letra, não funcionou muito bem.
Mas ele não desistia, dias depois levou um amigo pra escutar Joquin, do Vitor Ramil. 
Um dia, estávamos dando carona pra um coleguinha e ele comentou animado que adorava o Jean Wyllys, que era um BBB naquele ano. O coleguinha ficou entre chocado e debochado e disse: - Que nojo, ele é gay!
Olhei pelo retrovisor e o sorriso do meu filho foi se desfazendo, parecia envergonhado.
Pela primeira vez na vida fiz a mãe:
- Também adoro o Jean Wyllys.
Meu filho parecia mais seguro quando me escutou e voltou ao assunto animado.
O menino insistiu:
- Mas ele é gay.
Silêncio. Encostei o carro. Olhei pra o banco de trás e falei para o meu filho.
- Filhinho, você pode gostar de qualquer pessoa que seu coração mandar. Debochar de alguém por ele ser gay é preconceito, e preconceito contra gays além de feio é contra as leis do nosso país.
Pode confiar em mim, é bonito gostar de quem a gente quiser e horrível se preocupar em saber se o outro é gay ou hetero.
Fomos levar o outro pirralho em casa. Meu filho se sentiu muito bem, notei que estava agradecido, mas não entramos de novo no assunto. A mãe do outro menino nunca mais me cumprimentou e achei muito bom, pois usava marcas de roupas feitas por mão de obra escrava, logo não tínhamos mesmo nada em comum. 
Lá pelos 15, a psicóloga me chama assustada pois a vó lhe contou que o guri andava lendo a biografia do Kurt Cobain e escrevendo músicas tétricas. Fomos eu e o pai dele. Eu ri e disse que ele escutara isso desde o meu ventre, que estavam fazendo tempestade em copo d'água. 
Escutei por todos esses anos, de parentes, amigas e psicólogos que meu filho deseja, um dia, ver em mim a mãe. Aquela que invade, que manda colocar o casaquinho, que não o traumatiza viajando a trabalho por dois meses como fiz tantas vezes, que não chora copiosamente porque ele foi pros steitis num compromisso com a escola. 
Acho que até ele mesmo, muitas vezes gostaria de me ver no papel da mãe de tutorial, da mãe normal. E sei que por vezes queria que eu não perguntasse mas desse ordens, fosse entrando sem pedir licença, reclamasse da bagunça e tivesse uns pitis lamentando "dei minha vida, abandonei meus sonhos por você, mimimi!".
Não digo que é fácil não querer ser a mãe santa, a mãe voz de mãe, a mãe assexuada, aquela que vive batendo no peito e querendo morar num relicário. Não digo que não tenho mil dúvidas e as eternas culpas. 
Mas nunca, nunca mesmo acreditei nessa bobagem de que "mãe não é amiga". Que frase horrorosa de se dizer. Se eu pensasse que ,como mãe, meu papel não é o de amiga, eu teria vergonha de mim. Serei o quê? Inimiga, dona de pensão, generala, madre superiora, fiscal?
Um beijo
biAhweRTher

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Texto feminino sobre gestão para o sábado de manhã.

Os rapazes andam sem paciência nas relações de trabalho. (ou sempre foram truculentos?). Pavio curto, invasivos, sem o foco na humanização imprescindível e, com raras exceções, um vício de se relacionar com mulheres num tom professoral-patriarcal-"protetor"-além da medida do respeito. Não estou generalizando, claro. Estou falando de uma maioria que anda precisando estudar sobre o princípio das organizações, onde o começo é todo o tempo.
Mas como esperar que os homens compreendam preliminares nas suas experiências profissionais quando a desconhecem como um todo?
Por exemplo, nesta semana, eu que trabalho numa rede de esmagadora maioria feminina, só senti desconforto, desgosto, um gosto ruim, uma falta de tato, tom invasivo ou desconfiança de que posso não saber o que estou fazendo, em situações que envolviam homens. Foram cerca de 4 momentos de desrespeito, descrédito, desqualificação ou de me acharem inferior mesmo.
Na gestão de um processo, projeto, equipe... seja qual o modelo que você adota, não importa o seu modus operandi, o tamanho do seu plano, há uma delicada membrana que só os bons detectam, sejam preparados, tenham estudado administração ou não.
Falo da contextualização, da forma, dos métodos pensados para seus relacionamentos externos e internos.
Não se pode desconsiderar todas as fases e ter pressa.
"Objetivar" pode ser perigoso se você não percebe que no começo de toda e qualquer organização, antes do foco, antes dos cronogramas, antes dos organogramas, você primeiramente pensa a ideia, estuda abordagens, elabora e aprimora a sua interlocução.
A gente não vai chegando e pré-conceituando o que pensamos dos parceiros, prestadores de serviço, estagiários, apoiadores, colegas e, principalmente de nós mesmos.
Há um momento sublime, solene em cada começo de relacionamento que para muitos é perda de tempo.
Você tem, sim, que parar, esquecer os hormônios, dar uma meditada e estudar quem é o outro.
Relacionar-se no trabalho é uma dança e você tateia e precisa ter
s e n s i b i l i d a d e.
Há em grande parte das mulheres profissionalizadas - e falo isso por experimentar a vivência de fato e não por adivinhação - essa necessidade, inerente a todx o indivídux responsável, de conhecer o outro a partir do seu próprio olhar para saber como se reportar a ele. Não importa o que dizem, o que falam, o que parece. Importa o que é naquela situação
e s p e c í f i c a.
Os rapazes andam irritados. As mulheres andam, faz tempo, dirigindo os trabalhos, conduzindo as equipes com mais sabedoria. Eles perdem tempo precioso tendo pressa e achando tolice essa percepção que vem antes dos orçamentos, das metas e das assinaturas. Por que você só deve assinar quando linhas e entrelinhas estão absolutamente absorvidas e sem espinhos.


Uma mulher não precisa provar todos os dias que é capaz de fazer aquilo que ela já assumiu. Se foi escolhida, fez um concurso, passou por um teste ou empreendeu já provou e basta, bola pra frente. Não cabe a cada homem que chega, não cabe a quem vem propor uma parceria ou pedir um apoio, ao cara da van, ao colega, ao assistente de produção te sabatinarem, perguntarem se tu já fizeste isso ou como vai decidir aquilo antes de fazerem suas próprias tarefas ou te passarem um simples orçamento.
Não cabe a cada pessoa que porta um pênis invadir os planos íntimos da tua produção e te perguntarem qual tua cota pra tal projeto ou se ofenderem quando você avisa que não está precisando da ajuda deles além daquela que você solicitou ou para qual quer contratá-los.
Sim, queridos, "as meninas" sabem muito bem o que estão fazendo e onde querem chegar. E sim, amores, "as meninas" tem, como em qualquer ambiente profissional, informações sigilosas que não irão dividir com qualquer um que queira "dar uma força" que não foi solicitada.
Pensem nas relações de trabalho com mulheres, rapazes. Pensem muito nisto e nos falamos daqui uns 20 anos
Um beijo.
biAhweRTher

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Violência Obstétrica e os Comícios nos Sepultamentos

Sigo não compreendendo onde está o problema de o enterro de Dona Marisa Letícia Lula da Silva ter se configurado um ato político!
Também não entendo o que se passa com parte da classe médica brasileira, esquecida do seu compromisso.
Na verdade há anos eu não entendo nada sobre certos médicos.
Quando meu filho nasceu, meu médico estava de férias. Aconteceram tantos erros médicos que eu fiquei em coma e precisei de duas transfusões de sangue e meu pequeno corpo que, com 9 meses de gravidez tinha apenas 56 quilos, se transformou num pano de chão dos médicos. 
Meu filho era o bebê mais quietinho do berçário e eu sempre pensei que era porque ele estava preocupado comigo. 
Depois de tudo erraram de novo, ministrando uma droga da qual sou alérgica. Eu queria morrer, eu queria matar, eu chorava de dor em todos os ossos e músculos, eu queria viver e queria um milagre. Minha família foi até a direção do hospital, o médico que quase me matou sumiu da nossa vista e nem uma repreensão levou, a médica que deu início à sequência de erros nunca mais vimos no hospital. 
Eu era um trapo, minha mãe chorava, meu pai sofria, meu marido tinha apenas 22 anos e tentava ser adulto e ficava do meu lado enquanto eu não acordava nunca. 
Naquela semana quente de janeiro eles erraram com muitas mulheres, uma delas teve que voltar para a sala de cirurgia pois esqueceram um pedaço de trapo dentro dela.
Eu fiquei com sequelas pra sempre. Fizeram uns procedimentos que a pessoa pula em cima de você, meu estômago, meu peito, tudo doeu por meses e meus músculos tiveram fibromialgia por uns anos. 
Nos primeiros tempos, eu não podia caminhar. Eu pedia pro meu marido me virar na cama pois nem isso eu podia fazer sozinha. E ele trazia o bebê pra eu amamentar deitada e ele trocava as fraldas pois eu não podia. Eu era um nada.
Por dois anos eu não podia passar na frente do hospital pois era muito grande o meu trauma.
Eu sofri tanto e, pra piorar, a maioria das minhas amigas ainda não era mãe, então eu não queria contar o que eu tinha passado pra não assustá~las, pois assim como nós, todas e todos tinham várias fantasias boas sobre o parto. Sobre fazer parto natural, gravar o momento do nascimento em vídeo e fazer de tudo um lindo momento.
Mas a gente não teve nada disto. Quando o André chegou com a câmera, eles apenas disseram: - Você não vai poder filmar nem entrar pois tivemos problemas e vai ser um parto muito difícil.
E foi, como uma morte. E eu quando voltei a entender sobre quem eu era, fiz comícios rastejando no hospital. Queria fugir, e queria que alguém trouxesse aqueles monstros pra me explicarem porque tentaram me matar. 
Não sei se quando eu morrer vai ser mais uma vez por erros médicos, coisa que se vê todos os dias. Posso ter sorte e morrer tranquila e velhinha, dormindo na minha cama.
Mas seja isto ou aquilo, quando eu morrer eu quero um comício, um ato político, a leitura dos textos mais radicais sobre liberdade e sobre compromisso e ética.
Que todos os enterros sejam um ato político. Que todos os mortos se vão desta dimensão como pessoas que souberam o que é política e sejam lembrados por isto nas suas despedidas. 
Tendo médicos ou monstros a me cuidar no meu final de vida, o que me interessa é que eu faça por merecer uma despedida assim, transformada em comício!

Um beijo
biAhweRTher

sábado, 28 de janeiro de 2017

FÁCIL É VOCÊ!

Fácil não é a mina que faz sexo com um cara no dia em que se conheceram porque os dois ficaram a fim.
Fácil é a mina que aceita estupros, agressões e assédio moral do seu companheiro por anos a fio sem nunca revidar, nunca dizer não, nunca denunciar, aceitando sua própria morte em vida apenas porque ele a sustenta.
O que os machistas e as machistas não tem inteligencia suficiente para entender é que a mulher livre não é o "objeto fácil", que "não se valoriza" e "dá pra qualquer um".
Fácil, objeto, dá pra qualquer um a mulher que usa o corpo como moeda de troca na sociedade carola onde a menina ainda é um produto que as famílias guardam junto com os lençóis.
A mulher livre sexualmente não é aquela que diz sim pra todo mundo, até porque dizer sim é um direito e não um dever.
A mulher feminista é aquela que sabe dizer NÃO e pronto mesmo sendo parte de uma sociedade machista e perigosa.
A mulher livre não oferece perigo para as recatadas do lar simplesmente porque ela não quer nem saber dos cretinos que passam a vida fazendo mal às suas mulheres fáceis e manipuláveis que disputam homens horrorosos só pra dizer que estão "seguras" numa cultura onde estar com um homem ao lado é segurança.
A jovem feminista sabe que lavar cuecas e ser agradável é armadilha e nunca segurança.
A mulher feminista não quer sair por aí bem louca pensando só em dar pra todo mundo sem pensar em outra coisa na vida. Essa é a moça ninfomaníaca, que pode ser feminista ou machista, pois ninfomania é uma doença.
A moça feminista não é "fácil nem difícil", mas apenas uma pessoa que luta pela igualdade e dignidade. Andar como quiser, usar a roupa que bem entender, atuar no seu ambiente como melhor lhe parecer, ser respeitada no seu trabalho e não escutar "brincadeiras" de senhores cretinos 25 vezes por dia.
A feminista é aquela que não vai jogar o jogo do consumismo de pessoas. Dirá não quando não quer e ai de quem fingir que não entendeu.
Feministas não saem dando pra todo mundo. Ou algumas sim, assim como algumas machistas também e cada uma sabe de si. Se não for forçado e não machucar ninguém, transe com quem quiser, onde e quando quiser.
Pessoas (homens e mulheres) que respeitam o feminino, não vêem o corpo e a sexualidade como produto, como moeda, como consumo, como antropofagia, como prisão.
Assim, dar pra qualquer um não é coisa de feministas, mas de mulheres que se entregaram ao medo.

"Qualquer um" não é necessariamente o cara que transa com uma mina no dia em que a conhece simplesmente porque os dois ficaram muito a fim.
"Qualquer um" pode ser o marido que faz Gaslighting com sua mulher por anos a fio, simplesmente porque a sociedade lhe garante mais segurança.
Então, pare com essa bobagem de advogar a causa do seu algoz. Isso tem nome, é Síndrome de Estocolmo.
Pare de ser medrosa, deixe de ser tão fácil!

biAhweRTher

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O TEMPLO

Tenho escrito tantos textos para o FLõ festival do livre olhar, para o blogue e etc que voltei a sentir dor nas mãos, especialmente o sofrido dedo indicador da mão direita. Mas são belas as minhas mãos, acho eu... Tem dias que fico como as crianças, deitada na rede olhando as mãos contra a luz do sol, movendo os dedos e contanto as linhas. Daí eu toco umas músicas e gravo pequenos vídeos dos dedos tocando as cordas.
Dedos são o ponto final ou início do corpo?
Não sei se meu corpo é tão bonito como eu penso que é.
Muito provavelmente não. Mas só o fato de ele aguentar a vida difícil que levo já o faz meu herói. Não me curvo, ajeito a coluna.
A maior parte do ano o carro que divido com o meu sócio, fica lá em SC. Fico com ele no verão e em julho, apenas. Mas daí fico com as câmeras e lentes a maior parte do tempo, coisas de sociedade entre pessoas que foram casadas e ainda são sócias.
Agora, estamos com um carro zero que tem alguns dias apenas, e eu já vou me despedir, mas fico com as câmeras aqui pra rodar meus trabalhos...
Enfim, ficar tantos meses do ano a pé, com câmeras e projetores e pedaços de cenografia e 30 quilos nas costas pra lá e prá cá não é coisa pra gente fraca. 
Tem dias que dói até a alma e depois ainda olho meu corpo no espelho e quero ele bem, expressivo, falante,
pois ele também é objeto do meu trabalho de arte, retratos nus, espelho dos meus gestos. O levo para massagens e sessões de reiki. Ele agradece e me sorri após o banho de sal grosso com ervas. 
Meus ouvidos gritam. 
Meu quadril tem um defeito de nascença que me ensinou sobre viver com dores eternas que se agravaram com os desrespeitos médicos que sofri durante o parto do meu filho, quando quase fui a óbito e quase me tornei mais um ser etéreo, sem corpo.
Resisto.
Meu corpo é líquido. Quando caminho deixo as ondas e curvas levarem meus movimentos pois detesto ângulos.
Meu corpo é um mini mundo cheio de micro seres vivos com quem preciso conviver e dialogar. 
Sou aquilo que entra em mim, me alimenta e hidrata, forma e cor. Se comer mágoa, serei cinza. Se beber água, serei transparente. Se ingerir pessoas, ficarei doente.
Sou um ecossistema e isso é um milagre.
Meu corpo é a terminação nervosa dos meus sonhos, onde se concretizam, se efetivam ideias que, para muitos, são impossíveis.
O meu corpo é objeto do meu prazer e da minha libertação. Dele emanam redemoinhos, espelhos e pêndulos. Dói e sorri, treme e ressona.

Quando alguém toca meu corpo sem permissão sou um tatu bola, viro bicho, viro náusea, sou ódio, sou tristeza.
Dos meus dedos e pulsos machucados e cheios de marcas da vida artística saem as ondas de energia criativa, respostas e perguntas. 
Do meu umbigo, feixes de luz me conectam com o universo.
Graças ao meu corpo sou única e sou apenas mais uma.
Um beijo
biAhweRTher

sábado, 21 de janeiro de 2017

Livre olhar. Liberdade para filmar.

Assisti pela primeira vez "Diavolo in corpo", Marco Bellocchio, 1986.
Imagino que deva ter sido polêmico na época, devido às cenas de sexo verdadeiro entre os protagonistas. 
Pessoalmente, gostaria de rodar uma cena de sexo explícito em um filme que ainda não pude começar a tentar recursos devido ao excesso de projetos atuais. Mas o meu roteiro pede sexo a vera.
Ok, sei que vai dar uma puta incomodação. Até fumar cigarros em cena querem proibir. A ficção no cinema e no teatro, pra alguns desentendedores de arte, não pode buscar a perfeição.
Lembro de assistir algumas entrevistas coletivas do "Antichrist", Lars von Trier, 2009. Certos jornalistas, diante de uma obra impactante como aquela, só conseguiam pensar nos órgãos genitais do elenco, como se nunca tivessem visto antes ou ficassem pelados só de olhos fechados. Chegavam ao cumulo de perguntar à Charlotte Gainsbourg porque havia aceitado fazer cenas reais de sexo. Ela respondia com sua elegância implacável: - Porque o roteiro pedia.
A atriz tem seu corpo como instrumento e o entrega à obra.
O jornalista tem seu ponto de interrogação como ferramenta e o vende para o senso comum. Calma, não estou generalizando. Nem toda a atriz é destemida e nem todo o jornalista é boçal.
Voltando ao Diabo no Corpo, assim como outros filmes não pornográficos onde há cenas reais de sexo - para quem trabalha com elenco pode ser óbvio o que penso - a intimidade dos atores os fez se saírem mais do que bem em todas as demais cenas. A cena de sexo oral é boa justamente porque não tem o apelo obrigatoriamente fake dos filmes pornográficos. Gostei bastante da naturalidade e me parece que foi nesse laboratório que se desenhou todo o resto. 
Só um parêntese. Eu dou spoilers sempre e não peço desculpas porque não vejo cinema como um joguinho de abobadinhos que não querem ter o sustinho atrapalhado. Geralmente, assisto os filmes fora do seu prazo, acho que tem mais graça, então me sinto mais a vontade ainda pra fazer spoiler, já que a maioria das pessoas já viu mesmo.
Enfim, porque cenas de sexo bem filmadas ajudam a performance de um elenco? Ah, isso é óbvio. Se você tirou a roupa no set, as personagens entram mais fácil. E se você transa com o colega de cena (em cena, não estou falando de fofoquinha sobre casos entre colegas de trabalho), você derruba barreiras que precisam não existir para um filme ser bom.
Os laboratórios que vivenciei como elenco e-ou diretora sempre foram ricos de estratagemas para nos sentirmos mais íntimos e, claro, no processo haviam momentos de trabalhos corporais coletivos que operavam milagres. Daí minha teoria de que quando há cenas de sexo, sejam elas reais ou não, os laboratórios para dar veracidade às cenas vão colaborar imensamente para outros momentos, sejam eles de tensão, briga, despedida, reencontro...
Ok, tomara que isso não faça, como sempre, um monte de senhores se assanharem com piadinhas achando que vou querer transar com eles porque falo abertamente sobre sexo no cinema.
E tomara que não pensem que estou querendo criar um modelo de preparação de elenco que envolva sexo. Não é nada disso. Cada filme é um filme. Estou apenas refletindo sobre o fato de, em pleno 2017, ainda fingirmos que sexo não existe e ficarmos no "ai meu Deus" quando aparece num filme, porém se o filme for pornô com um sexo agressivo machista e ruim, pode. Daí tantos degenerados, abusadores e cretinos espalhados pela sociedade a fora. No dia em que olharmos com liberdade e naturalidade a vida e a arte e onde elas se cruzam, acho que estaremos adultos enquanto humanidade.
Um beijo
biAhweRTher

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

1999 .... ASSISTA O FILME MAIS LOUCO DA DIRETORA DE ARTE MAIS ASSUSTADORA DA CIDADE!

Hoje volto para a beira do mar. Trabalhar no FLõ sob as ondas por uns dias. 
Mas antes de pegar a estrada com as minhas gatinhas quero mostrar um filme que disponibilizei no meu Vimeo nesta madrugada, após muitos anos de pedidos do elenco para que eu o fizesse.
CHAMA-SE "O Fim", Dirigi produção e arte. Fiz a locução, inventei elementais e seres estranhos e pintei corpos nus.
Foi rodado numa quente madrugada de janeiro de 1999, nas catacumbas do CEUE, em super 8. Usamos PlusX e Ektachrome até onde me recordo, mas meus alfarrábios de cronogramas e riders técnicos tem tudo anotado, isso é sempre bem bacana de lembrar e comentar. Os diários de pré produção, rodagem e estréia desse filme valeriam um livro.
Eu tinha vergonha dos meus primeiros porque, sendo uma jovem confrontadora e diferente, passei muito bullying.
O FIM, na verdade não foi meu primeiro filme, em 1997 nós começamos a rodar o 16 mm "A Verdade às Vezes Mancha" e em 1998 comecei a Rodar "Lilith... a Última Viagem do Século". Lilith... rolou o país e fez muitos fãs, estreou em 1999 também, se não me engano. O "Verdade" só estreou no ano 2000, junto com o meu 35 mm "Suco de Tomate" que foi muito mais famoso e rodou o mundo. Naquela época valorizávamos Gramado, mas ninguém aplaudia nossos filmes.
Nossos amigos faziam filmes legais, engraçados ou com citação de grandes mestres. E tinha os filmes loucos do Cristiano Zanella, que eu amava. Mas era quase só eu de mina. Dirigindo eram menos minas ainda. Os filmes passavam e a galera se abraçava e se beijava. Os meus passavam e todo mundo ficava em silêncio.
Eu ia ganhando fãs lá fora enquanto viajava com os filmes, levando oficinas e mostras, o Cinema na Mochila... mais tarde, o FLõ festival do livre olhar.
Mas os prêmios eram mirrados porque ninguém sabia o que fazer com o que nós fazíamos. Alguns jurados vinham se explicar. Ganhamos prêmios de júri popular e isso é bom, mas nunca achei bonito não me reconhecerem como a grande diretora de arte que sou. Isto me magoava muito, pois os entendidos sabem que sou foda e meus amigos que ganhavam prêmios dirigindo arte sabiam que sempre mandei ver como ninguém. Nunca mandei assistente de arte ao xópin pedir roupinha emprestada e pouco aluguei objetos. Sempre desenhei, fiz maquete e construí cada ponto de luz, cada roupa maluca. Fiz mesas. cadeiras e camas penduradas em árvores para nossas cenas...
Enfim... ASSISTAM "O FIM". É um filme de quando eramos crianças mas nele há muitos nomes que hoje são os fodas das artes aqui no sul. O diretor João de Ricardo é um deles. Messias Gonzalez e muitos outros que depois eu linco. E tem até o Carlos Carneiro, que tinha 20 anos, já era a pessoa mais querida e foi assistente pra comprar cerveja pro André Arieta(sem minha cerveja, não rodo) e (quase) aparece no final, como um policial.

NO MEU CANAL: 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Sobre críticos e agressores.

Observei que toda a crítica, até a mais injusta e maliciosa feita pelo pior inimigo, pode ser interpretada e utilizada para o meu bem. Claro, nunca o nosso olhar entende exatamente o que outra voz nos dirige pois as partículas se reposicionam no caminho entre nós e fica só a impressão, a marca do gesto que define se a mensagem é de amor, de ódio, de vingança, de agradecimento... O resto, o texto, é bobagem.
Não são plenamente os critérios alheios que importam numa crítica, mas um diálogo paralelo. Só o receptor da mensagem tem o poder de definir se o tiro é de chumbo ou de pétalas, nunca o crítico mensageiro. A crítica para o crítico é como a obra para o autor, depois que sai, é desconstruída e reinterpretada e não há o que ele possa fazer a respeito.
Assim, concluí que uma crítica, mesmo que muito peçonhenta, é como um anagrama que só cabe a mim transpor,
 Depende apenas de qual parte minha vai recebê-la. Pode ser o umbigo, pode ser o cérebro, pode o coração ou uma parte que não sabia que havia em minhas entranhas ou almas.
Escolher com quais olhos vou escutar e ler é primordial pra que eu saiba fazer uso, ou não, dos olhares extrínsecos.

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A crítica ganhou sinônimo de agressão, quando não é. Quando é agressão, não é crítica. Já recebi críticas bem ácidas de pessoas inteligentes e formadoras de opinião. Era pessoal, pois sou muito politizada e, em nosso meio, se você confronta o estabelecido vai pra fogueira sem dó. Só que aquelas pessoas eram entendidas, tinham a voz e o direito à crítica em espaços especializados. Apesar de injustas, eram formais e eu tinha que fazer uma limonada com elas. Daí, aprendi que mesmo que seja uma crítica maldosa, sem ética e tendenciosa, você sempre vai tirar algo de bom que pode ajudá-la a melhorar. Nem que seja aprendendo a controlar o ego, a ser fria ao ler coisas horrorosas a seu respeito, a saber cozinhar o tema antes de sair dando respostas.

Assinado: A leonina menos egocêntrica da cidade (ou não).

Tudo menos inveja.

Quando der aquela incontrolável vontade de invejar algo legal que alguém fez, saia correndo, se ame e goze.
Depois volte do seu canto com a paz de quem está satisfeito, conheça de novo a invenção do outro e pense:
"Puxa, que coisa bem linda isso! Mais uma pessoa genial como eu, a fazer coisas incríveis que melhoram esse mundo louco, cheio de ódio contra o qual temos que lutar".
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Entende? Não inveje, faça parte \o/
Todo mundo sabe, mas nunca é demais repetir que o pior inimigo do invejoso é ele mesmo. É como servir-se da própria carne aos poucos.
O remédio é amar-se. Gostar de si.
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Observei que o senso comum, essa mania de que só celebridades e ricos de ocasião são possuidores
de dons especiais sobre-humanos é o combustível maior da cobiça que leva a essa raiva cega geradora dos zumbis do século XXI, se esfolando uns aos outros no trabalho, em casa, na escola, no xópin...
Tudo isso não é você, são bobagens que a publicidade, o mau jornalismo, o seu patrão e os rotuladores contratados pelas grandes corporações andam colocando na sua cabeça fragilizada.
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A sofreguidão é tanta no seu coração, que até o tom de voz dos ídolos destes tempos é desesperado. Já notou que cantores, apresentadores, blogueiros, pastores... todos esses milionários que moram em um portal inalcançável que fica do outro lado da tela, todos eles gritam até quase jogarem os pulmões na sua cara? Quando você está em paz, essa gritaria não te representa.
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Você, entretanto, é livre para considerar anormais as emulações obrigatórias, mesmo que alguém te ache um mentiroso por não sentir inveja, gostar da sua vida e não querer a do outro.
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Há modos simples para não se deixar levar por esse surto de sofreguidão que assola a globalização padronizadora dos gostos e o achatamento das ideias e essa mania de sentar diante das telas e ver o quanto o outro é melhor, mais bonito e rico que você. Esse jeito é se gostar, é duvidar da maioria, se conhecer, falar sozinho, se descobrir brilhante e, claro, se masturbar.
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Estão mentindo pra você que você é um invejoso quando seus olhos discordam da maioria e não acham geniais as duplas sertanejas só porque são ricas, nem linda demais a mulher dos lábios injetados só porque está em todos os programas dando entrevista. Essas imagens recorrentes adoecem você e esse é o princípio do surto de zumbis eletrônicos.
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Você não é proibido de discordar e não é invejoso por ser crítico, você apenas está a caminho de ter o seu próprio olhar.
Há em você uma pessoa bem mais impressionante do que há em muitos que você inveja, então se prestar a ser mais um invejando e pincelando ódio no mundo é uma perda de tempo idiota.
Não invejar, é simplificar, é libertador.
Um beijo.
biAhweRTher
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

SOBRE HOMENS INCOMPLETOS E SUA INUTILIDADE

Já me aconteceu de ter parceiras incríveis trabalhando comigo em pré produções e, do nada, elas terem que sair de projetos porque nos dedicamos demais e os carinhas delas começavam a exigir que se afastassem. Teve um ano do FLõ, que a pessoa mais apaixonada pelo projeto foi obrigada a sair e sofreu muito. Era o namorado ou o festival.
Quando se trata de processos livres - não falo de arte vendida em galeria de xópin, mas de hibridismo, festivais independentes, filmes e etc - a gente dorme e acorda com o trabalho porque não existe o critério padrão de espaço-tempo. Não há um relógio que desligue sua criatividade, não há uma parede que defina o local da sua sensibilidade. Tudo e todos são referências e inspiração.
Não estou aqui dizendo que se trata de uma regra, estou apenas elaborando sobre minha experiência como liderança de coletivos, que começou lá nos anos 90 e não é nada pequena.
Desculpae os meninos machos, mas é bem recorrente que quando você está trabalhando só com manas, gays ou rapazes já conscientes da relevância do seu eu feminino,
as coisas vão rolando muito mais intuitivas, profícuas e menos desconfiadas, burocráticas.
NÃO estou dizendo que um grupo sem machistas é perfeito, digo que é necessário. Claro que há discordância entre pessoas criativas e isso é importante, faz parte, é salutar, empurra pra frente. Óbvio que meninas se estranham no meio do processo.
Mas quando há um homem na equipe ou há um homem, de fora, com poder de decisão sobre as escolhas de uma das mulheres da equipe, tudo fica mais truncado e começam a surgir desconfianças.
Dialogar com mulheres, gays e homens femininos sobre processos criativos e levar adiante tais processos é algo parecido com as ondas do mar. Uma complementa, continua a outra.
Nada é duro demais porque a arte necessita de adaptações, a produção e as tomadas de decisão encerram nuances e subjetividades, tal qual as próprias obras que iremos expor, exibir, performar.
 A necessária humanização de um grupo, a sensibilidade de saber que cada qual tem seu tempo e para cada um o tratamento e as expectativas são diferentes... são itens muito mais facilmente alcançáveis quando todos os homens envolvidos são humanos já treinados para entender, aceitar e festejar o feminino que habita todos os seres vivos.
Claro, as linhas curvas dos relacionamentos não deveriam faltar em qualquer local de trabalho, não importa qual a matéria, mas isso é um crescimento que a humanidade ainda levará uns mil anos pra compreender.
Porém, quando o trabalho envolve arte, daí todos os espinhos fálicos e todos os cantos angulares das relações devem ser p r o i b i d o s. Simples assim. Num coletivo que trabalha com arte, não cabem pessoas que vêem as mulheres como seres menores a precisar de alguém que pense por elas. Em um coletivo que trabalha com expressões artísticas não cabem homens que pensam que todos os gestos de uma mulher são recatos para seus pênis. Pessoas que oprimem a si mesmas inutilizam as vivências saudáveis, minam, desmotivam, corroem.
Gentilezas \o/
biAhweRTher

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O mesmo diário.

Balanço na rede amarela, olhando, escutando, me afogando no mar. Ao meu lado, Júlia Albertine, perra leal. Ao redor as felinas, Uma e Glau, uma atenta, outra preguiçosa.
Praia vazia.
Foram-se como chegaram, histriônicos, eletroeletrônicos, glutões, alcoolizados. Em nome da paz, as bombas assaltaram a tranquilidade dos animais.
A despeito do rastro de latinhas e ossos, os pássaros estão em festa.
O ano não é novo, o ano não existe, assim como as fronteiras espaciais que dividem os jardins, as cidades, os países, guardando retirantes de olhos fundos no limbo do tempo e do espaço.
O ano não é novo, é apenas um número qualquer que marca o início do círculo carcomido. A vida humana é uma cobra que devora o próprio rabo.
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Balanço na rede amarela, pra lá e prá cá, namorando o mar.
Resolvo visitar a outra rede, que se diz social. Antissocial. Segue a mesma, como nos últimos dias, todos esquizofrênicos. Tentamos pensar positivo mas desistimos, tentamos acreditar mas duvidamos, tentamos nos fortalecer mas nos divorciamos.
As notícias hoje – confesso que li por alto – são sobre as primeiras tragédias do ano. Prefeitos fantasiados assumem seus postos, cinismo, descrédito. Novas notícias sobre assassinatos no país em nome da intolerância e do extremismo.
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Antissocial, largo a rede e fico na rede amarela, o mar está verde, o mar está tanto, o mar está. Um rapaz se aproxima do portão:
- Oi, quer milho verde?
- Quanto? - Negocio o desconto. Ele conta uma receita que sua irmã inventou.
- Tchau, guria!
.
Algum vizinho solta duas bombas, livrando-se do estoque que sobrou. Lembram tiros de canhão ou algo assim. Mais uma bomba.
Pensei em começar um movimento anti bombas nos festejos. Em nome das bombas que estão matando crianças nas guerras, em nome dos animais que não tem nada a ver com nossos valores doentios. Pensei... não sei. Vai que algumas pessoas aderem... Soltar bombas em festejos nos tempos de guerra (que são todos os tempos) me parece um deboche, um sarcasmo, algo de criança má, egoísta, mal educada.
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Mais tarde, se não chover, vou sair dessa rede e caminhar até a reserva Tupancy, encontrar as capivaras que este ano ainda não vi. O parque, agora, é uma espécie de zoo para divertir humanos e não um local para preservar as características nativas.
Hoje, os loteamentos oprimiram o Tupacy e o transformaram num intruso entre os carros de som e o exibicionismo. Já não se vêem mais os orgulhosos casais de marrecas desfilando com seus filhotes rumo ao mar. Não mais.
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Aproximam-se nuvens. Tomara que chova no final da tarde, daí eu vou lá na vendinha e compro farinha e faço bolinhos de chuva e começo a reler alguma biografia. Verão sem biografias foda pra gente comentar o ano todo, não é verão.
O bem te vi canta como se a vida fosse perfeita. As aves negras dão rasantes nas ondas. O casal de quero-queros ensinando o pequeno filhote a voar, o mar, o mar, o mar...


Um beijo.
biAhweRTher