terça-feira, 1 de agosto de 2017

Muito é Pouco.

Já aguentei muita coisa nesses 20 anos de carreira. Mas foi coisa séria. Como cineasta, cheguei a ficar doente e sem trabalhar todo o ano de 2004, pois sofri recorrentes difamações pesadas, machistas de outros jovens cineastas que faziam um festival que se considerava "concorrente" ao meu, embora o meu projeto fosse anterior.
Isso tudo a gente passa, acontece porque artistas tem umbigo gigante e esquecem a que viemos ao mundo. Nos colocamos demais em primeiro lugar, antes da nossa tarefa, antes dos motivos da lida.
Como atuo em várias artes, meus problemas se multiplicam nesse quesito. Pessoas plagiando fotos ou não dando créditos em músicas... Acontece de quando em vez. Ano passado tive um roteiro roubado, fotos e vídeos plagiados. Este ano está indo tranquilo.
Acabo desistindo de brigar porque o mundo gira. Por exemplo, os dois ex-colegas que roubaram meu roteiro não conseguiram levar adiante o projeto. Perderam mais do que eu, pois para eles a sensação de vitória era mais relevante. Eu não quero ganhar nada, faz anos que nem me inscrevo em festivais e eventos competitivos. Acho um saco esse glamour falacioso.
Enfim, nunca consegui processar ninguém. Sofro de início, depois resolvo meditar, superar, esquecer e seguir a vida criando minhas coisinhas.
Por exemplo, nessas brigas por direitos autorais, me parece sempre que a pessoa que plagia algo, plagia o que já nem somos mais, pois nos modificamos e, com sorte, melhoramos.
Tanto que, no mais das vezes, criticamos nosso próprio trabalho assim que o finalizamos, Ou ficamos paranoicos, revisando e reeditando com medo de levar a público, como se nunca estivesse pronto.
Não é raro você lançar uma obra nova e no dia seguinte achar que podia ser melhor pois teu olhar se aprimora com as experiências.
Então... sei lá, não entendo quando um artista entra na justiça e tira do ar um trabalho com milhões de visualizações por causa de uma discussão com seu parceiro criativo. Me parece que a fama rouba o dom do diálogo (ou bate boca) comum e humano.
Pra mim, é como matar o filho porque discutiu com o ex marido.
Ando certa de que ter apenas milhares de fãs seja meu segredo de felicidade. Milhões de gentes e dinheiros talvez faça o artista esquecer o que o levou até lá.
Um beijo.
biAhweRTher

sábado, 29 de julho de 2017

SABÁ.

Antes de meu pai morrer, havia uma tradição nos sábados, quando eu não estava viajando ou trabalhando. Era almoçar com meu filho e depois entrar no carro e ir pra zona sul, na casa dos meus pais, escutar as histórias de família que ele contava. Gravei muitas, cheguei a colocar uma em um de meus filmes.
Depois minha vida mudou muito e agora, aqui em casa nos sábados bonitos as coisas tem um sabor mais silencioso. Um pouco como energizar-se para escrever as próprias histórias e reconhecer-se nas já escritas pelos antepassados.
Cuidar da casa, do conhecimento e do corpo é o que eu faço.
É curioso pois na verdade eu apenas voltei a ter sábados parecidos com os dos meus 18 anos. Entre fazer limpeza de pele e do quarto e adubar as plantinhas, gosto de ler biografias e assistir filmes sobre ídolos (hoje vou assistir um filme sobre Jeff Buckley).
Não sei quanto a vocês, mas as biografias fazem a gente pensar sobre nossas histórias pessoais. Humanizam nossos exemplos e de algum modo nos remetem à vida real. Rir e chorar com as misérias inevitáveis de grandes pessoas nos faz eliminar as ilusões sobre uns serem mais ou menos que outros.
Assim, antes de cair a noite, nos sábados, penso em como eu quero ser útil e nem melhor nem pior que os outros.
Pensar na responsabilidade de estar viva é como quando eu era criança e eu queimava as folhas secas na chácara e a fumaça ardia nos olhos até que algum adulto vinha gritando pra eu não brincar com fogo.
As pessoas vaidosas como eu deveriam aproveitar-se do espelho pra entender o quanto as histórias humanas individuais podem ser todas muito parecidas.
Na minha geração, crescemos dentro de centros de compras. Foi algo que se deu, não tivemos opção, uma voz acima de nossas cabeças indicava escadas rolantes, vitrines e portas de vidro. Talvez por isso a maioria de nós anda acreditando que crescer é ser melhor, mais bonito e mais jovem que os demais.
Porém, se a gente se aquieta algumas horas e pensamos sobre o que herdamos e o que deixaremos como herança, talvez seja possível ver que há pessoas mais novas aprendendo com a gente e não são os ensinamentos infantilizados e inseguros sobre uma eterna juventude que precisamos deixar.
Penso que, como adultos, temos o poder de mudar uma cultura inteira, coisa que crianças, adolescentes e idosos não tem.
Gente adulta, que toma as decisões nas famílias pode dizer que agora tudo vai mudar e o espelho de vidro pouco importa quando espelhos são a nossa função como elo e filtro entre gerações anteriores e posteriores. Não é pouca responsabilidade!
Não quero daqui há 30 anos ter ensinado sobre como e onde comprar coisas.
Daqui há 30 anos eu quero ter ensinado pessoas a me verem como igual, sendo eu mais velha e verem como iguais todos os seres que respiram ao nosso redor.
Mesmo eu gostando de me olhar no espelho e me sentir bonita com os meus cabelos molhados e negros, quero não esquecer de mergulhar nos meus olhos e ver neles mais do que a minha vaidade, mas as minhas vergonhas, as coisas que preciso mudar e os medos que preciso superar. E tentar entender o que viveu, pensou e me deixou a minha vó, de quem herdei a beleza dos meus cabelos e olhos negros. Ser o que somos, fomos e seremos ao invés de tentar burlar o tempo e ofuscar minhas semelhanças como quem queima as memórias no fundo do pátio.
Na verdade, ando percebendo que a marca da minha geração não deveria ser a necessidade de beleza e eterna juventude; posses e competição; trancas eletrônicas e terceiras pessoas.
Minha conclusão é que nossa função como adultos é muito simples. Não temos que provar que hoje em dia todos são jovens, não temos que provar que a nossa é a era digital nem que somos uma geração gourmetizada na mesa, na cama, nas férias, no sábado, no instagram.
Nada disso. A única coisa que precisamos alcançar e deixar para os mais novos é o equilíbrio. Acho que é isto o que nos cabe nesta nossa vez de tatuar alguma
coisa no tempo. O ... e q u i l i b r i o ...
A harmonia que virá apenas através do nosso conhecimento, perdas, vitórias, vergonhas e orgulhos pessoais e únicos. Sem tutorial, sem fórmula, sem dica, sem palestra, sem nada que se compre com o cartão de crédito.
Um beijo
biAhweRTher

terça-feira, 25 de julho de 2017

É PROIBIDO DISCORDAR (ou tomara que cheguemos aos 70 anos).

Ney Matogrosso (foto 1) tem 70 anos e abriu as portas pra todos os cantores de 30 se empoderarem hoje pelos palcos diversos.
O Ney, um artista sempre à frente, já sofreu muito preconceito e formou uma opinião - direito seu, claro. Ele se diz humanista e prefere não levantar bandeiras divididas em gavetas. Mesmo sendo gay, ele prefere não se identificar com uma causa isolada, pois vê todas as lutas com a mesma relevância: buscam por igualdade, dignidade e respeito os negros, as mulheres, as trans...
O moço da segunda foto é o Johnny Hooker, um cantor de uns 30 anos que está ficando famoso porque é muito talentoso e porque já emplacou músicas nas trilhas da Globo.
Johnny, ao ler que Ney não se alinha à uma causa específica, rebateu rapidamente na rede dos 140 caracteres, alegando que Ney é apenas um senhor de 70 anos que ficou parado em algum lugar dos anos 1970.
Após a declaração de Johnny, talvez por não terem lido a íntegra da entrevista do Ney, as unhas afiadas da internet começaram a arranhar seu pescoço. Alguns acham que ele está se negando a assumir que é gay (o que não procede); outros acreditam que ele está traindo um movimento específico; outros apenas o chamam de velho, esquecendo que para lutar contra o preconceito é preciso não ter preconceito.
Minha conclusão, amores, é apenas uma.
Se você começa a defesa da sua causa dividindo o mundo entre jovens e velhos, a sua causa já está perdida.
De resto, nesse mundo dos famosos da vez versus os que se mantém vívidos e profícuos por 50 anos sem cair no ostracismo, a única certeza que se pode ter é a de que o tempo e o espaço são uma invenção para vender uma nova banda pop e hambúrguer. Cuidado com a vaidade, pois a fama é fugaz.
PS.: O Ney Matogrosso até pode ser um velho chato de 70 anos, mas já estamos na quinta geração a copiar a maquiagem dos seus olhos e suas plumas. Inventem algo novo antes de depreciá-lo. Inspirar-se no figurino pra ser moderno é fácil, ser destemido a ponto de mudar os olhos da sociedade é outra história.
Um beijo
biAhweRTher
*Pics baixadas do planeta google.

domingo, 9 de julho de 2017

Quando o funk é mais rock que o roquenrou

Grande parte dos meninos e meninas de cultura branca ganham uma boa guitarra dos pais no natal, são criados para se imaginarem superiores intelectualmente, com mais bom gosto para as coisas da vida, até por terem mais acesso. Moram no apartamento de classe média e tem um preconceito exacerbado em relação às MCs do funk que vivem do outro lado da cidade.
Contraditoriamente moralistas, reclamam do rebolado nas expressões de periferia mas rebolam os cabelos ao som das letras mais machistas e consumistas que os roqueiros gringos conseguiram escrever em inglês nos últimos 50 anos. Só pra constar, seus bisavós também já reprimiram o samba.
Beijinho no ombro, sem pedir licença, há tempos as funkeiras vem se empoderando e abordando questões feministas, não que sejam obrigadas. Quem quiser que rebole pra ganhar a vida e não é o moço de faculdade, amante de Bukowski que vai se achar no direito de sentar no seu quarto cheio de posters de vocalistas machistas e resolver se está permitido às funkeiras falarem de sexo em suas letras. 
Se você olhar ao redor estamos lotados de metaleiros que bradam discursos de ódio, machismo, white power, homofobia... Ok, mas isso é outra história, foi apenas um parêntese. 
Uma coisa me incomodava ainda em algumas funkeiras, que era a competição por homem em algumas letras que, a bem da verdade, estão mirrando. De qualquer modo, como qualquer outro estilo, o funk tem também várias vertentes e vai se misturando, Há funk que namora o rap, o samba, o rock, o eletrônico... por ai vai. 
Li em algum lugar que a Valeska Poposuda modificou a letra do seu antigo hit Beijinho no Ombro, por considerar que ele incentiva uma disputa vazia entre mulheres. De fato, na periferia, onde a maior parte das casas é sustentada por minas, o empoderamento e a cooperação feminina é questão de sobrevivência. Deixe para as estudantes da escola de princesas se puxarem os cabelos por causa de homem.
Achei muito roquenrou a atitude da Valeska, como acho a MC Carol muito roquenrou e várias outras minas que estão chegando e apontando o dedo na cara da sociedade.
Não sou muito adepta do rock clássico. Minhas bandas sempre misturavam estilos e as novas bandas livres que estão rolando, retomando a tendência em renegar um "estilo", não aceitando que lhes imprimam um rótulo, são as que mais me agradam. Isso sim é rock, no sentido de atitude diante da sociedade.
Com certeza, você vai me falar de gosto musical, que está além de atitude e letra. Concordo, há bandas com letras extremamente babacas mas os caras tocam muito. Mas como eu canso de escutar sempre a mesma coisa, sigo pensando que o rock clássico se basta nas primeiras bandas, há décadas. Não vejo graça em escutar guris fazendo um cover disfarçado de autoria. Existem vinis antigos que os seus avós podem lhes apresentar. Hoje ninguém mais precisa sair de casa pra escutar uns carinhas cantando que "óh garota, eu sou foda, eu sou sujo, eu fumo muito baseado, eu vou te comer." Vai nada, você é só imagem!
Inclusive, como o rock tradicional está velhinho, acho que nunca veremos um ídolo aparecer na mídia, com seu botox, fazendo um mea culpa, como fez a Valeska Poposuda e modificando alguma letra que, há 30 anos, faz adolescentes baterem cabeça enquanto entoam que meninas são vadias e eles podem matá-las caso elas transem com outros caras.

Um beijo
biAhweRTher

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Noventa e Poucos.

O Cristiano estava há tempos esperando eu digitalizar alguns materiais que ilustrassem uma entrevista sobre os tempos em que convivi com o Flávio Basso. Tomei vergonha (ou coragem) e encarei de frente meus vinte e poucos. É que sou de viver intensamente a hora exata e virar as páginas sem culpa. Tenho essa mania de achar um saco essas pessoas que vivem de lembranças... Sou fascinada pelo presente. Contudo, surpresa, quando a gente fez coisas incríveis pode ser muito divertido fuçar nas memórias.
Caixas, caixas, caixas e caixas num quarto que existe aqui em meu lar estúdio. Um aposento mais reverenciado do que organizado, onde você abre a porta solenemente caso seja convidado... Quantas coisas fizemos cedo demais, a ponto de alguns já terem morrido, cedo demais.
A princípio eu procurava só pelo Júpiter no Megazine, mas sendo que estou desenhando meu novo site e blábláblá, não apenas ressuscitei materiais para o meu filme, O Garoto de Júpiter, como fui submergindo em dezenas de outros nomes, rostos, momentos, motivações.
Lembrei que por um tempo tivemos um jornal mensal, um tabloide intitulado Megafolha, prova viva, juntamente com alguns flyers, de que naquela casa em surto toda a cena bebia, vendia demos e zines, fazia poquet shows, cineclubes, happenings, exposições, discursos e até um sexo rapidinho no banheiro da produtora, que ficava no andar de cima. 
Creio que não sabíamos bem o que estávamos fazendo. Na verdade, tínhamos uma casa anárquica onde podíamos mostrar nossas invenções e receber outros jovens artistas que também faziam o que bem quisessem. 
Em resumo, o Megazine foi uma viagem de apenas dois anos que valeram 20 e ninguém que tenha hoje 20 sabe do que se trata até porque, como eu disse no começo, costumo virar as páginas e não ficar remoendo o passado.
Neste final de semana arregaçamos as mangas e começamos as digitalizar aquele planeta inteiro. Estremeço. Parte da nossa história, cerca de 200, 300 artistas da minha geração ou já mais velhos na época, passavam por uma porta que eu mesma pintara como quem constrói uma casa na árvore.
Eu pensava que era só uma brincadeira, hoje percebo que era um eixo do modo de vida nos anos 90; um gosto que nunca mais vivenciaremos e precisa sair dos meu enorme armário pra respirar. 
Aquela festa meio grunge, meio psicodélica. embalada pela MTV, foi mais relevante do que eu, uma das jovens anfitriãs de Porto Alegre naqueles dias, imaginara. Hoje diríamos que era "tendência" pessoas muito jovens administrarem espaços onde outros jovens podiam entrar e fazer o que bem entendessem enquanto os vizinhos chamavam a polícia. Hoje, aquela bagunça juvenil até as 6 da manhã, seria impossível na cidade do Júnior.
E nesta lida da recuperação da memória, o primeiro material que resolvi publicar se trata de um texto que André Arieta, aos 23 anos e pai do meu filho, à época com apenas dois, escreveu para o Megafolha, sobre a morte de Kurt Cobain. 
Até onde me recordo, o Megazine existiu entre 1995 e 1997, quando fechamos as portas pois tínhamos resolvido passar a fazer só filmes - película, por favor! Super8. 16mm, 35mm - mas essa história é por conta do Cinema8ito.
O texto nesta imagem do nosso jornalzinho foi escrito pelo André em 1994, quando da morte de Kurt, o que pode significar que foi uma publicação tardia ou que, distraída, estou errando em um ano o período em que existiu o Megazine. Mas isso pouco importa por enquanto. 
Leiam, é bonito.
biAhweRTher

terça-feira, 20 de junho de 2017

Unfocused Antenna

Me pergunto como se sentem os demais artistas que ousam a multi expressão quando a especialização, a exigência de "foco", a expectativa de que nossos corpos, dons e vidas estejam cada vez mais divididos em micro gavetas dentro de micro compartimentos.
Fico curiosa em saber como os outros multiartistas se resolvem na sua relação com a imprensa (é um dos maiores problemas pois releases exigem um modelo e nós não usamos moldes); como se entendem com a diversidade de clientes, parceiros, associados, fãs e até haters que não sabem bem o que odiar em você.
Ando faz horas querendo inventar uma discussão, um encontro mesmo, entre pessoas que, como eu, dizem a cada fase do ano uma profissão quando lhes perguntam. Tem dias que estou artista visual (confesso que gosto quando meu trabalho pode ser identificado como tal pois é uma definição bem genérica), há dias que sou fotógrafa, contista, cineasta, musicista, trilheira, designer, VJ..
Tenho DRT como diretora de arte e roteirista, mas nos meus filmes faço do argumento até a edição... O preconceito é horroroso. Já vi muitas pessoas técnicas dando um risinho sobre nós, "faz-tudo" que tiramos o trabalho de pessoas especializadas.
De fato, o processo de expressão do artista é muito mais subjetivo do que objetivo - ou deveria - e cada trabalho é um. Há momentos em que você percebe que precisa trabalhar com 40 pessoas, há outros em que assina tudo, não precisa mais do que a sua solidão.
Fácil não é. Você precisa dominar muitos softwares, linguagens, nomenclaturas, sensações, técnicas, conceitos, problemáticas, filosofias, especificidades, generalizações...
Um dos desafios é a parte humana. Isso de você não ter os tiques de uma turma específica.
Sabe? Não tem o churrasco da firma e não chega a saber as fofocas íntimas de ninguém. Ninguém perdoa uma pessoa que não faz parte, que não se identifica de cara com um grupo e suas piadas internas.
Há dias, em que sinto vontade de conversar com profissionais como eu, sobre as saídas pra sermos respeitados, mesmo não sendo entendidos, pois não é pra nos entender. Você entende aquele que responde, mas creio que somos pessoas que só fazem perguntas quando estão cuidando de suas atividades e tornando público o seu trabalho.
Há de tudo na minha não-rotina de trabalho, menos segurança, menos a concretude de uma profissão tradicional. Você se pergunta todos os dias sobre porque todos a sua volta sabem explicar em uma frase o que fazem profissionalmente.
Pra piorar, você sabe, sabe muito bem que você nunca mais vai tentar escolher entre todas as atividades que você ama, ainda que você tenha que morrer com 200 anos pra ver finalizados um terço dos seus planos. Se você decidir hoje que vai abandonar todo o resto e ser só fotógrafa, por exemplo, no meio da madrugada você vai acordar com uma poesia ou um vídeo na cabeça e quando o sol nascer tudo vai estar ao mesmo tempo mais uma vez.
De tudo isto, a única certeza que eu, pelo menos, tenho é que nada do que eu faço é um projeto sozinho. Todas as minhas obras são a continuidade de um trabalho só que os outros talvez entendam depois que eu estiver muito velha ou muito morta pra estar em atividade.
Talvez seja por isto que tanta gente não entende o que fazemos. Talvez seja porque nossos projetos sejam todos parte de um mosaico que nós não terminamos ainda e, assim, um dia, cada pessoa que participou de algum modo, que comprou, contratou, assistiu, entendeu ou odiou seja parte de uma obra única que a gente fez pela vida toda e talvez ninguém saberá pra que serviu exatamente isto mas conseguirá ver o seu todo, completinho.
Um beijo.
biAhweRTher

terça-feira, 6 de junho de 2017

PSEUDO ARROZ E PORTA RETRATOS

Há alguns dias,
uma professora de Educação Física, em Curitiba, percebendo que os seus alunos eram agressivos demais e humilhavam os menos fortes fisicamente, pesquisou um método para ajuda-los a repensarem suas atitudes.
Ela apresentou uma dinâmica com dois potes cheios de grãos de arroz para incentivar as crianças a pensarem nos danos causados pelas palavras de ódio entre si. Ao gritarem palavras de incentivo a um pote, o arroz ficava branquinho; ao dizerem impropérios ao outro, o arroz ganhava bolor.
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Ela poderia ter usado outra mágica, como um conto de fadas, mas preferiu a interatividade.
Não deu outra. Surgiram alguns certos de que ela tem um dom divino e outros muito revoltados.
Parte da internet gritava que a educadora estaria fazendo pseudo ciência e surgiu quem pedisse punição e "intervenção" da Secretaria de Educação, pois haveria uma fuga de conteúdos científicos, dos programas, temas que deveriam ser rigidamente definidos para serem tratados em aula. Pior, parece que ela tirou os alunos da sala e os levou para um ambiente mais ensolarado.
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Apesar de as matérias deixarem claro que se tratava de uma professora de Educação Física, li uma senhora preocupada sobre o que deseria um professor que leva alunos para o pátio, para algum parque, para longe do ambiente tradicional de aula para lhes incutir pseudociência?
Curioso é que a professora não falou em Deus, não pregou alguma religião. Ao que se sabe, ela quis aliar humanidade às rotinas. Era só uma aula alertando contra os males do bullying que, já no meu tempo, quando eu era atleta na escola, rolava muito pesado nas aulas de Educação Física por motivos óbvios, é onde se destacam as lindas e fortes.
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Entre os revoltados, muitos se apresentam orgulhosos estudantes de Direito ou Medicina e, portanto, sabem o que dizem. Adorei ver que as pessoas médias, no país, ainda sonham que Médicos, Engenheiros e Advogados estão acima dos demais. E achei lindo ver pessoas que, embora acadêmicas, claramente não tiveram muitos exercícios lógicos, argumentativos; nem uma mera dissertação básica nos tempos de escola. Sequer uma aulinha de pensamento, filosofia, matemática das ideias....
Essa notícia me lembrou que estamos querendo a todo o custo eliminar as disciplinas humanas das escolas e que universidades caça niqueis, vendedoras de diplomas estão chovendo aos montes no país com programas mais "enxutos".
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Lembrei ainda que fomos criados correndo atrás de canudos em branco e que os mais dignos de orgulho nas famílias são os que preferem ter um diploma em uma péssima faculdade propagandeada no camburão do Huck do que ter uma profissão - "superior" ou não - que os satisfaça intimamente (há postos técnicos carentes de profissionais no país, então muitas empresas buscam profissionais no exterior).
Lembrei ainda dessa notícia sobre os jovens de classe alta de ensino médio de duas escolas em Porto Alegre, que promovem festas onde se fantasiam de trabalhadores sem canudo, considerados como pessoas que não deram certo.
Mas se o trabalho que faz a base da sociedade onde vivem os príncipes e princesas é "sub profissão", o arroz bolorento da professorinha de Curitiba não é o suprassumo da verdade, o resumo mais fiel da sociedade brasileira?
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O pseudo ensino, no Brasil, é uma bagunça que começa anos antes, na pseudo família.
 Pessoalmente, frequentei 3 faculdades em 3 grandes universidades diferentes em períodos diferentes. Era sempre igual. Noventa por cento dos estudantes não quer pensar a instituição como um espaço social do qual faz parte ativa e não passiva; logo, ao passar por ele, você tem que criticá-lo, vivenciá-lo e deixá-lo diferente e melhor para os próximos, de modo que seja garantida uma continuidade evolutiva.
Nah! Tudo é sempre bobinho. Entre decorar textos ou fazer copy past do google, colar nas provas, fumar um baseado, ser o mais bem vestido ou o mais revolucionário de ocasião... a maioria escolhe alienar-se, aguentar o que for ruim, não olhar para os lados, fazer ou copiar os trabalhos, pegar logo o diploma e correr para o porta retratos.
É possível que boa parte dos universitários do país esteja com o pavio curto porque estuda o que não gosta ou faz o que gosta mas tem que enfrentar brigas com as pessoas que pagam seus estudos.
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Acho interessante pensar nesse ingênuo episódio da professorinha e os potes de arroz pra ver o quanto estamos afundando pra além do fundo do poço como sociedade.
E mais interessante ainda é pensar que, diante dessa caça aos diplomas, qualquer um que ame sua profissão precisa tomar muito cuidado na nova velha sociedade que o Brasil reinventou.
Só que, talvez, os professores precisem tomar mais cuidado ainda.
Mais do que jornalistas de fato, artistas críticos ou policiais honestos, talvez os professores sejam os profissionais mais oprimidos entre Religião e Ciência - onde uma pode ser a outra.
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A piada é que no resto do mundo os buracos negros da religião e da ciência estão conversando e encontrando elos.
Será que o Brasil agora é uma país fundamentalista?
Não sei, só sei que eu não aguentaria lecionar para crianças e jovens neste nosso momento. Na minha memória de criança, criar estratégias para que seus alunos se humanizassem ou se interessassem pelos conteúdos, fazia um professor se destacar positivamente diante da maioria das famílias, escolas e estudantes. Esses foram os professores que a gente trouxe pela vida, nunca os que nos humilhavam ou incentivavam atos de preconceitos. Hoje, incentivar que alunos de classe média sintam vergonha de prováveis familiares sem diploma é motivo de festa; criar modos de despertar nos alunos um olhar menos bolorento e mais igual, já pode ser motivo de apedrejamento.
Um beijo.
biAhweRTher

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O Paul, As crianças, A vaca e o Frango.

Quando escuto a marca Paul McCartney não me dá vontade de pagar muitos dinheiros pra ir no seu show. O nome, hoje em dia, me remete a coisas como o projeto "Segunda Sem Carne". Foi ele quem lançou o “Meat Free Monday" na Grã-Bretanha.
A propósito da cultura de comer carne versus o atraso no debate sobre o holocausto animal e as propagandas sinistras de produto feito de sangue, tenho minhas dúvidas quando mostram as crianças que nascem veganas como uma novíssima geração que está começando a chegar iluminada.
Acontece que minha irmã mais velha nasceu vegana e sei de outros casos. Assim, do nada, no meio de uma família de estancia. Eu mesma vim num parto humanizado numa cama de fazenda e há parentes vários que trabalham com gado, cavalos e essas lidas por este país. Deve ter sido um susto a outra chegar dizendo que bicho ela não iria colocar na boca.
Ok, não duvido que estejam ocorrendo mais e mais casos de crianças que já nascem sabendo, mas me parece que também há mais pais que não obrigam as crianças a comerem carne. A evolução é natural. No caso da minha irmã, o raro mesmo foi meus pais não a obrigarem a comer carne. Ela era uma criança que hoje chamariam de índigo por diversos motivos além deste, então acho que não saberiam dizer não a ela. E não tinha nada a ver com saúde ou vaidade, era uma questão de não comer seres sencientes.
É bonito isto, quando a maioria de nós tem que passar a vida se debatendo num assunto tão óbvio.
Na verdade, o que sobra em capacidade de sentir, coexistir e da razão do existir em muitas espécies escravizadas, nos falta como humanos.
Vejam que nosso dilema é ter que decidir entre o cheirinho do churrasco e a lágrima de um ser escravo que vive no aguardo de ser trucidado a pauladas e chutes, muitas vezes ainda bebês.
Todo mundo sabe, todo mundo vê o que estamos fazendo de horroroso, mas todo mundo acha "bichisse" pensar nisto.
Bom almoço \o/ Eu vou ficar só no cafezinho hoje.


Um beijo
biAhweRTher

sábado, 29 de abril de 2017

O Elo.

Todo mundo sabe que não acredito que pessoas adultas são as que tem mais poder de compra.
Acho que adultos são aquelas pessoas que já entenderam que gente grande é uma ponte, o elo entre os que estão nascendo e os que estão chegando ao fim.
Ando faz dias pensando
sobre nossos velhos pais e avós (pra quem ainda os tem).
Hoje mesmo, estive conversando com uma amiga sobre como cada velhinho está enfrentando essa fase da vida, quando se deparam com solidão, preconceito, dores...
Estou percebendo alguns idosos felizes e cheios de graça, outros ranzinzas e sem paciência... Mas todos nos deixam preocupados, sem dúvida, pois ficam mais a mercê das maldades do mundo.
Claro, cada pessoa é uma pessoa, mas estou começando a ver o quanto é fundamental nós sermos corajosos ao longo da vida. Sermos verdadeiros, não guardarmos nada, não fingirmos o que somos, não cedermos ao senso comum, não nos obrigarmos a um modelo, padrão de comportamento que nos sufoque, que nos faça guardar a verdade do que somos nas profundezas secretas.
Desavisados e egoístas, pensamos que ao ficarem velhinhas as pessoas, tal qual os bebês, não seguram apenas o xixi, os gases. Só se pensa nisso.
Mas tem outra coisa que pessoas mais velhas soltam. É a personalidade, que fica mais livre. Eles se mostram e a gente nem sempre percebe.
Se você passar a vida fingindo ser o que não é apenas pra agradar, você pode se tornar um velhinho ácido e com mais dificuldade de socializar.
Velhos não são apenas corpos delicados, são um infinito interior. Velhos são mais vida do que morte.
Então, me preocupo com nossos velhos porque nossa vida atual de adultos nos deixa sem tempo e não sei se estamos educando os mais novos a serem melhores do que nós em relação aos velhos.
E sobre nós mesmos, como faremos quando
somos uma geração quase sem filhos? Muitos com apenas um filho, outros optaram por não tê-los e outros por serem pais aos 40 anos.
Ou seja, já percebemos que quando for nossa vez nós talvez sejamos uma geração de solitários em milhões de apartamentos, viciados em remédios,
pois nós mesmos dividimos as pessoas em gerações e interesses excludentes como nos comerciais?
E me pergunto se não somos infantilizados demais numa sociedade que comercializa a eterna juventude, de modo que não saberemos ver as muitas belezas de histórias vividas pois só pensamos em bobagem. (Leio muitos textos de velhos azedos dizendo que não há nada de bom em ser velho).
Não consigo acreditar que não existe beleza na velhice, pois se você tiver coragem de sair por aí abrindo as portas e sabendo escolher os nãos e os sins que não trairão a sua transparência, você talvez se relacione com mais felicidade com o inevitável ponto final. Você entenderá sua utilidade.
Nada é mais lindo do que não se arrepender dos arrependimentos. Nada é mais tranquilo do que ver o tempo como uma parte de algo imenso e não um filme de terror. Deve ser triste passar a vida escondendo você de você mesmo e dos demais. A velhice das pessoas demasiadamente controladas e obedientes pode ser mais revoltada do que um adolescente.
 Sei lá... Ando pensando nisso tudo, pois muitos da minha geração estão levando um susto ao descobrirem que os pais estão velhos e a gente, muitas vezes ainda com reações adolescentes, não viu que agora está chegando uma outra fase, a de cuidar dos velhinhos, perdoá-los pelos erros, ter paciência para a troca de papeis, arranjar tempo pra ser a ponte. Nós no meio, no olho da pré e pós memória, o elo do qual depende a continuidade.
Um beijo, vou pra rua louquear enquanto é tempo. Tentar despir meu eu pra não perder tempo.

biAhweRTher

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Anorexia

Fazer greve é incomodar, paralisar o que não vai bem.
Sendo assim,
fazer greve hoje, no meu caso, é existir, insistir e trabalhar porque nossa existência incomoda mais existindo.
Sendo artista, a frente de uma startup que 90 por cento dos possíveis investidores (inclusive as instituições públicas) não entende pois é desconstruída, pensei... pensei...
e cheguei a esta conclusão.
É trabalhando que gente como nós incomoda uma sociedade que olha pra nossas obras, textos, ideias e confrontos e pergunta onde está o trabalho e nos tem por vagabundos.
Quem sentirá minha falta se eu hoje fizer greve e não escrever uma crítica sobre a superficialidade dos adultos brasileiros e um machismo que derruba as fronteiras entre direitistas e esquerdistas em ambientes de trabalho?
Se eu parasse hoje, no máximo, atrasaria ainda mais algumas contas que nem são minhas, mas da sociedade que troca cultura e arte por entretenimento e pouco apoia mas exige gratuidade.
Quem perderia com a minha parada? Alguém perdoará os trabalhos e pagamentos que estão atrasados.
Meu patrão são todos e quem quiser.
Greve contra os trabalhadores da cultura a esmagadora maioria da sociedade faz todo santo dia, nos esmagando contra os muros; nos escondendo nos sótão e porões de suas vidas; nos excluindo, tanto que muitos cidadãos tem raiva de greve pois incorporaram dóceis a cultura da submissão.
Greve, os trabalhadores da cultura e do auto retrato social fazem todo santo dia contra sua própria sanidade, para conseguirem levar projetos para um país que os desdenha. Independente da posição política, a política da maioria é consumir mais e mais produtos industrializados; mais e mais roteiros adivinhados.
A greve no mundo dos artistas - não marionetes da grande mídia e das majors, falo de artistas de fato - é a de fome.
Estou trabalhando hoje e esta é a minha greve. E não me importa o que os detentores do pensamento crítico com suas mãos macias, sentados sobre seus textos acadêmicos e títulos me digam a respeito de traição. Eu hoje estou trabalhando.

sábado, 15 de abril de 2017

Beco do Batman

Peguemos dois pontos a respeito da arte no mundo contemporâneo:

Peguemos dois pontos a respeito da arte no mundo contemporâneo:

1) Arte de rua é tão arte quanto a arte de museu. Não adianta o leigo ou parte dos entendidos espernearem que sua reprodução na sala, dividindo espaço com a tela gigante de tv é mais respeitável. Não pague mico, você lacrimeja diante da obra do Basquiat, se masturba por Nova Iorque, então caia na real. A arte escapuliu dos espaços sagrados, limitados à alguns entendidos e colecionadores com tacinha na mão e um dicionário de sinônimos.
2) Seja nas novíssimas e diversas expressões, seja na arte clássica, a obra se separa do autor, como um filho sai da casa do pai, leve consigo uma herança ou uma porta na cara.
Ou seja, não é de arte que falamos quando um senhor toca tinta cinza sobre obras de rua, inspirado em um prefeito playboy, colecionador de relógios de ouro.
Quando alguém se desentende com um artista arrogante e cobre sua obra com tinta cinza, estamos falando de política e ignorância.
Nem os piores fascistas desconsideram a arte, é só ver os espólios de guerra. Quem depreda a arte são os extremistas religiosos, com sua política de fingir que a história pode ser apagada.
Por exemplo, Monteiro Lobato era racista, porém os mais lúcidos não entendem que sua obra deva ser queimada em praça pública num Fahrenheit 451 às avessas. Na história da humanidade encontramos artistas que serviram aos piores fascistas, há mafiosos e líderes religiosos medievais; outros abusaram de mulheres ou foram até assassinos.
Ou seja, se alguns artistas de rua se tornaram invasivos, você não muda sua relação com a sociedade, matando suas obras.
Você não coloca em julgamento a obra, entende? Ela é para discutirmos nosso estado de vida, de morte, de direito, de opressão.
A arte é a parte boa. o resultado, o espelho. A parte a qualidade, o preço do pincel utilizado; se o suporte é o muro ou a tela; o tema ou não-tema, o local onde está exposta, o discurso, a possibilidade de ser levada no bolso ou modificada pela chuva.
A arte é a discussão em vida e depois da morte.
Um beijo.
biAhweRTher

quinta-feira, 6 de abril de 2017

S O L

Encontrei este texto, de 6 de abril de 2013, no meu segundo perfil do facebook.
Não é um material tão incrível, penso eu, como leitora. Contudo, me trás a memória de um momento importante da vida, de início de uma longa transição, o encontro comigo e a necessidade da solidão. Tomada de decisões que me levaram à atual fase profícua e entre muitas pessoas... Além do mais, algumas leitoras que admiram minha escrita se sentiram tocadas quando publiquei.
Assim, copio aqui no blog pra não perdê-lo.
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S O L

Solidão deveria ter outro nome. Deveria ser um palíndromo que começa e termina com sol.
Nunca parei antes a comparar as intensidades da solidão sozinha e da solidão acompanhada. 
Essa semana, nas passeatas, eu encontrava e me perdia dos amigos. Prender-se, perder-se. Su-bli-me! 
Até os 18 anos eu tinha uma coisa que um espírita chamou de desdobramento e a psicóloga chamou de: hum-hum. 
Era mágico. Muitas vezes, quando estava na minha cama, eu me via, fora do corpo. Queria pedir ajuda, claro. Mas quem diz que a voz saía? Minha consciência estava com o corpo de cima, que voava sobe mim, preso ao meu corpo real por feixes de luz multicolorida que saíam do meu umbigo. Um dia, vivo, meu segundo corpo quase saiu pela janela, flutuando. Pavor! E se eu nunca mais voltasse em mim?
Casualmente, quando eu saí da casa de meus pais pra descobrir o mundo, nunca mais vi os feixes de luz saindo do meu umbigo. O que não significa que não tenho mais de um corpo, um na terra, outro no céu, mas não consigo mais ver aquilo que os prende um ao outro. O certo é que, hoje, aprecio como se fosse um orgasmo quando me perco na multidão. O corpo que voa, saindo pela janela, deixando o outro ali a descansar seus medos.
A propósito, acho que já escrevi várias vezes sobre isso, de não saber nada sobre turmas e bandos. Distraio-me e traio (não confundir lealdade com fidelidade, por favor!).
É uma emoção sem limites falar com estranhos – que são todos - num diálogo contínuo, pela vida afora. Uma vez, as 6 da tarde, no meio da Cinelândia lá no Rio, eu e um amigo começamos a gritar coisas loucas de braços abertos, rodando e, ao nosso redor, todos estavam loucos, vendendo, tocando guitarra por moedas, falando de futebol, discutindo, se rindo, reclamando da chuva, correndo pra algum lugar. Ninguém nos via!!! Foi nesse dia que tive a certeza de que pode ser lindo quando ninguém me percebe.
Nesse mundo cheio de bengalas que nós inventamos pra fugir de nós mesmos, talvez o mais próximo do auge de liberdade que possamos conhecer, seja estarmos sós. De preferência, sem referências, mas daí é pedir demais. Fechar-se num pequeno grupo talvez dê uma sensação de confiança. Assim, você é sempre obrigado a ser muleta de alguém e, claro, exigir que outros se prestem ao mesmo papel.
Hoje, tirei a tarde de sábado pra esse silêncio da garganta, falação dos pensamentos. Algumas horas sem ninguém é tão ou mais incrível que as festas loucas entre vários amigos, bebendo, fumando, dançando.
Nunca perguntei se todos pensam como eu, se todos sentem essa mesma explosão luminosa, metafísica, quando tiram um tempo pra se sentirem sós, soltos no mundo, pequenos, uma gota, uma bolha, um micro ponto.
Não consigo lembrar-me quando foi a primeira vez que me escondi das outras pessoas a pensar, ler, fotografar, fazer nada, olhar as nuvens, sentir o cheiro dos jasmins lá no sítio. Desde que me conheço por gente, faço isso, eu fujo em direção a ninguém. Depois, já adolescente, veio essa mania de viajar sozinha, perder-me, falar com estranhos, sumir. Insegurança de não ter ninguém ao redor que saiba meu nome. Ninguém a me julgar, ninguém para me ajudar. 
Combustível. Substância. Solidão. 
Sol
Uns emprestam sua companhia, alguns se prestam, outros se dão.
Lua. Vou a uma festa!
biAhweRTher

sexta-feira, 10 de março de 2017

A minha parte mais bonita.

As mudanças que se operaram em mim, para melhor, vem do meu feminismo. Esta verve, esta coisinha, essência que estava aqui desde que eu era um mero grão e que tentaram sepultar desde cedo, então só se mostrava quando me sufocavam pela décima vez, quando me oprimiam de novo, quando me abusavam novamente. O feminismo em mim só vinha em forma de raiva, de ira, de revolta, de urro, de não aguentar mais, tornando-se uma parte difícil, um lado meu do qual me peguei tento vergonha muitas vezes porque ele era rude e o usavam contra mim, me apontando, me excluindo, me julgando.
Porém, num certo dia quando acordei, notei que ele estava livre, solto no meu peito, na garganta, pelo quarto. E era parte real, fluído, natural, belo, intrínseco.
Um dia - ou aos poucos - não vi mais sentido em envergonhar-me do meu estado crítico diante do meu eu covarde e da cultura que me rodeia.
Meu feminismo já não precisava ficar oculto até não poder mais.
Meu feminismo, num certo momento veio todo, floresceu em mim e não havia mais como separá-lo de qualquer das minhas células, poros, neurônios... Descobriu a senha, me tomou toda e ficou plácido, me trouxe respostas.
Nunca fui tão bonita porque meu feminismo é a melhor parte de mim; nunca fui tão completa, nunca tão honesta, tão tranquila e tão segura... Nunca fui tão feliz antes de entender que feminismo é o meu feminino liberto dos modelos, meu eu sem máscaras, minhas vontades respeitadas e minha coragem aumentada.
Se eu gritar é porque preciso, se eu sorrir é de verdade, se eu trepar é porque quero, se eu chorar é porque sou humana, se me revoltar é porque penso, se sou perfeita é porque sou imperfeita, se estou linda é porque sou única, se digo não é porque não. 
biAhweRTher

quinta-feira, 9 de março de 2017

Dando a luz.

Hoje estávamos iniciando a pré-produção das montagens do eixo de Artes Visuais do FLõ festival do livre olhar, lá na La Photo Galeria e numa certa hora uma chuva gigante veio lavando tudo e trazendo a noite. 
Algo começou a mudar dentro de mim naquele momento. Vi minha equipe se empoderando, sentindo-se dona do festival. Fiquei pequena, observando. Meu nervosismo de pré festival foi dando lugar a uma sensção de segurança e paz. Vi as pessoas que eu apresentei umas as outras convivendo, trocando ideias e se tornando amigas, tomando pra si decisões, enriquecendo o nosso mundo.
Percebi que chegou o momento em que o festival se liberta um pouco do meu útero criativo, intelectual, conceitual.
Senti que ele começa a tomar forma não só a partir dos meus sentidos, leituras, interpretações.
O Bom Fim estava às escuras, andei nas ruas e, pela primeira vez em meses, tive uma necessidade de perder o controle do que acontece, descansar algumas horas da liderança.
Comprei um malbec e só penso em ficar sozinha ou com alguém que não esteja sabendo nada sobre o festival.
Vejo pessoas que não conheço divulgando e comentando os eventos. Assisto os artistas (são cerca de 100 obras/projetos no programa), mais de 300 envolvidos direta e indiretamente em cada exposição, espetáculo, sessão de filmes...
Observo-os partilhando orgulhosos suas participações, alguns sem mesmo saber que há uma pessoa chamada biAhweRTher que inventou esta casa cheia de janelas.
É que não importa quem foi, importa quem seremos.
Nunca desisto do que eu quero, sou workaholic e idealista no nível máximo. O envolvimento das pessoas é diretamente proporcional à minha paixão, mesmo que eu, em algum momento, já não tenha a mínima importância.
O festival é como nossos filmes, nossas músicas, nossos escritos e invenções. Há o momento em que não temos mais domínio algum sobre elas.
Ainda assim, apesar de isto ter crescido e não ser mais só um projeto meu no silêncio do meu lar estúdio, eu consigo entender onde eu queria chegar e sinto orgulho de mim, por unir tantas pessoas, por fazer o quase impossível num país que odeia artistas independentes.
É como estar sentada sobre essas nuvens cinzas, sentindo o ar mais fresco e gostando de si mesma.
Sem falsa modéstia, não sei porque eu faço tudo isto, mas sei porque aprendi a gostar de mim.
Que a semana do dia 21 a 26 de março de 2017 seja o melhor que pudermos fazer, ser e subverter.
Um beijo

biAhweRTher

quarta-feira, 8 de março de 2017

O PECADO INFINITO.

É sobre levar o mundo nas costas desde que nos conhecemos por gente, sejamos anarquistas, subversivas, carolas ou niilistas; libertárias, covardes, amordaçadas no porão, de baton, tensas, intensas, vazias recatadas do lar. O elo é uma ferida.
É sobre o fardo e um grito. 
E é sobre essa emoção que está envolvendo boa parte de nós no mundo inteiro no dia de hoje. 
Cada uma é um pequeno mundo gerador de vidas e de mortes - normalmente a própria.
Apenas mais uma, me sinto uma formiguinha, me sinto um dragão, uma leoa, uma ET, uma moça que usa o manto da invisibilidade... Só sei que estou com borboletas no estômago, na garganta está meu coração.
E sendo prática, preciso, devo parar algumas horas para participar da mobilização mundial de hoje. Como dizemos no cinema8ito... 8... i n f i n i t o, 8ito é par, 8ito é coletivo.
Se eu não for encontrar minhas iguais hoje, se eu não sair às ruas, minha culpa será imensa.
Se eu for, a produção do FLõ festival do livre olhar vai parar por algumas horas e minha Culpa também será imensa.
C U L P A. A chave que manipula as minas e nos torna, HOJE, manas. Culpa, o segredo criado pelas instituições para controlar nossos passos. Seja ateia, seja carola, seja puta, seja virgem, seja velha, seja nova, há sempre um espectro apontando um delito inexistente, eficiente.
Precisamos discutir, superar,
desconstruir a culpa.
A propósito de pecado, esta foto foi censurada várias vezes pelo facebook. Fiquei de "castigo" por publicá-la inteira então, aqui, a cortei. Certa vez, um rapaz, ao vê-la, me disse que sentia nojo e avisou que estava "denunciando". A expressão denunciada, censurada, era só minha pele nua suja de vermelho. Infração.
Um beijo e força para todas as manas neste dia de LUTA! Que todos os dias sejam assim. Que não exista competição entre nós, só o olhar e a voz de cada uma, diferente, única, a complementar os milhões de outros olhos e vozes. #NenhumaaMenos
biAhweRTher
Clandestina
Biah Werther II


terça-feira, 7 de março de 2017

Pelos Pelos

Existe cultura, cultura, cultura e cultura. Umas para nosso sim, outras para o não.
Quando eu tinha uns 13 anos comecei a depilar partes do meu corpo por uma imposição. Cegamente comecei a fazer algo que nunca tinha feito parte dos meus pensamentos a respeito do meu corpo porque algumas amigas começaram a me cobrar isto e alguns meninos riam de meninas com pelos no corpo.
A primeira vez fiz escondida de minha mãe, usando um aparelho de barba do meu pai. Cortei minha perna embaixo do chuveiro e saiu muito sangue. Me senti num rito de passagem sozinha naquele banheiro de azulejos azul calcinha.
Foi ruim passar a fazer parte de tal cultura, espécie de obrigação.
É tão fora dos meus valores, tão irrelevante me depilar para me sentir mais mulher ou mais bela, que nunca fui num desses lugares onde as mulheres se torturam com ceras quentes. Só conheço pelos filmes e acho meio ridículo.
Hoje, infantilizar o corpo da mulher tirando todos os pelos, em determinados nichos, é uma obrigação, uma lei. Claro que não faço parte disto, mas me depilo como quem carrega um fardo. Pra ter menos trabalho e porque me machuco  s e m p r e  com lâminas, compro uns cremes caros que facilitam mas pesam no orçamento, então eu sou daquelas que podem passar por você de biquini na praia toda linda com os pelinhos das pernas bem faceiros e se você não curtir dou muita risada e penso:
Você tá revoltadinha porque ainda não me viu no inverno, por debaixo de mil casacos!!
Depilação não é higiene. Higiene é banho. Depilação é uma bobagem cultural pra agradar caras machistas e uma sociedade patética que quer todas as mulheres fingindo que tem doze anos para excitar senhores pedófilos.
Um beijo.
biAhweRTher

domingo, 5 de março de 2017

Fastfood de carne humana.

Desconfio de quem consegue sorrir, dormir, entrar num fastfood, neste domingo, 
sentir-se em casa dentro do ambiente frio de cores estudadas e mensagens subliminares.
Não confio em alguém que consegue viver normalmente após o assassinato do menino João,
que teve seu frágil corpo espancado até a morte por seguranças do fastfood Habib's. 
Ele foi jogado na calçada a espera dos corvos da nossa cultura: Nós.
O apelo que todxs devemos fazer não é o da hashtag do dia para amenizar nossa responsabilidade.
O apelo é para nossa própria consciência, ao som dos gases de nossas entranhas.
O apelo é diante do espelho, é sobre empatia.
Sinta vergonha se você é um pai que pensa que só importa na sua sociedade aquilo que acontece "da porta pra dentro", pois sua ignorância o impede de entender que somos um corpo só.
Envergonhe-se se você é uma mãe que ensina competição e arrogância pois dignidade, amor e respeito são direitos de todos, não apenas dos seus filhos.
Não se iluda, não se entenda imune, não se julgue imaculado.
Cada um de nós matou João e matamos a cada minuto dos nossos dias boçais todos os outros meninos e meninas sem lar, viciados, sem pais, sem país, com seus olhos que são o espelho do qual fugimos idiotizados, ruminando, rosnando, correndo dessas crianças como se os monstros fossem eles e não nós.
Todas as crianças são de todos os pais, responsabilidade de todos. Assim está escrito nas leis mais básicas de todas as sociedades desde que o mundo é mundo. Você não sabe porque está ocupado fazendo compras e chutando crianças de rua.
Se você não sabe nada sobre isto, está na hora de entender antes que seus muros não sejam suficientemente altos para segurar a culpa lá fora. Sinta medo de você mesmo, tome um banho na vergonha e mude antes que o seu bunker seja invadido por você próprio, pelo lado seu que está lá fora, espelhando o seu escárnio. Todo o ódio que se revelará contra a injustiça e virá contra você, emanou do seu egoísmo. Não haverão muros suficientes. Você não é vítima, você é cumplice.
#BoicoteHabibs
biAhweRTher

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Mãe Artista

Sempre fui a mãe menina, amiga, companheira, baixista, parceira de pular na cama até quebrar as molas do colchão tri caro e ficar um sábado todo assistindo maratona da Hora de Aventura. 
Nunca mandei nada, tudo decidido democraticamente. Não creio em organismos verticais.
Quando ele estava na barriga eu era o auge do grunge. Minha banda até nem tanto, mas eu sim. A MTV era massa naquela época. Jimmi Hendrix e Nirvana nas madrugas. Eu tocava violão e tinha certeza que a acústica devia ser ótima dentro da barriga.
Até os 3 anos eu o amamentei e andávamos pelados pela casa. Lá pelos 6 anos, achei que não era mais legal ele me ver pelada e comecei a mudar um pouco esse comportamento. E seguimos felizes, especialmente quando íamos para o mar.
Mas os colegas não o compreendiam muito bem. Nesta mesma fase, ele estava em seu quarto com amiguinhos e, emocionado, quis mostrar uma música nova que conhecera: Geni e o Zeppelin, do Chico. Quando terminou de cantar junto, todo emocionado, encontrou os amigos meio chocados sem entender sua língua. Ele tentou explicar a letra, não funcionou muito bem.
Mas ele não desistia, dias depois levou um amigo pra escutar Joquin, do Vitor Ramil. 
Um dia, estávamos dando carona pra um coleguinha e ele comentou animado que adorava o Jean Wyllys, que era um BBB naquele ano. O coleguinha ficou entre chocado e debochado e disse: - Que nojo, ele é gay!
Olhei pelo retrovisor e o sorriso do meu filho foi se desfazendo, parecia envergonhado.
Pela primeira vez na vida fiz a mãe:
- Também adoro o Jean Wyllys.
Meu filho parecia mais seguro quando me escutou e voltou ao assunto animado.
O menino insistiu:
- Mas ele é gay.
Silêncio. Encostei o carro. Olhei pra o banco de trás e falei para o meu filho.
- Filhinho, você pode gostar de qualquer pessoa que seu coração mandar. Debochar de alguém por ele ser gay é preconceito, e preconceito contra gays além de feio é contra as leis do nosso país.
Pode confiar em mim, é bonito gostar de quem a gente quiser e horrível se preocupar em saber se o outro é gay ou hetero.
Fomos levar o outro pirralho em casa. Meu filho se sentiu muito bem, notei que estava agradecido, mas não entramos de novo no assunto. A mãe do outro menino nunca mais me cumprimentou e achei muito bom, pois usava marcas de roupas feitas por mão de obra escrava, logo não tínhamos mesmo nada em comum. 
Lá pelos 15, a psicóloga me chama assustada pois a vó lhe contou que o guri andava lendo a biografia do Kurt Cobain e escrevendo músicas tétricas. Fomos eu e o pai dele. Eu ri e disse que ele escutara isso desde o meu ventre, que estavam fazendo tempestade em copo d'água. 
Escutei por todos esses anos, de parentes, amigas e psicólogos que meu filho deseja, um dia, ver em mim a mãe. Aquela que invade, que manda colocar o casaquinho, que não o traumatiza viajando a trabalho por dois meses como fiz tantas vezes, que não chora copiosamente porque ele foi pros steitis num compromisso com a escola. 
Acho que até ele mesmo, muitas vezes gostaria de me ver no papel da mãe de tutorial, da mãe normal. E sei que por vezes queria que eu não perguntasse mas desse ordens, fosse entrando sem pedir licença, reclamasse da bagunça e tivesse uns pitis lamentando "dei minha vida, abandonei meus sonhos por você, mimimi!".
Não digo que é fácil não querer ser a mãe santa, a mãe voz de mãe, a mãe assexuada, aquela que vive batendo no peito e querendo morar num relicário. Não digo que não tenho mil dúvidas e as eternas culpas. 
Mas nunca, nunca mesmo acreditei nessa bobagem de que "mãe não é amiga". Que frase horrorosa de se dizer. Se eu pensasse que ,como mãe, meu papel não é o de amiga, eu teria vergonha de mim. Serei o quê? Inimiga, dona de pensão, generala, madre superiora, fiscal?
Um beijo
biAhweRTher

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Texto feminino sobre gestão para o sábado de manhã.

Os rapazes andam sem paciência nas relações de trabalho. (ou sempre foram truculentos?). Pavio curto, invasivos, sem o foco na humanização imprescindível e, com raras exceções, um vício de se relacionar com mulheres num tom professoral-patriarcal-"protetor"-além da medida do respeito. Não estou generalizando, claro. Estou falando de uma maioria que anda precisando estudar sobre o princípio das organizações, onde o começo é todo o tempo.
Mas como esperar que os homens compreendam preliminares nas suas experiências profissionais quando a desconhecem como um todo?
Por exemplo, nesta semana, eu que trabalho numa rede de esmagadora maioria feminina, só senti desconforto, desgosto, um gosto ruim, uma falta de tato, tom invasivo ou desconfiança de que posso não saber o que estou fazendo, em situações que envolviam homens. Foram cerca de 4 momentos de desrespeito, descrédito, desqualificação ou de me acharem inferior mesmo.
Na gestão de um processo, projeto, equipe... seja qual o modelo que você adota, não importa o seu modus operandi, o tamanho do seu plano, há uma delicada membrana que só os bons detectam, sejam preparados, tenham estudado administração ou não.
Falo da contextualização, da forma, dos métodos pensados para seus relacionamentos externos e internos.
Não se pode desconsiderar todas as fases e ter pressa.
"Objetivar" pode ser perigoso se você não percebe que no começo de toda e qualquer organização, antes do foco, antes dos cronogramas, antes dos organogramas, você primeiramente pensa a ideia, estuda abordagens, elabora e aprimora a sua interlocução.
A gente não vai chegando e pré-conceituando o que pensamos dos parceiros, prestadores de serviço, estagiários, apoiadores, colegas e, principalmente de nós mesmos.
Há um momento sublime, solene em cada começo de relacionamento que para muitos é perda de tempo.
Você tem, sim, que parar, esquecer os hormônios, dar uma meditada e estudar quem é o outro.
Relacionar-se no trabalho é uma dança e você tateia e precisa ter
s e n s i b i l i d a d e.
Há em grande parte das mulheres profissionalizadas - e falo isso por experimentar a vivência de fato e não por adivinhação - essa necessidade, inerente a todx o indivídux responsável, de conhecer o outro a partir do seu próprio olhar para saber como se reportar a ele. Não importa o que dizem, o que falam, o que parece. Importa o que é naquela situação
e s p e c í f i c a.
Os rapazes andam irritados. As mulheres andam, faz tempo, dirigindo os trabalhos, conduzindo as equipes com mais sabedoria. Eles perdem tempo precioso tendo pressa e achando tolice essa percepção que vem antes dos orçamentos, das metas e das assinaturas. Por que você só deve assinar quando linhas e entrelinhas estão absolutamente absorvidas e sem espinhos.


Uma mulher não precisa provar todos os dias que é capaz de fazer aquilo que ela já assumiu. Se foi escolhida, fez um concurso, passou por um teste ou empreendeu já provou e basta, bola pra frente. Não cabe a cada homem que chega, não cabe a quem vem propor uma parceria ou pedir um apoio, ao cara da van, ao colega, ao assistente de produção te sabatinarem, perguntarem se tu já fizeste isso ou como vai decidir aquilo antes de fazerem suas próprias tarefas ou te passarem um simples orçamento.
Não cabe a cada pessoa que porta um pênis invadir os planos íntimos da tua produção e te perguntarem qual tua cota pra tal projeto ou se ofenderem quando você avisa que não está precisando da ajuda deles além daquela que você solicitou ou para qual quer contratá-los.
Sim, queridos, "as meninas" sabem muito bem o que estão fazendo e onde querem chegar. E sim, amores, "as meninas" tem, como em qualquer ambiente profissional, informações sigilosas que não irão dividir com qualquer um que queira "dar uma força" que não foi solicitada.
Pensem nas relações de trabalho com mulheres, rapazes. Pensem muito nisto e nos falamos daqui uns 20 anos
Um beijo.
biAhweRTher

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Violência Obstétrica e os Comícios nos Sepultamentos

Sigo não compreendendo onde está o problema de o enterro de Dona Marisa Letícia Lula da Silva ter se configurado um ato político!
Também não entendo o que se passa com parte da classe médica brasileira, esquecida do seu compromisso.
Na verdade há anos eu não entendo nada sobre certos médicos.
Quando meu filho nasceu, meu médico estava de férias. Aconteceram tantos erros médicos que eu fiquei em coma e precisei de duas transfusões de sangue e meu pequeno corpo que, com 9 meses de gravidez tinha apenas 56 quilos, se transformou num pano de chão dos médicos. 
Meu filho era o bebê mais quietinho do berçário e eu sempre pensei que era porque ele estava preocupado comigo. 
Depois de tudo erraram de novo, ministrando uma droga da qual sou alérgica. Eu queria morrer, eu queria matar, eu chorava de dor em todos os ossos e músculos, eu queria viver e queria um milagre. Minha família foi até a direção do hospital, o médico que quase me matou sumiu da nossa vista e nem uma repreensão levou, a médica que deu início à sequência de erros nunca mais vimos no hospital. 
Eu era um trapo, minha mãe chorava, meu pai sofria, meu marido tinha apenas 22 anos e tentava ser adulto e ficava do meu lado enquanto eu não acordava nunca. 
Naquela semana quente de janeiro eles erraram com muitas mulheres, uma delas teve que voltar para a sala de cirurgia pois esqueceram um pedaço de trapo dentro dela.
Eu fiquei com sequelas pra sempre. Fizeram uns procedimentos que a pessoa pula em cima de você, meu estômago, meu peito, tudo doeu por meses e meus músculos tiveram fibromialgia por uns anos. 
Nos primeiros tempos, eu não podia caminhar. Eu pedia pro meu marido me virar na cama pois nem isso eu podia fazer sozinha. E ele trazia o bebê pra eu amamentar deitada e ele trocava as fraldas pois eu não podia. Eu era um nada.
Por dois anos eu não podia passar na frente do hospital pois era muito grande o meu trauma.
Eu sofri tanto e, pra piorar, a maioria das minhas amigas ainda não era mãe, então eu não queria contar o que eu tinha passado pra não assustá~las, pois assim como nós, todas e todos tinham várias fantasias boas sobre o parto. Sobre fazer parto natural, gravar o momento do nascimento em vídeo e fazer de tudo um lindo momento.
Mas a gente não teve nada disto. Quando o André chegou com a câmera, eles apenas disseram: - Você não vai poder filmar nem entrar pois tivemos problemas e vai ser um parto muito difícil.
E foi, como uma morte. E eu quando voltei a entender sobre quem eu era, fiz comícios rastejando no hospital. Queria fugir, e queria que alguém trouxesse aqueles monstros pra me explicarem porque tentaram me matar. 
Não sei se quando eu morrer vai ser mais uma vez por erros médicos, coisa que se vê todos os dias. Posso ter sorte e morrer tranquila e velhinha, dormindo na minha cama.
Mas seja isto ou aquilo, quando eu morrer eu quero um comício, um ato político, a leitura dos textos mais radicais sobre liberdade e sobre compromisso e ética.
Que todos os enterros sejam um ato político. Que todos os mortos se vão desta dimensão como pessoas que souberam o que é política e sejam lembrados por isto nas suas despedidas. 
Tendo médicos ou monstros a me cuidar no meu final de vida, o que me interessa é que eu faça por merecer uma despedida assim, transformada em comício!

Um beijo
biAhweRTher

sábado, 28 de janeiro de 2017

FÁCIL É VOCÊ!

Fácil não é a mina que faz sexo com um cara no dia em que se conheceram porque os dois ficaram a fim.
Fácil é a mina que aceita estupros, agressões e assédio moral do seu companheiro por anos a fio sem nunca revidar, nunca dizer não, nunca denunciar, aceitando sua própria morte em vida apenas porque ele a sustenta.
O que os machistas e as machistas não tem inteligencia suficiente para entender é que a mulher livre não é o "objeto fácil", que "não se valoriza" e "dá pra qualquer um".
Fácil, objeto, dá pra qualquer um a mulher que usa o corpo como moeda de troca na sociedade carola onde a menina ainda é um produto que as famílias guardam junto com os lençóis.
A mulher livre sexualmente não é aquela que diz sim pra todo mundo, até porque dizer sim é um direito e não um dever.
A mulher feminista é aquela que sabe dizer NÃO e pronto mesmo sendo parte de uma sociedade machista e perigosa.
A mulher livre não oferece perigo para as recatadas do lar simplesmente porque ela não quer nem saber dos cretinos que passam a vida fazendo mal às suas mulheres fáceis e manipuláveis que disputam homens horrorosos só pra dizer que estão "seguras" numa cultura onde estar com um homem ao lado é segurança.
A jovem feminista sabe que lavar cuecas e ser agradável é armadilha e nunca segurança.
A mulher feminista não quer sair por aí bem louca pensando só em dar pra todo mundo sem pensar em outra coisa na vida. Essa é a moça ninfomaníaca, que pode ser feminista ou machista, pois ninfomania é uma doença.
A moça feminista não é "fácil nem difícil", mas apenas uma pessoa que luta pela igualdade e dignidade. Andar como quiser, usar a roupa que bem entender, atuar no seu ambiente como melhor lhe parecer, ser respeitada no seu trabalho e não escutar "brincadeiras" de senhores cretinos 25 vezes por dia.
A feminista é aquela que não vai jogar o jogo do consumismo de pessoas. Dirá não quando não quer e ai de quem fingir que não entendeu.
Feministas não saem dando pra todo mundo. Ou algumas sim, assim como algumas machistas também e cada uma sabe de si. Se não for forçado e não machucar ninguém, transe com quem quiser, onde e quando quiser.
Pessoas (homens e mulheres) que respeitam o feminino, não vêem o corpo e a sexualidade como produto, como moeda, como consumo, como antropofagia, como prisão.
Assim, dar pra qualquer um não é coisa de feministas, mas de mulheres que se entregaram ao medo.

"Qualquer um" não é necessariamente o cara que transa com uma mina no dia em que a conhece simplesmente porque os dois ficaram muito a fim.
"Qualquer um" pode ser o marido que faz Gaslighting com sua mulher por anos a fio, simplesmente porque a sociedade lhe garante mais segurança.
Então, pare com essa bobagem de advogar a causa do seu algoz. Isso tem nome, é Síndrome de Estocolmo.
Pare de ser medrosa, deixe de ser tão fácil!

biAhweRTher