domingo, 12 de abril de 2015

Porto Alegre alucinante


Domingo.

Uma brasileira, num programa da GNT, mostrando sua moradia na Toscana, natureza intocada e valorizada, em um pedacinho da casa tombada que foi do Américo, aquele que descobriu as Américas.
E daí eu me pergunto o que faço ainda na divisa do bairro Mont Serrat com a Boa Vista, onde as casas antigas com seus belos jardins se transformam em arquitetura-tendência, fria e dura; há 3 quadras de uma das maiores matanças urbanas de aves e árvores promovidas pelo Jose Fortunati e seus eleitores; moradora de um condomínio que, pra não sujar a piscina e não "manchar" o carro de uma ex-modelo cheia de pitis, pagou até multa mas não mudou a decisão de dizimar o perfume de dezenas de árvores. O que faço aqui, colada a uma pracinha bucólica, vítima do ódio, que todas as semanas sofre ataques de moradores do bairro que matam árvores frutíferas e calam pássaros na calada da noite pois acreditam que suas cores ajudam a ocultar bandidos e os monstros da falta de amor nas suas camas.
O que há no coração, com a pobre vida de uma pessoa que sai a noite com um facão em punho, pose de vingador e bate, bate, machuca uma árvore cheia de frutos verdes até que lhe arda as mãos, até vê-la tombar sem vida a seus pés? É neste momento que goza o cidadão de bem? Quem são os marginais perigosos?
Porto Alegre é que tem um jeito legal.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Pizza a Metro ou Um Quilo de Por do Sol

Um amigo que participa do movimento Cais Mauá de Todos​ me convidou a enviar um vídeo testemunhal colaborativo. Sou voluntária em várias causas e entendendo a relevância e urgência da ação, então comecei a selecionar algumas fotos que fiz ali, clandestina, já quando estava proibida a entrada.
Como todos os artistas da cidade, tenho lembranças de vívidos momentos vividos no Cais, onde criar coisas me dava uma sensação de ser parte de um mundo gigante, não dividido em cubículos agorafóbicos. Assustadoramente imenso, impossível dominar o espaço, nos fazendo mergulhar na humildade do coletivo...

Pequena, do nada, estanco!
Ao tentar iniciar o artigo algo seca a garganta dos meus dedos e pouco consigo escrever em defesa do Cais Mauá. Camisa de forças. Uma tristeza que começou desde que o prefeito Jose Fortunati​ demonstrou a sua ignorância e despreparo escarrando na nossa cara a sua luta pela contramão do presente momento mundial, assassinando o bairro onde vivo. Após o filme de terror aqui na Anita Garibaldi e arredores, onde o canto dos pássaros cala um pouco a cada dia e as flores sufocam juntamente com nossas esperanças de um gestor mais responsável, menos comprometido com as construtoras, algo morreu em mim me fazendo pela primeira vez na vida sentir pequena, um nada, pessoinha comum que pode muito pouco diante da maioria.

Eu sofro quando chego na praia que frequento e os sons da natureza silenciam mais e mais a cada ano e não há trabalho voluntário que mude o tom cinza do quadro da dor. Me dói quando volto a Porto Alegre e a vejo agonizar. Desanimo quando estou aqui ou acolá.
Rio Grande do Sul ou Rio Grande do Norte, não há pra onde fugir, não há como sensibilizar vereadores que ganham coberturas em troca de apoio a corporações mafiosas. Não há o que haja.
Não sei dizer nada, sou apenas perguntas.

Gostaria de entender como alguém pode achar normal uma cidade se transformar em um enorme shopping center. Como um povo pode sentir orgulho de perder a cada minuto a sua memória, as belezas naturais e arquitetônicas. O que nos faz sentir tanto ódio de nossa história, tanta vontade de respirar, deglutir, viver (morrer) concreto?
Nós agora somos isso, então? Cada qual um pedaço de cimento moldado em areia roubada, moedas saindo e entrando pelos buracos, passos duros pesados ao encontro da próxima vitrine? Nós perdemos? Morte anunciada?
Até que seja tarde, Porto Alegre valerá cada vez menos, muito menos do que sacolas de compras com a foto de um sol oculto por um mar de prédios espelhados?

Qual é mesmo o signo de Porto Alegre?

sábado, 21 de março de 2015

Outrano

Vento de outono assobiando na janela
Outrano no meu pulmão
O trem não para nunca
Não importa a estação.

biAh weRTher



terça-feira, 17 de março de 2015

1984

Acho que estudos de Zoo humano voltarão a ter sua relevância agora que a Globo perdeu a audiência e vai dar fim ao Zoo de um milhão. Eu acharia interessante um projeto assim no Brasil de hoje, com voluntários, gente comum, sem disputa por carros ou fama, apenas uma jaula pra observarmos pessoas, cada qual na sua loucura, se aturando.
Achei surreal agora quando folheei a tv no Multixô e estavam Marisa e Adrilles brigando sobre o valor das imagens diante do valor das palavras.Marisa não negava o valor destas, mas alegava que as imagens são também uma escrita e, afinal, vieram bem antes. Adrilles dava pulinhos e citava de Borges a Freud.
Exaltaram-se minutos e mais minutos e acabaram partindo para continuar o debate tomando um café, na cozinha. Pareciam gente.
É, acabou-se o tal de BBB. Onde estão as gostosas com vocabulário de 5 palavras??
Lembrei que, nos anos 90 eu assistia um programa no GNT que era um estudo sobre o que seria um zoológico humano. Era numa casa, um retiro em lugar qualquer da Europa que não lembro mais. Interessantíssimo. As pessoas aceitavam ser voluntárias na pesquisa e não concorriam a nada, acho que ganhavam, sei lá, 500 dólares pra se prestar para aquilo. Você assistia e ficava discutindo o assunto horas. Melhor, não sabiam da existência das câmeras e nem da ilha de edição!
Depois, patentearam a ideia e transformaram num programa de televisão que ganhou franquia no Brasil, onde virou um Zoo não exatamente de humanos.
Quando eu li que o Zoo dos robôs iria acabar aqui no Brasil, fiquei curiosa desta versão que não chamou o público e já assisti várias vezes. Gosto do Adrilles porque ele leu grandes autores apesar de ser um cara chato e afetado.
E simpatizei muito com a Marisa pois apesar de não ser exatamente uma idosa, sofre com o preconceito pesado dos mais jovens.
Isso que fazem com ela me remeteu aos primórdios da ideia de Zoo humano, antes de virar programa de gostosos viciados em clara de ovo. Me faz pensar no quanto a velhice assusta e faz as pessoas novas odiarem quem não estica a cara se dar ao displante de mostrar-se na tv. Quero dizer, o fato de ela ser apenas uma senhorinha sem botox ou lipo, faz eles pisarem nela e fazerem deboches pelos cantos, ao invés de aproveitarem o fato de ela ser legal e mais velha. A primeira conclusão que se chega é a de que num programa de TV não se pode ser gente real, normal, que se vê na rua, no supermercado e em casa.
Mas então, se sabemos que na tv não tem gente de verdade, o que queremos?
Queremos ser todos um monte de coisinhas de mentira, um milhão no bolso e a cara esticada Emoticon smile

Vino da Séra.

Desci ali no gringo pra comprar algum vinho gaúcho de uns 25 pila pro jantar, pois ele não vende chilenos ou argentinos.
Sempre que estou ali fuçando, ele vem conversar comigo sobre vinhos. É que nem o gringo da vendinha lá da praia, que só tem vinho ruim, mas os que ele bebe são bons, então sempre que chego por lá ele desencanta uns melhorzinhos pra mim.
E hoje, do nada o gringo me vem:
- Buonasera! Quero te dar un vino que tenho aqui escondido, que tamu fazendo lá no interior de Caxias.
- Ai meus Deus, disse eu... Se eu já não gosto nem dos vinhos bons da gente.
Não, ele não se ofende com minhas piadas, cresci vendo o pai batendo papo com amigos enquanto eles pisavam nas uvas dentro de uma tina gigante no porão de pedra, lá na Vila Nova. Não vou dizer quando comecei a provar vinhos, porque as pessoas que não nasceram em uma estância gaúcha pra mais tarde irem morar num sítio numa região só de gringos vão ter faniquito de apartamento.
Mas voltando:
- Tu vai gostá, é seco! Isso é o melhor vinho de garafón, guria. Se não gostar, me devolve.
- Tudo bem - com ar de receio - e que uva é?
- É Moscato, essa uva é muito delicada, não dá pra fazer grande quantidade porque tem safra que ela vem com pouco açúcar, daí o pessoal que tem rótulo, mistura no Riesling.
- Puxa... vivendo e aprendendo. Qualquer coisa, uso ele no molho. Mas bá, deve ser por isso que eu tenho até chilique se alguém me oferece um Riesling.
- Tu vai gostá, guria!
Um vizinho vê o papo e resolve comprar uma garrafa. Sete e cinquenta! Ah, penso eu, ruim ou bom, esse gringo transforma tudo o que toca em dinheiro.
- Tá, aceito. Mas então a gente faz um trato!! Se eu gostar e tu começar a vender bem o teu vinho, tu vai me contratar pra criar um rótulo pra ele. Se o vinho não ganhar prêmio, o rótulo ganha!! Fechado?
- Combinato!!

quarta-feira, 11 de março de 2015

THX 1138

Hoje a tarde eu estava caminhando e escutando música dentro dos meus fones. De repente, do outro lado da rua vi um monte de gente fazendo o mesmo gesto. Eram transeuntes, gente estranha entre si mas idêntica nos movimentos. Pareciam ensaiados, uma dança tecnológica. Todos movimentavam os braços, levantados para o mesmo lado com celulares na ponta dos dedos, filmando juntos qualquer evento. Não vi o que eles filmavam, um ônibus passou na frente, depois outro, uns carros, me distraí. Quando voltei a olhar, segundos depois, eles estavam todos caminhando, dispersos, ensimesmados, como se um hipnotizador tivesse estalado os dedos e os mandado acordarem e seguirem seus caminhos.
Hoje eu estava jantando quieta no meu canto, observando... observando, que é uma mania minha. De repente vi um grupo de 5 ou 6 pessoas não muito bem humoradas, sentadas diante dos seus hambúrgueres. Até que alguém pegou um pau de selfie e gritou: - Agora.
Num segundo todos correram, formaram um montinho de cabeças num canto da mesa e fizeram algo com as bocas que me lembrou sorrisos.
Um instante depois, a pessoa avisou "feito" e todos fecharam a cara, se recompondo, cada qual em seu canto, alguns mexendo os dedos no celular, outros com a cara na maionese.
Hoje. eu voltei do jantar e fiquei perto da janela pintando umas coisas até que parei para procurar a lua. De repente, percebi que todas as janelas guardavam lá dentro televisões quase no mesmo local das salas, exibindo as mesmas imagens numa sincronia semelhante aos filmes futuristas dos anos 70.
Olhei pra minha gata Uma, deitada na janela, e perguntei: - Será que só eu ando vendo isso???!!
Ela me olhou superior, se espreguiçou e voltou a dormir.

terça-feira, 10 de março de 2015

Glossário

Morreu hoje um menino de 14 anos, espancado por colegas apenas porque era filho de um casal homossexual.
Tenho trauma de notícias assim, então passei o dia pedindo para que as pessoas não comentassem os detalhes de dor dessa criança na minha frente. Mas claro, acabo de ler um artigo a respeito.
Dizem que só na nossa língua existe o vocábulo "saudade". Eu sinto saudade de quando a gente via o Brasil como um país livre de apedrejamentos e barbárie. Convivência pacífica, diziam os mais velhos.
- Capaz, no Brasil não acontecem essas coisas. Não se decepa o clitóris de uma menina, não se queima um ser humano vivo por desrespeitar a religião e mostrar os cabelos em público. Não há racismo, neo nazismo, KKK, muito menos líderes religiosos fanáticos e cheios de ódio.
Cresci escutando: Aqui não.
Após superarmos a ditadura militar, então... Parecia uma nação em festa. O país brindando nossa cordialidade, nosso DNA de povo que samba feliz e unido independente de credo ou gênero ou da cor da pele.
Agora, com os pés fincados bem no meio do futuro, já se vê que andávamos distraídos. Também seremos a pátria que reinventou o significado de "direito"?
Sei lá... não sei que nome se dá para o que sinto com notícias como essa de meninos mortos porque são pobres ou porque são gays ou porque são negros.
Quero perguntar para os fanáticos, olhando seus olhos secos de ódio:
- Me respondam já. Quem afinal tem o direito à vida? Quando doutrinam suas crianças para a intolerância, vocês apenas os ensinam a espancar colegas diferentes, ou há algo concreto que os exércitos urbanos da ira aprendem antes de saírem às ruas para matar?
Há quem dê de ombros, há quem como eu sinta medo, tristeza, dor, trauma, revolta. E há os nascidos para odiar a felicidade e a liberdade do outro...
Que nome se dá para essa sensação de que algo terrível e covarde pode estar acontecendo nesse exato momento com alguém que apenas é diferente de outro alguém? Já inventamos essa palavra?

sexta-feira, 6 de março de 2015

Dia de pá nelas.

Meu trabalho é feminino. Como qualquer fêmea, seios, sangue e leite. Gesto, inspiração, espelho, centro, sombra ...
O que seria um dia de homenagem às mulheres nesse espaço-tempo orgulhosamente fálico? Entre mulheres contidas e agradáveis - coisa que não sou - sei apenas que o mote da data anda meio deturpado e que, mulher, todo o santo dia erro, acerto, aprendo, enfrento, gozo, sangro e curo a meu modo as feridas.
Dia internacional da mulher... não sei nada sobre isso.
*Da série Líquido Olhar: 
Foto e Arte biAh weRTher 
Modelo Mia Maria Eduarda Barcellos
Assistente Patrick Dos Santos


quarta-feira, 4 de março de 2015

Aula de não-roteiro

Encontrei esse RASCUNHO do MOSCAS VOLANTES número 7, lá por 2006 ou 2007, de quando a saga de Rita passa pelo roteiro do Bitols O Filme​, na época nos ensaios e pré-produção.

Moscas Volantes 7
A verdade de Jorge e Paulo segundo Rita.

De quando ela retornou de Andaluzia e resolveu visitar o extinto Cine Baltimore.
Naquela noite, em um porão na Azenha, os dois ensaiavam não contando com a surpreendente aparição. Rita sabia, a canção era sua.

Ao descer do táxi esbarra no homem que pichou a Casa Branca e agora procurava a Rita Lee na Lancheria do Parque - isso foi antes de ele morrer na esquina da Vasco da Gama com
a Felipe Camarão ao chocar seu fusca branco com o chevette onde o garoto de programa - que tinha o dedo do pé chupado vorazmente nas madrugadas das segundas pelo velho juiz - chupava o pau de um carioca de uns 33 anos.

O homem não encontrou a Rita Lee, apenas o Nei Lisboa. Então saiu
desolado da Lancheria do Parque e comprou um baseado na calçada para dar tempo de as duas histórias se cruzarem. Ele uma mosca, ela temporariamente personagem de um filme de época.

Enquanto o homem louco saiu em busca de seu destino trágico,
ela parou diante do Cine Baltimore, suspirou e invejou o próprio passado. Pegou sua caderneta comprada na Andaluzia, numa das poucas
vezes em que se afastou do farol, e escreveu com os olhos em lágrimas a conclusão que poderia ter sido enviada por Guilherme Pilla:
FAXION = FIXION CAUTELA = CAUTELA

Quase pediu um X-galinha, mas resistiu:
“Si no eres flaca, no eres linda.
Ser delgada es más importante que estar sana.
No te olvides de contar las calorías para comer sin
culpa. El agua es suficiente para sobrevivir."

O homem louco que procurava a Rita Lee agora sangra entre as ferragens.
De manhã, bem cedo, João Pedro liga para o seu pai, aquele que sempre quisera pichar a casa branca. Ele nunca mais atendeu o telefone. Rita já está diante de Jorge e Paulo, perplexos.

Foto de um dos primeiros ensaios do Bitols. Leonardo Machado, Leo Felipe, biAh weRTher


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Da caipirisse urbana

Fico com um certo nojo de gente que só agora descobriu que é possível reutilizar água da chuva, só porque a seca tá no jornal da grobo. Há milhões de anos já sabemos fazer isso, nascemos sabendo, saca? E agora os guri velho de apartamento ficam pasmados partilhando tanques azuis com tutorial de como catar gotas, chocados com a criatividade. O quê??? Água não dá no supermercado, em garrafinhas de plástico?
Sinceramente, fico com vergonha do que a gente virou.
Há uns 20 anos várias pessoas que eu conheço já usam placas de energia solar em moradias no Uruguay. No Brasil é menos, mas tem e até a seca em SP eram chamados de loucos. Há décadas, pessoas felizes vem construindo suas próprias moradias, sustentáveis, lindas, organizadas, elaboradas, servindo-se de conhecimentos básicos e óbvios que humanos e não humanos descobriram no começo do mundo. Somam o que já sabemos com novas tecnologias. Não é papo místico construir a casa voltada para o caminho do sol, entende? A isso se dá o nome de economia de energia, E viva a brisa a substituir o ar condicionado, se é que me entende.
Na real, faz anos que a indústria de eletrodomésticos pensa nisso tudo, só que as pessoas que usam tutorial até pra cortar as unhas dos pés, nunca perdem tempo com manuais. Hoje, quase todas as máquinas de lavar já vem preparadas pra facilitar, caso você queira reaproveitar a água.
Há décadas, você abre qualquer revista de arquitetura ou de fofoca mesmo e encontra artigos sobre pessoas que constroem seus lares pensando a luz natural antes da tendencia do sofá sei lá.
Nós somos tão idiotizados, que entregamos o lar nas mãos de construtoras mafiosas, sem qualquer preocupação com qualidade e vamos pro xópin coas crianças brincar de norte americanos dos anos 80.
Construir a própria casa, pensando em sustentabilidade ou, ao menos, ser responsável e não entregar a tarefa pra qualquer fio da mãe que paga propina a prefeitos pra poder construir em áreas que deveriam ser preservadas, deveria ser o normal, certo? Tu já pensou em descobrir o que existia no lugar do teu condomínio de luxo? E se soubesse que a natureza perdeu com a construção, tu moraria ali mesmo assim?
E essa mania de mandar o esgoto da tua casa de praia pro mar não é como não limpar as partes e usar perfume pra disfarçar? Bem, uma hora vai feder.
E não deixar copos plásticos na areia como a família de imbecis que eu vi ontem na beira-mar, a vó, a filha, o genro, o adolescente e o bebê, tadinho, desde cedo aprendendo a ser assassinozinho.
Tudo isso tu já nasce sabendo, assim como não usar mais água do que você precisa só porque você descobriu que é ricaaaa.
Ah, pulamor, parem de fazer ohhh pra tutoriais. Garanto que os nossos bisavós, se estivessem vendo tanta retardadisse estariam fazendo tsctsc.
Mas é que a gente resolveu tacar cimento nos quintais porque folhas fazem sujeira. Aliás, a gente resolveu que a vida é melhor sem quintal, porque árvores trazem bichos e aiiii como a gente morre de medo de bicho.
Olha, macaquinhos recolhem água da chuva em folhas de árvores, qual potes criativos, poesia pura, cena de filme da Disney. Nós, que aleijamos todas as árvores do quintal e não temos as lindas folhas verdes, podemos usar nossos baldinhos cor de rosa Emoticon wink Nem precisa correr pro tumeleiro pra comprar tonéis azuis!
Ok, admito que não tenho paciência pra o que nos tornamos, moradores da casa da Barbie, tronchos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O movimento é sexy.

Sábado ao meio dia tu acorda e eles chegaram, rapidinhos, enlouquecidos em carros cor de rosa tocando tump tump estacionados na beira do mar, assustando as aves, produzindo latinhas de skol e garrafas de vodka waleska oprimindo os ninhos, barulho e orgulho.
Abrem as casas feitas de areia roubada das dunas, apertadas nos micro terrenos dos sonhos, bonitas por fora, sem fossa por dentro, fazedores de córregos fétidos onde saracoteiam suas crianças. Oba! Cocô ao mar. Gritedo e buzinaço na frente da reserva ecológica.
Sábado pela manhã eles chegam olhando o mundo com cara de eu posso, passam por cima de tudo, cavalo de pau, gritaria, cachorrinhos de madame nas coleiras de cristais swarpowiohwiróvski a olhar com nojo e medo pro cachorrinho que eles próprios abandonaram na praia no verão passado.
Mas ufa! Hoje acordamos ao meio dia, algo está em paz no canto dos pássaros e nas ondas do mar. Milagre?
Hoje é segunda! Rapidinhos e torrados de mormaço, eles colocaram tudo cedinho nos carros altos reprodutores de sofrência. Os panos de bunda, as caixas térmicas, conchinhas roubadas e restos de churrasco, o nariz empinado cheio de pomada.
Foram-se, bem loucos, apressados pra bater o ponto.
Agora é esperar que a natureza se restabeleça um tanto até a próxima invasão de produtos eletrônicos coloridos piscantes barulhentos fedorentos lotados de coisinhas e paus de selfie.
Paz.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

BiAhgrafia

Na minha loucura workaholic, organizando a vida pras férias, me veio essa ideia idiota de nem viajar porque né... por aqui, trabalho não se separa de sono, insônia, sexo, febre, jantar, vinho, domingo, segunda, preguiça ou diversão. 
Meu trabalho sobrevive por, pela, para a observação e isso começou muito cedo. Minha primeira memória racional foi, a meu ver, um trabalho. Estava entre pessoas da minha família, caminhando pelo campo, na fazenda, talvez com dois anos de idade. Escutei uma voz feminina, discreta,baixinho a avisar para uma mulher que andava em minha frente, que o zíper de sua saia estava mal fechado.
Era como se tudo ao redor fosse escuro e nublado, embora eu saiba que se tratava de um dia ensolarado. Abriu-se uma espécie de portal entre eu, bebê, e os mínimos detalhes do mundo real. A saia era azul e evasê, um corte bonito na altura dos joelhos. Duas mãos fuçando no zíper. A mulher de saia azul tinha um corpo jovem e delicado, acho que era a minha mãe.
A partir daquele dia, observo tudo, mas quando apresento meu trabalho, NUNCA falo do meu processo usando expressões como "investigação".
"O artista tal investiga não sei o que" é clichê, cacoete de TCC. Entendo e acho até bonitinho, mas não sou uma artista pálida, ensaiada, de vestido limpo, explicando, explicando...
Por isso que, em meu sítio, ainda não subi a minha bio careta, essa dos prêmios, cursos e comprovações exibicionistas reunidas em formato chato padrão que, ao menos pra mim, são como os meninos de 13 anos no banheiro medindo o tamanho do pênis. Um trabalho de artista, a gente conhece quando quer, não quando ele tenta provar que existe, batendo os cílios.
É por isso que talvez exista quem não entende o meu sítio, cheio de salas, quartos, ateliês que a gente vai decorando do jeito como fazem as pessoas que constroem o próprio lar, sujos de tinta, sem precisar contratar um fazedor de moradias em série e um entregador de armários das casas Bahia.
VISITA MINHA PSEUDO BIO!!!

Carta sobre a Felicidade.

Veja a Internet. 
A gente olha ao redor e tem de tudo, da simplicidade à boçalidade - inclusive quem confunda os dois. A bem da verdade, ainda não se arranjou muito espaço pra primeira, pois ser boçal é beeem mais boça.
Há muitos textos pobres defendendo a riqueza e o capital, o que é antigo e ultrapassado, fazendo da web um meio contraditório. Mais ou menos como comprar um livro pela capa. Quanto mais o indivíduo tem o dom de se deslumbrar com esse meio moderno, mais antiquado ele se mostra assim que abre a boca virtual.
Nos temas sociais, por exemplo, o que mais chove são "opiniões" embasadas em homens tolos, bunecrinhos, infantis, serviçais da grande mídia como Reinaldos Azevedos, Alexandres Garcias, Willians Waaks e até esse tal de Pondé.
Fique atento antes de você citar a pseudo filosofança do Pondé, pense no mico. Busque saber o que é filosofia pra não passar vergonha, um dia, quando teu filho crescer. E ser ignorante sem precisar ser, tendo grana pra ler, conhecer e saber, tem seu preço. Pondé filósofo... ora Veja, tsc tsc. Numa coisa ele está certo, e é quando xinga você que o cita mas não o lê e, na sua condição de pavão reclama dele próprio sem nem perceber.
Sim, os xingamentos dele por trás da pose de cognac são justo ao seu típico leitor, que distante de qualquer exercício de lógica argumentativa em sua rotina robótica, pensa que é chique comprar um produto e ser debochado pelo vendedor. Mas bem, como eu duvido que um leitor do Pondé tenha lido mais do que duas de suas frases marqueteiras de efeito, é preciso dizer que quando ele debocha do churrasco na lage e do turista de catedral, ele fala, meu bem, de você. Ahã Emoticon wink E dele, no espelho.
Mas olha, não estou dizendo pra começar a mudar de vida pelo Nietzsche, pois leitores da Veja não seguram nem um parágrafo do Zaratustra sem se defenestrarem desesperados do décimo andar do condomínio. Não, você que quer se libertar da mesmice e trocar alguma selfie da estante virtual por um livro, pode começar pela simplicidade. Ok, isso de ser simples te dói, mas tá na paz... tu resolve na análise.
Pensei, assim de pronto, numa frase bem conhecida do Epicuro, dessas que já virou até para-choque de caminhão e, como você adora frases curtas, ela pode despertar alguma curiosidade:
"Se queres a verdadeira liberdade, deves fazer-te servo da filosofia."
De resto, só te lembra que tens que procurar o significado de filosofia no google, pra saber direitinho que ela não é marca de cerveja, mas de um molho tri bom.
Gentilezas \o/
biAh weRTher

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Cara de cool



Descobri hoje pela manhã, no hypeness, uma campanha "aceite o mundo como ele é"- ao menos entendi que seria isso. A ideia é, segundo a matéria, "se policiar" para não reclamar de nada por uma semana e depois contar no canal hype, de hype para hype, o que mudou em sua vida. Me pareceu uma espécie de corrente de auto-ajuda específica pra quem usa camisetas modernas e faz cara de cool, voluntariamente, com o dedo diante da boca, símbolo da censura pós moderna. Sim, fazer foto-psiu parece ser obrigatório pra provar que aderiu à confraria.
Apesar de ser uma campanha hype, isso de fingir que está tudo sempre bem, de moderno, não tem nada. Minha avó, no século passado, chamaria a atitude de "come a sardinha e arrota o salmão". Com o agravante de, no caso, estarmos falando do alimento social, cultural, conceitual, político. Vai além da ingenuidade provinciana de mentir pro vizinho que tem mais do que o trivial dentro das panelas, mas unir-se com os vizinhos pra mentirmos todos juntos que está tudo bem ao nosso redor. Nada a reclamar, a não ser que você esteja precisando trocar de terapeuta.
De verdade, a minha antipatia por essa "campanha" boba para nos unirmos a controlar o senso crítico nem é a cara desses hypes caricatos fazendo psiu. O estapafúrdio é ler gente metida a muderninha achando bonito se policiar.
Não sei se é falha da minha terapeuta, mas eu, de polícia, quero distancia esteja ela com a farda tradicional ou com farda de degustador de sushi.
Assim, sendo que acredito sempre na desobediência, vou rir da cara do janota que inventou tal campanha. Meu! Teu problema é ser medroso. Deves ter sofrido bule na infância ou algum adulto cretino te fez uma lavagem cerebral. Isso de fingir que tudo é perfeito são bobagens que andam boStando na tua cabeça Emoticon wink Pode reclamar, guri, ninguém vai te por de castigo e tirar o teu sushi.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Um texto que vai ficar pra sempre no meu blog.

Queria combinar uma coisa com todo mundo. Sempre que eu faço uma aparição pública - como normalmente meu trabalho são instalações ou intervenções em espaços não próprios pra arte, não específicos e tradicionais, não equipados e planejados e, portanto não óbvios -, corro riscos, desafio as impossibilidades, invado momentos, propostas, espaços no intuito de surpreender. As dificuldades tem um nível maior, pois é menos confortável e há sempre o inesperado, tecnicamente falando.
Assim, em geral, mesmo a gente planejando muito, nós ficamos na labuta o tempo todo. Há pouco tempo para recepção e eu não me sinto a estrela da festa, mas apenas a serva. É pra vocês interagirem com a outra ponta, a obra. Não raramente, nestes anos todos em que fiz vídeo instalações em cerca de 20 cidades pelo país todo, a alegria é deixar as pessoas me vendo trabalhar. Essa é a minha performance. Que me vejam estressada quando é o caso, dando pulos de alegria quando algo dá certo, só conseguindo ter olhos e assunto com quem está no projeto comigo, avaliando o que tá bom e o que não tá.
A meu ver, participar de um tantinho do processo é como conhecer o camarim, o ateliê, o estúdio. Discordo de quem acha que deixar conhecer o processo é tirar a magia. Muito pelo contrário, é quase sexo. Por isso, sempre deixarei pública parte da criação, porque acho frio demais ficar de banho tomado e roupa nova esperando os convidados. Prefiro que eles venham pra cozinha ajudar a temperar. Acho chata a obra fixa, vazia a visitação tradicional.
Finalmente, lá pela metade, posso resolver que já deu e que agora quero deixar a coisa - obra - viver sozinha e ser esgotada pelas pessoas. Só então eu paro e vejo as pessoas, reconheço quem é quem.
Então amigos, não se magoem quando eu não sou só sorrisos ou quando eu demoro pra dar atenção. Não me deixem preocupada no outro dia por saber que alguém foi embora chateado porque eu estava trabalhando, porque é isso mesmo. Esse é o meu escritório. Não se retirem me achando mal educada, pois isso é desprezo ao outro ponto de vista. O meu abraço, o meu beijo, o meu "que bom que tu veio" não está no meu corpo, mas no que eu produzi pra te despertar alguma sensação inesperada naquele momento.
Ontem, quando as pessoas começaram a perceber que eu não ia explicar nada, que a Júlia não tinha explicação, o meu coração ficou flutuante. A Alci Lau, foi a primeira, quando começou a ver formas, depois instigamos as pessoas a interagir e começaram a fazer fotos e tocar. E daí sim eu parei de me preocupar e me liberei do trabalho. Uma pena que notei pelo menos quatro pessoas saindo, porque eu não lhes dei atenção ou por achar que eu tinha que parar para receber as pessoas. Projeção editada in loco, quando a gente para, para a obra. Em tese, eu nunca posso parar 
Emoticon smile
biAh weRTher

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

INSTALAÇÃO

Amigos e Amores,
A minha instalação é singela e feminina. A construo leve e febril, febris eu e ela. Seu nome é Julia. Se você tocar verá que é macia, iluminada. Ela escorre delicada... Evapora? Lembra algo que derrete na boca das crianças. É irmã de um lugar que a gente sonha e pouco alcança. Olhando assim, parece fresca, mas aquece.
https://www.facebook.com/events/389858561188006/390677624439433

Júlia... aquela que escorre.

Júlia, aquela que derrete

Tarde quente.
Certa quinta
de qualquer janeiro.
Há nuvens macias
neste ano de 1971, 2050, 1780, 2009...
Hoje é cedo, é início e é fim.
É morte e saudade.
Não tenho idade.
Crisálida, espreguiço,
escorro, evaporo, derreto,
tateando um caminho que invento.
biAh weRTher




sábado, 17 de janeiro de 2015

A mulher mais maravilhosa do mundo.


Pena dA Morte

Claro que os bolsonaros de plantão já estão em caixa alta pela internet, pedindo uma arma pra matar de novo e mais uma vez o brasileiro preso por tráfico e sacrificado hoje na Indonésia, paraíso natural, inferno humano.
Impossível não comentar o caso.
Sabendo que ficou preso por 12 anos num país estranho, um ser humano razoável poderá concluir que seu crime não ficou impune e que sair matando quem trafica ou cortando a mão de quem rouba é uma simplificação rudimentar da justiça.
Apesar de, aparentemente, o homem fuzilado não ser negro, jovem ou pobre não o vejo distante do fenômeno que assola o Brasil. Muito pelo contrário, os adultos brancos de classe média estão cada vez mais infantis e mal educados. Seja querendo grana fácil levando cocaína pra Indonésia, seja como médicos e advogados que traem suas juras e compram mansões em Xangri-lá vendendo próteses vencidas a doentes à morte.
Baixaria social é nosso sobrenome e todos somos responsáveis pela sociedade que desenhamos. Exultar linchamentos, pena de morte e a volta da dita..dura é um apelo à barbárie e só deixa claro que somos todos o mesmo bolo de carne.
Bom seria nos movermos por uma sociedade mais justa, um povo mais educado, menos infantilização e consumismo e mais humanidade.
Na verdade, a pessoa que prega a pena de morte e o ódio não me parece menos violenta que os condenados que ela quer ver sangrando até o último suspiro. A ânsia pela vingança é o outro lado da moeda de uma só doença. Mais um passo e os dois são apenas um mesmo indivíduo que se diverte com a morte dos outros.
A diferença e a semelhança entre os humanos raivosos e guturais da nossa sociedade são ululantes. Um lado tem ódio porque não tem esperanças e não tem outro exemplo em seu mundo que não seja a falta do básico pra galgar dignidade. O outro lado tem ódio e quer usar armas porque quer e pronto, alguém disse que ele pode porque tem mais poder aquisitivo.
Mas voltando ao brasileiro que foi fuzilado hoje, o homem errou, pagou com 12 anos de prisão, foi fuzilado de um modo medieval e uma horda de vingadores sentados segue querendo matá-lo de novo e de novo, babando.
Pra mim, ter sede de morte, seja da pena de morte ou por não ter pena da morte, é papo de maluco.
Acho que uma boa terapia resolve a selvageria de uns, um pouco mais de oportunidade resolve a selvageria de outros e não importa nada se esses uns e outros são ricos ou pobres, brancos ou coloridos Emoticon wink

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Líquido Olhar - o início

Dizem que em estado de febre nós ficamos muito mais criativos. Eu creio piamente nisto. Eu descobri que estou com pneumonia na segunda e quando chegou ontem, boa parte da criação da minha nova exposição, que estava travada em mim há dois meses, foi se abrindo diante dos meus olhos. Daí, ontem acabei pegando chuva duas vezes pra passear com a minha cadela e passei uma madrugada febril que dava dó. E olha que louco, enquanto eu dormia com aquela febre e calafrios a exposição apareceu todinha, inteirinha diante de meus olhos. Sério, nem sei se era sonho, mas acho que não. E hoje eu acordei produzindo tudo, remexendo em coisas que eu guardo no ateliê porque sei que um dia elas ganharão vida transformada....
Muito maluco isso. Mais louco ainda é que eu fiquei com pneumonia porque fiz fotos submersas pelada numa noite de chuva e agora, que tudo se abriu diante dos meus olhos, percebi que essas fotos não tem a ver com essa exposição... ou sim...
Sei lá, só sei que tosse e febre podem ser um estado de estática a caminho da sintonia, meio como colocar um bombril na antena, entende? Quando chega no máximo, no ponto exato da falta de ar, tu vê além.



domingo, 11 de janeiro de 2015

Declaração de Dívida

Declaro para os devidos fins que, eu, fulana de tal, não sei quanto já aprendi. Só sei, das lições, que cada um de nós vale tão somente o número de moedas de ouro que leva nos bolsos pra contratar amor, adquirir respeito, trocar por carinho, comprar simpatia, escambar confiança.

Certa vez, comecei uma faculdade de Administração de Empresas. Era péssima aluna em matemática financeira. Também nunca aprendi a tabelar o preço do afeto e isto nem é outra história. Detestava o primor com que nos ensinavam que o interesse vem antes da amizade.
Não soube valorar como se deve o que produzo nem minhas partes do corpo. Tive preguiça de me organizar em curtos vocábulos apresentados em diagramas no páuer póinti. E assim, briguei com aquele ambiente - e com vários outros - e saí batendo as tamancas. Nunca voltei ali nem pra pagar a última mensalidade.

Sou inadimplente. Desdigo a linguagem dos contratos, desentendo os símbolos hierárquicos triangulares pontiagudos afunilados. Não sei nada sobre isso, só sei do fundo dos olhos. Estou devendo aquele abraço trocado por um presente caro. Eu devo e nego e não pago nem se puder pelo tua desumanidade mascarada de raciocínio lógico me olhando do alto como um ser pequeno que sou e você também é mas não sabe.

Eu trabalho muito. Trabalho até nos domingos, enquanto você almoça filés entre falsos amigos e pensa mal de mim e se ri revirando os olhos de manjar, suando a língua. E quando um dia eu tiver muitos dinheiros - o que é inevitável porque trabalho no que amo - não te convidarei para um almoço solene, quando te presentearia com um apartamento, um carro zero, uma casa na praia pra que, finalmente, percebas que existo e suspires com orgulho: - Eis aqui alguém que venceu e já merece minha mão!

Não, quando eu tiver muitos dinheiros, jogarei milhões de moedas contaminadas de mil pontas de dedos sujos numa chuva brilhante sobre teus cabelos, tuas mãos e os pés cartesianos e sairei de perto quase correndo, sem nunca olhar pra trás pra não dar tempo de te ver de joelhos, resfolegando, catando, mostrando quem de fato és, me fazendo sentir dó. E tu, idiota, nunca saberás que não se trata de um pagamento. Não te cobrirei de ouro para mendigar afeto, mas como intensão de quebra de contrato. Pois dinheiro, caso não tenhas entendido, não compra nada, muito menos gente. Dinheiro afasta.

Devo. Sou inadimplente dos amores de mercado. Pega o teu fluxograma, o teu organograma, o teu livro caixa, tua senha do cofre, as chaves e o porta jóias em forma de coração e os enfia no c*.


biAh weRTher

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Quanto por pose ou Quem é a retratista?


Hoje, uma cliente estava a consultar meus preços para fazer seus retratos em fotografia e veio a baila mais uma vez uma questão de "mercado". Conheci, especialmente no início das câmeras DSRL, muita gente que comprava uma 5D e uma 60D, tripé e algumas lentes e saía distribuindo cartões como se a câmera fizesse o fotógrafo, apesar de ainda vazios, sem alguma referência, sem se perguntar: O que é fotografia? Quem são os fotógrafos que mais aprecio? Como tudo isso começou? Porque escolhi tais câmeras, porque li em um blog que elas são o bicho e a fotografia digital é uma facilidade que me dará muitos dinheiros?

A minha cliente me repetiu uma pergunta que muitos me fazem sobre "número de poses".
- O máximo é 4 poses né?
- Oi?
- Ah, é que andei pesquisando e tem um número máximo.
- Olha, não sei nada sobre isso!!

Sempre discutirei a serventia desses pactos comerciais renegando-os solenemente. Apenas isto. Fotografia, vídeo, cinema.. Enfim, isso da relação com a lente e com o que-quem está diante dela é de uma complexidade tão fantástica, rica. É como sexo. Eu prefiro tântrico. Tanto que faço a analogia da prostituição quando alguém vende poses e minutos.

Ontem, no almoço de natal, olhávamos retratos de família e pensei nisto, inclusive. 

Quem era o invisível retratista que nossos avós convidavam a passar o dia na estância para registrar a história de uma família. Com qual sensação se produzia aquele momento sublime onde um cara que a gente não conhece a cara ficou incumbido de eternizar a alma daquelas pessoas como clã e como indivíduos para que nós não nascidos, quase cem anos depois possamos mergulhar e nos comunicarmos.
Eles gastavam filmes e filmes e partiam para a pós produção com o poder de quem leva o tempo dentro de uma mágica caixa escura. A verdadeira e única máquina do tempo.

Há um silêncio dentro do fotógrafo, há dois silêncios dentro do retratista e mesmo que o laboratório de hoje seja o photoshop, a caixa mágica ainda é.
E no futuro, não haverá reza forte que consiga tornar eterno o que for superficial. 
Um retrato não é uma pose, um filme não é um ponteiro de relógio. Muitas vezes a gente precisa repetir a cena mas o olhar que se perdeu, nunca mais. 

Em tempos de selfie - ler Isto não é um mamilo -, fotógrafos apressados e consumidores de aparências, discutirmos a complexidade de um retrato é praticamente impossível. Mas eu garanto que você pode cobrar pra fazer uma sessão emocionante sem pensar em "tantos pilas por tantos cliques-tantos dinheiros por tantos minutos". Basta você esquecer que o cliente é um cliente, porque ele não é, mesmo pagando. Quando se escreve uma micro história, quem paga e quem recebe é o que menos importa. Se a fotografia se mantiver viva por muitos anos, tal evento será muito maior que os bolsos.

Acredito em mergulhar no processo pré-produção-pós como se fosse o único. Tirar o máximo e cobrar por tal produção a partir da experiência e não a partir de normas que "todo mundo faz assim", Você não sendo apenas um consumidor dos lançamentos e grenais Canon x Nikon, poderá fazer orçamentos honestos, boas previsões, sem precisar se preocupar com número de poses que o pobre cliente terá que fazer diante da sua lente enquanto você posa de fotógrafo. Aliás, não pose! Fotógrafo é invisível quando está fotografando.

Quero dizer, não padronizar o que o cliente recebe e sim padronizar processos técnicos e de produção vão te liberar pra ser um fotógrafo genuíno.
Alguém me dirá que se eu me dedicar à publicidade não terei tais dramas. Mas sei lá, terei outros. A imagem e a auto-imagem estão em crise, certo? O espelho está fosco. 

De resto, gosto de fotografar natureza, bichos, gente normal, nuvens, insetos, gotas de chuva e ondas do mar. E acho interessante e enriquecedora profissionalmente esta esquizofrenia de fazer fotografia, vídeo e cinema porque um ensina o outro. Você pode misturar tudo no mosaico da livre expressão e não será menos profissional, pelo contrário.

Tenho a sensação de que perder o foco é o caminho se quisermos eternizar momentos que estão muito acima de 4 poses. Inclusive, nos perdendo talvez consigamos nos distinguir. Quem já não viu um instante divino escorrer pelos cílios enquanto perdia tempo trocando a lente? Pois é, uma foto depende de uma relação, conexão. Entre cliente e fotógrafo, quem é o retratista?

biAh weRTher



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

olho mágico

olho dentro de mim. me procuro... há um quarto, um coração, um rim. olho dentro de mim e me chamo. veias e tripas. me encontro no final, embaixo de uma cama, conversando com células, tentando convence-las de algo que não sei.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Por que sou feminista.

Eu sou feminista porque não ando desvairada em busca de um homem que me carregue. Meu objetivo é olhar pra dentro de mim com a maior paz possível a buscar uma mulher que seja eu mesma, que seja forte e livre, eu em minha mais pura essência, sem maledicência, sem competições, sem interferências. Pra eu me conhecer e poder sentir amor livremente. Pois amor sim, amor é o contrário do poder.
E por isto é que o feminismo não é o contrário do machismo. 
Pois o machismo é a doença social que contamina parte dos homens e mulheres, levando-os a acreditar que há alguém lá fora que deverá me controlar enquanto eu choro por dentro. Que poderá sentir-se no comando do meu corpo e dos meus sentimentos.
Já o feminismo é a cura para a desigualdade que o mundo ao redor impõe a homens e mulheres desprevenidos.
A mulher que há em mim, diferente do machismo, não pretende dominar ninguém, mentir, arrastar pelos cabelos ou fazer jogos de poder ou cometer abusos com quem a cerca. A mulher que há em mim é feminista porque luta pela simples e óbvia meta de apenas ser livre e não ser agredida e excluída por isto. A mulher que há em mim não quer rolar no chão com ódio de outras mulheres a disputar o nada de um triste fim a serviço de um senhor.
Eu sou feminista porque eu não preciso de um homem que me aponte os caminhos, eu preciso apenas de mim, do meu espelho e da consciência de que cada um é um, independente do gênero. 
Eu sou feminista porque não procuro um homem, procuro a mim.

Não passaremos.

Os dias estão lindos e floridos. Ontem o céu era um vasto azul, limpinho, nenhuminha manchinha do algodão das nuvens.
Calor, é verdade. Mas vida. A força da natureza.
Uma pena tanta gente sem educação, alienadinhos, lavando calçada de mangueira como se encontrar água fosse fácil como encontrar egoístas.
Tá, mas eu quero falar de coisas legais que sinto quando tá calor e dá pra sair meio pelada pra rua. Eu sinto, de repente, que a natureza vai vencer esse jogo, sabe... Porque pra ela não existe um jogo, só oxigênio e ciclos.

Por exemplo, há uma pracinha que é como o quintal do meu prédio, fica logo atrás. Era pomar também, mas agora estão matando as árvores frutíferas.
Muito da matança das árvores por ali, segundo dizem vizinhos que acompanham mais de perto, era obra de um comerciante que via as árvores como culpadas pelo pouco movimento em seu comércio. As árvores atrapalhavam a vista da sua placa à distância, as árvores poderiam ocultar até maus elementos, as árvores eram o problema de sua vida de empresário sem lucro. Assim, ele cortava a facão, a mão, a serra, com força do pensamento. Tudo valia, até ligar todo o tempo para a SMAN e pedir em nome de todos nós, vizinhos, para que tirassem todo aquele verde dali, pois estaríamos com medo de seres do mal ocultos pelas árvores.
Diante de tanta insistência, veio a SMAN uma, duas, três vezes. Assim, ficou meio sem sombra, está mais calor, menos namorados às tardes, menos piqueniques, menos pássaros.
Bem, a matança não gerou mais negócio pro empresário, óbvio. Ao contrário, caiu mais o movimento e ele passou o comércio adiante antes que fosse tarde. Dizem que o novo dono quer fazer as pazes com o parque. Tomara.

E as árvores? Assim, uma figueira para "quem" já tínhamos feito até tristes despedidas, parece começar a ressuscitar do nada, qual fênix. Um sinalzinho de vida, um milagre!!
Um pé de acerola, mortinho da silva, decepado a facão, um nadinha no meio de um canteirinho seco, começa a mostrar um pequenino galho verde com 3 ou 4 folhas, ressurgindo... 
Nem todas, claro, irão renascer dos cinzentos momentos de fúria do homem. Entretanto, algumas estão mostrando a força que tem a natureza. 

O que eu quero dizer com isto? 
Quero dizer que, pra mim, apaixonada que sou por terra, chuva, cheiros, bichos, mato... Eu acho que nós, idiotas infantis metidos a donos do brinquedo, quando nos dermos conta que a vida não é brinquedo e muito menos estamos no controle dela, estaremos num fim fedorento, comendo cimento. 
Nós morreremos, estaremos fodidos, pequenos, sem ar e sem água. Sobre nossos cadáveres sequinhos, após o último suspirosinho, ressurgirão as árvores e corredeiras e danças de asas, mares e orixás. Uma festa digna, um sambinha legal!
E nós, extintos sob nossos entulhos, engolidos pelo tempo, com moedas nos bolsos poeirentos e latas enferrujadas iremos sumindo, sumindo até nunca mais, ninguém, nenhum ser do futuro lembrar que existiu uma gentinha pequena, sem pelo, que nem pelada andava e que achou que conseguiria matar tudo o que via pela frente e reinar sozinhos, mastigando cinzas, brindando com chuva ácida. 

Minha previsão feliz é que nós, imbecis, cairemos. Nós não passaremos.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Tudo é uma questão de ambiente.

Cada ser é um mundo.  Ambiente. Clima. Curvas. Ângulos. Veias e órgãos. Mente.
As máquinas também são assim. No meu trabalho, ando com várias máquinas. As mais constantes são os notebooks e as câmeras. Os projetores são românticos e diretos, as multifuncionais tem um certo ar de eu me basto e, com isso, não fazem muita amizade, ficando ali impávidas em seu altar, fingindo frieza mas preparando alguma surpresa.
As câmeras são sexuais, tanto ou até mais que os instrumentos musicais (sendo que esses não são máquinas, os citei sei lá porque).

Câmeras... Durma com elas e não acredite em frescuras e manuais a respeito dessa relação. Só é preciso ser muito íntima e inseparável até que ela adivinhe o que você sente e vice versa.
Os projetores não se importam de viver em armários e saletas obscuras. As câmeras não. Elas competem com tudo e todos, namorados, filhos e com a hora do almoço.
As máquinas de costura são um pouco assim também, mas elas são menos possessivas. Ao menos no meu caso, elas são românticas como os projetores. São lânguidas, entende?

Para conviver bem com máquinas a estratégia é oposta ao modo como se faz para conviver bem com pessoas.
Pra ter bom relacionamento com gente você só precisa dar e receber espaço. Manter uma certa distância, não dizer tudo, não falar sempre, não amar totalmente, não querer demais, misturar só um pouco e ter cautela. Gente teme.
Mas com as máquinas é absolutamente diferente, basta se tornar íntimo. Tudo é uma questão de ambiente.

Por exemplo, eu uso um note só pra edições de vídeo, outro só pra projeções, outro pra todo o resto.
Assim, o note de todo o resto é como um órgão do meu corpo. Nos conhecemos, dedos, gestos, idiotices, vícios e manias. Nunca brigamos. Se fosse gente, bah!, já seríamos inimigos. Ninguém convive tanto e se conhece tanto sem declarar inimizade cedo ou tarde.
Mas os outros notes, se me demoro dias pra retomar um trabalho, a relação esfria e preciso me inspirar pra reacender a relação. Olho para eles ali fechados na bancada. Eles, talvez magoados não olham pra mim. Levo enorme tempo pra me sentir a vontade no ambiente deles, atraso trabalhos.

Minha fixação por inventar coisas me faz ter uma boa relação com furadeiras e serras elétricas e nunca tive muita intimidade com os secadores de cabelo, acho eles meio burros. Não me dou nada bem com as máquinas de lavar e aprendi que cafeteiras não pensam. E isso é sério, as cafeteiras são as únicas máquinas que não tem vontade própria.

Não falei em carros porque são apenas crianças que não sabem tomar banho sozinhas.
E os celulares? Acho eles muito sem personalidade.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Síndrome de Estocolmo

Cada país vê história a seu modo. No nosso, preferimos pensar que é só uma matéria chata dos tempos de colégio. De certo modo, pelo jeitinho decoreba como grande parte dos métodos a apresenta e "ensina". E será que história é pra aprender ou apenas pra conhecer, interpretar?
Seja história, matemática, a língua, o modo como passamos a vê-la na escola, especialmente com as reformas criadas para e pelo regime militar, tudo fica parecendo só acúmulo, um porre, um tijolo  que a gente fica louco que nos joguem logo na cabeça e os meses corram e chegue logo o final do ano quando, graças a Deus, nunca mais precisaremos pensar nisso.

Conheci poucos professores de qualquer matéria que apresentassem seu assunto como algo pra vida, mas posso dizer que sempre que um professor esquece conteúdo no primeiro dia de aula e prefere contar sua história e a história da sua história muito mais alunos, sentindo o amor dele, ficam contaminados.

Uma vez, na sétima série, eu tinha uma professora apaixonada por história. Naquele ano eu fiquei viciada em pesquisar a Segunda Guerra Mundial e fiz um trabalho totalmente desnecessário de umas 40 laudas sobre o assunto. Acho que tá lá nos guardados da minha mãe até hoje. Era pra fazer algo simples, 5 páginas ou nem isso. Por culpa do modo como a professora de história gostava de abordar história, eu passei noites acordada fazendo aquilo, lendo, pedindo livros pro meu pai...

De verdade, história não é algo que aconteceu no passado, mas algo que vai acontecer adiante dependendo de como estamos escrevendo a história de hoje.
Por exemplo, esse fenômeno do ódio e da intolerância. Erramos, andamos em círculos. erramos de novo, muitos já esquecidos de tragédias recentes como a ditadura militar por toda a América do Sul. Isso tudo tem a ver com o desconhecimento de que a história é o presente e se você se distanciar como se não fosse com você, vai apenas ficar na mesma. Por outro lado, ao brincar de prever o futuro, verá que não é uma matéria de currículo, mas o preço da passagem, o lixo no chão, os desejos, manias, vícios, o gosto das coisa, aquele cheiro que a gente sente quando passa na rua e puxamos pela memória pra saber de qual pedaço da infância saiu tal perfume.

Certa feita, convidei uma amiga pra ir à praia passar um final de semana conosco. Na época eu andava viciada em Dalva de Oliveira e ao saber que ela nunca ouvira falar nessa cantora, não pude disfarçar minha surpresa e decepção. Então ela argumentou:
- Mas como eu iria conhecê-la, se tenho apenas 28 anos? Eu ainda nem tinha nascido!

Quase tive um faniquito tepeêmicos, mas no final, até agradeci. A garota, na verdade, me deu um dos exemplos concretos, dentre os muitos do dia a dia, que me convencem do que eu falei no início, sobre como nós brasileiros nos relacionamos com o passado infantilmente. Tão infantilmente, que não sabemos que ele é presente e é futuro, pois sendo crianças o mundo nos parece só aquele onde alcança a nossa tangente, ali na porta do quarto.

Vejo pessoas bem vestidas levantando plaquinhas com dizeres sobre mudar o país mas, diferente dos dizeres dos seus cartazes, suas vozes pedem mais distancia e menos igualdade social e isso não é mudar, é retroceder, é voltar ao círculo viciado.  É como quem muda até um ponto, mas esquecido dos motivos, no meio do caminho sente medo e regressa ao ponto do qual tanto quis sair.
Então, me lembro sempre de fatos. Não de cartazes, mas acontecimentos, como esse fenômeno do ódio que tanto anda acontecendo no nosso país. Isso é história. Passado, presente e futuro que servirá pra alguém que lembra de tudo muito bem e manipula o desconhecimento da maioria.

História é agora.
E a história será a mesma de sempre, como um joão bobo, um bumerangue, se continuarmos votando em coronéis, valorizando o consumo, nos separando em classes pela única e vazia insegurança, nosso medo de sair um dia a rua e percebermos uma mudança inadmissível, uma nova, dura realidade onde ninguém estará a apostos pra fazer uma reverência à nossa passagem e, pior, não teremos que reverenciar ninguém por ter mais coisas. Isso sim é uma prisão. A prisão do puxar sacos e tapetes é princípio e valor, é uma calosidade grossa.

E assim, não sabendo de nada, ouvindo dizer, repetindo resumos e orelhas nós estamos sempre apaixonados por algum senhor que mastiga, coça a barriga, dá ordens, bebe vinhos caros e vive em algum palácio enorme onde só os puxa-sacos privilegiados e os serviçais podem penetrar. Não importa se somos de terra ou de cimento, o que nós queríamos, queremos e quereremos pra poder tocar a vida, é algum coronel dono de jornal, de canal de tv, proprietário de homens e de mulheres que nos diga qual é a história. Ela apontará um caminho que dá confortavelmente sempre no mesmo lugar, e nós agradecidos o amaremos e respeitaremos seus filhos e netos pra todo o sempre amém.

E a guria que não conhecia a Dalva de Oliveira porque ainda nem tinha nascido? Bá, cortei relações.