domingo, 31 de maio de 2015

Um olho que entra e sai

Vagar.
Vago, o tempo lento.
Algo se revira por dentro.
A pressa, prece. Enganos.
Exageros.
A cabeça num buraco. Avestruz.
Pés estanques.
Mão suada, boca seca.
Da garganta rouca
A frase louca
Uma formiga na ponta da língua.
Ferida, cócegas, ais.
Visgo.
Um olho que entra e sai.
]bw[

domingo, 24 de maio de 2015

Goldfish 3

Tenho diários de todos os tempos da minha vida, muitos são gravações em áudio ou vídeo. Entre livrinhos de garota fechados com pequenos cadeados, há caixinhas  bonitas com coisinhas, embalagens, pétalas, bilhetes de viagem, tickets de shows, cartões, corações... que medo disto!
Resolvi queimar todos porque acho meio pesado ficar com passados aprisionados em fundos de armários.
Antes de rasgar as páginas, passo os olhos nesse ou naquele desabafo. De fato, sou a pessoa mais esquecida que conheço, se é que me conheço. Não lembro de pessoas que amei, de gente que me magoou, de telefonemas, nomes, festas, prêmios, desejos, esperanças, tolices, viagens, ingenuidades e decepções.
Lembro de sensações boas em centenas de lugares, vento, a fumacinha que sai da boca no inverno indo pra escola, natureza, avenidas, hotéis, cheiros, águas correntes, cantos de pássaros, sons do mar, cheiro de fogueira, fumaça nos olhos, o acordar e sair pela neblina diante de uma cachoeira, o gosto do sangue num mergulho em que dei de cara numa pedra, uma nota musical... coisas que não precisam de um diário pra que me lembre....
Mas tudo se mistura e fica mesmo uma estrela que está sempre no mesmo lugar, perto da lua no cair da tarde, me olhando em qualquer tempo ou espaço. Sempre as estrelas, a via láctea, as três marias e o cruzeiro do sul no natal na casa de infância, no céu de alguma praia...
Quanto a pessoas, não sei de nada sobre o meu passado porque esqueço seus nomes e rostos e as vozes e as declarações, gostos, gestos e motivos.
Lembro das minhas pernas, as pernas.
Nesta faxina, lendo uma frase ou outra, triste ou feliz, meio tola citando nomes   em situações que desconheço, entendi tudo e evito invadir-me.
Se não me é íntimo o momento, não sinto qualquer curiosidade de saber dos desfechos pois aquela é outra e não me sinto bem em ler o diário de outra pessoa, aquela eu que ficou no tempo  em lugares onde nunca mais pisarei ou se pisar também serão outros assim como eu.
O que se vive, penso, não morre mas não precisa ser lembrado, comentado.
Que fique incólume em seu momento nunca mais possível. Sentimentos e segredos mais íntimos, fiquem em seu estado pra sempre, a ocupar a sua dimensão.  Não acho justo devassar a vida de outras meninas e mulheres que fui ou serei.

Como imaginava, meu nome é presente. O passado é de outra, o futuro não me interessa.


sábado, 23 de maio de 2015

Sábado também...

Fico deitada nessa cama com 15 almofadas, 4 travesseiros, duas gatas e uma cadela e uma biografia de alguém que era drogado. Meu quarto tem dois espelhos grandes um diante do outro pra eu ver minhas costas, que é a única parte menos pior de mim. E, assim, nada fazendo, eu vejo a porta encostada na parede que eu arranquei fora faz três meses animada com a ideia de nela fazer uma colagem incrível com as lindas fotos que eu faço de minimundos de micro aranhas na cozinha. Mas daí deitei aqui e tinham essas 15 almofadas, 4 travesseiros duas gatas e uma cadela e uma biografia de alguém que era drogado e esse negócio branco onde eu digito essas bobagens e a porta ali me olhando encostada na parede.

Sábado...

Ontem eu tava mega comportada. Andamos pela banda hype da província, entre as poses que, me parece, andam cansadas nas bochechas em forma de ovo. A loucura morreu soterrada nas paredes angulares juntamente com os gambás e pica paus. Fudeu! Mas só bebi 3 doses misturadas. Uma província de trigo, uma velha chica e una copa de chardonay. Sempre me parece que escorro pelas ruas, mas tudo bem, isto não se dá apenas aqui, é o líquido olhar. Um maloqueiro me xingou porque lhe ofereci minha cachaça, quando ele queria uma bebida descente, no mínimo uma cerveja.
Daí, cheguei em casa e era verão e tudo brilhava como se algo escondido me agradecesse por ser redescoberto. Saí do banho pingando pelos cantos e os meus pés escorregavam numa dança... Até porque, também ontem, coloquei um planeta no lixo em momento de exorcismo.
E assim, na calada da noite alguém veio me lembrar que existe a Hilda Hilst, então fiquei até alta madrugada meia luz quente recitando ela pela casa junto a um incenso violeta como quem está num palco. Acordei de ressaca e cedo demais! Morri ou nasci... mas essa parte ainda não decidi.
Só acho que já era hora de alguém subir num morro da cidade e gritar:
- Deu! Decretamos o fim da fase morna marasmo dedos certinhos, acabou a produção de porcelanato e ninguém mais que viver sem caios nem qorpos, sem nada, sem poesia. Parem já com isso!! Que se fodam os gestos de centímetro, bem curtinhos, olhos rasos que piscam sorrisinhos nas contidas pestanas. Ninguém mais grita? Pois saibam que aulas de natureza morta são menos, bem menos excitantes que dedicar-se ao tricô. Não aguentamos mais parar com o barulho bem cedinho, ai meu deus do céu!
...
"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem"...
Hillda Hilst

sábado, 16 de maio de 2015

Desfecho


Não existe um passado a celebrar
Onde o presente é fantasia
Ruas estreitas, lâmpadas amarelas do sono.
Qual  história sem conto pode explicar a saudade do  não?
Podem existir dois quando é apenas um?

Não há um fim sem começo
Apenas um sonho entrecortado
Mãos que falam
Uma lágrima invisível
Improvável, brilhando solitária
Ilusão, remendo, vaidade

Como dar adeus ao desabitado?
Não existe morte sem vida
Não há  vazio na dimensão daquilo que nasceu desenhado pelo nada
Como se aprende a dança dos fantasmas?
Qual o tamanho da tristeza
Quando  damos adeus à lembranças ainda não inventadas?

De onde vem a paz que adivinhamos sozinhos?
Para onde vamos assim, encolhidos,
Cheios de mundos que não puderam ser vividos?
Como podem haver tantas conchas
Nos aguardando a cada onda que quebra
A cada chuva que nos devolve para o sal do mar?

Após o nada, o melhor é fechar-se no descanso.
Depois de tudo, o melhor é nunca se arrepender.

]bw[

terça-feira, 12 de maio de 2015

mimimi

Creio que trabalhar com a nudez melhora as pessoas em relação a si mesmas. Desmistificar o nu e parar de ver o próprio corpo de longe, de relance, pela fresta, faz você tirar uma das pedras do caminho em direção ao levitar e derrubar barreiras que se transformam em preconceito, inveja, ódio, medo, maquiagem. Pra mim, todo mundo deveria fazer pelo menos um ensaio de fotos peladas na vida. Assim, como um tema de casa terapêutico pra parar de aiaia uiui

Pau oco

Depois do dia das mães eu fico um mês ainda traumatizada com as musiquinhas e florezinhas. Será que eles pensam mesmo que mãe é um anjo do céu. Se a gente for se contaminar por isso, não transamos mais, não comemos, não tomamos um porre, não falamos mais puta que pariu quando cortarmos o dedo e ficamos o resto da vida num pedestal com cara de santa efigênia, só descendo na hora de servir a janta! Ah vá.

sábado, 9 de maio de 2015

Vão


Mães  são  um meio
Nem início nem fim
Um veículo
Uma nave
Um objeto
Um ovo um ovni
Um estorvo
Saída
Passado
Nem santa  nem pura ou entidade
Muito menos a estação
Mãe é o vagão de um trem só de ida
Mães são cada uma
Segredo que nenhuma outra
Uma mãe é só um portal da morte ao contrário
Mãe é a passagem
A ponte
É  uma fonte que seca
Um poço que fica ali nos fundos e cai a noite
Nada além
Mãe não é flor
Nem presente
Nem moedas e fitas
Não é o comercial nem os retratos
É a dor que nunca poderá explicar
Os risos que nunca alguém vai decifrar
São gritos no silêncio
Nem  afirmação nem negação
Apenas ocaso
Mães não nascem nem morrem
Não são homem nem mulher
Dia nem noite
Um cordão cortado.


}bw{

quarta-feira, 29 de abril de 2015

SÓ PRA NÓS DOIS

SÓ PRA NÓS DOIS.
.
.


Você precisa entender por que me tira o sumo e, leve, te agradeço, finjo que não vi.

É que quando olho em torno de mim,

Entre tantos vultos, enxergo a nós no momento em que éramos.

Compreende que o agora não há pra nós dois?

Sim, vejo grandes mãos sorrateiras que tentam tirar de outras o que não se tira.

Porque você pode tomar de alguém suas ideias e o riso.

Você pode clonar uma alma,

Os perdões que ela já distribuiu, mesmo os erros que cometeu, os sucessos ou tropeços.

Você pode levar os papeis e projetos de vida e até sonhos fujões.

Mas você nunca roubará a verdade do princípio, uma, única.

Veja, o primeiro som não tem propriedade, apenas é. Escorre entre os teus dedos sagazes e volta para minhas veias.

E só importa que nós dois, somente nós dois saibamos bem disto.

Você e eu, em silêncio, certos de que nunca decifrará o segredo que me motiva

Simplesmente porque nem eu sei o que me move.

O autentico que há nos passos de outros pés, nos tremores de outras mãos ninguém simula.

Nada do agora poderá transformar o meu amor pelo que fomos

Antes de você ser apenas mais, menos um.

Mãos ao alto!

Vamos, leve tudo e me deixe nua! Iluda-se de que roubou o conteúdo quente do meu coração.

Leve as cópias carimbadas com suas iniciais e as atire com purpurina da mais alta montanha.

O prazer original está nas minhas asas, vai comigo para muito distante da sua multidão.

]bw[

segunda-feira, 27 de abril de 2015

.....

final
mil e um olhos de vidro apertam suas pálpebras diante do sol
caminhos acanhados aqui dentro
mil e dois pares de pernas nada buscam
eu disfarço tu simulas eles fingem
escuto sons entoados pelos meus olhos fechados
meio
sambo sobre o antes, tremo do depois
enjoo desmedido das incógnitas
sonhos entrecortados apneia
eu temo tu receias alguém aguarda
você em mim
os outros são todos um
ninguém
início



terça-feira, 21 de abril de 2015

Goldfish e a Mulher Gavetas

Goldfish e a Mulher Gavetas.

Goldfish e a Mulher Gavetas.

Estava aqui tentando voltar pra o meu projeto Goldfish e entender onde ele se mistura ou não com um outro que se chama Gavetas, um plano de quase música... Não consigo dividi-los, embora o primeiro seja de fotos e vídeo, objetos enterrados e figurinos e o segundo apenas de sons e vozes.
Mas quanto ao tema, não tenho como distingui-las, as duas atividades da memória, essas lembranças sobre gente que passou e nunca mais. Começo romântica mas como não sou saudosista ou porque minha vida não é fácil surge apenas um "ufa! sobrevivi mais um dia". Porque tudo é muito lindo, só que não é. Há muitos perigos, ameaças, humilhações que as meninas não machistas correm e vivências que elas vão levar consigo pro além, secretos guardados em gavetinhas da ínfima existência.
Solta sozinha na vida desde a adolescência, eu vi homens tirando máscaras e algumas delas escondiam mulheres que educam esses homens, todas nós.
Com seis anos eu vi um primeiro olhar de homem sobre mim. Eu era muito pequena, sempre fui, parecia sempre mais nova. Estava com um vestido lindo que eu amava e minha mãe costurou pra mim. Ia a pé pra o sítio de um amigo com uma moça que cuidava de mim. Meu amigo era o Nico e eles plantavam mares de flores onde nós dois brincávamos nas tardes de outono. A minha babá parou a conversar com um rapaz que estava em seu carro vermelho e no meio do papo ele me olhava e comentava que eu ficaria muito gostosa quando crescesse.  Eu só torcia pra sair logo da frente do olhar sinistro daquele jovem playboy.
Quando o primeiro homem me agrediu na rua eu tinha 13 anos, voltando da escola. Era quieta e tímida, adorava ler Garcia Marquez e Erico Veríssimo. Meus seios estavam crescendo, doíam as glândulas, era muito ruim. Ele era um senhor numa conversa animada com um amigo, passou por mim e com a mão enorme apertou-os e disse algo que prefiro esquecer. Me ajoelhei e solucei de dor, os dois se foram rindo muito. Talvez ele tivesse uma filha da minha idade, quem sabe... Isto é um homem, muito prazer.
Mais altos, mais fortes, com as vozes mais graves. Homens, quando resolvem ser o que lhes impõe a educação que trazem de casa, sobre sua superioridade e virilidade - seja lá o que isto quer dizer - podem ir da cordialidade criada nos laboratórios das fábricas de desodorante à frieza de um robô gigante que esmaga um passarinho e olha o líquido que escorre pelos seus dedos de lata. E não estou falando de jogos e DRs entre casais marionetes educados em tutoriais. Falo das profundezas nas nossas relações com irmãos, pais, filhos, maridos, entregadores de pizza, empregados, chefes, motoristas de táxi, porteiros, professores, vizinhos cretinos, médicos e senhores de bengala. Nada nunca está relax quando uma mulher e um homem estão a sós e ela leva no olhar um aviso de que ele não é nada mais naquele momento do que um irmão ou um pai ou um filho, um marido, um entregador de pizza.....
Aprendi que as mulheres que não escolheram ser o passarinho frágil sempre entre a gaiola segura e o esmagamento, passam a ser pisoteadas não por um robô social, mas por uma frente de batalha com quem não se dialoga, porque não há um líder a quem reportar-se mas apenas um milhão de máscaras, um baile de carnaval interminável através do tempo e do espaço. Uns mais estratégicos outros mais selvagens, quando você confronta o estabelecido, você precisa passar de passarinho a fênix sem aviso prévio. E se você quer ter o direito de se distrair com as borboletas pelo caminho, além de anjos da guarda, precisará exercitar a terceira visão.
É aí que eu levo de um modo estanque alguns projetos profundos, porque ainda estou lutando e acabo no meio da confusão apenas tirando uma tola conclusão:
Creio que nunca tive um anjo da guarda, mas um batalhão de anjos que me protegem na dureza que é voltar sempre ao ponto de declinar solenemente disso que chamam conquista, mas é apenas uma competição pela dominação em nome da vaidade. Diante de concursos e da pressa sinto muita preguiça.

www.biahwerther.art/goldfish.html





quinta-feira, 16 de abril de 2015

Sobre o simples


É que pra mim o trabalho, o dom de cada um ao saber fazer melhor isso ou aquilo não é um alimento do ego. Não acredito que temos este ou aquele talento para com ele nos sentirmos mais ou melhores, para nos exibirmos no pódio. A meu ver, o que cada um tem de especial não é pra se destacar e brilhar, mas para trocar e fazer a nossa roda girar. 
Quando você compete e se torna servo do dinheiro, você esquece que a sua função como profissional é dar o que sabe em troca do que não domina.
Antes de ser o mais, o melhor, o primeiro, o mais novo, o mais cheio de neurônios, o mais rápido o mais bonito ou alto ou rico a praticar alguma profissão, você é alguém que tem uma responsabilidade social.
O que nós sabemos só tem valor quando trocamos. Títulos,prêmios, destaques e troféus, pra mim, são criancice se não valerem mais pra os estranhos do que pra nosso orgulho e exibicionismo.
Dinheiro não pode ser o princípio, a motivação para o que sonhamos. Dinheiro como meta não é sonho, é pesadelo.


domingo, 12 de abril de 2015

Porto Alegre alucinante


Domingo.

Uma brasileira, num programa da GNT, mostrando sua moradia na Toscana, natureza intocada e valorizada, em um pedacinho da casa tombada que foi do Américo, aquele que descobriu as Américas.
E daí eu me pergunto o que faço ainda na divisa do bairro Mont Serrat com a Boa Vista, onde as casas antigas com seus belos jardins se transformam em arquitetura-tendência, fria e dura; há 3 quadras de uma das maiores matanças urbanas de aves e árvores promovidas pelo Jose Fortunati e seus eleitores; moradora de um condomínio que, pra não sujar a piscina e não "manchar" o carro de uma ex-modelo cheia de pitis, pagou até multa mas não mudou a decisão de dizimar o perfume de dezenas de árvores. O que faço aqui, colada a uma pracinha bucólica, vítima do ódio, que todas as semanas sofre ataques de moradores do bairro que matam árvores frutíferas e calam pássaros na calada da noite pois acreditam que suas cores ajudam a ocultar bandidos e os monstros da falta de amor nas suas camas.
O que há no coração, com a pobre vida de uma pessoa que sai a noite com um facão em punho, pose de vingador e bate, bate, machuca uma árvore cheia de frutos verdes até que lhe arda as mãos, até vê-la tombar sem vida a seus pés? É neste momento que goza o cidadão de bem? Quem são os marginais perigosos?
Porto Alegre é que tem um jeito legal.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Pizza a Metro ou Um Quilo de Por do Sol

Um amigo que participa do movimento Cais Mauá de Todos​ me convidou a enviar um vídeo testemunhal colaborativo. Sou voluntária em várias causas e entendendo a relevância e urgência da ação, então comecei a selecionar algumas fotos que fiz ali, clandestina, já quando estava proibida a entrada.
Como todos os artistas da cidade, tenho lembranças de vívidos momentos vividos no Cais, onde criar coisas me dava uma sensação de ser parte de um mundo gigante, não dividido em cubículos agorafóbicos. Assustadoramente imenso, impossível dominar o espaço, nos fazendo mergulhar na humildade do coletivo...

Pequena, do nada, estanco!
Ao tentar iniciar o artigo algo seca a garganta dos meus dedos e pouco consigo escrever em defesa do Cais Mauá. Camisa de forças. Uma tristeza que começou desde que o prefeito Jose Fortunati​ demonstrou a sua ignorância e despreparo escarrando na nossa cara a sua luta pela contramão do presente momento mundial, assassinando o bairro onde vivo. Após o filme de terror aqui na Anita Garibaldi e arredores, onde o canto dos pássaros cala um pouco a cada dia e as flores sufocam juntamente com nossas esperanças de um gestor mais responsável, menos comprometido com as construtoras, algo morreu em mim me fazendo pela primeira vez na vida sentir pequena, um nada, pessoinha comum que pode muito pouco diante da maioria.

Eu sofro quando chego na praia que frequento e os sons da natureza silenciam mais e mais a cada ano e não há trabalho voluntário que mude o tom cinza do quadro da dor. Me dói quando volto a Porto Alegre e a vejo agonizar. Desanimo quando estou aqui ou acolá.
Rio Grande do Sul ou Rio Grande do Norte, não há pra onde fugir, não há como sensibilizar vereadores que ganham coberturas em troca de apoio a corporações mafiosas. Não há o que haja.
Não sei dizer nada, sou apenas perguntas.

Gostaria de entender como alguém pode achar normal uma cidade se transformar em um enorme shopping center. Como um povo pode sentir orgulho de perder a cada minuto a sua memória, as belezas naturais e arquitetônicas. O que nos faz sentir tanto ódio de nossa história, tanta vontade de respirar, deglutir, viver (morrer) concreto?
Nós agora somos isso, então? Cada qual um pedaço de cimento moldado em areia roubada, moedas saindo e entrando pelos buracos, passos duros pesados ao encontro da próxima vitrine? Nós perdemos? Morte anunciada?
Até que seja tarde, Porto Alegre valerá cada vez menos, muito menos do que sacolas de compras com a foto de um sol oculto por um mar de prédios espelhados?

Qual é mesmo o signo de Porto Alegre?

sábado, 21 de março de 2015

Outrano

Vento de outono assobiando na janela
Outrano no meu pulmão
O trem não para nunca
Não importa a estação.

biAh weRTher



terça-feira, 17 de março de 2015

1984

Acho que estudos de Zoo humano voltarão a ter sua relevância agora que a Globo perdeu a audiência e vai dar fim ao Zoo de um milhão. Eu acharia interessante um projeto assim no Brasil de hoje, com voluntários, gente comum, sem disputa por carros ou fama, apenas uma jaula pra observarmos pessoas, cada qual na sua loucura, se aturando.
Achei surreal agora quando folheei a tv no Multixô e estavam Marisa e Adrilles brigando sobre o valor das imagens diante do valor das palavras.Marisa não negava o valor destas, mas alegava que as imagens são também uma escrita e, afinal, vieram bem antes. Adrilles dava pulinhos e citava de Borges a Freud.
Exaltaram-se minutos e mais minutos e acabaram partindo para continuar o debate tomando um café, na cozinha. Pareciam gente.
É, acabou-se o tal de BBB. Onde estão as gostosas com vocabulário de 5 palavras??
Lembrei que, nos anos 90 eu assistia um programa no GNT que era um estudo sobre o que seria um zoológico humano. Era numa casa, um retiro em lugar qualquer da Europa que não lembro mais. Interessantíssimo. As pessoas aceitavam ser voluntárias na pesquisa e não concorriam a nada, acho que ganhavam, sei lá, 500 dólares pra se prestar para aquilo. Você assistia e ficava discutindo o assunto horas. Melhor, não sabiam da existência das câmeras e nem da ilha de edição!
Depois, patentearam a ideia e transformaram num programa de televisão que ganhou franquia no Brasil, onde virou um Zoo não exatamente de humanos.
Quando eu li que o Zoo dos robôs iria acabar aqui no Brasil, fiquei curiosa desta versão que não chamou o público e já assisti várias vezes. Gosto do Adrilles porque ele leu grandes autores apesar de ser um cara chato e afetado.
E simpatizei muito com a Marisa pois apesar de não ser exatamente uma idosa, sofre com o preconceito pesado dos mais jovens.
Isso que fazem com ela me remeteu aos primórdios da ideia de Zoo humano, antes de virar programa de gostosos viciados em clara de ovo. Me faz pensar no quanto a velhice assusta e faz as pessoas novas odiarem quem não estica a cara se dar ao displante de mostrar-se na tv. Quero dizer, o fato de ela ser apenas uma senhorinha sem botox ou lipo, faz eles pisarem nela e fazerem deboches pelos cantos, ao invés de aproveitarem o fato de ela ser legal e mais velha. A primeira conclusão que se chega é a de que num programa de TV não se pode ser gente real, normal, que se vê na rua, no supermercado e em casa.
Mas então, se sabemos que na tv não tem gente de verdade, o que queremos?
Queremos ser todos um monte de coisinhas de mentira, um milhão no bolso e a cara esticada Emoticon smile

Vino da Séra.

Desci ali no gringo pra comprar algum vinho gaúcho de uns 25 pila pro jantar, pois ele não vende chilenos ou argentinos.
Sempre que estou ali fuçando, ele vem conversar comigo sobre vinhos. É que nem o gringo da vendinha lá da praia, que só tem vinho ruim, mas os que ele bebe são bons, então sempre que chego por lá ele desencanta uns melhorzinhos pra mim.
E hoje, do nada o gringo me vem:
- Buonasera! Quero te dar un vino que tenho aqui escondido, que tamu fazendo lá no interior de Caxias.
- Ai meus Deus, disse eu... Se eu já não gosto nem dos vinhos bons da gente.
Não, ele não se ofende com minhas piadas, cresci vendo o pai batendo papo com amigos enquanto eles pisavam nas uvas dentro de uma tina gigante no porão de pedra, lá na Vila Nova. Não vou dizer quando comecei a provar vinhos, porque as pessoas que não nasceram em uma estância gaúcha pra mais tarde irem morar num sítio numa região só de gringos vão ter faniquito de apartamento.
Mas voltando:
- Tu vai gostá, é seco! Isso é o melhor vinho de garafón, guria. Se não gostar, me devolve.
- Tudo bem - com ar de receio - e que uva é?
- É Moscato, essa uva é muito delicada, não dá pra fazer grande quantidade porque tem safra que ela vem com pouco açúcar, daí o pessoal que tem rótulo, mistura no Riesling.
- Puxa... vivendo e aprendendo. Qualquer coisa, uso ele no molho. Mas bá, deve ser por isso que eu tenho até chilique se alguém me oferece um Riesling.
- Tu vai gostá, guria!
Um vizinho vê o papo e resolve comprar uma garrafa. Sete e cinquenta! Ah, penso eu, ruim ou bom, esse gringo transforma tudo o que toca em dinheiro.
- Tá, aceito. Mas então a gente faz um trato!! Se eu gostar e tu começar a vender bem o teu vinho, tu vai me contratar pra criar um rótulo pra ele. Se o vinho não ganhar prêmio, o rótulo ganha!! Fechado?
- Combinato!!

quarta-feira, 11 de março de 2015

THX 1138

Hoje a tarde eu estava caminhando e escutando música dentro dos meus fones. De repente, do outro lado da rua vi um monte de gente fazendo o mesmo gesto. Eram transeuntes, gente estranha entre si mas idêntica nos movimentos. Pareciam ensaiados, uma dança tecnológica. Todos movimentavam os braços, levantados para o mesmo lado com celulares na ponta dos dedos, filmando juntos qualquer evento. Não vi o que eles filmavam, um ônibus passou na frente, depois outro, uns carros, me distraí. Quando voltei a olhar, segundos depois, eles estavam todos caminhando, dispersos, ensimesmados, como se um hipnotizador tivesse estalado os dedos e os mandado acordarem e seguirem seus caminhos.
Hoje eu estava jantando quieta no meu canto, observando... observando, que é uma mania minha. De repente vi um grupo de 5 ou 6 pessoas não muito bem humoradas, sentadas diante dos seus hambúrgueres. Até que alguém pegou um pau de selfie e gritou: - Agora.
Num segundo todos correram, formaram um montinho de cabeças num canto da mesa e fizeram algo com as bocas que me lembrou sorrisos.
Um instante depois, a pessoa avisou "feito" e todos fecharam a cara, se recompondo, cada qual em seu canto, alguns mexendo os dedos no celular, outros com a cara na maionese.
Hoje. eu voltei do jantar e fiquei perto da janela pintando umas coisas até que parei para procurar a lua. De repente, percebi que todas as janelas guardavam lá dentro televisões quase no mesmo local das salas, exibindo as mesmas imagens numa sincronia semelhante aos filmes futuristas dos anos 70.
Olhei pra minha gata Uma, deitada na janela, e perguntei: - Será que só eu ando vendo isso???!!
Ela me olhou superior, se espreguiçou e voltou a dormir.

terça-feira, 10 de março de 2015

Glossário

Morreu hoje um menino de 14 anos, espancado por colegas apenas porque era filho de um casal homossexual.
Tenho trauma de notícias assim, então passei o dia pedindo para que as pessoas não comentassem os detalhes de dor dessa criança na minha frente. Mas claro, acabo de ler um artigo a respeito.
Dizem que só na nossa língua existe o vocábulo "saudade". Eu sinto saudade de quando a gente via o Brasil como um país livre de apedrejamentos e barbárie. Convivência pacífica, diziam os mais velhos.
- Capaz, no Brasil não acontecem essas coisas. Não se decepa o clitóris de uma menina, não se queima um ser humano vivo por desrespeitar a religião e mostrar os cabelos em público. Não há racismo, neo nazismo, KKK, muito menos líderes religiosos fanáticos e cheios de ódio.
Cresci escutando: Aqui não.
Após superarmos a ditadura militar, então... Parecia uma nação em festa. O país brindando nossa cordialidade, nosso DNA de povo que samba feliz e unido independente de credo ou gênero ou da cor da pele.
Agora, com os pés fincados bem no meio do futuro, já se vê que andávamos distraídos. Também seremos a pátria que reinventou o significado de "direito"?
Sei lá... não sei que nome se dá para o que sinto com notícias como essa de meninos mortos porque são pobres ou porque são gays ou porque são negros.
Quero perguntar para os fanáticos, olhando seus olhos secos de ódio:
- Me respondam já. Quem afinal tem o direito à vida? Quando doutrinam suas crianças para a intolerância, vocês apenas os ensinam a espancar colegas diferentes, ou há algo concreto que os exércitos urbanos da ira aprendem antes de saírem às ruas para matar?
Há quem dê de ombros, há quem como eu sinta medo, tristeza, dor, trauma, revolta. E há os nascidos para odiar a felicidade e a liberdade do outro...
Que nome se dá para essa sensação de que algo terrível e covarde pode estar acontecendo nesse exato momento com alguém que apenas é diferente de outro alguém? Já inventamos essa palavra?

sexta-feira, 6 de março de 2015

Dia de pá nelas.

Meu trabalho é feminino. Como qualquer fêmea, seios, sangue e leite. Gesto, inspiração, espelho, centro, sombra ...
O que seria um dia de homenagem às mulheres nesse espaço-tempo orgulhosamente fálico? Entre mulheres contidas e agradáveis - coisa que não sou - sei apenas que o mote da data anda meio deturpado e que, mulher, todo o santo dia erro, acerto, aprendo, enfrento, gozo, sangro e curo a meu modo as feridas.
Dia internacional da mulher... não sei nada sobre isso.
*Da série Líquido Olhar: 
Foto e Arte biAh weRTher 
Modelo Mia Maria Eduarda Barcellos
Assistente Patrick Dos Santos


quarta-feira, 4 de março de 2015

Aula de não-roteiro

Encontrei esse RASCUNHO do MOSCAS VOLANTES número 7, lá por 2006 ou 2007, de quando a saga de Rita passa pelo roteiro do Bitols O Filme​, na época nos ensaios e pré-produção.

Moscas Volantes 7
A verdade de Jorge e Paulo segundo Rita.

De quando ela retornou de Andaluzia e resolveu visitar o extinto Cine Baltimore.
Naquela noite, em um porão na Azenha, os dois ensaiavam não contando com a surpreendente aparição. Rita sabia, a canção era sua.

Ao descer do táxi esbarra no homem que pichou a Casa Branca e agora procurava a Rita Lee na Lancheria do Parque - isso foi antes de ele morrer na esquina da Vasco da Gama com
a Felipe Camarão ao chocar seu fusca branco com o chevette onde o garoto de programa - que tinha o dedo do pé chupado vorazmente nas madrugadas das segundas pelo velho juiz - chupava o pau de um carioca de uns 33 anos.

O homem não encontrou a Rita Lee, apenas o Nei Lisboa. Então saiu
desolado da Lancheria do Parque e comprou um baseado na calçada para dar tempo de as duas histórias se cruzarem. Ele uma mosca, ela temporariamente personagem de um filme de época.

Enquanto o homem louco saiu em busca de seu destino trágico,
ela parou diante do Cine Baltimore, suspirou e invejou o próprio passado. Pegou sua caderneta comprada na Andaluzia, numa das poucas
vezes em que se afastou do farol, e escreveu com os olhos em lágrimas a conclusão que poderia ter sido enviada por Guilherme Pilla:
FAXION = FIXION CAUTELA = CAUTELA

Quase pediu um X-galinha, mas resistiu:
“Si no eres flaca, no eres linda.
Ser delgada es más importante que estar sana.
No te olvides de contar las calorías para comer sin
culpa. El agua es suficiente para sobrevivir."

O homem louco que procurava a Rita Lee agora sangra entre as ferragens.
De manhã, bem cedo, João Pedro liga para o seu pai, aquele que sempre quisera pichar a casa branca. Ele nunca mais atendeu o telefone. Rita já está diante de Jorge e Paulo, perplexos.

Foto de um dos primeiros ensaios do Bitols. Leonardo Machado, Leo Felipe, biAh weRTher


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Da caipirisse urbana

Fico com um certo nojo de gente que só agora descobriu que é possível reutilizar água da chuva, só porque a seca tá no jornal da grobo. Há milhões de anos já sabemos fazer isso, nascemos sabendo, saca? E agora os guri velho de apartamento ficam pasmados partilhando tanques azuis com tutorial de como catar gotas, chocados com a criatividade. O quê??? Água não dá no supermercado, em garrafinhas de plástico?
Sinceramente, fico com vergonha do que a gente virou.
Há uns 20 anos várias pessoas que eu conheço já usam placas de energia solar em moradias no Uruguay. No Brasil é menos, mas tem e até a seca em SP eram chamados de loucos. Há décadas, pessoas felizes vem construindo suas próprias moradias, sustentáveis, lindas, organizadas, elaboradas, servindo-se de conhecimentos básicos e óbvios que humanos e não humanos descobriram no começo do mundo. Somam o que já sabemos com novas tecnologias. Não é papo místico construir a casa voltada para o caminho do sol, entende? A isso se dá o nome de economia de energia, E viva a brisa a substituir o ar condicionado, se é que me entende.
Na real, faz anos que a indústria de eletrodomésticos pensa nisso tudo, só que as pessoas que usam tutorial até pra cortar as unhas dos pés, nunca perdem tempo com manuais. Hoje, quase todas as máquinas de lavar já vem preparadas pra facilitar, caso você queira reaproveitar a água.
Há décadas, você abre qualquer revista de arquitetura ou de fofoca mesmo e encontra artigos sobre pessoas que constroem seus lares pensando a luz natural antes da tendencia do sofá sei lá.
Nós somos tão idiotizados, que entregamos o lar nas mãos de construtoras mafiosas, sem qualquer preocupação com qualidade e vamos pro xópin coas crianças brincar de norte americanos dos anos 80.
Construir a própria casa, pensando em sustentabilidade ou, ao menos, ser responsável e não entregar a tarefa pra qualquer fio da mãe que paga propina a prefeitos pra poder construir em áreas que deveriam ser preservadas, deveria ser o normal, certo? Tu já pensou em descobrir o que existia no lugar do teu condomínio de luxo? E se soubesse que a natureza perdeu com a construção, tu moraria ali mesmo assim?
E essa mania de mandar o esgoto da tua casa de praia pro mar não é como não limpar as partes e usar perfume pra disfarçar? Bem, uma hora vai feder.
E não deixar copos plásticos na areia como a família de imbecis que eu vi ontem na beira-mar, a vó, a filha, o genro, o adolescente e o bebê, tadinho, desde cedo aprendendo a ser assassinozinho.
Tudo isso tu já nasce sabendo, assim como não usar mais água do que você precisa só porque você descobriu que é ricaaaa.
Ah, pulamor, parem de fazer ohhh pra tutoriais. Garanto que os nossos bisavós, se estivessem vendo tanta retardadisse estariam fazendo tsctsc.
Mas é que a gente resolveu tacar cimento nos quintais porque folhas fazem sujeira. Aliás, a gente resolveu que a vida é melhor sem quintal, porque árvores trazem bichos e aiiii como a gente morre de medo de bicho.
Olha, macaquinhos recolhem água da chuva em folhas de árvores, qual potes criativos, poesia pura, cena de filme da Disney. Nós, que aleijamos todas as árvores do quintal e não temos as lindas folhas verdes, podemos usar nossos baldinhos cor de rosa Emoticon wink Nem precisa correr pro tumeleiro pra comprar tonéis azuis!
Ok, admito que não tenho paciência pra o que nos tornamos, moradores da casa da Barbie, tronchos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O movimento é sexy.

Sábado ao meio dia tu acorda e eles chegaram, rapidinhos, enlouquecidos em carros cor de rosa tocando tump tump estacionados na beira do mar, assustando as aves, produzindo latinhas de skol e garrafas de vodka waleska oprimindo os ninhos, barulho e orgulho.
Abrem as casas feitas de areia roubada das dunas, apertadas nos micro terrenos dos sonhos, bonitas por fora, sem fossa por dentro, fazedores de córregos fétidos onde saracoteiam suas crianças. Oba! Cocô ao mar. Gritedo e buzinaço na frente da reserva ecológica.
Sábado pela manhã eles chegam olhando o mundo com cara de eu posso, passam por cima de tudo, cavalo de pau, gritaria, cachorrinhos de madame nas coleiras de cristais swarpowiohwiróvski a olhar com nojo e medo pro cachorrinho que eles próprios abandonaram na praia no verão passado.
Mas ufa! Hoje acordamos ao meio dia, algo está em paz no canto dos pássaros e nas ondas do mar. Milagre?
Hoje é segunda! Rapidinhos e torrados de mormaço, eles colocaram tudo cedinho nos carros altos reprodutores de sofrência. Os panos de bunda, as caixas térmicas, conchinhas roubadas e restos de churrasco, o nariz empinado cheio de pomada.
Foram-se, bem loucos, apressados pra bater o ponto.
Agora é esperar que a natureza se restabeleça um tanto até a próxima invasão de produtos eletrônicos coloridos piscantes barulhentos fedorentos lotados de coisinhas e paus de selfie.
Paz.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

BiAhgrafia

Na minha loucura workaholic, organizando a vida pras férias, me veio essa ideia idiota de nem viajar porque né... por aqui, trabalho não se separa de sono, insônia, sexo, febre, jantar, vinho, domingo, segunda, preguiça ou diversão. 
Meu trabalho sobrevive por, pela, para a observação e isso começou muito cedo. Minha primeira memória racional foi, a meu ver, um trabalho. Estava entre pessoas da minha família, caminhando pelo campo, na fazenda, talvez com dois anos de idade. Escutei uma voz feminina, discreta,baixinho a avisar para uma mulher que andava em minha frente, que o zíper de sua saia estava mal fechado.
Era como se tudo ao redor fosse escuro e nublado, embora eu saiba que se tratava de um dia ensolarado. Abriu-se uma espécie de portal entre eu, bebê, e os mínimos detalhes do mundo real. A saia era azul e evasê, um corte bonito na altura dos joelhos. Duas mãos fuçando no zíper. A mulher de saia azul tinha um corpo jovem e delicado, acho que era a minha mãe.
A partir daquele dia, observo tudo, mas quando apresento meu trabalho, NUNCA falo do meu processo usando expressões como "investigação".
"O artista tal investiga não sei o que" é clichê, cacoete de TCC. Entendo e acho até bonitinho, mas não sou uma artista pálida, ensaiada, de vestido limpo, explicando, explicando...
Por isso que, em meu sítio, ainda não subi a minha bio careta, essa dos prêmios, cursos e comprovações exibicionistas reunidas em formato chato padrão que, ao menos pra mim, são como os meninos de 13 anos no banheiro medindo o tamanho do pênis. Um trabalho de artista, a gente conhece quando quer, não quando ele tenta provar que existe, batendo os cílios.
É por isso que talvez exista quem não entende o meu sítio, cheio de salas, quartos, ateliês que a gente vai decorando do jeito como fazem as pessoas que constroem o próprio lar, sujos de tinta, sem precisar contratar um fazedor de moradias em série e um entregador de armários das casas Bahia.
VISITA MINHA PSEUDO BIO!!!

Carta sobre a Felicidade.

Veja a Internet. 
A gente olha ao redor e tem de tudo, da simplicidade à boçalidade - inclusive quem confunda os dois. A bem da verdade, ainda não se arranjou muito espaço pra primeira, pois ser boçal é beeem mais boça.
Há muitos textos pobres defendendo a riqueza e o capital, o que é antigo e ultrapassado, fazendo da web um meio contraditório. Mais ou menos como comprar um livro pela capa. Quanto mais o indivíduo tem o dom de se deslumbrar com esse meio moderno, mais antiquado ele se mostra assim que abre a boca virtual.
Nos temas sociais, por exemplo, o que mais chove são "opiniões" embasadas em homens tolos, bunecrinhos, infantis, serviçais da grande mídia como Reinaldos Azevedos, Alexandres Garcias, Willians Waaks e até esse tal de Pondé.
Fique atento antes de você citar a pseudo filosofança do Pondé, pense no mico. Busque saber o que é filosofia pra não passar vergonha, um dia, quando teu filho crescer. E ser ignorante sem precisar ser, tendo grana pra ler, conhecer e saber, tem seu preço. Pondé filósofo... ora Veja, tsc tsc. Numa coisa ele está certo, e é quando xinga você que o cita mas não o lê e, na sua condição de pavão reclama dele próprio sem nem perceber.
Sim, os xingamentos dele por trás da pose de cognac são justo ao seu típico leitor, que distante de qualquer exercício de lógica argumentativa em sua rotina robótica, pensa que é chique comprar um produto e ser debochado pelo vendedor. Mas bem, como eu duvido que um leitor do Pondé tenha lido mais do que duas de suas frases marqueteiras de efeito, é preciso dizer que quando ele debocha do churrasco na lage e do turista de catedral, ele fala, meu bem, de você. Ahã Emoticon wink E dele, no espelho.
Mas olha, não estou dizendo pra começar a mudar de vida pelo Nietzsche, pois leitores da Veja não seguram nem um parágrafo do Zaratustra sem se defenestrarem desesperados do décimo andar do condomínio. Não, você que quer se libertar da mesmice e trocar alguma selfie da estante virtual por um livro, pode começar pela simplicidade. Ok, isso de ser simples te dói, mas tá na paz... tu resolve na análise.
Pensei, assim de pronto, numa frase bem conhecida do Epicuro, dessas que já virou até para-choque de caminhão e, como você adora frases curtas, ela pode despertar alguma curiosidade:
"Se queres a verdadeira liberdade, deves fazer-te servo da filosofia."
De resto, só te lembra que tens que procurar o significado de filosofia no google, pra saber direitinho que ela não é marca de cerveja, mas de um molho tri bom.
Gentilezas \o/
biAh weRTher

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Cara de cool



Descobri hoje pela manhã, no hypeness, uma campanha "aceite o mundo como ele é"- ao menos entendi que seria isso. A ideia é, segundo a matéria, "se policiar" para não reclamar de nada por uma semana e depois contar no canal hype, de hype para hype, o que mudou em sua vida. Me pareceu uma espécie de corrente de auto-ajuda específica pra quem usa camisetas modernas e faz cara de cool, voluntariamente, com o dedo diante da boca, símbolo da censura pós moderna. Sim, fazer foto-psiu parece ser obrigatório pra provar que aderiu à confraria.
Apesar de ser uma campanha hype, isso de fingir que está tudo sempre bem, de moderno, não tem nada. Minha avó, no século passado, chamaria a atitude de "come a sardinha e arrota o salmão". Com o agravante de, no caso, estarmos falando do alimento social, cultural, conceitual, político. Vai além da ingenuidade provinciana de mentir pro vizinho que tem mais do que o trivial dentro das panelas, mas unir-se com os vizinhos pra mentirmos todos juntos que está tudo bem ao nosso redor. Nada a reclamar, a não ser que você esteja precisando trocar de terapeuta.
De verdade, a minha antipatia por essa "campanha" boba para nos unirmos a controlar o senso crítico nem é a cara desses hypes caricatos fazendo psiu. O estapafúrdio é ler gente metida a muderninha achando bonito se policiar.
Não sei se é falha da minha terapeuta, mas eu, de polícia, quero distancia esteja ela com a farda tradicional ou com farda de degustador de sushi.
Assim, sendo que acredito sempre na desobediência, vou rir da cara do janota que inventou tal campanha. Meu! Teu problema é ser medroso. Deves ter sofrido bule na infância ou algum adulto cretino te fez uma lavagem cerebral. Isso de fingir que tudo é perfeito são bobagens que andam boStando na tua cabeça Emoticon wink Pode reclamar, guri, ninguém vai te por de castigo e tirar o teu sushi.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Um texto que vai ficar pra sempre no meu blog.

Queria combinar uma coisa com todo mundo. Sempre que eu faço uma aparição pública - como normalmente meu trabalho são instalações ou intervenções em espaços não próprios pra arte, não específicos e tradicionais, não equipados e planejados e, portanto não óbvios -, corro riscos, desafio as impossibilidades, invado momentos, propostas, espaços no intuito de surpreender. As dificuldades tem um nível maior, pois é menos confortável e há sempre o inesperado, tecnicamente falando.
Assim, em geral, mesmo a gente planejando muito, nós ficamos na labuta o tempo todo. Há pouco tempo para recepção e eu não me sinto a estrela da festa, mas apenas a serva. É pra vocês interagirem com a outra ponta, a obra. Não raramente, nestes anos todos em que fiz vídeo instalações em cerca de 20 cidades pelo país todo, a alegria é deixar as pessoas me vendo trabalhar. Essa é a minha performance. Que me vejam estressada quando é o caso, dando pulos de alegria quando algo dá certo, só conseguindo ter olhos e assunto com quem está no projeto comigo, avaliando o que tá bom e o que não tá.
A meu ver, participar de um tantinho do processo é como conhecer o camarim, o ateliê, o estúdio. Discordo de quem acha que deixar conhecer o processo é tirar a magia. Muito pelo contrário, é quase sexo. Por isso, sempre deixarei pública parte da criação, porque acho frio demais ficar de banho tomado e roupa nova esperando os convidados. Prefiro que eles venham pra cozinha ajudar a temperar. Acho chata a obra fixa, vazia a visitação tradicional.
Finalmente, lá pela metade, posso resolver que já deu e que agora quero deixar a coisa - obra - viver sozinha e ser esgotada pelas pessoas. Só então eu paro e vejo as pessoas, reconheço quem é quem.
Então amigos, não se magoem quando eu não sou só sorrisos ou quando eu demoro pra dar atenção. Não me deixem preocupada no outro dia por saber que alguém foi embora chateado porque eu estava trabalhando, porque é isso mesmo. Esse é o meu escritório. Não se retirem me achando mal educada, pois isso é desprezo ao outro ponto de vista. O meu abraço, o meu beijo, o meu "que bom que tu veio" não está no meu corpo, mas no que eu produzi pra te despertar alguma sensação inesperada naquele momento.
Ontem, quando as pessoas começaram a perceber que eu não ia explicar nada, que a Júlia não tinha explicação, o meu coração ficou flutuante. A Alci Lau, foi a primeira, quando começou a ver formas, depois instigamos as pessoas a interagir e começaram a fazer fotos e tocar. E daí sim eu parei de me preocupar e me liberei do trabalho. Uma pena que notei pelo menos quatro pessoas saindo, porque eu não lhes dei atenção ou por achar que eu tinha que parar para receber as pessoas. Projeção editada in loco, quando a gente para, para a obra. Em tese, eu nunca posso parar 
Emoticon smile
biAh weRTher

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

INSTALAÇÃO

Amigos e Amores,
A minha instalação é singela e feminina. A construo leve e febril, febris eu e ela. Seu nome é Julia. Se você tocar verá que é macia, iluminada. Ela escorre delicada... Evapora? Lembra algo que derrete na boca das crianças. É irmã de um lugar que a gente sonha e pouco alcança. Olhando assim, parece fresca, mas aquece.
https://www.facebook.com/events/389858561188006/390677624439433

Júlia... aquela que escorre.

Júlia, aquela que derrete

Tarde quente.
Certa quinta
de qualquer janeiro.
Há nuvens macias
neste ano de 1971, 2050, 1780, 2009...
Hoje é cedo, é início e é fim.
É morte e saudade.
Não tenho idade.
Crisálida, espreguiço,
escorro, evaporo, derreto,
tateando um caminho que invento.
biAh weRTher




sábado, 17 de janeiro de 2015

A mulher mais maravilhosa do mundo.


Pena dA Morte

Claro que os bolsonaros de plantão já estão em caixa alta pela internet, pedindo uma arma pra matar de novo e mais uma vez o brasileiro preso por tráfico e sacrificado hoje na Indonésia, paraíso natural, inferno humano.
Impossível não comentar o caso.
Sabendo que ficou preso por 12 anos num país estranho, um ser humano razoável poderá concluir que seu crime não ficou impune e que sair matando quem trafica ou cortando a mão de quem rouba é uma simplificação rudimentar da justiça.
Apesar de, aparentemente, o homem fuzilado não ser negro, jovem ou pobre não o vejo distante do fenômeno que assola o Brasil. Muito pelo contrário, os adultos brancos de classe média estão cada vez mais infantis e mal educados. Seja querendo grana fácil levando cocaína pra Indonésia, seja como médicos e advogados que traem suas juras e compram mansões em Xangri-lá vendendo próteses vencidas a doentes à morte.
Baixaria social é nosso sobrenome e todos somos responsáveis pela sociedade que desenhamos. Exultar linchamentos, pena de morte e a volta da dita..dura é um apelo à barbárie e só deixa claro que somos todos o mesmo bolo de carne.
Bom seria nos movermos por uma sociedade mais justa, um povo mais educado, menos infantilização e consumismo e mais humanidade.
Na verdade, a pessoa que prega a pena de morte e o ódio não me parece menos violenta que os condenados que ela quer ver sangrando até o último suspiro. A ânsia pela vingança é o outro lado da moeda de uma só doença. Mais um passo e os dois são apenas um mesmo indivíduo que se diverte com a morte dos outros.
A diferença e a semelhança entre os humanos raivosos e guturais da nossa sociedade são ululantes. Um lado tem ódio porque não tem esperanças e não tem outro exemplo em seu mundo que não seja a falta do básico pra galgar dignidade. O outro lado tem ódio e quer usar armas porque quer e pronto, alguém disse que ele pode porque tem mais poder aquisitivo.
Mas voltando ao brasileiro que foi fuzilado hoje, o homem errou, pagou com 12 anos de prisão, foi fuzilado de um modo medieval e uma horda de vingadores sentados segue querendo matá-lo de novo e de novo, babando.
Pra mim, ter sede de morte, seja da pena de morte ou por não ter pena da morte, é papo de maluco.
Acho que uma boa terapia resolve a selvageria de uns, um pouco mais de oportunidade resolve a selvageria de outros e não importa nada se esses uns e outros são ricos ou pobres, brancos ou coloridos Emoticon wink

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Líquido Olhar - o início

Dizem que em estado de febre nós ficamos muito mais criativos. Eu creio piamente nisto. Eu descobri que estou com pneumonia na segunda e quando chegou ontem, boa parte da criação da minha nova exposição, que estava travada em mim há dois meses, foi se abrindo diante dos meus olhos. Daí, ontem acabei pegando chuva duas vezes pra passear com a minha cadela e passei uma madrugada febril que dava dó. E olha que louco, enquanto eu dormia com aquela febre e calafrios a exposição apareceu todinha, inteirinha diante de meus olhos. Sério, nem sei se era sonho, mas acho que não. E hoje eu acordei produzindo tudo, remexendo em coisas que eu guardo no ateliê porque sei que um dia elas ganharão vida transformada....
Muito maluco isso. Mais louco ainda é que eu fiquei com pneumonia porque fiz fotos submersas pelada numa noite de chuva e agora, que tudo se abriu diante dos meus olhos, percebi que essas fotos não tem a ver com essa exposição... ou sim...
Sei lá, só sei que tosse e febre podem ser um estado de estática a caminho da sintonia, meio como colocar um bombril na antena, entende? Quando chega no máximo, no ponto exato da falta de ar, tu vê além.



domingo, 11 de janeiro de 2015

Declaração de Dívida

Declaro para os devidos fins que, eu, fulana de tal, não sei quanto já aprendi. Só sei, das lições, que cada um de nós vale tão somente o número de moedas de ouro que leva nos bolsos pra contratar amor, adquirir respeito, trocar por carinho, comprar simpatia, escambar confiança.

Certa vez, comecei uma faculdade de Administração de Empresas. Era péssima aluna em matemática financeira. Também nunca aprendi a tabelar o preço do afeto e isto nem é outra história. Detestava o primor com que nos ensinavam que o interesse vem antes da amizade.
Não soube valorar como se deve o que produzo nem minhas partes do corpo. Tive preguiça de me organizar em curtos vocábulos apresentados em diagramas no páuer póinti. E assim, briguei com aquele ambiente - e com vários outros - e saí batendo as tamancas. Nunca voltei ali nem pra pagar a última mensalidade.

Sou inadimplente. Desdigo a linguagem dos contratos, desentendo os símbolos hierárquicos triangulares pontiagudos afunilados. Não sei nada sobre isso, só sei do fundo dos olhos. Estou devendo aquele abraço trocado por um presente caro. Eu devo e nego e não pago nem se puder pelo tua desumanidade mascarada de raciocínio lógico me olhando do alto como um ser pequeno que sou e você também é mas não sabe.

Eu trabalho muito. Trabalho até nos domingos, enquanto você almoça filés entre falsos amigos e pensa mal de mim e se ri revirando os olhos de manjar, suando a língua. E quando um dia eu tiver muitos dinheiros - o que é inevitável porque trabalho no que amo - não te convidarei para um almoço solene, quando te presentearia com um apartamento, um carro zero, uma casa na praia pra que, finalmente, percebas que existo e suspires com orgulho: - Eis aqui alguém que venceu e já merece minha mão!

Não, quando eu tiver muitos dinheiros, jogarei milhões de moedas contaminadas de mil pontas de dedos sujos numa chuva brilhante sobre teus cabelos, tuas mãos e os pés cartesianos e sairei de perto quase correndo, sem nunca olhar pra trás pra não dar tempo de te ver de joelhos, resfolegando, catando, mostrando quem de fato és, me fazendo sentir dó. E tu, idiota, nunca saberás que não se trata de um pagamento. Não te cobrirei de ouro para mendigar afeto, mas como intensão de quebra de contrato. Pois dinheiro, caso não tenhas entendido, não compra nada, muito menos gente. Dinheiro afasta.

Devo. Sou inadimplente dos amores de mercado. Pega o teu fluxograma, o teu organograma, o teu livro caixa, tua senha do cofre, as chaves e o porta jóias em forma de coração e os enfia no c*.


biAh weRTher