sábado, 24 de outubro de 2015

Zero

Fechei as janelas e procuro não fazer barulho. Meus passos eu piso com cuidado, ninja, cautela, sombra. Que ninguém saiba que existo. Desliguei a campainha, os telefones, me desconectei dos meios onde todos se refestelam ao sol digital RGB, exibindo-se, trocando elogios e convites, iludindo-se, consumindo, mastigando uns aos outros com palavras que mentem, poses, closes.

Eu dentro de mim.
Zerar tudo é uma bifurcação. 
Você pode pegar o pouco de dinheiro que te resta e sumir no mundo, mudar de nome, cortar os cabelos, conseguir um emprego comum num lugar comum entre pessoas comuns e inventar uma nova história futura, mentir sobre a vida passada. Escrever uma ficção sobre tudo o que já fora, de verdade, uma ilusão. A vida que a gente vive, que a gente interpreta.
Ou você pode sumir pra dentro, se encolher e ir ficando pequena, pequena, pequena até ser uma formiga, uma ameba, uma poeirinha no canto do quarto. E daí você morre e se assume um fantasma idiota que não sabia de nada, que não entendeu o que tinha que ser feito, dito, forjado. Um fantasma idealista e tonto que traiu o pacto do grande grupo, não pintou as unhas. Nem mesmo pintou as unhas!!

Fechei as janelas e é como se eu estivesse numa nave solta no espaço, fugindo, navegando, sumindo na eternidade antes que alguém grite meu nome e outro alguém traga a camisa de forças e me culpem porque não aceitei a vida como ela é.

Eu dentro de mim sinto gostos e na minha nave tem o cheiro de outra pessoa que passou por aqui e eu vou ter que suportar lembranças porque se eu abrir as janelas e arejar, o insuportável vai me escapar. Um detalhe vai desmaiar ao sol, um resto de perfume vai evaporar, um som vai se misturar aos sons que vem da rua onde habitam tons que me sangram.

Procuro a mochila grande vermelha, mas lembro que eu doei para um casal de jovens moradores de rua junto com muitas coisas que eu tinha e me eram caras, então eu tinha que excluir da minha nave pois tudo o que nos é caro um dia manda a conta e eu já não posso pagar. Eu não consigo mais pagar.

Encontro uma mala. Mas pra quê necessitaria de malas quando só preciso sumir. Ninguém caminha até virar fumaça levando uma mala de rodinhas. Não, pra virar pó você não leva nada, você vai pelada, você sorri lágrimas quentes, respira, em frente, primeiro devagar depois com mais firmeza até que você se solta no ar e voa e já nem se importa com o que perdeu pois você já não se arrepende de ser diferente e, afinal, quem disse que a gente perde quando o que a gente tem nunca foi da gente?


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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Capitanias Hereditárias

Conhecer eu sempre quero. As trocas sim, escambos.
Mas não curto as bandeiras enterradas nas fronteiras. Meus orgulhos são das subjetividades, não dos sangues derramados nas geografias. 
Por exemplo, nunca entenderei porque eu deveria ter orgulho de ser gaúcha ou terráquea. Tudo são contingências. Nasci neste planeta por uma ínfima questão temporal, espacial, dimensional. Sensacional...
Mas a gente é o que é até aceitar incorporar novos seres e saberes admitindo que   de nada adiantam as cercas porque nossa contribuição é apenas morrer nascer e transmutar. Adubo. Então essa coisa de bater no peito e falar de tradição é como colocar os sentidos numa caixa e entoar um hino monocórdio no escuro.
O homem caminhante caminhava caminhava até que parou, inventou um nome e desenhou linhas invisíveis. Mas nem todo mundo quer saber disso, nem todo o ser acha que deu certo isso de sair da aventura pra se esconder num apartamento, nem todo mundo quer. Eu, pelo menos, não dou valor nenhum. E até acho que se desinventarmos Deus a gente reencontra os caminhos da liberdade, soltos por aí. Mas isso é outra história, isso de reinventar a história. É pra depois que o mundo explodir, implodir, queimar vivo meio morto de tanto os Deuses que o homem estacionado inventou matarem todas as pessoas humanas e até as não humanas - que não tem nada a ver com isso - e sobrarem uns 6 ou 7, sete dias depois do final, rotos  os 7 sussurrando: - Então era isso... então era isto.
Quer saber? Isso que escrevo, na verdade, todo mundo já sabe pelos filmes que fizeram inspirados nos livros que escreveram sobre épocas ocultas, dedos que apontam, livros santos, cidades ardendo e senhores barbudos, crianças divididas, mulheres vendidas.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A cultura do estupro

Estive lendo tuites nojentos de homens de 40 anos sobre uma menina de 12 que participa de um desses mil programas de culinária que infestam os canais a cabo. Os infelizes se acham machos ruminando o quanto os excita a ideia de transar com uma criança e só espero que suas mães morram de vergonha e náusea por terem criado tais lixos.
Em meu blog já postei alguns textos sobre como foi ser uma menina de 12, 13, 15, 18, anos e depois uma mulher diante de uma sociedade que se orgulha do estupro confundindo os valores, se machucando, humilhando e sangrando as suas filhas e mães.
Meninas como eu, muito próximas de mim, sofreram estupro e eu as vi, olhos parados, cabisbaixas, no hospital... Escapei da agressão direta por pouco, por ter pernas rápidas, cérebro ligeiro, por ser desconfiada ...
Mas passei a vida tentando ser forte, a enfrentar toda a sorte de trauma na relação doentia que nosso país tem com suas mulheres. Se tu não aceita ganhar menos que um cara que faz a mesma coisa, se tu não aceita um namorado cretino, se tu não quer transar sem ter vontade, se tu não quer se vestir pra agradar um imbecil, se tu faz a música e não é a fã, se tu não é a mulherzinha na parte das mulherzinhas no churrasco da firma, se tu manda a sociedade se foder vão dizer que tá na TPM, que é mal comida, que é louca.
Mas bem, dentre as guerras que enfrentei sozinha diante da sociedade do pau está, inclusive, a agressão obstétrica, um dos traumas mais terríveis na vida de uma mulher num país como o Brasil que se diz livre porque não usamos burca - me pergunto porque a obrigação do biquíni enfiado na bunda é menos escravidão do que uma burca.
Então amores, não me venham pedir que seja menos garota enxaqueca. Eu sou uma mulher livre tentando ter paz neste planeta, neste país onde moças de classe média que vivem para agradar um homem coxinha de tênis comprado em free shop se acham mulheres melhores que funqueiras que sustentam filhos sozinhas desde os 13 anos de idade porque foram abandonadas grávidas. Um país catador de moedas e chupador de paus gringos. O paraíso do turismo sexual.
De verdade - e penso isto todo santo dia quando enfrento a vida sem me vender -, o Brasil é um país racista, machista, xenófobo, homofóbico.
Nosso país fede a estupro, fede a sangue seco. Nosso país se orgulha de viver contabilizando os centímetros de um pênis.
Assinado: A rapariga mais enojada da cidade.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O machismo começa na criação.

O machismo como cultura termina na mãe que cria. Nem todo homem conseguirá libertar-se do machismo feminino porque, no mais das vezes, ignora outra realidade possível. 
Porém, onde a mãe comunicar o fundamental enquanta amamenta, a sociedade se transformará, o homem assimilará, se orgulhará e vivenciará o inevitável segredo feminino dentro de si. O equilíbrio do ser.
De coronéis cretinos a pais abusadores, maridos que matam e chefes que assediam, homofóbicos covardes, meninas objeto, mães que perpetuam a doença social, todo o machista, toda a machista - exceto, talvez, os humanos com desvios mentais - possivelmente não o fosse se tivéssemos a sorte de ele ter sido criado por uma mãe feminista.
Mesmo num lar opressivo, me parece que a mulher que embala a criança tem um poder de mudar o mundo, mas desconhece ou teme tal força.
Nesse sentido, é provável que as crianças das famílias sem distinção de gênero em suas responsabilidades, as famílias com dois pais ou duas mães, talvez consigam gerar crianças mais livres e leves, por estarem alheias aos exemplos de desigualdade.
A obrigação de ser uma moça machista, o orgulho de ser um moço machista é pior do que uma condição meramente ultrapassada e preguiçosa. Assumir um papel machista é pactuar com uma sociedade que sente dor.


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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Eu escuto vozes.

Falar de mim parece uma loucura, mas penso que olhar pra dentro de si é a melhor contribuição que alguém pode dar pra o mundo ficar melhor.
Dizem que estamos sempre em guerra, que o medo instaurou-se como nunca e que o ódio é só o que temos hoje pra deixar para as próximas gerações.
No meio disso, os loucos.
Quando eu durmo, há vezes que me vejo pequena num canto escuro e acima de mim, rostos conhecidos de antes, de agora e do depois estão com os dedos em grande angular na minha cara a me dizer que sou louca.
Aí eu acordo e vejo que não era sonho, até porque sonho, em tese, é algo que se almeja. E eu nunca almejei ser considera a boca miúda ou graúda, frente a frente ou pelas costas, por amores ou desafetos uma louca diferente, avessa ao que uma boa moça deve ser.
Me pergunto o que é, quem é, porque é o louco?
Das pessoas que, como eu, passam pela vida estigmatizadas, atiradas nessa condição, leio teorias e auto-defesas e vejo telas pintadas com sangue e colagens doloridas feitas em hospícios e escuto músicas e ouço gritos - por vezes internos - sobre isto do ser considerado louco, à margem de algo que deve ser feliz, perfeito, colorido, ensolarado e belo e que nunca saberemos alcançar, por que somos loucos. O normal... aquilo que não nasci pra entender.
É uma vida inteira. Mesmo quem canta que é feliz por ser louco está mentindo. Ninguém gosta ou se orgulha. No fundo, o louco queria não ser tão diferente a não ser que entendesse onde está essa diferença que os outros veem se quando olhamos no espelho está ali o que todos tem: pele, dentes, cabelo..
Há uma dor infinita no coração dos loucos, nas cabeças dos loucos, nos estômagos e fígados e pés, olhos...
Principalmente nos ouvidos
No meu caso, para os psiquiatras e psicólogos que já frequentei, não sou uma louca.
Para os entendidos, sou normal. Tenho só um tanto de ansiedade, empatia em excesso, uma criatividade que me torna a mais distraída, uma tendência a trocar a noite pelo dia - o que já está provado que não é loucura - e uma saúde de ferro que faz de mim uma pessoa que vive se quebrando toda porque tem excesso de energia.
Certa vez, fazendo piada diante do meu desespero de não conseguir explicar para as pessoas que não considero elogio quando me chamam de louca, uma psiquiatra me disse que seria interessante eu levar na bolsa um comprovante de normalidade. Daí eu disse que "eles" iriam rasgar e ririam na minha cara. Então e ela me perguntou: - Eles quem?
Bah, não sei, não sei nada sobre isso. Estou tentando me conhecer e ser melhor, não sei quem são os outros, eles que saibam de si!
São anos, milhões de anos sendo convencida de que sou uma louca. Deve ser alguma magia que me jogou alguma índia no dia que nasci naquele inverno numa cama de estância: O seu destino é o desvario.
Se você está louco pra me conhecer, prepare-se. Cedo ou tarde você me dirá isso, do nada, no meio de um jantar, num show gritando um pouco e sorrindo, passeando na praia, comentando um filme.
Um dia você dirá! No começo como uma graça, un passant; depois com um pouquinho de acidez; com o passar do tempo com vontade, sangue nos olhos. E daí virão as variações: louca, esquizofrênica, paranoica. Depois, não importa o que eu fizer, se rir, se chorar, se fizer cara de paisagem... a qualquer reação você apontará e me dirá: - Viu? Sua doida!
É verdade, eu escuto vozes e elas dizem que eu sou louca. E eu fico louca de vontade de argumentar que eu não sou, mas quando as pessoas estão me chamando de louca, elas ficam loucas, elas não me escutam e tudo o que eu disser será usado contra mim. Então, num determinado momento eu paro de tentar explicar e corro pro meu canto no meio das minhas coisinhas e, cansada, toda despenteada - eu, como toda louca, não penteio os cabelos - faço retratos de mini mundos e observo o desenho que o sol faz nuns cantinhos. Porque o sol me persegue mesmo que eu cerre todas as ventanas e me encolha atrás das cortinas. E enquanto eu estiver quieta no meu canto, alguém lá fora estará comentando sobre como sou louca e outro alguém vai concordar: - Aham!
E então eu adormeço e, alienada, não sonho mais com pessoas que me chamam de louca porque eu não sou tããão louca assim. Tem vezes que eu sonho com espaço, um ar fresco com gosto lilás, grandes capinzais, mares infindos, sons de vida, musgos, risos e que eu tenho asas e que posso conversar com os mortos, porque os vivos, ai sei lá... os vivos não aguentam mais a minha anormalidade.

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domingo, 27 de setembro de 2015

A ponte reúne enquanto passagem que atravessa.

Não vejo as pessoas do dia a dia - tão revoltadas com a crise dos juros - raciocinando sobre a história presente que grita nas fronteiras. Talvez porque a nova ordem mundial seja de uma globalização contraditória que divide tudo e todos em um picadinho desconexo.
O nosso presente é uma cobra mordendo o rabo, onde cremos que a história da humanidade deve ser interrompida, entrecortada e descontinuada a cada novo dia num processo de lobotomia festiva, conforme ordenam as propagandas de carros, comida industrializada e pastas de dentes - de roteiros e estética iguais em todas as línguas - enquanto nas fronteiras se espremem os hiatos, iguais em todos os tempos.
Desprovidos de olhar periférico, temos uma memória que dura os 30 segundos da propaganda que nos resolve foréver young como se o presente fosse separado de uma homogeneidade e todo o conhecimento e conquistas estivessem resumidos a descobertas de design.
A grande contradição nesse processo é que a mesma submissão ao super mudérno nega o que haveria de valioso no presente, como o fato de ser parte, caminhada e não início, final , muito menos único.
Na mesma corrida pelo imediato global, também nos rendemos aos conceitos arcaicos de espaço - como um sinônimo da propriedade e do poder - e guardamos com louvor doenças que cansamos de tentar curar no passado - como o extremismo patriótico e as guerras santas. Acreditamos num futuro de ódio, competições por notas de dinheiros e servilismo cultural, mantendo as tantas formas de escravidão como um item necessário.
Me parece que a história do agora está sendo escrita, de verdade, nas fronteiras. É ali que num futuro distante alguns tentarão decifrar o nosso tempo.
Nisso, estava aqui relendo um texto de espectro bem amplo a respeito dos conceitos de pós-modernidade; da sensação que alguns médios tem de que representam o "além" numa sociedade da estética; e do mundo paralelo nas fronteiras.
Olha que interessante:
"O além não é um novo horizonte nem o abandono do passado...
(...)
"Além" significa distância espacial, marca um progresso, promete um futuro; no entanto, nossas sugestões para alcançar a barreira ou o limite - o próprio ato de ir além - são incogniscíveis, irrepresentáveis, sem o retorno ao "presente" que no processo de repetição torna-se desconexo e deslocado. O imaginário da distância espacial - viver de algum modo além da fronteira de nossos tempos - dá relevo à diferenças sociais, temporais , que interrompem nossa noção conspiratória da contemporaneidade cultural.
(...)
Se o jargão dos nossos tempos - pós-modernidade, pós colonialidade, pós-feminismo - tem algum significado, este não está no uso popular do "pós" pra indicar sequencialidade - feminismo posterior - ou polaridade - anti-modernismo. Esses termos que apontam insistentemente para o além só poderão incorporar uma energia inquieta e revisionária se eles transformarem o presente em um lugar expandido e ex-cêntrico de experiência e aquisição de poder. Por exemplo, se o interesse no pós-modernismo limitar-se a uma celebração da fragmentação das "grandes narrativas" do racionalismo pós-iluminista, então, apesar de toda a sua efervescência intelectual, ele permanecerá um empreendimento profundamente provinciano.
A significação mais ampla da condição pós-moderna reside na consciência de que os "limites" epistemológicos daquelas idéias etnocêntricas são também as fronteiras enunciativas de uma gama de outras vozes e histórias dissonantes, até dissidentes - mulheres, colonizados, grupos minoritários, os portadores de sexualidades policiadas. Isto porque a demografia do novo internacionalismo é a história da migração pós-colonial, as narrativas da diáspora cultural e politica, os grandes deslocamentos sociais de comunidades camponesas e aborígenes, a poética do exílio, a prosa austera dos refugiados políticos e econômicos. É nesse sentido que a fronteira se torna um lugar a partir do qual algo começa a se fazer presente em um movimento não dissimilar ao da articulação ambulante, ambivalente, do "além" que venho traçando: 'Sempre, e sempre de modo diferente, a ponte acompanha os caminhos morosos e apressados dos homens prá lá e prá cá, de modo que eles possam alcançar outras margens... A ponte reúne enquanto passagem que atravessa' (Foucault & Lacan)"
do livro "O Local da Cultura", Homi K. Bhaba.
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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A menina que desenhava poemas.

Eu guardo bilhetes, e-mails, cartas, poemas, desenhos que me oferecem, porque eu só vivo o presente, então preciso da memória externa...
Daí, hoje eu tava jogando umas coisas no lixo e encontrei os poemas de uma menina que era minha colega quando tinha 12 anos. Ela gostava de mim e me escrevia poesias de amor. Eu escrevia poemas políticos e achava os dela mais foda, até porque ela os ilustrava lindamente. Por certo nunca disse isso a ela porque eu falo como uma papagaia sobre coisas genéricas, mas essas coisas de duas pessoas conversando, essas eu esqueço de falar.
Ela sofria porque já sabia que sempre gostaria de meninas e rolava preconceito na sua família... creio que na escola também, mas eu sempre fui muito distraída pra perceber isso.  E ela era triste porque eu nem percebia que ela queria ser minha namorada pois eu era muito abobada pra entender o que a fazia ser assim, uma pessoa grave. 
Eu queria ter sabido dizer pra ela que não era porque eu não queria ficar com meninas, nunca acreditei nessas separações e não tinha qualquer preconceito. Era que eu ainda nem pensava sobre isso. Não queria meninas nem meninos. Queria era ficar sozinha no meu canto, lendo e sentindo as coisas da natureza. Vai ver era por isso ela gostava de mim, porque eu era meio louca e não entendia nada que fosse imediato e cotidiano e tátil, de modo que tudo para mim parecia um acontecimento por trás de uma cortina transparente e leve. O mundo real eram vultos (se é que ainda não vejo assim...)
Chegaram as férias e eu não senti saudade.
No ano seguinte, cheguei na escola pensando em dizer pra ela que tinha entendido um dos poemas mais sofridos que escrevera pra mim, mas ela não estava mais lá. Nunca mais a vi, nunca mais escutei...
Anos mais tarde, soube que ela se matou. A vida deve ter sido ingrata com ela e, sei lá porque, senti muita culpa de não ter sido uma amiga mais falante.
Curioso é que lá pelos 8 anos eu também tinha um melhor amigo, com quem eu brincava num dos lugares mais incríveis que já visitei na vida. Era uma fazendola onde sua família cultivava flores. 
Ele era mais velho que eu, me ensinava as coisas mais fantásticas da vida de meninos do campo. Uma babá me levava pra lá depois das aulas e ele sempre me esperava com surpresas, como o carrinho de lomba mais maravilhoso que eu já vi. Há alguns anos, soube que ele também se matou.
Me parece que o meu modo de ser, de gostar tanto da companhia da solidão, era tão vital que só conseguia ser amiga de pessoas que só eu via. Meninos tristes que não tinham carinho.
E eles talvez me amassem porque eu era assim, uma menina louca que não falava nada, que perdia o foco. Era só uma boa companhia pra correr na chuva, se esconder dos adultos, deitar na terra fofa e contar as estrelas. Nunca prestei pra muito mais do isto.
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Thor Batista X Guri do Arrastão

Até posso concordar que crianças más saíram das profundezas fétidas pra nos aterrorizar e que precisam ser todas jogadas de volta ao inferno de onde escaparam. Até posso concordar que as crianças armadas que caminham sem lei pelo planeta devem ser estupradas, pisoteadas e linchadas pra que encontremos a branca paz porque nada, nada que se faça os tornará gente sendo que nós lhes demos todas as oportunidades amigáveis e nada, nada os fez desistirem da maldade que move seus corpos sujos nascidos de alguma chocadeira no submundo dos esgotos...
Siimmm eu posso concordar.
Mas você precisa primeiro aceitar minha teoria de que nos porões de cada xópin existe uma passagem secreta onde são produzidas pessoas em série que se alimentam de porcelanato e são viciadas em etiquetas e códigos de barra e que marcham em bandos sem olhos em direção a um portal no foyer de um prédio de arquitetura do século XXI por onde desembarcam nesta dimensão mastigando borracha e defecando moedas e cantando cantos monocórdios em vozes metálicas enquanto jogam as mãozinhas pra cima com uma arma de um lado e a bebida que pisca no outro.


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domingo, 20 de setembro de 2015

A culpa é dos pequenos


Eu tou sempre lutando, isso todo mundo sabe. Faço um monte de coisas, falo, me voluntario, critico, uso meu trabalho como um modo de pensar um mundo melhor, me exponho e foda-se. Então, que vá pra pu quem me julgar e achar que só falo e nada faço.
Anyway, para o meu bem, me alienei dos noticiosos da grande imprensa, sempre tão vendida, sempre tão maligna e tendenciosa. E me alienei do grenal da política partidária.
Ainda assim, não há como fugir da verdade. Mais do que nunca no mundo contemporâneo nós estamos sacrificando crianças, culpando as crianças.
Reza a história que nos tempos idos, muitas centenas de anos, crianças eram pouco importantes na sociedade e morriam como insetos sem que a sociedade pensasse muito a respeito. Reza a lenda que agora a gente tá consciente, tanto que tem propaganda de brinquedos no dia das crianças.
De verdade, do pouco que assisti notícias na tv por esses dias, entre alta do dólar e menores transgressores odiados pelos cidadãos de bem, vozes graves davam conta de que mães matam filhos pequenos após curtas vidas torturantes, governantes matam crianças e exércitos as pisoteiam enquanto as veias de seus pequenos pescoços saltam aos berros, chorando por algo que a gente nem entende. O que querem essas crianças sofridas do mundo?
É assim a modernidade desta dimensão rica em lâmpadas led. Todos nós esmagando pequenos, todos nós conseguindo sorrir e dormir tranquilos sabendo que em algum lugar alguma criança se desespera.
Se não tivermos grana pra ter um carro novo, nós não dormimos direito e saímos pelas ruas, pelos ônibus, pelas filas dos açougues a reclamar que nós, nós, eu, eu, umbigo, eu quero, eu quero, eu compro, eu mereço, eu posso...
Mas não nos machuca a recorrência de imagens estúpidas, em tempo real, enquanto almoçamos e jantamos. A gente mastiga, sente o gosto, engolimos e seguimos dentro da nossa vidinha cretina.
Sei lá... é noite de chuva, domingo, amanhã segunda e, neste instante, em algum lugar, tem uma criança sem entender porque estamos fazendo isto com ela.
Só queria dizer isso, pensar nisso.


biAh weRTher

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Auto ajuda

Quero ganhar dinheiro com auto ajuda. Por exemplo, minhas amigas dizem que eu nasci com açúcar porque sendo magrela, não sendo loira e nunca penteando os cabelos, enquanto todas as bonitas altas choramingam a falta de rapazes, para mim sempre sobram carinhas querendo coisinhas.
Bom, só posso dizer que sou chata, xingo os namorados quando pensam diferente de mim a respeito de política, NUNCA fiz depilação com cera, não frequento manicure, na minha casa não existe baton, chapinha e muito menos esses saltos fininhos de 12 cm.
Diria que se eu fosse parte disto que chamam de universo feminino, eu pararia de gastar com cabeleireiro e compraria uns livros de filosofia, em lugar de perder tempo com xópin faria uns trabalhos voluntários.
De beleza, só mesmo usar sempre fio dental; beber muita água e vinho, não escutar axé, jogar fora as saias patê e não correr atrás de homi.
Em resumo, desobedecer tudo e todos!
Era isso gurias, se eu escrever meu livro de auto ajuda pra conseguir homi, eu vou dizer que uma casa precisa mais de papel toalha na cozinha do que de um homem. E vou concluir afirmando que o segredo pra deixar dessa bobagem de que mulher tem que usar barro na cara é levar as revistas femininas à falência. Universo feminino NUNCA foi e NUNCA será o "sofrimento" de "ter que" equilibrar num ridículo salto 15 e pagar milhões pra arrancar os pelos com cera. Sobre dor, é só olharmos ao redor e veremos que não entendemos nada. O feminino é grande demais pra tanta infantilidade!
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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Dona Emília e eu

Dona Emília e eu.
Entro no ônibus na Anita. A meu lado uma senhorinha toda arrumadinha já engata um papo. Ela fala muito, eu também. Na Nilo Peçanha eu eu já sei que ela é professora aposentada e ela sabe que eu estou trabalhando demais e ganhando de menos. Perto do Parcão eu já sei que ela perdeu o marido quando tinha a minha idade e que sofreu tanto que nunca mais quis casar de novo. Eu sinto pena mas digo que invejo esse amor dos antigos, porque no nosso tempo a gente tá sempre namorando mas nunca é a mesma pessoa e, não raro, é mais de uma pessoa. Ela me pergunta se eu sou muito distraída e eu respondo marcando o s que ssssimmm!
Então é isso! Fica olhando os pássaros, apreciando a vida... Esquece quem está ao lado. Acontece muito, diz ela. Pessoas assim são do mundo, não se apegam porque o coração se distrai com sentimentos invisíveis.
Invisíveis.... repito umas três vezes fazendo um sim com a cabeça.
Ela conta do seu filho que tem minha idade e fez doutorado. Eu falo que meu filho estuda produção musical e que muitas vezes fui mãe pelo msn, porque eu viajava muito nos projetos de cinema.
Chegamos na estação do Hospital de Clínicas. Ela me diz que vai descer no Pronto Socorro pra pegar o T5.
- Puxa, a senhora anda por aí de ônibus, pra lá e prá cá e eu que sou desprendida?
Rimos.
- Biah, ela diz, tudo de bom na sua vida, que tu seja muito feliz. Que você consiga tudo de mais lindo e seu filho seja um grande músico.
- Obrigada, dona Emília, pra senhora também, muitas coisas lindas!
A porta abre diante dela. Eu já começo a me distrair com as pessoas andando na Osvaldo Aranha, quando ela me chama:
- Biah!
- Sim, dona Emília!
- Me enganei. Teu filho já é um grande músico e tu já é muito feliz.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Hiato



Sou boa com os adeuses. Ok, também sou legal com inícios, mas sou tão péssima nos miolos que me perco no caminho e viro nuvem, asas, névoa... Quero dizer, eu gosto de dizer Oi e Tchau. Mas não é simples assim, é muito mais lindo. Um Muito Prazer é uma dança do acasalamento e um Adeus é uma ópera.  Ao menos pra mim.
Mas a parte do meio eu sempre quero pular porque é aí que eu vacilo e não perdoo.  O meio é quando a gente descobre  as  verdades, escuta mentiras, tiramos as máscaras e tudo passa a ser um sórdido trivial...  Nessa parte eu quero correr pra minha solidão. E como não ser dependente da solidão? Gente mente. Dividir os miolos da vida com gente é ter que caminhar numa corda sobre um precipício que une dois lados seguros; o começo e o fim.
Nada pode ser pior que ir se transformando dia a dia numa peça de um jogo de tabuleiro. Você estuda o outro, o outro te estuda. A isso se dá o nome de convivência e é nisso que se perde a magia e os mistérios que, pra mim, devem ser os únicos segredos aceitáveis em qualquer tipo de relação. Por isso que eu vejo assim, que os inícios são doces, os finais poéticos e o recheio é um prato que azeda, a menos que a gente não respeite nunca as regras de convivência estabelecidas na sociedade onde as pessoas vivem juntas pra elaborar a inimizade perfeita.
Se eu tivesse algum poder sobre a mesmice cotidiana, se eu pudesse eu  faria com que nunca mais na face da Terra a gente quisesse a normalidade de um dia igual ao outro. 
É que eu tenho uma teoria de que o que estraga o parêntese entre os encantos do conhecimento e do desconhecimento, entre o chegar e o partir é essa jaula que leva o título de Rotina. Mas que mixórdia é essa? Eu acho que as pessoas, depois que se conhecem, deveriam apenas se divertir. 
Tenho urticária, reação alérgica, tosse seca sempre que algum entendido social aparece atrás de uma mesa, em frente aos diplomas da parede, a dizer que a qualidade de vida é diretamente proporcional à rotina de uma vida. Comer, dormir, trepar, conversar, tudo em horários definitivos até que não exista mais uma minúscula surpresa e você não aguente mais o robô triste que divide esse meio com você. Então você começa a mentir, pra fugir da mesmice do saudável cotidiano. Vão se foder!
Ai, sei lá, sabe... Por isso que eu fujo e me escondo no mundo,  na rua, bem louca, cantarolando, míope sem os óculos, sem saber os nomes das ruas, sem dar o meu endereço.   Me perco na multidão e não olho pra trás e daí vai entrando um oxigênio e aí eu vou e vou e vou e, ah, paciência... agora esqueci... Ninguém é de confiança mesmo. A não ser que aconteça um milagre e me apareça alguém assim, tipo eu, que da sua vida só queira fazer besteira, voar as tranças por aí.

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domingo, 30 de agosto de 2015

As bailarinas e as camisas de força.

A sociedade moderna do aspirador de pó, toda angulosa com seus armários brancos de mdf, suas pílulas, anti histamínicos e porcelanato. A sociedade bélica que hostiliza os diferentes, mora em escaninhos, morre de medo de lagartixa e tem nojo das pétalas coloridas que as árvores insistem em derramar pra sujar a pintura brilhante dos carros, como se nós fossemos acaso aceitar presentes coloridos leves que descem do céu como bailarinas doces e a gente varre, varre e varremos e esfregamos e limpamos a lama da natureza e escondemos o lodo dos nossos caráteres mal disfarçados.
Essa sociedade passa o tempo todo nos bombardeando com a ideia fixa de não viver o presente. É pai, é mãe, é professor, é uma legião em uníssono na ladainha. Pensar agora é irresponsável, você deve viver pelo e para o futuro. Assim, doutrinados, vamos imaginando que ficaremos pra semente e que a propaganda de banco tá mais é certa e a gente precisa lamber o cabelo, se meter num salto, fazer carão, não perder tempo olhando o sol, que mastigar com gosto cada passo como se fosse o último é coisa de gente pouco competitiva, de losers. Tem que ter pressa sei lá do quê, menos de viver, ver, sentir coisas que dinheiro não compra.
Conheço gente que se orgulha de estar sempre estressada, conheço um povo que chega a mentir que tá sempre ocupado, porque ter tempo pra transar, pra rir, pra não pensar em nada seria uma pouca vergonha.
Daí o sol se põe e tu ali fazendo as contas, as pessoas passam e ficam as moedas nos bolsos. A gente morre e não fez aquilo que mais precisava ter feito, a pessoa morre e tu não tinha dito ainda que ela era importante.
Eu é que não vou beijar papéis e dançar com títulos. Não contem comigo pra deixar o amor pra amanhã. Eu paro e converso com os mendigos da rua, mudo o caminho só pra procurar água pro cachorrinho abandonado, pra salvar um passarinho que caiu do ninho, cancelo a reunião pra fazer o favor pra um amigo. Quero quem amo agora, porque amanhã nunca se sabe, amanhã é uma hipótese, amanhã só existe na propaganda da televisão, no discurso.
Isso de deixar avida pra amanhã pode ser um tiro no pé. Isso de escolher uma profissão pelo dinheiro e não pelo prazer, não pra se satisfazer é coisa de maluco.
Eu me divirto, eu mudo por pouco mais de nada, eu vou até o final, eu esgoto, erro por amor, perco a hora, paro no caminho, faço o que bem entendo.
Porque o passado passou e o futuro não existe. Isso de vida moderna versus liberdade, isso de que ser feliz é uma impossibilidade, isso são bobagens que andam colocando na tua cabeça.

]bw[

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Eu mesma


E caso eu não fosse eu, se eu acordasse outra
Você ainda me amaria?
E quando você me deixasse,
Se eu arrancasse a minha máscara em plena luz do dia,
E prometesse mudar - e mudaria? -
Você voltaria?
E caso você voltasse e visse que eu ainda era eu
Que, de ser eu, eu nunca deixaria
Você de novo me abandonaria
Na madrugada suja, muda, em transe,
No trânsito, meu corpo lotado do teu, minha mão nos teus cheiros
Nos muros, os cantos escuros
Querendo você por dias inteiros?
E se eu, então, não pedisse, nem prometesse
Desistisse de ser outra, quantas chances eu teria?
E se mesmo sendo eu e não conseguindo deixar de ser,
Eu corresse ao contrário, voltasse o tempo em tua direção
Te pedindo atenção, meus dois seios de novo nas tuas mãos,
Você ainda me desejaria ou você levantaria o queixo
Me analisaria, eu sendo eu, pra me dizer não,
O que me desconcertaria e você me levaria
De volta à rua vazia?
Como seria se eu, sendo eu mesma,
Me sentisse outra diante de você
E eu não conseguisse explicar que mesmo eu só sabendo ser eu
Não sei ser eu sem você?

]bw[

domingo, 23 de agosto de 2015

Mínima

Não escrevo um poema em busca da melhor das rimas
Não forjo a composição para competir com a tua poesia
Nada sei sobre os meios

Do princípio do meu vício
Só me ocorre a solidão                       medo
Escuro, insônia, vultos nas cortinas
As formas nas nuvens, esconderijos, grãos
Porão, marca, cheiros, frio                 fumaça
Meu corpo no chão.
Passos, sussurros, a lágrima quente            o jasmim.
Micro partículas reluzindo no lento raio de sol
O mesmo raio desmaiado esgueirando a fresta

Tarde morna fora do tempo.
Amigo vento

Sensações, fugas, fantasias e desejos
Então não perca tempo a competir
Leve consigo o antes, o melhor e o mais

Íntima do ínfimo
Escrevo porque preciso
Porque sobrevivo
Escrevo porque não cabe em mim
Escorre de mim, sangra de mim, suspiro
Escrevo porque te amo desde antes e bem depois.

]bw[

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Piso xadrez.

Não sou gay, não sou negra, não sou pobre mas sofro preconceito todo o santo dia porque sou uma mulher livre. Esquisito isso né?!
Só hoje sofri preconceito em dois momentos. O primeiro durante meu trabalho por uma questão machista que nem vale comentar de tão cretino que o cara foi.
A segunda numa conversa pessoal com uma amiga que veio chorar as pitangas sobre seu filho e eu apenas lhe disse que vá viver, se divertir e namorar e deixe o filho em paz.
Zangou-se: - Você nunca vai crescer, biAh?, perguntou-me estridente.
- Não sei nada sobre isso, respondi.
E assim eu vou desfilando sorridente de camisola no meio de mil gentes da minha idade, mais novos ou mais velhos que simplesmente não aceitam meu jeito de levar a vida.
Só sei dizer que sou bem feliz quando me olho no espelho e não há secura nos meus olhos e tenho o mundo em minhas mãos e nada me impede de nada.
Não ser uma careta assistidora de novela que cozinha pra algum homem mau humorado a coçar o saco em um sofá é a vida que escolhi.
Aliás, eu nem tenho sofá! Joguei fora, me deu nos nervos aquilo plantado no meio da sala! quando eu sou leonina e vivo na cama! Um sofá parece um estacionamento!
Há que se magoe porque não saio muito com amigas pra fazer a hora das meninas porque, sei lá, eu acho infantil essa separação. Passei a vida entre os amigos homens e fico bem a vontade entre garotos, sempre fui uma menina no meio de uma banda só de garotos ou uma cineasta dirigindo garotos ou... e se algum for machista eu dou um jeito de ele morrer de vergonha.
Encontro gente de outros tempos e nem sei mais quem são porque meu tempo é agora e eles ficam olhando incrédulos porque meu mundo tem a mesma curiosidade que sempre teve e não me tornei uma chata desiludida falando mal disso e daquilo com peitos de silicone e perfume demais. Eu quero contar as mil coisas lindas que ando inventando e as pessoas que ando amando e, bem, tá na cara que eu pareço 20 anos mais jovem que muita gente que parou no tempo. Convenceram-se de que há um momento em que viver como bem quiser é proibido?
Sinto muito! Porque não é plástica, não é dinheiro, não é carão amores. Pra ser como eu, o segredo é desobedecer! Desobedecer!
A única coisa que lembro da minha adolescência é que nós eramos contra o preconceito, contra a obrigação de passar pela vida apertando parafusos e temendo a liberdade.
E olha, eu eu falava sério! Eu realmente queria mudar o mundo e não me tranquei numa vidinha contando dinheiro.
Vivo tão intensamente que depois que passou, tá passado, esqueço, tirei tudo o que tinha pra tirar de cada degrau da minha linda vida. Não me presto pra chorar pelo que não fiz ou desacreditar do que quero fazer. Choro por coisas bem mais importantes, como a vontade de ver todas as pessoas com direitos iguais.
Eu vou e faço e quem quiser que me acompanhe e não venha me dizer que devo fazer a coisa certa e vestir a roupa certa.
Meu nome é erro! Meu nome é felicidade e tenho tanto disto que poderia empreender, embalando e vendendo em pequenos frascos. Ia ficar rica vendendo minha alegria sob o sol.
Nunca me tornei uma escrava de nada nem de ninguém. Não separo as pessoas em gavetinhas por cor, gênero, idade, profissão ou classe social.
Os meus pares na vida são de todos os tipos e são todos pessoas lindas e gostosas e queridas e pensam como eu.
Então pra essa gente que acha que me constrange ou me reprime porque lhes dói o fato de eu ter me tornado uma mulher que vive cantando pela rua e não usa batom nem faz luzes no cabelo, só posso dizer que nada me orgulha mais nessa vida do que ser eu e nunca me constrangerei de ser.
Tenho coragem suficiente pra enfrentar o preconceito e não dou a mínima pra o que as carroças estacionadas estiverem ruminando.
Fodam-se os caretas! Vão transar um pouco que a dureza passa! Ou me sigam, remexam essas cadeiras, tirem essa roupa e sintam o vento que venta, amores... A chuva que chove. A vida que pulsa.
Assinado: A rapariga mais livre da cidade!
PS.: Vão se fuder!
]bw[

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Nós na Dinamico FM

Visitaê! Mais uma das entrevistas nonsense para o Fábio Godoh. Vale escutar.

http://dinamicofm.com.br/2015/08/11/bockcast-bock-show-ter11ago-com-bia-werther-e-gabriel-flag/


O dia seguinte

Grito que não grita.
Fome. Teus dentes no meu pescoço.
Um saco de ossos quebrados, eu.
Vieste sobre mim,
Dedo em riste como tiros de fuzil.
Atropelada por uma estrela cadente
Sangro tua vontade oculta.
Só, no guarda roupas,
Aguardo o sol poente.
Eu e as palavras,
Tua chuva doce de palavras e quereres
Que leio, leio e, no ato, nada.
Sentados ali, eu do tamanho de uma pulga.
Susto. Grito que não grita.
É no dia seguinte, quando o corpo esfria,
Que se conhece o tamanho da dor.
]bw[

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Agosto

Não costumo ter inferno astral, porque estou sempre apaixonada e feliz, cuidando de minhas coisinhas. Porém, fico reflexiva,,,
Estava a pensar na minha relação com meu filho, que sempre foi muito adulta, apesar de ele ser mais adulto que eu. De como tivemos força pra fugir do lugar comum onde uma mulher resolve jogar em seu rebento suas carências e passa a querer apropriar-se da vida do outro, só porque casualmente esse outro veio parar nesta dimensão por seu intermédio. Penso sobre o quanto sofro e sofrerei a cobrança de, muitas vezes, ser mãe por skype, viajar a trabalho quando a uma mãe cabe apenas se doar e bater no peito a dizer com orgulho que não pensa em si. Não padeço em paraíso algum!
Nunca me apeteceu ficar conversando sobre o formato das fraldas descartáveis no playground, mas assistíamos desenhos animados, tomávamos banho juntos, fazíamos filmes e músicas e ríamos muito, ríamos e dávamos cambalhotas e deixei que ele preferisse nuggets com miojo a cenouras e alface. Desenhávamos juntos nas paredes e boa parte destas artes foram incorporadas na decoração, suas primeiras obras.
Depois a gente se respeitava, eu me divertia de um lado e ele do outro. Sentíamos falta quando um de nós estava longe, mas a vida é assim. Há lugares pra conhecer, tarefas a cumprir e algumas não tem que ser com a mãe ou com o filho. Cada qual vai andar sozinho, tomar decisões.
Hoje peço licença para opinar sobre o que importa, mas nunca me senti no direito de resolver qualquer das suas escolhas do dia a dia. Ele, por outro lado é muito paternal comigo, coisa de capricorniano, sempre cuidadosos e provedores, diante dos leoninos extasiados ao sol.
Há um preconceito ao nosso redor por eu não querer saber o que ele comeu hoje ou não ligar o tempo todo a perguntar se pegou o agasalho. O que agasalha meu coração é a facilidade com que nos dizemos eu te amo e como ele me abraça e aceita qualquer das minhas decisões pessoais que, decididamente, não são parecidas com as decisões de noventa por cento das mães. Eu sou uma mãe que ama ser uma mulher e sou antes de mãe uma mulher. Sou presente, sou ausente, sou o que posso ser, mas nunca serei aquela que vai cobrá-lo, seca e dura, para que seja uma extensão dos meus sonhos, destes cuido eu.
Sumo, não faço dele o centro dos meus dias e o meu amor por ele não compete com os outros amores que sinto. Cabe tudo no meu peito.
O que nos ligará é a liberdade do ser. Parecidos somos, mas não por obrigação, e sim por que nos une um desejo de inventar coisas que causem sentimentos nas demais pessoas. Ele músico, eu uma miscelânea criativa. E quando me perguntam porque eu sou tão jovem, eu não digo nada mas penso:
Deve ser porque nunca procriei um escravo.
]bw[

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O quadrado e o círculo.

O quadrado e o círculo
Vê o círculo de giz? Então te afasta!
Alimenta rudes questões pras quais já inventaste as respostas.
Morre de medo e me deixa em paz.
Me esquece onde me transfiguro aqui no mundo que eu mesma fiz,
Nem pensa em tocar na minha linha invisível que separa a coragem do impossível
Guarda distancia da minha ânsia
Anos luz da semelhança
Mantém lá fora os nãos!
Porque eu... eu não posso com essa mania de realidade
Diferenças e frutos proibidos. Não me aguento diante de tanta sobriedade
Não tenho portas e desfilo em três caminhos que se fundem e dão no mar.
O mar...
Nunca soube dos sistemas angulares, lineares...
Digeri aí o teu tudo, a tal de métrica.
Não obedeço nem padeço, simplesmente esqueço
Faltei no curso de crueldade
Nada sei da exatidão, vergonha, religião.
Fica fora do meu Não espaço!
Longe do meu Não domínio
Segue cego pela concretude
Acumula tuas coisas e coisinhas
Esteja seco do meu orvalho.
Não tenta desvendar, aproximar
Você nunca vai entender que nada há.
Nem chaves, nem ponteiros.
Aqui dentro é fora!
Só o sal, musgo e desejo.
Não há dentro, só o vento.
Aqui é o nada porque de nada se precisa.
Só a invisibilidade.
E sabes do que mais?!
Nunca existiram os tais limites.
Nunca desenhei qualquer círculo de giz!
Eu menti!
Você não viu que não tinha nada pra se ver?
Era apenas ser, meu bem... Apenar ser.
]Ana Beatriz[