sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Lilith em Babylon

Sigo pensando sobre feminismo, sobre o feminino.
Acredito na possibilidade de existirem homens feministas como vejo mulheres obedientes aos discursos machistas. Somos gente, nos contradizemos enquanto espécie; uníssonos na sina.
Não acredito na diferença capital entre homem e mulher, acredito na parecença. Vejo uma mulher e um homem e ainda uma terceira entidade em cada homem e mulher. Alguns temem e escondem a sua diversidade natural; alguns tremem e enganam-se, forjando no espelho uma pedra. Pórem a pedra também se modifica e pode ser várias.
Cismo sobre o novo, sobre juventude.
Acredito na possibilidade de existirem jovens empedernidos e calejados, assim como vejo velhos que voam como um bebê diante do desconhecido. Não creio na guerra entre jovens e velhos, acredito no complemento. Vejo em cada idoso uma criança que resiste, em cada novato um velho que adivinha o inconsciente coletivo. Continuidade...
Cogito sobre minha derme... moura? índia? selvagem...
Confio na possibilidade de existirem todas as relíquias históricas na minha menina memória de milhões de anos. Não admito remota diferença entre os meus e o cáucaso. Nos vejo idênticos entes dos andarilhos. Tempo, espaço e demolições.
Penso em você e em mim, num planeta que se revira entre tumores e flores, entre milhões de outros planetas; pequenas partículas como átomos que formam nossos corpos e, se usarmos a lente convergente, veremos que somos todos um corpo só, um a complementar o outro no tempo e no espaço. Sem você, não existo; você sem mim é ninguém e nem me venha com o nariz de pó de arroz dizendo que vive sem mim, pois nós dois somos como a vida numa poça d´água e no sistema solar e nos desdobramentos espíritas ou nos buracos negros da ciência. Há fios de luz que ligam nossos umbigos e o mundo entra por um furo no céu e morre sem nós dois juntos.
Não percebo nossas divergências; digo não.
Mas acontece que somos tão pequenos, mínimos, tão crianças diante do infinito, tão mini formigas que enxergamos apenas a latitude microscópica de uma ilusão e arrotamos superioridade de dentro das nossas gavetas, planetas.
]bw[

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O rabo da lagartixa.


A gente se conhece melhor, entendemos mais sobre nosso próprio caráter quando roubam a gente. Não falo de coisas e propriedades - embora isso também seja triste e nos faça sentir miseráveis quando alguém nos trai por algumas moedas a mais; digo sobre lealdade e confiança e do paradoxo que é o mundo dos grandes olhos quando, de verdade, quanto mais quisermos tirar do outro, mais cegos ficaremos. 
Quando nada fazemos a respeito do que nos tomam e olhamos enternecidos aquele que se vai arrastando em troféu as nossas vísceras, a gente sente que já aprendemos um tanto sobre paz. A vingança não vinga, ela é só um fogo fátuo. Assim, você caminha pra o outro lado e estremece diante dos destinos infinitos que se descortinam; e você sente as próprias células se recompondo como um rabo de lagartixa.
Os mais espertos tem pressa; não entendem que um coração roubado não caberá em suas caixas de sapatos, mochilas e pendrives, pois cada um tem o seu e ninguém precisa mais que um; uma vontade de ser feliz, de dividir.
Eu vejo fingidores irônicos, que tratam pessoas como degraus, rumo a muros duros de espinhos e cacos de vidro.
Um raio de sol corta as nuvens e me diz:
- Deixa assim.... deixa assim... Deixa-os ir, Rabo de Lagartixa.



]bw[

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

MI - KRII

Recebi duas contribuição de berros underwater para o projeto Mi-Krii. Estou arrepiada, porque isso se mistura com meu projeto do Gesto Submerso!! VISITEM PRA VER COMO TÁ BONITO E MANDEM SEUS GRITOS!! Vi Krias?!
http://mi-krii.tumblr.com/




As pessoas famosas não precisam de mais nada?


Acho que foi esse um dos motivos de eu ter ficado todo o ano de 2004 escondida no meu quarto com medo de pessoas. Porque naqueles tempos eu era tri conhecida e sempre tinha matéria sobre o meu trabalho em jornais de todo o país e eu vivia na tv e tal. Foram aaanos assim, começou com a banda, depois os filmes...
Daí, um dia eu tava voltando de um evento em Brasília e naquela noite eu tive uma surto e a psiquiatra disse que era TAG transtorno de ansiedade generalizada. Assim, por um tempão eu só saía pra terapia e coisas com reiki e massagens.... Aquela competição pra aparecer, as fofocas, o machismo todo, eu viajava com uma câmera super 8 e enquanto as pessoas se exibiam em premiações eu ficava na frente dos cinemas e teatros filmando os pés dos transeuntes indo e vindo. Entende? As pessoas reais nem sabiam que a gente existia com nossos filmes e narizes. E artistas de verdade nem sabiam que homens de gravata decidiam coisas em seus nomes. Eu vivia num funil...
Me escondi de todo mundo. O meu festival até voltou a rolar entre 2007 e 2009 e depois lançamos o longa Bitols O Filme mas eu sempre discreta, não queria aparecer muito, então inventei o Cinema na Mochila que era levar cinema nuns cantões onde você até dava entrevista, mas eram cidades pequenas e não tinha fuzuê de gente se exibindo em palco de festival e tal. Até no meio das queimadas eu exibi meus filmes. E por uns tempos eu morava no Rio e outros lugares e me perdia no meio de pessoas que nem sabiam que eu existia e passei a entender que eu não sou ninguém. Em 2010 comecei a ser também VJ e fotógrafa e admiti que meus filmes não tinham nada a ver com o "meio". Me voltei pras artes e admiti que sou uma pessoa que quer se expressar criando coisas e vivendo destas invenções, nada mais que isto. Não é só ganhar dinheiro, mas conhecer e discutir. Feito, deixei de ter vergonha de não ser uma especialista e sim uma antena.
Na real, eu tou comentando isso porque praticamente nenhum dos meus amigos famosos aceita meus convites pra curtirem minha fanpage Clandestina e acompanharem o que eu ando fazendo. Fico em dúvida se é porque eu quis deixar de fazer parte do mundo vip ou se é porque as pessoas famosas acham que não tem nada mais pra conhecer na vida além de fórmulas que as torne mais conhecidas.
Mas se tu não é um artista que aparece no Jornal do Almoço, tu pode curtir meus processos criativos, meu site, o blog e tudo isso.
Assinado: ]bw[ A rapariga menos famosa da cidade.
https://www.facebook.com/estudio.biahwerther/

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Dentro de mim.

Ensaiando na praia... Meus calos já estão voltando ao seu lugar e agora eu componho na viola de 10 cordas. As gravações estão toscas, mas posso mostrar a letra da minha nova canção: 
Olho para dentro de mim 
Há um quarto, um coração, um rim
...
Olho para dentro de mim
Cama, perguntas e células assim
...
Olho aqui dentro de mim
Veias e tripas, me encontro
No fim.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Germinar

Amor é quando um bem-te-vi segue cantando as boas novas como se nada tivesse acontecido.
Amor é quando uma vida germina do vulcão.
Amor é quando a gente foge pra longe junto com a Verdade.

]biAhweRTher[



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O fotoxópi já existia nas cavernas e Alguns critérios me dão sono

Não sou muito de me inscrever em concursos, festivais e editais. Isso ajuda pessoas viciadas no "circuito" a andar por aí dizendo que não produzo, quando sou mais inquieta do que os comportados cativadores de jurados.
Outro dia, dois caras roubaram um projeto de mim e um deles, lá do Rio, dizia que tudo bem pois não tem visto roteiros meus em festivais, então ninguém vai mesmo acreditar em mim...
É curioso como ainda tem machismo no mainstream.... mas isso é história mais complexa pois rola em toda a categoria profissional.
Admito que dos poucos editais nos quais me inscrevi, a maioria ganhei ou pelo menos meu trabalho deu uma instigada na galera ou eu incomodei por mudança nos critérios e voei de volta pra casa achando tudo muito antigo...
Meu problema é que não tenho saco pra mandar curriculum. Acho bobagem ficar enumerando prêmios, cursos e trololós. Pra mim, tinha que ser bem ao contrário. Você ver apenas o trabalho inscrito, premiar o cara sem saber quem é ele, o que já fez, de onde vem, laurear o presente momento. Porque passado e futuro são ficção.
Outra coisa que me irrita (e por isso eu, por anos, dirigi meu próprio festival)
é as obras terem tempo de validade. Por exemplo, se você fez um filme há mais de dois anos ele já tá com "prazo de validade vencido". Não pode mais inscrever em festivais.
Daí você pensa: "Puta que pariu, imagina se uma obra do Van Gogh.. tipo o Quarto em Arles, tivesse que ficar no porão simplesmente porque a estética no design das cadeiras e camas agora é outra?"
Num país como o nosso, se você não puxa sacos, leva 5 anos pra conseguir terminar um filme e ele valerá por dois anos e depois será considerado velho? Bó!
E tem essa besteira da indústria de patês audiovisuais que separa as obras em tempo de duração. Isso é muito fálico, meu! Acaso ainda pensam que um trabalho vale mais porque tem um tamanho ou uma duração maior? Que infantilidade desse povo importante que se reúne pra decidir a vida da obra alheia!! Essa gente que se diz representativa de uma catiguria é muito estranha....
E é por isso que também não curto muito os concursos de fotografia que exigem que você inscreva apenas fotos não interferidas digitalmente.
Primeiro porque já vi muita foto premiada nesses mesmos concursos que tinham, sim, edição; segundo porque a interferência seja por arte, seja pra retoque, pra enfeiar, pra embelezar, pra surrealizar existe desde os tempos das cavernas, É parte, é como tinta e pincel, é como escolher o grão, o filme, o iso...
O naturalismo é relativo e tão diverso!
Cada olho por trás de uma lente enxerga uma mesma natureza completamente diferente de todos os outros olhos por trás de lentes.
Ninguém vê o sol do mesmo jeito. E além do mais, se alguém me provar que o retrato da Mona, os das madonas; que a Ophelia, as Três Graças ou a Nefertiti; que os contrastes que imortalizaram nobres, burgueses, reis,ditadores, rococós e escravas são absolutamente naturalistas e sem retoque, que os retratistas através dos tempos nos enviaram a cópia fiel da luz e nos museus vemos as caras exatas das modeletes, sem nadica de "photoshop", daí juro que desdigo tudo isso!
Por enquanto, parem com essa bobagem de achar que fotoxópi é só um app que tira pé de galinha.
Pularmor! O "tratamento", pós produção, retoque ou como quiserem chamar, não é app pra selfie de celular. Tratar uma foto é necessidade-vontade técnica e estética, dá trabalho, é um cuidado que cada fotógrafo decide se quer ou não por questões absolutamente pessoais e ninguém tem que se meter nisso.
Galera olha, inveja e sai procurando fotoxópi, como se pos produção fosse demérito! Tsctsc.

]bw[

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

VERÃO

Verão, 
eu queria te contar que dos outros eu gosto porque não gosto de sofrer; aceito porque não adianta me esconder. Procuro neles um pouco de ti na folha seca cor de ouro, no vento, no raio dourado que corta o frio, as flores antecipando teus poemas. Quando não tem sol, te encontro por dentro do meu cachecol e minh'alma faz amor contigo depois de um malbec e daí tu me fala: -Já volto... já volto.
Verão, eu aceito os outros mas não é traição, é só esperança, é só paciência. Por mim,
tu ficava aqui pra sempre, verão. Mas tu é como as ondas do mar, tu vai e vem, como transar.
Assinado: A rapariga que bebe o sol.
]bw[




SARAVAH!

Todo santo verão, um monte de pessoas brancas de camiseta preta morrem de nojo. A pessoa empina o nariz dizendo que é artista, um privilegiado ouvido de superior intelecto, o suprassumo do roque e por isso odeia carnaval.
Carnaval, essa coisa suarenta popular demais que surgiu lá nos quintais, se ocultando, proibido pelos nossos avós, negro demais.
Você que arrota que o samba e as músicas de carná são horrorosas, que são canções menores, só sei dizer que você tem que afinar mais seu ouvido e as cadeiras, viu.. Que o rock é filho do samba e ninguém é mais rock do que o Partido Alto.
Porque artista visual que não tem um coração louco para um dia trabalhar num barracão de escola de samba e aprender as colagens, os segredos e montagens mais incríveis; um músico que não fica com o coração no estômago louco pra se perder no meio de uma bateria e entender o que é uma cuíca; um bailarino que não fica a fim de sambar no meio da rua, nem que seja pulando com o bloco Império da Lã ou no Suvaco de Crishto, vou te dizer, essa pessoa não sabe amar, tem um coração muito vulgar.
A propósito, um dos documentários mais emocionantes sobre samba é de um francês, Pierre Barouh, e chama-se "Saravah". Viva Paulinho da Viola, Clementina de Jesus, Martinho da Vila, Nelson Cavaquinho, Candeia, Clara Nunes, Bete Carvalho, Cartola, Vila Isabel, Rosa Magalhães, Paulo Barros, Aroldo Matias, o Maracatu e o Boi Pintadinho.


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

PARA MARIA RIBEIRO E AOS RESPONSÁVEIS PELO ROTEIRO DO PROGRAMA SAIA JUSTA

*No programa Saia Justa do canal GNT, a atriz Maria Ribeiro afirmou que pessoas que não comem carne sofrem de deficiência de caráter. Achei que valeria uma resposta.
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Há quem considere vegetarianos e veganos hipócritas, tendo em vista o fato de que outros produtos do dia a dia seriam industrializados a partir do sofrimento animal.
Caberia neste tema um pouco mais de conhecimento por parte dos incautos antes de tais afirmações - e ler a respeito não é nada difícil. Vida responsável já está até nos programas dedicados a panos de prato.
A VER:
A manufatura de produtos veganos cresce no mundo inteiro e - para quem gosta de consumir uma atitude chique - isso é mais do que moderno!
Há sim, possibilidade de você usar bolsas, sapatos e todo a sorte de produtos lindos, des-uniformizados, feitos com responsabilidade e desenvolvidos absolutamente livres do sofrimento animal. Basta procurar, de tênis (inclusive os chiquérrimos de canhamo) a estofados, bolsas, produtos de beleza e tudo o que você precisar.
Os produtos de reciclagem, então, são o auge da modernidade.
Em se tratando de qualidade, designers, pesquisadores, laboratórios e etc vivem como numa gincana nesse mercado, cada vez mais qualificados a criar produtos sintéticos ou orgânicos que não prejudiquem a saúde de animais humanos e não sangrem ou torturem animais não humanos.
Ler a respeito é muito interessante.
Não usar produtos que dependam da escravidão de animais ou humanos é ter uma vida muito mais plena e leve, vale tentar Emoticon smile
Em tempo,
descambando um tanto além - não estou dizendo que seria o caso da senhôra Maria -, acreditar que é impossível ser chique sem uma bolsa de couro de 30 mil reais é o auge da cafonice, mas aí já entramos no próximo assunto... a luta contra a desigualdade social X coxinhas.
Ter mais coisinhas não define o caráter de um ser humano, mas a empatia e a percepção do que se passa ao redor com humanos e animais talvez seja um caminho para lapidarmos o nosso umbigo infantilizado de consumistas do século XXI.
biAh weRTher
*Se ligae em algumas dicas de fácil compreensão, pra começar, dona Maria Emoticon grin
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Quanto a mim, prefiro a morte por tesão.

O ano era 1992. A nossa juventude tinha a MTV como referência primeira, junto dela as rádios FM - quiçá pautadas por ela. Seattle estava em Porto Alegre, Rio, SP, BH... As capitais do rock no país exultavam um bom número de rádios FM dedicadas especialmente para o rock reunindo um número de ouvintes que nunca mais poderão vislumbrar com o advento das novas mídias e da pulverização generosa que nem por isso diversifica os olhares.
Havia uma crítica nos movimentos e ações jovens, um diálogo silencioso quando nos víamos nas ruas e não nos conhecíamos, um diálogo barulhento enquanto sorvíamos cerveja barata. A gente filosofafa e sonhava. A gente lia e gritava. Não nos dávamos por vencidos e não havia ódio ou comprometimento com o que não fosse desestruturar o estabelecido. Ou melhor, quem tinha ódio juntava uma turma e quebrava tudo (resquícios do movimento punk).
Os fanzines ainda eram de papel, colagem e xerox . A gente era feliz e sabíamos. No meio disto, enquanto a minha banda na época tocava nas FMs locais, aparecia nos jornais (que ainda distribuíam festivas capas de segundo caderno pra cena local) e lançava sua segunda demotape (Academias Chiquérrimas está namorando) eu engravidei do meu filho e passei a gravidez toda tocando violão e escutando de Jimi Hendrix a Nirvana. Jeremy tocava 10 vezes por dia nessa época. Hoje é apenas uma canção, mas naqueles dias, era uma marca, juntamente com Polly, do Nirvana, lançada - se bem me lembro - um ano antes.
Minha memória dos anos 90 não entende tristeza e pauta minhas vontades nestes tempos menos ingênuos, de mais dureza, menos união no meio cultural e artístico.
Do alto dos meus vinte anos como ativista da cultura alternativa e sobrevivente no udigrudi, atuando em 8 artes, posso lhes dizer que o roquenrou morreu ou deveria mudar de nome porque ninguém mais quer mudar o mundo.
bw

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O Animal e o Metal

Pessoa de cristal
Nada a perder
E se toda a existência despertasse
em estado de transparência?

Invisíveis hematomas
Ciladas
E se algum menino louco corresse pelo tempo
inventando um jogo novo?
Venceria quem desarmasse todas as armadilhas
Venceria quem enterrasse as armas
Ganharia o perdedor

Nas mãos do homem o poder
Diante dele um coração de vidro pedindo perdão
E se um dia não existisse mais culpa?
Desculpa

Minimal
Você nunca vai saber
Você ouviu dizer?
Meu nome é ninguém
Tudo o que tinha eu te dei

Não importa onde estou ou estarei
Ali será sempre o meu ponto de partida
Uma passagem só de ida
O próximo passado
Para o resto da minha vida

}bw{

domingo, 17 de janeiro de 2016


VIVA SÉRGIO SAMPAIO, VIVA QORPO SANTO, VIVA CAIO FERNANDO ABREU, VIVA HILDA HILST, VIVA CAMPOS DE CARVALHO, VIVA GLAUBER ROCHA, VIVA CAMILLE CLAUDEL, VIVA TOM ZÉ, VIVA A DOR E VIVA O AMOR!
Há anos eu tinha o sonho de fazer um documentário sobre o Sérgio Sampaio. Apresentei o trabalho dele pra uma pessoa que iria fazer junto comigo o projeto. Sempre que eu falava das ideias, mostrava vídeos e falava do argumento, me dizia que jájá iríamos tocar o projeto. Eu, super orgulhosa, falava sobre isto com todo mundo e comecei a procurar uma produtora grande pra ajudar com editais. Há pouco, descobri que há muito ele se juntou com um amigo de outra capital e combinaram me excluir e fez contatos com pessoas que conheceram Sampaio e já estão fazendo projeto e colocando em editais sem meu nome. Diz que o amigo é melhor que eu, não por ser apaixonado como eu pela alma do Sérgio Sampaio mas porque o produto Sérgio pode dar uma boa grana se o audiovisual for feito por uma produção só deles, pois há mais rapidez, melhor burocracia, mais possibilidades de conseguir grandes recursos.
Sérgio Sampaio é um ídolo pra mim porque em muitos momentos de alijamento, caras como ele, letras como as dele, me fazem ir em frente.
Para esses cineastas que fizeram isto comigo, dedico uma das canções mais incríveis, a meu ver, do meu ídolo Sérgio Sampaio.

]bw[


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

POR UM REVEILLON CHUVOSO!

Gosto muito da chuva encontrando o mar, sempre gostei de praia com chuva, pra ler deitada na rede vendo o mar ali a se misturar com o infinito. Nunca vi um quadro monocromático mais bonito. Aqui no RS, no ano novo torço muito pela chuva porque daí estraga as festas nas praias, onde prefeituras irresponsáveis, comerciantes gananciosos e veranistas fúteis praticam toda a sorte de vandalismo.
Os barulhos excessivos de fogos são mortais para as aves silvestres, os carros e multidões ensandecidas esmagam a pouca vegetação natural que resta à beira mar. As toneladas de lixo e porcarias atiradas na cara da coitada da iemanjá - alguém precisa avisar que orixás não são acumuladores - são a maravilha que vai embelezar os balneários gaúchos pelo resto do verão.
O litoral parece até pior do que as grandes cidades quando falamos de gestores corruptos, construções desordenadas, especuladores terroristas.
E a grande piada nisto tudo é que os consumidores de caixas de vidro em condomínios sentem orgulho de fazer parte do inferno cheio de buzinas, pancadão, cheiro de esgoto e filas imensas pra comprar mantimentos.
No meio da areia-lama, dunas roubadas durante o inverno para construir casas de sal, as moças desfilam os biquínis caros, bronzeado e salto alto e as famílias de classe média fazem carão se esbaldando nas ondas de cocô. Cachorro não pode ir no mar, todos te olham feio e apontam a placa de proibido e as senhoras sebosas fazem cara de nojo. Carros cor de rosa com som horroroso a todo o volume, bitucas de cigarro e latas de cerveja tem passagem livre. É uma festa e da-lhe selfie de pés feios na beira-mar com o comentário irônico: - Tá difícil!
Estou vendo o dia em que vão colocar placa proibindo as poucas e resistentes aves de darem seus lindos rasantes.
Ter uma casa na cidade, uma na serra e outra vazia o ano todo na praia, em pleno 2016, ainda nos parece uma questão de "poder aquisitivo" e não de falta de educação. Mas isso é outra história... agora falemos do verão!
Eu vivia dizendo que paramos nos anos 80 como sociedade. Mas não, mudei de ideia. Estamos mesmo é em 2016, quando a primeira geração de analfabetos funcionais desembarca na meia idade. Salve-se quem puder! Quem governa o barco são os guris de apartamento com medo de lagartixa, com nojo de pobre, com a certeza de que podem quebrar tudo na rua e depois correr pra o seu quarto decorado pela última tendência na Casa Cor.
Eles acreditam que em seu feudo com muro que dá pra Estrada do Mar, que na sua torre que estraga o por do sol, não chegará o fedor. Pensam que moram em bunkers (como dizia o Leonardo Márquez Brawl, estamos no Show de Truman).
É o segundo ano seguido em que passo a virada no silêncio de Porto Alegre porque eu sempre acabo chorando na praia com os absurdos que preciso presenciar, a morte diante dos meus olhos e todos sorrindo de roupa branca.
Com o agravante de que, quando estou no sul no verão, a praia que frequento tem uma reserva ecológica há duas quadras de casa e ninhos de coruja diante do portão, a suportar os fogos e bate estaca há alguns metros.
Parecem todos parte de um filme de zumbis, de um filme futurista, de qualquer ficção que, finalmente, tornou-se realidade.
Viva 2016! Viva a Zumbilândia!
]bw[

sábado, 26 de dezembro de 2015

Espelhos e Pêndulos

Nunca sei direito quando desembarquei do cinema, da moda, da música e do texto e resolvi misturar tudo isto com artes visuais. Só sei que num dos cursos universitários que frequentei me apaixonei pela Semiótica. 
Daí, naqueles dias eu comecei a fazer grandes instalações e micro obras onde eu montava espelhos e pêndulos. As obras menores eu entregava como presente de aniversário ou natal ou de despedida. Aquilo era de uma importância tão grande pra mim que mantive um diário com apontamentos sobre as reações das pessoas que ganhavam meus pêndulos.
Mais tarde, eu comecei a fazer mulheres de argila em invernos chuvosos. Elas gritavam com uma boca imensa e o tempo úmido mexia com elas e era como se estivessem ficando com os corpos flácidos enquanto secavam lentamente e, por vezes, perdiam pedaços apesar de não irem ao forno, porque argila no forno me dá uma impressão de morte em vida.
Depois comecei a fazer homens em camas de prego com pênis eretos, o que talvez quisesse dizer que eles eram masoquistas.
Nunca mais esqueci que na fase das mulheres de argila com bocarras e mãos nos seios eu fiz uma mulher sofrida e grávida e dei de natal para a minha mãe que teve medo dela e não aceitou o presente e eu fui embora decepcionada. Minha ex-sogra acabou gostando e - não sei se pra me consolar - a mantém em destaque até hoje, perto da lareira, numa estante cuidadosa entre obras mais catedráticas.
]bw[


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

EMBORA EU ACHE HORROROSOS OS MOSAICOS DE ESPELHO.

Não vivo de arte... sobrevivo e não me queixo, me deixo viver. Na escola de artes tive colegas e professores que riam da minha cara quando eu me apresentava como artista. É que as pessoas pensam que ser artista é algo chique, sei lá... Então lhes parecia uma arrogância o que pra mim parecia natural há anos, tanto que minha DRT é como Diretora de Arte - se bem que nem sei onde anda minha carteira de trabalho.
O problema do artista na nossa geração não é o mundo ao redor, o problema do artista é ter vergonha de ser a despeito da aprovação dos entendidos, é não saber que este eterno não saber já é um passo para ser. Pois o artista é uma pergunta ambulante, começando por ter consciência de que nunca saberemos dizer ao certo o que é arte.
Não dou muito valor pra o que passou na minha história como artista porque emocionante é fazer, depois de feito não vou viver das lembranças de algo que não sinto mais. É como querer repetir o mesmo orgasmo, entende? Não entendo essa mania de provar o que já fez pra todo mundo dizer "Oh!". Não é por algum lindo prêmio que tenha conquistado antes que alguém deveria ver no meu trabalho algo sensível, mas pelo que sou agora, outra.
Também penso que se você esquece e não valoriza tanto o que fez antes, você vai estar sempre recomeçando e daí é como tomar banho depois de uma noitada e ir dormir pra repor as energias.
Entre as poucas certezas que a gente tem, a primeira é que você não aprende, você aprimora. Vi gente nos vários cursos de artes que já fiz, pedindo "pulamor de deus, me ensine a ser um artista". Mas não foi uma instituição que me fez ver como sou. Descobri meus dons e dúvidas fazendo, vivendo, errando, perdendo,
Não vivo de arte, eu sobrevivo e não me queixo, eu me orgulho de viver aprendendo, consciente que vou morrer com mais perguntas que respostas.
Na arte, como em qualquer profissão, você nunca termina os estudos. Me dá faniquito quando alguém diz que está formado. Formado é pronto pra morrer. Me perguntaram uma vez porque eu entrara na escola de artes se eu já me considerava uma artista, seria pelo diploma?
Não, eu queria resolver umas coisas que estavam engavetadas e que eu ficava tentando pesquisar sozinha por orgulho. Daí cresci e vi que se eu fico perdendo tempo vou precisar morrer com 500 anos pra terminar tudo o que comecei, então é mais fácil aproveitar as respostas que alguém já procurou e publicou e outro alguém pode me mostrar em uma aula.
Mas além de tudo, eu gosto de estudar porque eu sou prolixa. Eu sou chata e subjetiva, eu sou daquelas que acha um abuso termos transformado em palavrão o conceito.
Não sei viver de arte. Sobrevivo e ainda não consegui valorizar o espaço oficial da arte no mundo simplesmente porque acho burrice limitar e, em pleno 2015, acho uma vergonha ainda aprisionarem a criação e separarem picho de grafite, entre outras coisas que fazemos para tornar a arte algo digno de pessoas com dedos macios e pálidos.
Meus trabalhos eu mostro como e quando me parece bom e tem vezes que não há muito público e nem divulgo e tanto faz, faço na hora que tinha que fazer e depois passou, foi, saiu.
Não atualizo curriculum, meu portifólio é um caos e eu amo tudo isto onde me perco e as pessoas chegam e querem organizar minha vida, acham que meu estúdio é uma bagunça e querem jogar coisas fora e questionam as micro partículas que lhes parecem lixo com pelos de gatos, enquanto pra mim meu lixo vale mais que um milhão de dinheiros. As minhas coisinhas e ideias inconclusas.
Não vivo de arte, sobrevivo como posso e não me interesso pelo foco.
Pra mim, cada trabalho que fiz, filmes, textos, designs, retratos, instalações, exposições... cada coisa que faço é um membro, uma veia, um calo, um órgão que vai formar um corpo. O trabalho do artista, me parece, não é um evento por ano que você estréia e as pessoas tomam vinho e dizem parabéns como se sua vida criativa fosse um escritório cheio de divisórias. A obra é um conjunto de todas e nunca vai ter fim.
Não aprendi a viver de arte, mas sobrevivo.
Creio que tudo é parte de um projeto só, um mosaico que você reza pra não terminar porque no dia que você terminar, no dia em que estiver pronto, no dia em que você estiver formado, daí você morreu, não tem mais serventia como uma pessoa viva. Aí é morrer, virar adubo e rezar pra que o seu mosaico sirva pra alguma coisa na vida dos que virão.

]biAh weRTher[

sábado, 12 de dezembro de 2015

A sangria santa.

Adentramos há quase duas décadas no século XXI e finalmente - ufa! - boa parte das mulheres perdeu o medo de lutar contra os tabus milenares que lavaram nossas cabeças a rezar que não somos donas do próprio corpo e existem seres invisíveis a espreita pra nos castigar se quisermos escolher o que faremos com ele.
Todavia, de gravidez à masturbação, a escravidão parece ainda ser uma questão de decência e honra pra muitas. Infelizmente ainda há um grande número de mulheres de todas as idades que sentem medo de serem donas dos seus próprios corpos e mentes e, para não ficarem sós, perpetuam, impõem os discursos dominadores.
Há anos observo um debate que é o maior, mais velado, senão o centro de todos os tabus a respeito do corpo feminino: o sangramento.
A maioria muda até o tom, é tema inviolável, sagrado, questão fechada.
O sangue como prova de que mulher nasceu pra sofrer. De minha parte, acho um saco quando o assunto entra em pauta nas reuniões de meninas porque é sempre como levantar a bandeira do fardo inevitável. Eca, eu me isolo e aumento o som quando as pessoas fazem cara de orgulho do sofrimento ou algo assim.
Desde cedo vivi severos problemas decorrentes da menstruação, então muito pesquisei - mais tarde adotei - a opção por não menstruar (santa é a liberdade).
Até hoje fico surpresa com algumas pessoas muito jovens que repetem discursos arcaicos sobre o sangue sagrado e a crença de que adotar métodos contraceptivos ininterruptos causa infertilidade, entre deduções mais tristes como considerar que a mulher que não sangra é menos mulher, rezando a cartilha de que só nascemos pra parir.
Quando me deparo com algumas opiniões horrorizadas e tons amedrontados a respeito da opção pela não menstruação, me vem sempre esta certeza de que as mulheres brasileiras acham que são livres só porque lhes deram o direito de mostrar a bunda na praia (cá pra nós, em muitas ocasiões isto está mais para prisão do que para liberdade).
Bem, minha sina é fazer parte de grupos fora do padrão, então sinto na pele e ouço os sussurros quando falo da não menstruação. Dou de ombros, pois tenho a a certeza de que mulheres adeptas de qualquer das formas modernas de contracepção contínua, seja por questão de saúde, porque não querem e pronto; assim como as que precisaram tirar o seu útero ou mesmo as que estão velhas não deveriam se esconder tanto com medo de serem consideradas o anticristo.
Não menstruar é lindo.
Cada uma que faça o que bem entender com seu corpo e a medicina é o único caminho para tirar tais dúvidas, não as crendices milenares ordenadas pelos deuses de barba sobre nossas cabeças e sexos.
Seja qual for a opinião que você tenha, nunca esqueça que nenhuma mulher vale pela quantidade ou pela cor do sangue que jorra.
Seja qual for o medo que você tenha, lembre que os homens não tem que se meter nisso a não ser que seja pra apoiar você a ser mais feliz e livre.
Assinado: A rapariga mais sem TPM da cidade.
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sábado, 5 de dezembro de 2015

13 itens sobre 2016


Assistindo filmes e lendo livros futuristas dos anos 1950, 60 e 70 tenho sempre várias certezas sobre as previsões feitas no século XX:
1) Escritores e cineastas tinham realmente o poder de adivinhar o futuro.
2) O uniforme, de fato, substituiu a fantasia.
3) As festinhas onde se dança estão muito comportadas e chatas.
4) As religiões eletrônicas que eles imaginaram eram menos bregas.
5) O roquenrou ficou muito muito velhinho e morreu.
6) Os designers olhavam o inusitado com tesão no cérebro.
7) Tudo já foi inventado e a única novidade no mundo é a lâmpada led.
8) 90 por cento da população acabou mesmo andando pelo pasto de cimento com os braços duros e os olhos parados.
9) O avant garde foi substituído pelo derrière e a gente anda de costas pois cremos na descoberta da Fonte da Juventude, que é um planeta onde todos tem pés de curupira e sofrem de paralisia intelectual.
10) Certos de sermos a última geração que sobreviverá a nós mesmos, perdemos o sentido do novo.
11) O futuro mora na propaganda de seguros onde se brinca de estátua.
12) Meu, o ser humano é um guri abobadinho
13) Tá, o item 12 é muito óbvio!
Assinado: A rapariga mais feliz do ano bom.
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Eu conheço Campos de Carvalho, o interior do Mato Grosso e o orvalho.


Não sei quanto a vocês, mas estou há 29 dias de 2016.
Meu!! Dois mil e dezesseis!! Com 16 eu já escrevia e pouco ria, era séria e fazia poesia.
Faltam 29 dias. 29 anos. 29 pessoas. 29 horrores, filmes, músicas, amores e 29 refeições, questões. 29 garrafas de vinho.
Não lembro do último dia 29, mas devia ser como sou e igual ao que fui, correndo por aí, me escondendo por aqui cheia de trabalhos atrasados...
Tenho trabalhos atrasados!! Estou falando dos trabalhos que me sustentam, pois os que são, pra mim, um sexo selvagem, uma paixão, esses eu faço correndo, eu não durmo por eles, eu morro seca por causa deles.
Puta que pariu, estou mentindo!
Mesmo o amor que amo, eu traio. Eu traio pela vontade de novidade! Então, claro que não faço às pressas nem aquilo que mais me interessa.
Por exemplo, por volta dos 17 anos eu comecei a conhecer muito as entranhas do país. Nem lembro das poucas vezes que viajei com alguma companhia para lugares desconhecidos. Com parentes e amigos eu vou pra mares familiares...
Mas assim, viajar pelos projetos de cinema ou pra me perder sem esquema, daí eu vou sem ninguém, meio vazia de mim pra ver se me conheço um pouco ou - milagre - ver se algo me surpreende, algo me dá um susto, alguém me modifica.. quem sabe eu mesma me vejo e paro de me consumir.
Nessa noite não dormi, as dez da manhã sonhei com meus mortos.
No mais das vezes eu embarco sozinha e nos caminhos escrevinho, faço vídeos e shots e rolinhos de super8. Olho, escuto e penso.
Mas não pensem que esse monte de bobagens que eu escrevo e pics que posto nos meus mil endereços digitais, não pensem que são o principal do que vi, quis, fiz. Nããão mesmo.
Eu guardo coisas, eu guardo coceiras, emoções, solidões, paixões, medos, belezas e lembranças. Está tudo em páginas, agadês, cedês, devedês, até disquétes.
Eu guardo impressões e sentidos e, se um dia eu for relevante, alguém vai pegar tudo isso e vai ganhar um dinheiro. Mas eu tenho que morrer primeiro.
Hoje eu tenho que passar a madrugada pós produzindo fotos profissionais e não digo que não vou fazer meu dever, claro que vou. Contudo, antes disto, eu tomei um banho, eu lembrei de coisas como uma mania que a gente tinha uma época de cheirar rapé só porque as latinhas eram lindas mesmo as narinas ficando sujas de preto. Então, eu tomei um banho e fiquei pelada e fucei num baú cheio de figurinos dos meus filmes desde 1997 e. daí, descobri que tudo o que eu crio pra vestir tem algo meio névoa, muito transparente, fantasia cor de água.
Ah, isso tudo tanto faz. Lembrei agora de uma música idiota que eu compus quando da minha primeira banda e a letra ridícula de adolescente tinha uma parte que dizia "tanto faz e é só".
Caralho! Eu ainda penso do mesmo jeito!

biAhweRTher

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Volver

Vou te dar a real. Pra mim, toda a mudança - só não digo a "salvação" porque podem confundir com religião -, toda a solução, saída para a humanidade está na morte urgente da atual representação da mãe. 
Te pegam pela vaidade, mentem que tu é sagrada e tu vai para a prisão obediente, achando lindo gerar, parir, doutrinar e perpetuar gerações e gerações de fascistas.
Eu não caio nessa e, como toda a mulher que deixou vazio o seu relicário, sofro os açoites no meu microcosmo social. Ainda assim, eu defendo a Revolução das Mães porque a redoma, longe do aparente conforto, é um campo minado, é a arma secreta que guardam no teu útero.
Até os revolucionários pops da história, da ficção, da mitologia tem medo de tocar na personagem mãe.
A mãe é aquela que ora e cuida das meias, divide meninos e meninas, esconde as armas, faz cara de santa, finge que não vê, supre a larica dos rebeldes.e dos comportados e reza, e reza, e chama a Nossa Senhora e teme os trovões e sente culpa.
Mas se você não aceita o papel inventado pra te usar como a principal arma dos desmandos humanos, se você grita não para a figura da intocada inviolável doce, você muda o mundo.
Quando a mãe não quiser mais ser a assexuada, as constituições familiares sem figura feminina deixarão de ser incriminadas pelos senhores e senhoras cretinas.
E quando as mães não aceitarem repetir as ladainhas da criação caucasiana, os meninos vão crescer com valores mais humanos.
E quando as mães negarem os filhos como propriedade e pararem de ligar pra eles a perguntar bobagens infantis, mas exigirem ser vistas como pessoas normais pelos mesmos filhos, haverá um fim para a desigualdade.
Aliás, vou além! Eu aboliria o resumo Mãe e diria que todas as mulheres que são mães deveriam se revoltar por perderem seu nome e identidade após terem filhos.
Porque nada deixa uma mulher mais sem entranhas do que o terrível momento em que acorda e vê que todos ao seu redor a chamam de mãe e até ela esqueceu seu nome. Como se fosse uma entidade sem vida própria - já vi maridos chamando as esposas de mãe, que mixórdia é essa?
Porque a família, no sentido paternalista coronelista filhadaputista onde a mãe é eunuca, é apenas um tipo de banco, de imobiliária, de igreja, de máfia.
Eu defendo a revolução das mães porque não é rezando, perdendo a personalidade e mandando botar o casaquinho que vamos fazer nossa parte nessa bagunça. E era isso!

biAhweRTher

domingo, 22 de novembro de 2015

Sei nada não de Bienal do Mercosul.

Antes eu ia e parecia uma circo fuzuê tecnológico visitado por famílias no intervalo da novela dizendo óh. Eu curtia aqui, achava qualquer coisa ali e me via sempre desconfiada da maior parte dos trabalhos porque monitor, bliabláblá muita coisa não me convencia e parecia raso... dava aquela impressão de brinquedo feito por guri de apartamento que tomou nescau bichado na academia, entende?
Depois, uma vez eu participei da exposição de um carioca bem na abertura no Cais do Porto. Eram uns morros de areia, um anão que cavava alguma coisa e eu tinha que fazer uma espécie de performance enquanto filmava usando uma traquitana que eu tive que inventar-montar subindo uma câmera por uma corda e usando uma outra câmera na mão, Fiquei com areia até dentro das calcinhas e não consegui achar muito organizado porque dois dias antes eu fui no quarto do hotel do artista e ele só tinha um papel rabiscado e parecia nao saber direito o que faria. Mas valeu, porque era o barracão dos mais fodas no Cais que agora morre e no mesmo espaço tinha um mineiro amigo meu que ganhou prêmios no festival do livre olhar que eu fazia e outros malucos experimentalistas transmidiáticos,
Me senti em casa porque acho que tem vezes que as pessoas que me ajudam devem ter a impressão de que eu não sei exatamente o que vou fazer, mas eu sei. O artista me pagou uma grana, teve uma emoção e achei as pessoas da organização um pouco estressadas e arrogantes, tive que subir um pouco o tom pra entenderem que eu precisava terminar aquilo na madruga, mas teve atraso. É que naquele ano tinha morrido um eletrecista no Cais durante a montagem e pairava uma tensão no ar, então a montagem da minha câmera - eu, na real, filmava fazendo parte da instalação de abertura de um carioca que chamavam de Cabelo - que precisava de grua, causou uma certa apreensão.
Daí, cansei minha beleza com essa coisa de Bienal porque, sério, me parece que a arte contemporânea é uma repetição de si mesma.


Assinado: A rapariga que não curte tanto circos e bienais.

sábado, 21 de novembro de 2015

O voluntariado e a vaidade.

Desde que comecei a participar voluntariamente de ações sociais, noto que as pessoas costumam querer decidir o engajamento alheio, como se uma luta valesse mais que a outra, quando na verdade deveríamos entender a empatia como um poder coletivo e cada atividade como complemento das demais. Por exemplo, se você luta contra o holocausto animal, você está lutando pelo ser humano também e assim por diante. Você pode fazer fotos denuncia, ajudar a alimentar mendigos, defender a floresta ou manter uma página no facebook. 
Eu escrevo e isto não significa que não me voluntarie há muitos anos em ações práticas tanto na defesa da natureza como das gentes humanas e não humanas. Já resgatei bichos e já ajudei moradores de rua, já fiz vídeos documentais e, conforme posso, vou trabalhando a ponto de muitas vezes não ter grana pra mim - curiosamente, me sinto feliz assim.
Noto que muitas pessoas não admitem o valor do engajamento pela internet na forma de textos críticos, artigos e divulgações, mas eu defendo quem escreve e acho ingênuas as pessoas que consideram de menor importância escrevermos sobre os temas que afligem a humanidade por considerarem que vale mais fazer doações, por exemplo.
Escrever e gerar debate, a meu ver, é uma ação tão importante quanto ir a campo, até porque uma coisa não elimina a outra e, também, não podemos participar in loco de todas as ações sociais.
O que importa é que as lutas se complementem e não façamos do voluntariado uma competição de quem é mais ou menos bonzinho.
Os projetos sociais nos quais me envolvo não são uma vaidade e não são meus - vejo pessoas usando muito expressões como "minha ONG" ou "meu projeto social" - , por isso, como todos os que me seguem estão carecas de saber, só venho a público comentar as lutas das quais participo ou as que lidero quando preciso conseguir ajuda. No mais das vezes, prefiro trabalhar quieta no meu canto, sem fazer propaganda de mim porque se engajar é dever, no meu modesto entender.
Neste sentido, vejo a internet como ferramenta importante que pode e deve ser usada não apenas por quem está efetivamente neste ou naquele grupo voluntário, mas por todo o indivíduo consciente e a favor de um mundo mais humano.
Quero dizer com isto que ler e escrever também são a revolução, senão forem, inclusive, o início dela. Escrever e debater é lutar porque cumpre o árduo papel de conscientizar. Ler e escrever sobre os problemas da nossa sociedade é tão importante quanto dar esmolas, se não for mais fundamental ainda.
biAh weRTher

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

UM MÊS DENTRO DE UM ANO DENTRO DE UMA VIDA DENTRO DE UMA VACA.

Pra quem não me conhece, me apresento. Eu sou uma, sou pequena, nunca quero muito, tenho 1m 60 e 51 kilos, calço 35, não uso maquiagem e nunca coloquei peitos de silicone. Tenho mãos magras e machucadas por conta do tipo de trabalho que faço e amo fazer desde a adolescência. Me sustento, me alimento pouco e gasto pouco, cozinho muito bem, ganho meu dinheiro e divido ele com quem aparecer mesmo que eu não saiba se é verdade que a pessoa não poderia viver se eu não dividisse o que eu consigo. É que eu não me importo, é que dinheiro é uma coisa que as vezes eu tenho e não uma coisa que me tem. A minha carteira não é o centro da minha vida. O centro dos meus dias são o sol, a lua e a chuva. Dizem que eu sou tri bruxa, no mau sentido.
Não quero assustar ninguém sobre a verdade de ser mulher, então vou fazer a conta só do último mês dentro de toda a minha vida.
Durante o meu café, hoje, tentei não fazer os cálculos porque meu coração está cheio de cálculos, pedrinhas dolorosas que não saem no xixi e não tem como resolver com uma microcirurgia a laser; não desmancham apenas porque você estalou os dedos, assim como estala os dedos na hora que quer de mim uma groupie do seu pênis.
Eu sou uma, eu me viro pra viver.
Faz pouco tempo, muito pouco que eu entendi que não devo me deixar levar pelo jogo que define o que é uma mulher. Eu acho que agora, finalmente, aprendi a ser uma mulher.
Faz pouco tempo, muito pouco que eu não deixo você me fazer sentir culpada por ter nascido e me iludir sobre a condição de dependente.
Faz pouco tempo, muito pouco tempo que eu percebi que o que tenho não veio de graça, que eu não lhe devo nada, que não tenho uma eterna dívida com você.
Neste mês, só neste mês contei 6 episódios sérios de agressões masculinas sobre mim, metade delas foi alijamento profissional a outra metade foi pessoal, mas as duas coisas em meu mundo não se dividem. Trabalhar é minha vida como comer, tomar banho e dormir.
Todas as agressões masculinas que sofri nos últimos trinta dias tinham relação, de algum modo, com sexo ou gênero.
Em todos esses episódios você não estava só, você tinha outros homens junto de você. Mas eu não. Eu estava apenas comigo e não contei nada pra ninguém e quando eu lhe disse que tive vontade de me defender pela lei você declarou que sou louca, sem caráter, má, ingrata. Depois, eu deixei você ver que eu sangrei, então você relaxou e riu de mim. Mil a zero.
No último mês alguém tentou transar comigo mesmo sabendo que eu não queria, uma banda de SP resolveu queimar meu nome porque eu lhes presenteei com meu trabalho mas não poderia colocá-los antes dos meus clientes e "atrasei" os vídeos que fiz de graça.
Um produtor do Rio tentou me excluir de um projeto que, inclusive, era meu, porque não perdoou o meu "Não" íntimo e esteve esperando anos para vingar-se.
Se você é homem ou uma mulher obediente, deve estar pensando:
"Puxa, só com ela acontece tanto machismo!"
Não, não é só comigo. É que eu não sei ver abusos morais e emocionais como algo normal e cotidiano. É que eu não vejo com naturalidade ter que viver em estado de alerta, em guarda. É que quero me distrair e ser feliz sem precisar estar em guerra.
Trabalho com uma maioria de homens e sempre foi assim. Alguns deles procuram fazer projetos comigo para ficar perto e, quem sabe, transar.
A frustração do não os transforma em inimigos, cedo ou tarde.
Os dois piores caras que me causaram momentos traumáticos no trabalho ao longo dos último 30 dias tem o dobro do meu tamanho e poderiam me dar um soco na cara e eu não teria força pra revidar. Mas eles optaram por juntar-se com outros e praticar um alijamento profissional sistemático. É que um soco na cara a gente cura, o abuso moral talvez nunca.
Você tem medo de mim, me parece. Mesmo eu sendo uma e você muitos e você tão certo em seu andar de quem tem mais coisas no meio das pernas.
Faz pouco tempo que eu li sua alma e entendi o que passa. Eu sou uma, eu sou pequena e ainda assim eu te enfrento e isto você, que é tantos, não suporta. Você tem medo de mim. E sabe de uma coisa? Sim, tenha medo. Tenha muito medo de mim porque, você tá certo, eu sou louca.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Zumbilândia Rules

Daí, você se interessa pelos tuítes a respeito da mobilização feminina contra os abusos que sofremos desde pequenas. E você busca ler sobre mais uma pessoa negra que sofre agressões horrorosas nas redes sociais, porque anda meio chocado, a se perguntar quando foi que nos tornamos uma das nações mais preconceituosas, misóginas, xenófobas do planeta globalizado... 
Contudo, qual não é a sua surpresa, vergonha mesmo dessa nossa geração de adultos infantilizados, consumidores de coisinhas, quando descobre homens-pais de família-coisa que o valha, dizendo que assuntos como machismo e racismo são uma cortina de fumaça da imprensa paga pela "KGB" (oi?!) para tirar o foco do tema prisão do Lula.
Sei que me torno repetitiva, mas onde a novíssima classe média alimentada por sushi de plástico e porcelanato, irresponsável compradora de apartamentos em condomínios construídos em áreas que deveriam ser preservadas... Onde os viciados em códigos de barra, tomadores de etanol e gasolina do nosso país andam comprando seus cérebros?
Pra mim, há um portal nos subterrâneos dos milhões de xópins por onde saem pululantes zumbis com sacolinhas e cartões de crédito nas mãos.
Ok, eu já disse isso antes e ninguém mandou eu desrespeitar a regra básica:
"Nunca ler os comentários".
Assinado: Garota Enxaqueca virando sapo na Guarda do Embaú.

sábado, 24 de outubro de 2015

Zero

Fechei as janelas e procuro não fazer barulho. Meus passos eu piso com cuidado, ninja, cautela, sombra. Que ninguém saiba que existo. Desliguei a campainha, os telefones, me desconectei dos meios onde todos se refestelam ao sol digital RGB, exibindo-se, trocando elogios e convites, iludindo-se, consumindo, mastigando uns aos outros com palavras que mentem, poses, closes.

Eu dentro de mim.
Zerar tudo é uma bifurcação. 
Você pode pegar o pouco de dinheiro que te resta e sumir no mundo, mudar de nome, cortar os cabelos, conseguir um emprego comum num lugar comum entre pessoas comuns e inventar uma nova história futura, mentir sobre a vida passada. Escrever uma ficção sobre tudo o que já fora, de verdade, uma ilusão. A vida que a gente vive, que a gente interpreta.
Ou você pode sumir pra dentro, se encolher e ir ficando pequena, pequena, pequena até ser uma formiga, uma ameba, uma poeirinha no canto do quarto. E daí você morre e se assume um fantasma idiota que não sabia de nada, que não entendeu o que tinha que ser feito, dito, forjado. Um fantasma idealista e tonto que traiu o pacto do grande grupo, não pintou as unhas. Nem mesmo pintou as unhas!!

Fechei as janelas e é como se eu estivesse numa nave solta no espaço, fugindo, navegando, sumindo na eternidade antes que alguém grite meu nome e outro alguém traga a camisa de forças e me culpem porque não aceitei a vida como ela é.

Eu dentro de mim sinto gostos e na minha nave tem o cheiro de outra pessoa que passou por aqui e eu vou ter que suportar lembranças porque se eu abrir as janelas e arejar, o insuportável vai me escapar. Um detalhe vai desmaiar ao sol, um resto de perfume vai evaporar, um som vai se misturar aos sons que vem da rua onde habitam tons que me sangram.

Procuro a mochila grande vermelha, mas lembro que eu doei para um casal de jovens moradores de rua junto com muitas coisas que eu tinha e me eram caras, então eu tinha que excluir da minha nave pois tudo o que nos é caro um dia manda a conta e eu já não posso pagar. Eu não consigo mais pagar.

Encontro uma mala. Mas pra quê necessitaria de malas quando só preciso sumir. Ninguém caminha até virar fumaça levando uma mala de rodinhas. Não, pra virar pó você não leva nada, você vai pelada, você sorri lágrimas quentes, respira, em frente, primeiro devagar depois com mais firmeza até que você se solta no ar e voa e já nem se importa com o que perdeu pois você já não se arrepende de ser diferente e, afinal, quem disse que a gente perde quando o que a gente tem nunca foi da gente?


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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Capitanias Hereditárias

Conhecer eu sempre quero. As trocas sim, escambos.
Mas não curto as bandeiras enterradas nas fronteiras. Meus orgulhos são das subjetividades, não dos sangues derramados nas geografias. 
Por exemplo, nunca entenderei porque eu deveria ter orgulho de ser gaúcha ou terráquea. Tudo são contingências. Nasci neste planeta por uma ínfima questão temporal, espacial, dimensional. Sensacional...
Mas a gente é o que é até aceitar incorporar novos seres e saberes admitindo que   de nada adiantam as cercas porque nossa contribuição é apenas morrer nascer e transmutar. Adubo. Então essa coisa de bater no peito e falar de tradição é como colocar os sentidos numa caixa e entoar um hino monocórdio no escuro.
O homem caminhante caminhava caminhava até que parou, inventou um nome e desenhou linhas invisíveis. Mas nem todo mundo quer saber disso, nem todo o ser acha que deu certo isso de sair da aventura pra se esconder num apartamento, nem todo mundo quer. Eu, pelo menos, não dou valor nenhum. E até acho que se desinventarmos Deus a gente reencontra os caminhos da liberdade, soltos por aí. Mas isso é outra história, isso de reinventar a história. É pra depois que o mundo explodir, implodir, queimar vivo meio morto de tanto os Deuses que o homem estacionado inventou matarem todas as pessoas humanas e até as não humanas - que não tem nada a ver com isso - e sobrarem uns 6 ou 7, sete dias depois do final, rotos  os 7 sussurrando: - Então era isso... então era isto.
Quer saber? Isso que escrevo, na verdade, todo mundo já sabe pelos filmes que fizeram inspirados nos livros que escreveram sobre épocas ocultas, dedos que apontam, livros santos, cidades ardendo e senhores barbudos, crianças divididas, mulheres vendidas.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A cultura do estupro

Estive lendo tuites nojentos de homens de 40 anos sobre uma menina de 12 que participa de um desses mil programas de culinária que infestam os canais a cabo. Os infelizes se acham machos ruminando o quanto os excita a ideia de transar com uma criança e só espero que suas mães morram de vergonha e náusea por terem criado tais lixos.
Em meu blog já postei alguns textos sobre como foi ser uma menina de 12, 13, 15, 18, anos e depois uma mulher diante de uma sociedade que se orgulha do estupro confundindo os valores, se machucando, humilhando e sangrando as suas filhas e mães.
Meninas como eu, muito próximas de mim, sofreram estupro e eu as vi, olhos parados, cabisbaixas, no hospital... Escapei da agressão direta por pouco, por ter pernas rápidas, cérebro ligeiro, por ser desconfiada ...
Mas passei a vida tentando ser forte, a enfrentar toda a sorte de trauma na relação doentia que nosso país tem com suas mulheres. Se tu não aceita ganhar menos que um cara que faz a mesma coisa, se tu não aceita um namorado cretino, se tu não quer transar sem ter vontade, se tu não quer se vestir pra agradar um imbecil, se tu faz a música e não é a fã, se tu não é a mulherzinha na parte das mulherzinhas no churrasco da firma, se tu manda a sociedade se foder vão dizer que tá na TPM, que é mal comida, que é louca.
Mas bem, dentre as guerras que enfrentei sozinha diante da sociedade do pau está, inclusive, a agressão obstétrica, um dos traumas mais terríveis na vida de uma mulher num país como o Brasil que se diz livre porque não usamos burca - me pergunto porque a obrigação do biquíni enfiado na bunda é menos escravidão do que uma burca.
Então amores, não me venham pedir que seja menos garota enxaqueca. Eu sou uma mulher livre tentando ter paz neste planeta, neste país onde moças de classe média que vivem para agradar um homem coxinha de tênis comprado em free shop se acham mulheres melhores que funqueiras que sustentam filhos sozinhas desde os 13 anos de idade porque foram abandonadas grávidas. Um país catador de moedas e chupador de paus gringos. O paraíso do turismo sexual.
De verdade - e penso isto todo santo dia quando enfrento a vida sem me vender -, o Brasil é um país racista, machista, xenófobo, homofóbico.
Nosso país fede a estupro, fede a sangue seco. Nosso país se orgulha de viver contabilizando os centímetros de um pênis.
Assinado: A rapariga mais enojada da cidade.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O machismo começa na criação.

O machismo como cultura termina na mãe que cria. Nem todo homem conseguirá libertar-se do machismo feminino porque, no mais das vezes, ignora outra realidade possível. 
Porém, onde a mãe comunicar o fundamental enquanta amamenta, a sociedade se transformará, o homem assimilará, se orgulhará e vivenciará o inevitável segredo feminino dentro de si. O equilíbrio do ser.
De coronéis cretinos a pais abusadores, maridos que matam e chefes que assediam, homofóbicos covardes, meninas objeto, mães que perpetuam a doença social, todo o machista, toda a machista - exceto, talvez, os humanos com desvios mentais - possivelmente não o fosse se tivéssemos a sorte de ele ter sido criado por uma mãe feminista.
Mesmo num lar opressivo, me parece que a mulher que embala a criança tem um poder de mudar o mundo, mas desconhece ou teme tal força.
Nesse sentido, é provável que as crianças das famílias sem distinção de gênero em suas responsabilidades, as famílias com dois pais ou duas mães, talvez consigam gerar crianças mais livres e leves, por estarem alheias aos exemplos de desigualdade.
A obrigação de ser uma moça machista, o orgulho de ser um moço machista é pior do que uma condição meramente ultrapassada e preguiçosa. Assumir um papel machista é pactuar com uma sociedade que sente dor.


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