sexta-feira, 22 de abril de 2016

Catártica

Sobre trabalhar com imagens, tem horas que um nadinha tira umas reações desproporcionais da gente, como se estivéssemos conquistado um grande feito, mas é só um brilhinho num cantinho do olho do retratado que, muito possivelmente ninguém vai notar. 
No meu trabalho tem dias assim, quando fico quieta no meu canto observando as pessoas. Das milhares de gentes que eu já filmei, fotografei, fiz escultura, desenhei, vesti, tirei a roupa... creio que nenhuma me conhece como eu a conheço. Não é situação privilegiada porque isto tem algo de solitário e a gente fica meio louca, falando sozinha, festejando grãos e pixels.
É difícil não se sentir íntima e não aprender a gostar das pessoas porque tu estuda seus trejeitos, poros, destaca suas belezas ocultas, corrige suas imperfeições, sabe como são seus cílios, veias, a ponta do nariz, os pelos; onde se esconde o brilho, um resto de sorriso, timidez e poucas vergonhas. 
Posso ficar vários dias olhando e trabalhando em alguém e a pessoa nem sabe, nem suspeita porque, em geral, pensam que fazer um retrato é como fazer uma selfie no instagrão. Mas não é, é muito mais intenso e vivo, vívido. 
Passo por 3 fases: olhar, registrar e melhorar, sendo esta última uma interferência que nem o retratado pode perceber. A pessoa tem que pensar que ela é assim. E é mesmo. Só uma questão de sombra e luz.
Por isto, eu posso esquecer o nome, a voz, quanto me pagou ou se me deu um calote ou se nem me conhece e nem sabe que eu a registrei; se era legal ou antipática; mas não esqueço mínimas coisas, como a vergonha por causa de uma marca, a preocupação com um invisível sinal ou alguma coisa que está oculta por trás de um olhar distante.
biAh weRTher

sábado, 16 de abril de 2016

Sábado. Um dia antes.

Você tem vergonha do nordeste? Você odeia médicos cubanos? Você diz que tem sangue europeu? Criança pobre te dá nojo e você fecha o vidro do carro? Você colocou porcelanato em cima de toda a sua história? Você finge que nunca comeu mortadela? Você já não colhe nada no quintal, você não tem mais quintal mas um projeto paisagista na varanda? Você acha que apoiando o golpe será abençoado pelos clãs que centralizam as riquezas do mundo?
Não se iluda, você É um latino americano, você tem sangue índio, você tem história negra, você foi colonizado e seus entes lutaram por liberdade.
Você é um serviçal da casa grande com direito a uma roupa limpa, nada muito além disso. Você é um de nós, orgulhe-se e pare de trair os seus, pare com essa vergonha do espelho.
Depois não diga que eu não avisei.

]bw[

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A mesma carta

Acho ingenuidade quando as pessoas que trabalham por um audiovisual independente em todos os sentidos da independência, inclusive o criativo - que se ferra nos critérios de seleção para incentivo, difusão e distribuição - organizam fóruns de debate e só lembram de convidar os oficiais representantes da categoria. 
Ora, pra você lutar por representatividade, não pode colocar numa mesa redonda um só lado. Você precisa chamar a rua, pesquisar e dar voz a coletivos ou indivíduos que caminham por fora pois as entidades representativas, no mais das vezes, representam interesses de uma minoria.
Pra ser democrático, um fórum de debates precisa trazer os subversivos, sob pena de você organizar um evento onde a carta final será a mesma que foi escrita nos outros 489 eventos ocorridos nos últimos 40 anos e isto só vai funcionar para fortalecer institucionalmente caras que vivem acumulando cargos de presidentes e diretores de associação disto, fundação daquilo e, na verdade, passam a vida viajando, dando discurso em microfone e advogando nos foiers e salas fechadas as suas causas pessoais.
Sim, há tempos repito o a mesma coisa e nada ainda ocorreu pra me fazer mudar tal ponto de vista sobre o modelo excludente como se dirigem as associações de cinema.
Mas mesmo que a expectativa de todos fosse contemplada, ainda assim acho sem futuro uma proposta de debate onde só são convidados os cnpjs poderosos, o poder constituído, os chapa branca e os bons moços.

Assinado: A cineasta mais outsider da cidade desde 1997.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

É o olho!

Há uns 5 anos, durante uma das oficinas itinerantes que eu fazia pelo país, na hora do debate de abertura do evento, numa faculdade no Centro Oeste,
um aluno pediu a palavra, contou que tinha ganho de seu pai uma super câmera (acho que na época a bambambam era a 5D), que curtira meus filmes e perguntou sobre um em especial, que eu dissera ter exibido muito mais no exterior em eventos de multiarte e, o pouco que mostrei no Brasil, foi através de vídeo instalações.
De fato, era um experimental super simples que fiz totalmente sozinha, da produção até a trilha sonora. Para mim ele era muito mais uma vídeo arte e foi nesta fase criativa que eu comecei a entender que aquilo que eu tinha dado o título de Cine Desconstrução nada mais era que arte, até porque já exibia os trabalhos misturando um conceito VJ, eu sempre saia da sala escura, era mais forte do que eu não considerar finalizados os filmes a ponto de dar uma data pra eles e conseguir inscrever em festivais tradicionais.
Enfim, o garoto teceu elogios rasgados ao meu trabalho e depois perguntou qual câmera usava e qual o software. Os olhos dele me diziam que esperava sobrenomes.
Não são incomuns estas perguntas, grande parte das pessoas imagina que a câmera faz o fotógrafo ou o cineasta e não o contrário, só que a autoria está no olhar.
O filme em questão era o "Cantilena", cuja primeira versão foi rodada com uma mini dv, uma cibershot, uma webcam e ainda juntei uns restos de um super8 que eu nunca tinha terminado. Depois, na versão final, já andava mais clean e reeditei só com as cenas em mini dv. Hoje, talvez a chuva... ele foi rodado no mar, eu o coloquei na timeline pra repensar seu som.
Gentilezas \o/
biAh weRTher

sábado, 9 de abril de 2016

Você não está ensinando demais sobre o ódio?

Quando eu fiquei grávida do meu filho, apesar de estar vivendo uma época radicalmente vegana, de já me entender como uma menina tomada pela contra cultura e já ter noção de que sem leitura uma pessoa cresce idiotizada, a única meta que me dei no mesmo dia e hora que soube levar outra pessoa dentro de mim foi:
- Vou crescer junto com ele. Irei ensiná-lo a dizer "Eu te amo" com todos os seus sentidos como se fosse algo absolutamente normal porque eu vejo a minha geração crescendo com problemas pra amar e percebo nossos pais não sabendo expressar seus sentimentos,
Então, ele não terá vergonha de fazer declarações bonitas e vai escutar isto de mim todos os dias, daí sairá da sua boca muito mais naturalmente do que qualquer outra ideia ou sentimento.E quando alguém disser que estamos tornando o amor algo comum, mundano demais porque amor é algo raro, a gente vai dizer que é esta a ideia, fazê-lo parte e não apenas sonho.
Ele mamou até os 3 anos, vivíamos pelados pela casa e tomávamos banho juntos até ele ter 7 anos e, naturalmente, claro, havia a convivência com os instrumentos musicais, as lentes de cinema, os livros e quadrinhos sem que eu precisasse me preocupar em lhe impor esta ou aquela referência, pois eram rotinas mais aceitas pelo mundo que nos cercava e cerca do que saber amar.
Porém, o amor, isto sim era, é preciso ensinar porque o mundo dizia e diz que confessar o seu amor pelos outros é ridículo, que amor é caro, precioso e perigoso; que é dependência, é se expor, se humilhar, diminuir-se, vulgarizar-se.
Nunca fui ou serei uma boa mãe, a única coisa que ensinei ao meu filho foi saber dizer Eu te amo, nada mais.
]bw[

domingo, 3 de abril de 2016

Quem não tem impeachment caça com bullying.

Claro que não leio a tal revista "ISTO NÃO É jornalismo". 
Foi no blog do Marcelo Rubens Paiva que acabei conhecendo os detalhes do texto abusador, representativo, inclusive, dos xingamentos vazios que vem sendo cuspidos em caixa alta nas ruas digitais e palpáveis sempre que alguém tenta um debate sóbrio.
Uma cliente minha, causalmente psicóloga, me dizia faceira quando a Dilma ganhou e os eleitores do Aécio começaram a prometer golpe: - Foda-se! A dialética morreu!!!
Nessas horas a gente fica em silêncio porque você não tem como entregar um dicionário pra pessoa sem levar uma porrada. Tudo bem, ela já tinha pago a obra que me comprou (um retrato de grito embaixo d'água) e está lá, no meio da sua sala dialogando com ela de algum modo. Eu acredito!
Voltando à metodologia do caos, após as publicações alegando que a presidenta está louca, se você usar um raciocínio lógico verá que a situação do país é pesada e perigosa, sim. Mas não pelo que dizem as manchetes. O perigo vai além de todos os assuntos disfarçados. Não é a corrupção, não é pedalada das pitangas secas, não é o imposto. O que fere os intolerantes é deixar o outro viver.
O assunto já vinha gritando dentro de nós, mulheres desobedientes, dentro dos negros que querem direito a universidade pública, dentro dos gays... Os gritos alertando para os perigos reais se perdem diante da gritaria geral por mais bolsas de marca e mais passeios à Disney.
Chamar uma mulher de louca é praxe na nossa sociedade, mas isto não é uma brincadeira!
Certa vez, em meu blog, escrevi que há momentos no meu trabalho e na vida pessoal, onde a saída machista recorre tanto ao gaslight que já pensei em levar na mochila um atestado de sanidade para esfregar na cara de cineastas desonestos que me roubaram projetos e foram para reuniões do outro lado do país alegar que sou só uma louca ou a ex-namorados que não foram legais e se defenderam em conversas masculinas alegando que sou apenas uma louca. É que nunca estamos presentes nessas horas pra um diálogo. Não ocorreu ao repórter ligar pra Dilma e perguntar se é verdade que ela anda meio louca? Ok, estou brincando, claro que dar voz a ela não era a ideia.
O que a pseudo revista praticou é comum em cada canto do nosso país e tem toda uma sistemática, não é piada ingênua, não vem assim do nada. Você começa a gerar a malícia e cria a rede de intrigas com temperos picantes de modo que a parte da comunidade que curte uma fofoca não vai se perguntar onde está a fonte. Depois que sai pra rua, é lenda, não precisa provas, só precisa passar adiante.
A proporção desse desvio de caráter da nossa sociedade fica gigantesca quando a vítima é a própria presidenta da república, demonstrando que o nosso país está pra qualquer coisa e é um lugar perigoso de se viver não pelos assaltos. Não há grades nos jardins que nos defendam do abuso moral, emocional e físico que vai destruir gerações.
Não duvidem se amanhã estiverem montando fogueiras pra queimar bruxas na rua.
Daí você, depois do enjoo, percebe que tem um lado muito bom o terrorismo machista que o país vem sofrendo.
Quando tão recorrente modelo de abuso toma uma proporção inacreditável e parte da sociedade consegue não vomitar diante do que fez a pseudo revista alarmista, a gente sabe que não tem como passar despercebido.
Todas as mulheres trabalhadoras, mães, mantenedoras de lares, gerentes de banco, faxineiras, desempregadas, solteiras, casadas, homossexuais, católicas, macumbeiras, ateias e atoas, ao lerem a tal reportagem, vão reconhecer momentos em que sofreram abusos morais, ainda que neguem porque são a mulher do Eduardo Cunha, por exemplo. Você só não passou por isto se ainda não nasceu!
Quando não se tem argumentos contra uma mulher que se mostra forte, dizemos que está louca. Uma mulher sabe o que isso faz com nossas vidas.
Comecei faz horas a sentir mais vergonha que orgulho do nosso atual país. As crianças índias estão mortas. Bolsonaro vive. Um transgênero é morto por dia no país mais transfóbico do planeta. Até o rock'n'roll é tomado por uma maioria de machistas. O holocausto animal é um tema inimaginável diante da queda no poder de compra. O Brasil é o país que mais dá comida envenenada para suas crianças. Senhoras de bem, entre rosários, se riem vingadas vendo a presidenta ser desrespeitada do modo mais sujo em público com acusações sem fonte, diagnosticada como louca porque não conseguiram lhe arrancar do cargo por desonestidade.
É a melhor aula de bullying que um país já deu em uns 50 anos, quiçá 500.
A única saída, neste caso, é as mulheres estarem unidas, não entrando em jogos e tomando vergonha na cara.
Fica dentro de mim sempre uma pergunta... O que pensam as colegas próximas, as filhas, mães e mulheres desses jornalistas e desses congressistas que não respeitam nada nem ninguém em nome de poder e dinheiro? Como vivem as mulheres desses marginais. Elas jantam em Dubai, mas são mais felizes que as esposas dos traficantes ou dos mafiosos? O pecado de Dilma é não ter marido?
Eu que sempre gostei de chorinho, mamãe oxum, literatura, cinema e roque nacional, há uns meses, ando pensando seriamente em sair do país. Muito seriamente...
]bw[

sábado, 26 de março de 2016

O CAMPO MINADO

Desculpem os meus amigos acadêmicos, mas não encontro sentido em fazer da arte uma "investigação de campo". 
Investigação, pra mim, é coisa de puliça. Campo é a casa do criador de gado. 
Claro, de certo modo, todos nós somos uns inventores e as nossas obras são um mundo de perguntas. Mas é só essa a função, a sina da questão. Resposta decreta a morte e pior do que ter a resposta é ter a vaidade de acreditar que sua pá dourada vai cavar na areia e encontrar um fim.
Quando você sistematiza mais do que um dia da sua vida criativa, me parece que você padroniza a arte, deixando ela de ser arte e virando uma receita trivial.
Quando você se afoga no vício de um planejamento e faz anotações em busca dos porquês e, finalmente, encontra as respostas, provavelmente você está pronto pra morrer, você não presta pra mais nada, você não vê mais sentido em gozar, surpreender-se, desesperar-se, desentender, convulsionar e errar.
A mim, me parece arrogante, soa estéril fazer da arte uma ciência, como é uma tolice tentar defini-la.

biAh weRTher

terça-feira, 22 de março de 2016

Eu no KBEATS Vol.1

>/CONVITE\>.....................>/CONVITE\>
Chove agora, Outono
Pois meu conforto é o Sol e o meu Sol foi dar um tempo
Emprestou o meu casaco - Sol também se resfria no vento
Chove agora, Outono
Escorre dentro de mim pra lavar esta vontade
e sair pelos meus olhos, pela boca, das narinas
Pela ponta dos dedos, úmidos, visgo, cafeína
Toda vez que é outono e o Sol vai pro relento
bebo o vinho e evaporo
sinto as gotas e me aqueço
É assim como uma sina
Toda vez que é outono e o meu Sol sai ao relento
biAhweRTher
>>>Quinta,24 mar, transpareço na Casa Frasca, parte do evento KBEATS Vol.1. Na apresentação da minha obra, a presença do também multiartista Iago Gutierre e os registros do Raphael Carrozzo<<<<
VENHAM, 22h, Independência - 426




sexta-feira, 18 de março de 2016

Todas as Mulheres do Cinema

Convido todos os que estarão em Porto Alegre neste final de semana a aparecerem na Mostra Todas as Mulheres no Cinema.
O meu filme DANS[SA], com a atriz Renata de Lélis, está na programação. O curta, em 16 mm, é uma produção do Cinema8ito e faz parte dos 5 curtas do projeto FBI. 
Visitem o site da mostra, está bonito o programa.
https://casapeiro.wordpress.com/2016/03/08/todas-as-mulheres-no-cinema-mostra-de-curtas-metragens/





A histeria digital é ancestral.

Mesmo antes de Goebbels, mesmo antes da caça às bruxas, a histeria sempre foi a arma política de efeito mais certeiro.
Agora que o golpe está se desenhando no grito e na pancadaria, o Brasil será devolvido para os colonizadores ("Nos devolvam o Brasil", é o que se escuta entre os defensores do fundamentalismo).
Á força, Dilma está impedida de governar, pararam o país, ninguém sabe qual foi seu dia de trabalho ontem, se sancionou ou vetou alguma lei que nos interesse. O país parou e todos vamos pagar caro por isto.
Há milhões de pseudo ricos advogando pela própria escravidão, E como ninguém gosta de história, vejo gente festejando nas passeatas, rumo aos seus piores tempos, como boiada que caminha pro matadouro.
Se acontecer o golpe, a nação relaxa. Ninguém aguenta mais sindicatos, representações, direitos humanos, leis protetivas pra qualquer grupo esdrúxulo.
Os negros voltarão para a cozinha, as mulheres voltarão para a cozinha, as crianças pobres voltarão para o borralho, os latinos voltarão para a cozinha, os sem terra voltarão para a cozinha, casais gays precisam voltar pra o armário (da cozinha)... Bá, vai ficar intransitável essa cozinha!!
Sem cotas, sem ações afirmativas, sem saco pra igualdade, sem casa, sem quintal, sem escola, sem nada, o país vai ficar servil como já foi. Para cada 5 na casa grande, 5 mil a servi-los sem uma constituição que os proteja.
Tecnicamente, acho interessante um fenômeno arcaico continuar funcionando através dos séculos. A manipulação nos faz ver que não interessa se temos internet, acesso à informação em tempo real e veículos diversos, outros pontos de vista e alternativas para refletirmos livremente, pra exercitarmos o diálogo da sensatez.
A massa não sabe ler, a massa está ocupada xingando, está em comoção e na histeria não vê as fontes menores.
Já diziam os sábios de todos os credos, se você está em fúria, não pondera. Respira, acalma, espicha o pensamento...
Pensando em pensar, repito o que rezamos há anos sobre o nosso modelo político, onde tudo é mais do mesmo e uma hora tinha que implodir.
Você não faz esquerda namorando com a direita.
A presidenta nos apresentou parceiros políticos difíceis de digerir num momento em que o país se pretendia moderno e democrático. 
De representantes pastores em um Estado que deixou de ser laico até uma coronela latifundiária escravista. Dilma namorou com o diabo por imposição do partido.
Os mais velhos, pra falar bem ou mal dela contam o mesmo conto. Dilma era uma guerrilheira foda, dura na queda.
Porém, nem precisamos vê-la ao lado de Kátia Abreu ou Michel Temer pra saber que ninguém chega ao poder em nosso sistema sem beijar o diabo.
Tempos obscuros se aproximam, pessoas com "cara de esquerdistas" já são linchadas nas ruas por senhoras que ontem pareciam sãs, fazendo suas compras no xópin.
Caso venham outros 20, 30 anos de zumbilândia, desigualdade e medo até outras gerações saírem pra rua e reiniciarem um novo ciclo, veremos, velhinhos como viram nossos pais, a Globo viva mentindo que era apenas um canal informativo e não apoiou o golpe.
Veremos pessoas com cara de paisagem, que estiveram dançando sobre tumbas e acendendo as fogueiras, alegando que nunca foram coniventes com o golpe. Todos, do nada, serão apenas vítimas.
A falta de educação, a desinformação, a recorrência e a fofoca são e sempre serão a carta na manga dos poderosos e suas eminências.
>bw<

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ontem eu vi o Cigano Igor e fiz retrato de uma revolução perfumada.

Bom dia lindo dia!
O que dizer de uma geração que só sabia fazer compras e quando acorda pra política sai pra rua com roupas de marca e uma lata de cerveja na mão gritando em coro: "Vai tomar no cu"?
Ontem, saindo do estúdio onde eu estava trabalhando, passei pela calçada da fama e fui gravando as vísceras da passeata até chegar na João Teles.
Não tinha nada de muito interessante pra retratar, na verdade. Carros importados buzinavam, senhores bem vestidos saíam de bistrôs lindamente iluminados com luz de velas e gritavam: "Vagabunda". Jovens corriam com o celular na mão, prontos pra festa, procurando os amigos; sentadas nos cafés mais chiques da cidade diante de drinques e acepipes, senhoras comentavam orgulhosas seus posts de "Lula cachacheiro" no feicibuque.
Eram pessoas brancas, cheias de perfume, numa espécie de micareta da zona nobre, Tentei entrevistar porteiros e serviçais, que eram os únicos não brancos, mas os olhares eram severos e eles ficavam tensos, tímidos, sacudiam a cabeça num não.
As meninas loiras desfilavam com a bandeira do Brasil numa performance que me lembrou os desfiles de 7 de setembro que as escolas faziam quando eu tinha 8 anos e loiras bonitas da oitava série eram destaque fazendo piruetas e todos cantavam o hino nacional. Sério, i-gual-zi-nho!!
Em dado momento, avistei o Cigano Igor! Levava um ar de líder, a caráter com bandana verde e roupa de academia levando uma bandeira do tamanho de seus músculos. A propósito, muitas pessoas com lindos corpos usavam roupa de ginástica. Quem passava à margem do desfile de grife com alguma roupa que destoasse tornava-se alvo de olhares hostis e logo era apontado, tinha que desviar o caminho. Eles estavam exaltados e logo descobriam os inimigos infiltrados.
Em nenhum momento conseguimos escutar qualquer discurso politizado, alguma palavra de ordem com algum pedido concreto.
Senhoras chiques gritavam: "Dilma vagabunda!".
Me pareceu que ali, a ideia transcendia qualquer apelo político. Estive no meio dos rebeldes de vitrine e, pertinho da miscelânea de fragrâncias importadas, entre algumas pessoas que ainda não sabiam bem como se age na rua, - pois novatas em momentos mundanos que não fosse aquele carnaval em Salvador em 1996 - e outras já mais descoladas, se divertindo com amigos; caras malhados de olho nas meninas, casais caros com cachorrinhos de marca, vi algo positivo que unia a todos.
Vi que, agora, gente que devorou livros de boas maneiras tem um lugar pra falar palavrão aos berros. É como uma terapia em grupo. Muito melhor que copa do mundo e carnaval. Senhoras com aaaanos de trauma porque não puderam gritar "porraaa!" quando alguém pisou no seu pé naquele jantar no Juvenil em 1965 soltaram finalmente o urro: "Putaaaa!"
Achei bonito, viu.
Até que começaram a me estranhar e eu, que não sou boba nem nada comecei a gritar: "É isso, morte aos bolivarianos"; E meus amigos gritavam: "Corta a barba desses comunistas". E eu fiquei louca e abri os braços e gritava e os senhores faziam festa pra mim e eu dizia: "MORTE AOS COMUNISTAS!";
Foi uma be-le-za!
Depois, já no meio da Independência, um maior número de pessoas estranhas ao desfile começaram a aparecer ao redor pra assistir e, de repente, os manifestantes pararam como quem não soubesse pra onde ir. Estavamos nos distanciando demais das lindas ruas ricas, o que fazer? O grito arrefeceu... murmúrios. Uma jovem com a bandeira falou: "- Mãe, pra lá é o centro?"
Percebi um certo desconforto de alguns ao se afastarem do Moinhos de Vento. Creio que eles deram ré e foram pro Parcão, porque ir pra rua tudo bem, mas centrão já é demais.
Descemos a João Teles rumo ao aniver do Fredi Chernobyl. Eles ficaram lá, liderados pelo Cigano Igor.
Foi lindo.
Assinado: A rapariga que foi na manifestação e gritou um monte de palavrão oba!
>bw<

segunda-feira, 14 de março de 2016

A vida não precisa morrer antes de você perceber.

Sobre a comoção ontem, no Tributo ao Júpiter Maçã, queria refletir aqui,discretamente, no meu cantinho...
Ali, com as minhas lentes - melhores amigas por detrás de quem me oculto sempre nos grandes encontros - me deixei observar pessoas que conheço há tanto tempo, rindo e chorando, dividindo.
E aquela hora que quase todo mundo foi pro palco mas alguns ficaram encolhidos num canto com o olhar em outro espaço-tempo e não ousei retratar o momento, conexão íntima;
E as pessoas com quem falei e que me abraçaram com um carinho que naquele exato instante parecia, talvez, mais verdadeiro porque a morte tem um papel paradoxal; ela une, desnuda.
Parece que a falta despe a gente, desburocratiza. Parece que é preciso morrer pra daí ser real a aceitação, reconhecimento entre os pares.
Pois, na verdade, somos todos da mesma turma, não interessa se alguns tem gravadora outros não; alguns grandes produtoras outros não; alguém ficou famoso o outro não; alguns preferem ser independentes, outros querem segurança; alguns são loucões, outros acadêmicos.
O que ficou pra mim, ali, vendo a noite por detrás da grande angular, da macro, da objetiva, foi a verdade que todo mundo quer, mas muitos temem; sobre valorizar o outro, desprezar as competições vazias, admirar as pessoas enquanto elas estão vivas, fazer homenagens todo santo dia.
Por mim, as pessoas ficariam sempre naquele estado que estavam ontem, sempre assim, pura emoção.

]bw[



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Lilith em Babylon

Sigo pensando sobre feminismo, sobre o feminino.
Acredito na possibilidade de existirem homens feministas como vejo mulheres obedientes aos discursos machistas. Somos gente, nos contradizemos enquanto espécie; uníssonos na sina.
Não acredito na diferença capital entre homem e mulher, acredito na parecença. Vejo uma mulher e um homem e ainda uma terceira entidade em cada homem e mulher. Alguns temem e escondem a sua diversidade natural; alguns tremem e enganam-se, forjando no espelho uma pedra. Pórem a pedra também se modifica e pode ser várias.
Cismo sobre o novo, sobre juventude.
Acredito na possibilidade de existirem jovens empedernidos e calejados, assim como vejo velhos que voam como um bebê diante do desconhecido. Não creio na guerra entre jovens e velhos, acredito no complemento. Vejo em cada idoso uma criança que resiste, em cada novato um velho que adivinha o inconsciente coletivo. Continuidade...
Cogito sobre minha derme... moura? índia? selvagem...
Confio na possibilidade de existirem todas as relíquias históricas na minha menina memória de milhões de anos. Não admito remota diferença entre os meus e o cáucaso. Nos vejo idênticos entes dos andarilhos. Tempo, espaço e demolições.
Penso em você e em mim, num planeta que se revira entre tumores e flores, entre milhões de outros planetas; pequenas partículas como átomos que formam nossos corpos e, se usarmos a lente convergente, veremos que somos todos um corpo só, um a complementar o outro no tempo e no espaço. Sem você, não existo; você sem mim é ninguém e nem me venha com o nariz de pó de arroz dizendo que vive sem mim, pois nós dois somos como a vida numa poça d´água e no sistema solar e nos desdobramentos espíritas ou nos buracos negros da ciência. Há fios de luz que ligam nossos umbigos e o mundo entra por um furo no céu e morre sem nós dois juntos.
Não percebo nossas divergências; digo não.
Mas acontece que somos tão pequenos, mínimos, tão crianças diante do infinito, tão mini formigas que enxergamos apenas a latitude microscópica de uma ilusão e arrotamos superioridade de dentro das nossas gavetas, planetas.
]bw[

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O rabo da lagartixa.


A gente se conhece melhor, entendemos mais sobre nosso próprio caráter quando roubam a gente. Não falo de coisas e propriedades - embora isso também seja triste e nos faça sentir miseráveis quando alguém nos trai por algumas moedas a mais; digo sobre lealdade e confiança e do paradoxo que é o mundo dos grandes olhos quando, de verdade, quanto mais quisermos tirar do outro, mais cegos ficaremos. 
Quando nada fazemos a respeito do que nos tomam e olhamos enternecidos aquele que se vai arrastando em troféu as nossas vísceras, a gente sente que já aprendemos um tanto sobre paz. A vingança não vinga, ela é só um fogo fátuo. Assim, você caminha pra o outro lado e estremece diante dos destinos infinitos que se descortinam; e você sente as próprias células se recompondo como um rabo de lagartixa.
Os mais espertos tem pressa; não entendem que um coração roubado não caberá em suas caixas de sapatos, mochilas e pendrives, pois cada um tem o seu e ninguém precisa mais que um; uma vontade de ser feliz, de dividir.
Eu vejo fingidores irônicos, que tratam pessoas como degraus, rumo a muros duros de espinhos e cacos de vidro.
Um raio de sol corta as nuvens e me diz:
- Deixa assim.... deixa assim... Deixa-os ir, Rabo de Lagartixa.



]bw[

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

MI - KRII

Recebi duas contribuição de berros underwater para o projeto Mi-Krii. Estou arrepiada, porque isso se mistura com meu projeto do Gesto Submerso!! VISITEM PRA VER COMO TÁ BONITO E MANDEM SEUS GRITOS!! Vi Krias?!
http://mi-krii.tumblr.com/




As pessoas famosas não precisam de mais nada?


Acho que foi esse um dos motivos de eu ter ficado todo o ano de 2004 escondida no meu quarto com medo de pessoas. Porque naqueles tempos eu era tri conhecida e sempre tinha matéria sobre o meu trabalho em jornais de todo o país e eu vivia na tv e tal. Foram aaanos assim, começou com a banda, depois os filmes...
Daí, um dia eu tava voltando de um evento em Brasília e naquela noite eu tive uma surto e a psiquiatra disse que era TAG transtorno de ansiedade generalizada. Assim, por um tempão eu só saía pra terapia e coisas com reiki e massagens.... Aquela competição pra aparecer, as fofocas, o machismo todo, eu viajava com uma câmera super 8 e enquanto as pessoas se exibiam em premiações eu ficava na frente dos cinemas e teatros filmando os pés dos transeuntes indo e vindo. Entende? As pessoas reais nem sabiam que a gente existia com nossos filmes e narizes. E artistas de verdade nem sabiam que homens de gravata decidiam coisas em seus nomes. Eu vivia num funil...
Me escondi de todo mundo. O meu festival até voltou a rolar entre 2007 e 2009 e depois lançamos o longa Bitols O Filme mas eu sempre discreta, não queria aparecer muito, então inventei o Cinema na Mochila que era levar cinema nuns cantões onde você até dava entrevista, mas eram cidades pequenas e não tinha fuzuê de gente se exibindo em palco de festival e tal. Até no meio das queimadas eu exibi meus filmes. E por uns tempos eu morava no Rio e outros lugares e me perdia no meio de pessoas que nem sabiam que eu existia e passei a entender que eu não sou ninguém. Em 2010 comecei a ser também VJ e fotógrafa e admiti que meus filmes não tinham nada a ver com o "meio". Me voltei pras artes e admiti que sou uma pessoa que quer se expressar criando coisas e vivendo destas invenções, nada mais que isto. Não é só ganhar dinheiro, mas conhecer e discutir. Feito, deixei de ter vergonha de não ser uma especialista e sim uma antena.
Na real, eu tou comentando isso porque praticamente nenhum dos meus amigos famosos aceita meus convites pra curtirem minha fanpage Clandestina e acompanharem o que eu ando fazendo. Fico em dúvida se é porque eu quis deixar de fazer parte do mundo vip ou se é porque as pessoas famosas acham que não tem nada mais pra conhecer na vida além de fórmulas que as torne mais conhecidas.
Mas se tu não é um artista que aparece no Jornal do Almoço, tu pode curtir meus processos criativos, meu site, o blog e tudo isso.
Assinado: ]bw[ A rapariga menos famosa da cidade.
https://www.facebook.com/estudio.biahwerther/

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Dentro de mim.

Ensaiando na praia... Meus calos já estão voltando ao seu lugar e agora eu componho na viola de 10 cordas. As gravações estão toscas, mas posso mostrar a letra da minha nova canção: 
Olho para dentro de mim 
Há um quarto, um coração, um rim
...
Olho para dentro de mim
Cama, perguntas e células assim
...
Olho aqui dentro de mim
Veias e tripas, me encontro
No fim.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Germinar

Amor é quando um bem-te-vi segue cantando as boas novas como se nada tivesse acontecido.
Amor é quando uma vida germina do vulcão.
Amor é quando a gente foge pra longe junto com a Verdade.

]biAhweRTher[



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O fotoxópi já existia nas cavernas e Alguns critérios me dão sono

Não sou muito de me inscrever em concursos, festivais e editais. Isso ajuda pessoas viciadas no "circuito" a andar por aí dizendo que não produzo, quando sou mais inquieta do que os comportados cativadores de jurados.
Outro dia, dois caras roubaram um projeto de mim e um deles, lá do Rio, dizia que tudo bem pois não tem visto roteiros meus em festivais, então ninguém vai mesmo acreditar em mim...
É curioso como ainda tem machismo no mainstream.... mas isso é história mais complexa pois rola em toda a categoria profissional.
Admito que dos poucos editais nos quais me inscrevi, a maioria ganhei ou pelo menos meu trabalho deu uma instigada na galera ou eu incomodei por mudança nos critérios e voei de volta pra casa achando tudo muito antigo...
Meu problema é que não tenho saco pra mandar curriculum. Acho bobagem ficar enumerando prêmios, cursos e trololós. Pra mim, tinha que ser bem ao contrário. Você ver apenas o trabalho inscrito, premiar o cara sem saber quem é ele, o que já fez, de onde vem, laurear o presente momento. Porque passado e futuro são ficção.
Outra coisa que me irrita (e por isso eu, por anos, dirigi meu próprio festival)
é as obras terem tempo de validade. Por exemplo, se você fez um filme há mais de dois anos ele já tá com "prazo de validade vencido". Não pode mais inscrever em festivais.
Daí você pensa: "Puta que pariu, imagina se uma obra do Van Gogh.. tipo o Quarto em Arles, tivesse que ficar no porão simplesmente porque a estética no design das cadeiras e camas agora é outra?"
Num país como o nosso, se você não puxa sacos, leva 5 anos pra conseguir terminar um filme e ele valerá por dois anos e depois será considerado velho? Bó!
E tem essa besteira da indústria de patês audiovisuais que separa as obras em tempo de duração. Isso é muito fálico, meu! Acaso ainda pensam que um trabalho vale mais porque tem um tamanho ou uma duração maior? Que infantilidade desse povo importante que se reúne pra decidir a vida da obra alheia!! Essa gente que se diz representativa de uma catiguria é muito estranha....
E é por isso que também não curto muito os concursos de fotografia que exigem que você inscreva apenas fotos não interferidas digitalmente.
Primeiro porque já vi muita foto premiada nesses mesmos concursos que tinham, sim, edição; segundo porque a interferência seja por arte, seja pra retoque, pra enfeiar, pra embelezar, pra surrealizar existe desde os tempos das cavernas, É parte, é como tinta e pincel, é como escolher o grão, o filme, o iso...
O naturalismo é relativo e tão diverso!
Cada olho por trás de uma lente enxerga uma mesma natureza completamente diferente de todos os outros olhos por trás de lentes.
Ninguém vê o sol do mesmo jeito. E além do mais, se alguém me provar que o retrato da Mona, os das madonas; que a Ophelia, as Três Graças ou a Nefertiti; que os contrastes que imortalizaram nobres, burgueses, reis,ditadores, rococós e escravas são absolutamente naturalistas e sem retoque, que os retratistas através dos tempos nos enviaram a cópia fiel da luz e nos museus vemos as caras exatas das modeletes, sem nadica de "photoshop", daí juro que desdigo tudo isso!
Por enquanto, parem com essa bobagem de achar que fotoxópi é só um app que tira pé de galinha.
Pularmor! O "tratamento", pós produção, retoque ou como quiserem chamar, não é app pra selfie de celular. Tratar uma foto é necessidade-vontade técnica e estética, dá trabalho, é um cuidado que cada fotógrafo decide se quer ou não por questões absolutamente pessoais e ninguém tem que se meter nisso.
Galera olha, inveja e sai procurando fotoxópi, como se pos produção fosse demérito! Tsctsc.

]bw[