segunda-feira, 30 de maio de 2016

uma porta encerrada

dentro do meu vazio
há um lugar secreto
porão de um navio
onde navego morta
com um pequeno buraco
por onde observo a vida

e há uma porta
na forma de uma ferida
fenda aberta nas tuas costas
no meio das minhas pernas
por onde escondi as asas
quando caminhei nas ruas
no eco das palavras tuas

aqui ninguém me invade
daqui ninguém me escuta
daqui ninguém me expulsa
ela é fora, ela é dentro
ela é longe do meu centro
ela é tudo o que tenho

os mistérios que eu lia
mas você me proibia
cemitério das verdades
o fogo que consumia
no porão da eternidade
o olho, a negação
a maldade

]bw[

sábado, 28 de maio de 2016

Eu na Península.

Adotei meu nome artístico na adolescência , dentro de um momento de profunda depressão, querendo viver de arte, saindo da casa dos pais como uma espécie de renegada, me sentindo velha, engolindo a vida a seco e repetindo: eu aguento. Morei sozinha numa casa gigante de 4 quartos, quase sem móveis, uma goiabeira e 30 gatos. Foi onde aprendi a fazer partos felinos e comida vegana. Na época eu andava pelas ruas com o Werther embaixo do braço, era frio e eu criava roupas pretas... Pouco mais tarde viria meu filho e eu fundaria, entre outros oitos, o Cinema8ito. Na apresentação do evento onde participo dia 31, na Península, os organizadores citaram:
"Quando a exaltação definha, fico reduzido à mais simples das filosofias: a da resistência (dimensão natural das fadigas verdadeiras). Aguento sem me acomodar, persisto sem me aguerrir: sempre transtornado, jamais desanimado; sou uma boneca Daruma, um joão-bobo sem pernas no qual despegam piparotes incessantes, mas que finalmente retoma o prumo, graças a uma quilha interior (mas qual seria minha quilha? A força do amor?). É o que diz um poema popular que acompanha essas bonecas: A vida é assim, cair sete vezes e levantar oito" (Werther)
Amor.


É DIA 31 NA GALERIA PENÍNSULA: https://www.facebook.com/events/1300222196673178/

RESISTÊNCIA É CRIAÇÃO

Entendemos a resistência como criação seguindo os passos de um pensamento que deseja a diferença. Neste momento de labirintos políticos e lutas convidamos artistas, produtores, realizadores, coletivos, profissionais da cultura e a sociedade civil para uma conversa-debate sobre o processo, os símbolos e as implicações imediatas da atual política instalada no Brasil. A proposição é criarmos um grito de resistência em meio a esta dimensão confusa e catastrófica, partindo do pressuposto de que arte e cultura não são apenas pra garantir o trabalho e exercício intelectual do artista, mas (e sobretudo) existem para garantir a atividade do pensamento e da prática do corpo social, da população como um todo. Central e periférica, do Oiapoque ao Chuí. A responsabilidade da construção de um processo político e cultural também é nossa, agentes culturais.
Local: Galeria Península (Andradas, 351). Porto Alegre.
Data: 31/05 (terça-feira) às 19h

DEBATE ABERTO E PÚBLICO

Participam do debate:

Patricia Argollo Gomes
Psicologa, Mestre em Psicologia Social e Institucional/UFRGS, Dra. em Informática na Educação/UFRGS, Docente, Apaixonada por Arte, Pensamento e Escrita, Militante pelos Direitos Hunamos. Meu conceito chave é Trans.

Ana Albani
Doutora em Artes Visuais pelo PPAV UFGRS. Professora no Instituto de Artes da UFRGS, nos cursos de Artes Visuais e Historia da Arte, onde desenvolve pesquisa sobre Crítica Institucional. Vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas - Anpap gestão 2015/2016. Atua como curadora e critica de arte.

Pedro Guindani
Nascido em Porto Alegre em 1985, Pedro Guindani atua no mercado audiovisual do Rio Grande do Sul como diretor, produtor e roteirista desde 2006. Entre seus principais trabalhos como diretor e roteirista, estão os premiados curtas-metragens "Os Olhos de Capitu" (2007) e "O que ficou pra trás" (2014), nos quais atuou como diretor e roteirista; a minissérie "Bocheiros" e o longa-metragem "Terráqueos: Vestígios de uma Era Digital" (2014), nos quais foi produtor executivo, assim como nas três primeiras edições do FRAPA - Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre.

Lucas Maróstica
é estudante de jornalismo da PUC, ativista LGBT e representante da União Nacional dos Estudantes no Conselho Estadual de Juventude. 

biAh weRTher
fazedora de cine desconstrução*fotógrafa dos gestos submersos*tocadora de theremin*escrevedora de moscas volantes*misturadora de tecnologias* VJ *mochileira do Cinema8ito*desenhadora de nuvens e ventos*criadora de vestidos, coisas com luz dentro, patuás e música experimental.

Francisco Dalcol
Jornalista, crítico, pesquisador e curador independente. Doutorando em Artes Visuais (História, Teoria e Crítica) pelo PPGAV/UFRGS com pesquisa voltada às relações entre arte e política nas práticas artísticas contemporâneas baseadas em viagens, expedições, percursos e deslocamentos. Em 2016, ministrou o curso "Arte e política, arte política ou política da arte? Imbricações entre estética, crítica e política nas artes visuais" pela Anis Cursos, no Santander Cultural.

Nanni Rios
Jornalista formada pela UFSC com especializações em jornalismo digital (PUCRS) e economia da cultura (UFRGS), atua como produtora cultural e ativista pelos direitos humanos em Porto Alegre. É uma das integrantes do coletivo cultural Aldeia, onde mantém uma livraria e promove eventos literários com foco em literatura de autoria feminina e gênero e sexualidade. Às segundas-feiras, apresenta o programa Virada Mix, no canal Octo, sobre diversidade sexual, racial, cultural e de gênero. É uma das produtoras da festa de música brasileira Cadê Tereza?.

Apoio:
Galeria Península

AB i Sal

Hoje acordei feliz e quente. Céu azul mais uma vez. Pássaros de novo. Meu amigo bem te vi cantando na janela e eu me sentindo completa. Vim até a internet disposta a repetir o que falei ontem: Não quero mais saber de tristezas. Fingirei que foi um pesadelo saber que usamos uns aos outros; nos matamos e aos outros com um conta gotas ou com o tiro certeiro. As gentes se machucam, tiram sangue, mentem e saracoteiam em cima das outras. Expulsamos uns aos outros do caminho do sol com o dedo apontado na cara, gritando: vai que a noite mais abissal te aguarda. Assim, damos as costas e foda-se.
Os mais espertos empurrando os mais frágeis pra um terreno árido sem perceber que assim se sufocam também.
Não sobra ninguém quando alguém sangra por força do ódio coletivo, em nome de interesses banais.
Eu era feliz hoje de manhã e queria só repetir que agora aqui é só paz, amor, gentileza, lealdade, sexo (consentido e prazeroso) e risos.
Mas cheguei na internet e ao primeiro enter levei a primeira porrada do dia. As notícias e a competição estão enlouquecendo uns e congelando o coração de outros.
A culpa não é da internet, óbvio. Como não foi um dia do rádio, dos correios, da televisão ou o código morse.
As ferramentas não são o problema, a água turva somos nós, egoístas.
A gente consegue matar a beleza do amor usando até sinal de fumaça. Somos bons na maldade... treinados.
Nós mentimos tanto que eu não posso ser diferente. Também quero mentir. Vou mentir então que tudo foi um sonho ruim e acordei segura porque a gente se ama, nos respeitamos, a gente não mata aos poucos ou com um tiro certeiro aquele que está ao nosso redor desprevenido. E a gente não precisa estar em guarda até dormindo, como num campo de batalha.
Hoje perambulei sozinha com a verdade por lugares desconhecidos reconhecendo minha distração.
Abstraio mas não traio. Ainda não desisti do propósito de falar só de coisa boa que nem aquela mulher de voz trêmula que faz propaganda de iogurteira.
Até sumir do mapa, morrer, virar moradora da última caverna não habitada do planeta ou fingir que tudo está bem quando não está, pode ser uma coisa boa, desde que alguém viva melhor por causa disso. Desde que exista algum sobrevivente.
Quero fugir pra um outro lado em busca de ficar melhor, ser melhor, porque o pior a nossa cara estapeada já sabe de cor.
]bw[

sábado, 21 de maio de 2016

Sobre o nada

Ainda sobre ser artista, a nossa coragem precisa ser dobrada quando dentro do nosso mundo e até dentro de nós mesmos encontramos inimigos. A arte não tem definição nem mesmo do seu espaço e, assim, pode ter muitos porteiros numa mesma porta por onde não caberia sequer o filhote de um rato; e diversos juízes de uma luta que não era pra ser guerra mas é.
Ainda sobre viver de uma coisa que sai da gente e não tem serventia pra uma grande maioria, a nossa coragem tem que ser redobrada quando dentro do nosso mundo existem inimigos movidos por uma competição em busca do nada, do efêmero, de algumas migalhas que uma pequena parcela da platéia nos jogará em forma de estrelas e a gente vai se empurrar e rastejaremos pra juntar e tomar banho com elas pois talvez pareça até pra nós mesmos que a gente só precisa de elogios e uns troféus de muito mau gosto que a gente pode picar, temperar, costurar, reciclar, comer e vestir e sobreviver.
Ainda sobre o artista, a nossa criatividade é uma colagem de aplausos e cuspe que a gente veste e despe e lambemos feridas e é só.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A autora é uma sogra?

Acontece de tudo nessa louca relação entre quem cria, a cria e quem se apropria. 
Há pouco eu postei no meu twitter: "Nada me deixa mais magoada que as pessoas divulgarem imagens do meu trabalho e não darem os créditos. Talvez porque eu me dedico demais..."
Sim, pode ser por que a gente se dedica muito e há segredos e uma relação íntima ao extremo entre nós e a nossa criatividade, mas deve ser mais porque a gente se sente mãe daquilo que criamos... o que dá no mesmo, talvez. Sei lá, com a obra, um artista divide coisas que nunca com uma pessoa mesmo que durma junto por 50 anos.
Me perco pensando nisto porque é contraditória a situação de artistas como que eu passam a vida querendo criticar a propriedade em várias circunstâncias mas defendem a autoria.
A ver, a gente se constrange em colocar o nome na frente, em bater demais no peito, mas a gente espera que as pessoas sejam éticas ou atentas, cuidadosas por assim dizer.
É tudo delicadíssimo e em sintonias muito finas isto da propriedade intelectual.
Só sei que acontece o tempo todo, muitas vezes as pessoas fazem sem querer, por distração, mas machuca e é mais forte que a nossa crítica ao ego do artista.
Quando acontece comigo - e eu deveria já estar habituada - me dá uma dor engraçada e me prova que a propriedade intelectual é algo que transcende a razão. Sinto uma coisa quente no estômago, uma certa náusea, susto e uma decepção com a vida quando algo que saiu das minhas entranhas estranhas aparece como se fosse gerado por outra. Sabe quando tu é assaltada e te levam algo que tu demorou muito pra conseguir; ou quando o teu filho pequeno some no meio do super mercado e te dá uma dor e o teu corpo se curva? É assim a sensação quando não me dão os créditos. Parece exagero, mas tenha certeza que é assim com muitos artistas.
Então a gente poderia dizer que essa necessidade que o criativo tem de assinar seu trabalho em contradição com a vergonha de fazê-lo por parecer excesso de vaidade é um sentimento maternal.
Como não querer deixar o filho ir.
Fico entre as duas vias tentando ser racional.
Primeiramente, creio que a pessoa que inventa, cria, se dedica, passa anos até fazendo um projeto artístico (eles são sempre mais complexos de criar do que parece), precisam se desprender e deixá-los ir.
Segundamente, enquanto o autor de uma obra tem o direito de se desprender, as outras pessoas que fazem parte dela em algum momento ou apenas espraiam por gostar, tem o dever de desenvolver uma natureza sensível ao fato de que a obra que lhe dá prazer veio do ventre de alguém (o artista seria a sogra?) e, portanto, antes de usar e abusar da criação do outro é necessário entender qual é a relação do artista com aquela arte.
Há obras que a gente quer dividir (como no meu projeto FBI, em que enviamos o copião do nosso filme pra outros cineastas reeditarem à seu prazer); há obras que você deixa fazerem download mas não gostaria que remixassem; há trabalhos que você não mostra nem pra pessoa mais próxima e se alguém mexer nas suas gavetas e a encontrar você vai sofrer tanto que talvez não sobreviva.
Você quer entregar para o mundo aquilo que inventa e quando chegar no mundo vai virar outra coisa e não há o que você possa fazer a respeito. Só que esta outra coisa, como um filho, sempre fará parte de você lá no princípio do seu caráter.
Tenho uma certeza de que nesta complicada matemática da autoria o segredo está na delicadeza, na sutileza de uma cultura que não veja as coisas aos pedaços e sim os elos e continuidades.
Há coloridos cordões que nos ligam eternamente ao que sai de dentro de nós e eles precisam ser solenemente respeitados.
Só com menos ansiedade e menos consumismo a gente consegue perceber estas linhas que abraçam a tudo e todos enquanto sociedade, e nisto entra a arte.
biAhweRTher

quarta-feira, 11 de maio de 2016

A mulher e a câmera.

Não sou daquelas pessoas que fala muito sobre as opções técnicas do trabalho. Atualizações dos softwares, micro diferenças entre uma câmera e outra, a guerra das tecnologias, plataformas e marcas... Bá, prefiro pensar na luz. 
Tenho fases... Depende da estação do ano, de como vai o sol, se está nublado, se é um surfista no mar, uma foto de moda, a natureza, o velhinho distraído no centro da cidade, a formiga invisível ou uma banda num palco com uma péssima iluminação vermelha.
Admito que me apaixono por lentes, isto é verdade. Mas não falo muito delas, durmo com elas. E isto é sério, quem dorme comigo sabe que não é raro dividirmos a cama com uma câmera. Tanto que, há alguns anos, numa oficina de cine desconstrução em alguma capital qualquer do país, eu mandei um garoto nervoso dormir com a super 8. Dito e feito, no outro dia ele estava super relaxado e do seu olhar saíram lindas imagens em movimento.
Nessa confusão toda que fica na cabeça, no coração, no estômago e no sexo, fazer imagens - ao menos no meu entendimento - é muito mais sensibilidade do que foco, do que a fita métrica, do que escolher o Iso, O olho sabe, é orgânico... desculpa dizer esta bobagem, mas é talento e não há decoreba na subjetividade.
Comecei um álbum na minha fanpage com as fotos que considero incríveis mas foram rejeitadas solenemente pelos clientes. Felizmente é um fato tão novo pra mim que só há fotos de um cliente e tomara que fique nisto por um bom tempo
Em abril fiz uma sessão de fotos
barata e improvisada como eu gosto porque exige criatividade. Sem recursos pra produção, sem maquiador, assistente, veículo de produção, equipamento de luz.
Só tinha grana pra nós, eu e as lentes.
Fomos. Temos.
Apesar de reunião prévia, de um estudo de referências e de eu ter feito uma pré produção, a sessão que pra mim resultara em 4 séries fantásticas em locações dentro do Hospital Psiquiátrico São Pedro, desagradou imensamente o cliente. Faz parte, não gostar acontece, desrespeitar o profissional é proibido.
Bastante satisfeita com o resultado, sob pressão de um deadline mortal do cliente, optei por uma metodologia. Enviei primeiramente uma série de fotos artísticas para ele ir aprovando enquanto eu ia trabalhando fotos mais naturalistas e uma boa diversidade estética. Agi sem pensar no cachê pois quando eu aceito um trabalho não penso nisto e não trabalho com menor ou maior dedicação, Compro a ideia.
Para minha surpresa, com apenas dez por cento dos retratos enviados, o cliente já um pouco irritado e apressado, me enviou uma print com uma análise fria e meio humilhante que continha riscos e setas sobre as imagens avaliando micro pontos de meia dúzia de fotos que, me pareceu, eu deveria corrigir. Junto vinha uma observação em caixa alta: As outras não gostei. Ponto.
O cliente era muito jovem e talvez nunca tivesse se relacionado com um profissional, então eu respirei, me mantive muito afável e pedi que ele ficasse calmo, larguei o trabalho de um outro cliente bem mais relevante e passei a madrugada enviando fotos em uma outra estética, começando uma tentativa de contemplado e segura de que conseguiria porque foram centenas de disparos com isos, lentes, cenários, luz variados,
Não cheguei a enviar nem metade das opções e descobri que o cliente nem fizera download das fotos, cortando relações e me deixando feito boba por dias a trabalhar para tentar agradá-lo.
Acendi meu incenso, meditei e retornei aos outros trabalhos de relação mais normal.
No dia seguinte, ainda meio sem entender o que tinha se passado, recebo o contato de uma banda de Berlim, pra qual já trabalhei como VJ, pedindo fotos pra uma capa e encarte de CD.
Ora, o trabalho para o jovem cliente que não fora legal comigo era semelhante a este, então pensei: Será que existe um Deus e isto é uma compensação por eu ter sofrido um belo alijamento ainda ontem?
Não sei nada sobre isto!
Quero dizer, não me apetece ficar exultando a câmera nova, o paranauê caro e apenas os sucessos. Eu gosto de falar sobre conceito, sobre autoria, sobre o respeito, sobre a tentativa de fazer os clientes entenderem que "eu to pagando" não pode pautar as relações de trabalho. Gosto de falar sobre erro, sensibilidade e aquilo que a gente aprende na faculdade, sobre esconder a humanidade no ambiente de trabalho..
Eu conheci um fotógrafo que me disse: Se eu sinto que vai ser desconfortável ou se vou ser maltratado, cobro 4 vezes mais.
Pode ser uma boa... Mas há momentos que a gente não pode prever. A única certeza que eu tenho é que eu, além de criar esta vitrine das imagens não aprovadas que, apesar disto, me dão orgulho, vou inventar uma outra redação para contratos de trabalho.
Meus contratantes, a partir de agora, tem que me
assegurar que amam o que fazem, que gostam de olhar nos olhos de quem contratam, que sabem que estão contratando pessoas e não robôs ou escravos e que conversar, respeitar, viver com felicidade e honestidade todos os momentos, profissionais ou pessoais é estar pleno e isto vale mais do que mil notas de dinheiros.
Paz, Amor e Gentileza \o/

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Catártica

Sobre trabalhar com imagens, tem horas que um nadinha tira umas reações desproporcionais da gente, como se estivéssemos conquistado um grande feito, mas é só um brilhinho num cantinho do olho do retratado que, muito possivelmente ninguém vai notar. 
No meu trabalho tem dias assim, quando fico quieta no meu canto observando as pessoas. Das milhares de gentes que eu já filmei, fotografei, fiz escultura, desenhei, vesti, tirei a roupa... creio que nenhuma me conhece como eu a conheço. Não é situação privilegiada porque isto tem algo de solitário e a gente fica meio louca, falando sozinha, festejando grãos e pixels.
É difícil não se sentir íntima e não aprender a gostar das pessoas porque tu estuda seus trejeitos, poros, destaca suas belezas ocultas, corrige suas imperfeições, sabe como são seus cílios, veias, a ponta do nariz, os pelos; onde se esconde o brilho, um resto de sorriso, timidez e poucas vergonhas. 
Posso ficar vários dias olhando e trabalhando em alguém e a pessoa nem sabe, nem suspeita porque, em geral, pensam que fazer um retrato é como fazer uma selfie no instagrão. Mas não é, é muito mais intenso e vivo, vívido. 
Passo por 3 fases: olhar, registrar e melhorar, sendo esta última uma interferência que nem o retratado pode perceber. A pessoa tem que pensar que ela é assim. E é mesmo. Só uma questão de sombra e luz.
Por isto, eu posso esquecer o nome, a voz, quanto me pagou ou se me deu um calote ou se nem me conhece e nem sabe que eu a registrei; se era legal ou antipática; mas não esqueço mínimas coisas, como a vergonha por causa de uma marca, a preocupação com um invisível sinal ou alguma coisa que está oculta por trás de um olhar distante.
biAh weRTher

sábado, 16 de abril de 2016

Sábado. Um dia antes.

Você tem vergonha do nordeste? Você odeia médicos cubanos? Você diz que tem sangue europeu? Criança pobre te dá nojo e você fecha o vidro do carro? Você colocou porcelanato em cima de toda a sua história? Você finge que nunca comeu mortadela? Você já não colhe nada no quintal, você não tem mais quintal mas um projeto paisagista na varanda? Você acha que apoiando o golpe será abençoado pelos clãs que centralizam as riquezas do mundo?
Não se iluda, você É um latino americano, você tem sangue índio, você tem história negra, você foi colonizado e seus entes lutaram por liberdade.
Você é um serviçal da casa grande com direito a uma roupa limpa, nada muito além disso. Você é um de nós, orgulhe-se e pare de trair os seus, pare com essa vergonha do espelho.
Depois não diga que eu não avisei.

]bw[

quinta-feira, 14 de abril de 2016

A mesma carta

Acho ingenuidade quando as pessoas que trabalham por um audiovisual independente em todos os sentidos da independência, inclusive o criativo - que se ferra nos critérios de seleção para incentivo, difusão e distribuição - organizam fóruns de debate e só lembram de convidar os oficiais representantes da categoria. 
Ora, pra você lutar por representatividade, não pode colocar numa mesa redonda um só lado. Você precisa chamar a rua, pesquisar e dar voz a coletivos ou indivíduos que caminham por fora pois as entidades representativas, no mais das vezes, representam interesses de uma minoria.
Pra ser democrático, um fórum de debates precisa trazer os subversivos, sob pena de você organizar um evento onde a carta final será a mesma que foi escrita nos outros 489 eventos ocorridos nos últimos 40 anos e isto só vai funcionar para fortalecer institucionalmente caras que vivem acumulando cargos de presidentes e diretores de associação disto, fundação daquilo e, na verdade, passam a vida viajando, dando discurso em microfone e advogando nos foiers e salas fechadas as suas causas pessoais.
Sim, há tempos repito o a mesma coisa e nada ainda ocorreu pra me fazer mudar tal ponto de vista sobre o modelo excludente como se dirigem as associações de cinema.
Mas mesmo que a expectativa de todos fosse contemplada, ainda assim acho sem futuro uma proposta de debate onde só são convidados os cnpjs poderosos, o poder constituído, os chapa branca e os bons moços.

Assinado: A cineasta mais outsider da cidade desde 1997.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

É o olho!

Há uns 5 anos, durante uma das oficinas itinerantes que eu fazia pelo país, na hora do debate de abertura do evento, numa faculdade no Centro Oeste,
um aluno pediu a palavra, contou que tinha ganho de seu pai uma super câmera (acho que na época a bambambam era a 5D), que curtira meus filmes e perguntou sobre um em especial, que eu dissera ter exibido muito mais no exterior em eventos de multiarte e, o pouco que mostrei no Brasil, foi através de vídeo instalações.
De fato, era um experimental super simples que fiz totalmente sozinha, da produção até a trilha sonora. Para mim ele era muito mais uma vídeo arte e foi nesta fase criativa que eu comecei a entender que aquilo que eu tinha dado o título de Cine Desconstrução nada mais era que arte, até porque já exibia os trabalhos misturando um conceito VJ, eu sempre saia da sala escura, era mais forte do que eu não considerar finalizados os filmes a ponto de dar uma data pra eles e conseguir inscrever em festivais tradicionais.
Enfim, o garoto teceu elogios rasgados ao meu trabalho e depois perguntou qual câmera usava e qual o software. Os olhos dele me diziam que esperava sobrenomes.
Não são incomuns estas perguntas, grande parte das pessoas imagina que a câmera faz o fotógrafo ou o cineasta e não o contrário, só que a autoria está no olhar.
O filme em questão era o "Cantilena", cuja primeira versão foi rodada com uma mini dv, uma cibershot, uma webcam e ainda juntei uns restos de um super8 que eu nunca tinha terminado. Depois, na versão final, já andava mais clean e reeditei só com as cenas em mini dv. Hoje, talvez a chuva... ele foi rodado no mar, eu o coloquei na timeline pra repensar seu som.
Gentilezas \o/
biAh weRTher

sábado, 9 de abril de 2016

Você não está ensinando demais sobre o ódio?

Quando eu fiquei grávida do meu filho, apesar de estar vivendo uma época radicalmente vegana, de já me entender como uma menina tomada pela contra cultura e já ter noção de que sem leitura uma pessoa cresce idiotizada, a única meta que me dei no mesmo dia e hora que soube levar outra pessoa dentro de mim foi:
- Vou crescer junto com ele. Irei ensiná-lo a dizer "Eu te amo" com todos os seus sentidos como se fosse algo absolutamente normal porque eu vejo a minha geração crescendo com problemas pra amar e percebo nossos pais não sabendo expressar seus sentimentos,
Então, ele não terá vergonha de fazer declarações bonitas e vai escutar isto de mim todos os dias, daí sairá da sua boca muito mais naturalmente do que qualquer outra ideia ou sentimento.E quando alguém disser que estamos tornando o amor algo comum, mundano demais porque amor é algo raro, a gente vai dizer que é esta a ideia, fazê-lo parte e não apenas sonho.
Ele mamou até os 3 anos, vivíamos pelados pela casa e tomávamos banho juntos até ele ter 7 anos e, naturalmente, claro, havia a convivência com os instrumentos musicais, as lentes de cinema, os livros e quadrinhos sem que eu precisasse me preocupar em lhe impor esta ou aquela referência, pois eram rotinas mais aceitas pelo mundo que nos cercava e cerca do que saber amar.
Porém, o amor, isto sim era, é preciso ensinar porque o mundo dizia e diz que confessar o seu amor pelos outros é ridículo, que amor é caro, precioso e perigoso; que é dependência, é se expor, se humilhar, diminuir-se, vulgarizar-se.
Nunca fui ou serei uma boa mãe, a única coisa que ensinei ao meu filho foi saber dizer Eu te amo, nada mais.
]bw[

domingo, 3 de abril de 2016

Quem não tem impeachment caça com bullying.

Claro que não leio a tal revista "ISTO NÃO É jornalismo". 
Foi no blog do Marcelo Rubens Paiva que acabei conhecendo os detalhes do texto abusador, representativo, inclusive, dos xingamentos vazios que vem sendo cuspidos em caixa alta nas ruas digitais e palpáveis sempre que alguém tenta um debate sóbrio.
Uma cliente minha, causalmente psicóloga, me dizia faceira quando a Dilma ganhou e os eleitores do Aécio começaram a prometer golpe: - Foda-se! A dialética morreu!!!
Nessas horas a gente fica em silêncio porque você não tem como entregar um dicionário pra pessoa sem levar uma porrada. Tudo bem, ela já tinha pago a obra que me comprou (um retrato de grito embaixo d'água) e está lá, no meio da sua sala dialogando com ela de algum modo. Eu acredito!
Voltando à metodologia do caos, após as publicações alegando que a presidenta está louca, se você usar um raciocínio lógico verá que a situação do país é pesada e perigosa, sim. Mas não pelo que dizem as manchetes. O perigo vai além de todos os assuntos disfarçados. Não é a corrupção, não é pedalada das pitangas secas, não é o imposto. O que fere os intolerantes é deixar o outro viver.
O assunto já vinha gritando dentro de nós, mulheres desobedientes, dentro dos negros que querem direito a universidade pública, dentro dos gays... Os gritos alertando para os perigos reais se perdem diante da gritaria geral por mais bolsas de marca e mais passeios à Disney.
Chamar uma mulher de louca é praxe na nossa sociedade, mas isto não é uma brincadeira!
Certa vez, em meu blog, escrevi que há momentos no meu trabalho e na vida pessoal, onde a saída machista recorre tanto ao gaslight que já pensei em levar na mochila um atestado de sanidade para esfregar na cara de cineastas desonestos que me roubaram projetos e foram para reuniões do outro lado do país alegar que sou só uma louca ou a ex-namorados que não foram legais e se defenderam em conversas masculinas alegando que sou apenas uma louca. É que nunca estamos presentes nessas horas pra um diálogo. Não ocorreu ao repórter ligar pra Dilma e perguntar se é verdade que ela anda meio louca? Ok, estou brincando, claro que dar voz a ela não era a ideia.
O que a pseudo revista praticou é comum em cada canto do nosso país e tem toda uma sistemática, não é piada ingênua, não vem assim do nada. Você começa a gerar a malícia e cria a rede de intrigas com temperos picantes de modo que a parte da comunidade que curte uma fofoca não vai se perguntar onde está a fonte. Depois que sai pra rua, é lenda, não precisa provas, só precisa passar adiante.
A proporção desse desvio de caráter da nossa sociedade fica gigantesca quando a vítima é a própria presidenta da república, demonstrando que o nosso país está pra qualquer coisa e é um lugar perigoso de se viver não pelos assaltos. Não há grades nos jardins que nos defendam do abuso moral, emocional e físico que vai destruir gerações.
Não duvidem se amanhã estiverem montando fogueiras pra queimar bruxas na rua.
Daí você, depois do enjoo, percebe que tem um lado muito bom o terrorismo machista que o país vem sofrendo.
Quando tão recorrente modelo de abuso toma uma proporção inacreditável e parte da sociedade consegue não vomitar diante do que fez a pseudo revista alarmista, a gente sabe que não tem como passar despercebido.
Todas as mulheres trabalhadoras, mães, mantenedoras de lares, gerentes de banco, faxineiras, desempregadas, solteiras, casadas, homossexuais, católicas, macumbeiras, ateias e atoas, ao lerem a tal reportagem, vão reconhecer momentos em que sofreram abusos morais, ainda que neguem porque são a mulher do Eduardo Cunha, por exemplo. Você só não passou por isto se ainda não nasceu!
Quando não se tem argumentos contra uma mulher que se mostra forte, dizemos que está louca. Uma mulher sabe o que isso faz com nossas vidas.
Comecei faz horas a sentir mais vergonha que orgulho do nosso atual país. As crianças índias estão mortas. Bolsonaro vive. Um transgênero é morto por dia no país mais transfóbico do planeta. Até o rock'n'roll é tomado por uma maioria de machistas. O holocausto animal é um tema inimaginável diante da queda no poder de compra. O Brasil é o país que mais dá comida envenenada para suas crianças. Senhoras de bem, entre rosários, se riem vingadas vendo a presidenta ser desrespeitada do modo mais sujo em público com acusações sem fonte, diagnosticada como louca porque não conseguiram lhe arrancar do cargo por desonestidade.
É a melhor aula de bullying que um país já deu em uns 50 anos, quiçá 500.
A única saída, neste caso, é as mulheres estarem unidas, não entrando em jogos e tomando vergonha na cara.
Fica dentro de mim sempre uma pergunta... O que pensam as colegas próximas, as filhas, mães e mulheres desses jornalistas e desses congressistas que não respeitam nada nem ninguém em nome de poder e dinheiro? Como vivem as mulheres desses marginais. Elas jantam em Dubai, mas são mais felizes que as esposas dos traficantes ou dos mafiosos? O pecado de Dilma é não ter marido?
Eu que sempre gostei de chorinho, mamãe oxum, literatura, cinema e roque nacional, há uns meses, ando pensando seriamente em sair do país. Muito seriamente...
]bw[

sábado, 26 de março de 2016

O CAMPO MINADO

Desculpem os meus amigos acadêmicos, mas não encontro sentido em fazer da arte uma "investigação de campo". 
Investigação, pra mim, é coisa de puliça. Campo é a casa do criador de gado. 
Claro, de certo modo, todos nós somos uns inventores e as nossas obras são um mundo de perguntas. Mas é só essa a função, a sina da questão. Resposta decreta a morte e pior do que ter a resposta é ter a vaidade de acreditar que sua pá dourada vai cavar na areia e encontrar um fim.
Quando você sistematiza mais do que um dia da sua vida criativa, me parece que você padroniza a arte, deixando ela de ser arte e virando uma receita trivial.
Quando você se afoga no vício de um planejamento e faz anotações em busca dos porquês e, finalmente, encontra as respostas, provavelmente você está pronto pra morrer, você não presta pra mais nada, você não vê mais sentido em gozar, surpreender-se, desesperar-se, desentender, convulsionar e errar.
A mim, me parece arrogante, soa estéril fazer da arte uma ciência, como é uma tolice tentar defini-la.

biAh weRTher

terça-feira, 22 de março de 2016

Eu no KBEATS Vol.1

>/CONVITE\>.....................>/CONVITE\>
Chove agora, Outono
Pois meu conforto é o Sol e o meu Sol foi dar um tempo
Emprestou o meu casaco - Sol também se resfria no vento
Chove agora, Outono
Escorre dentro de mim pra lavar esta vontade
e sair pelos meus olhos, pela boca, das narinas
Pela ponta dos dedos, úmidos, visgo, cafeína
Toda vez que é outono e o Sol vai pro relento
bebo o vinho e evaporo
sinto as gotas e me aqueço
É assim como uma sina
Toda vez que é outono e o meu Sol sai ao relento
biAhweRTher
>>>Quinta,24 mar, transpareço na Casa Frasca, parte do evento KBEATS Vol.1. Na apresentação da minha obra, a presença do também multiartista Iago Gutierre e os registros do Raphael Carrozzo<<<<
VENHAM, 22h, Independência - 426




sexta-feira, 18 de março de 2016

Todas as Mulheres do Cinema

Convido todos os que estarão em Porto Alegre neste final de semana a aparecerem na Mostra Todas as Mulheres no Cinema.
O meu filme DANS[SA], com a atriz Renata de Lélis, está na programação. O curta, em 16 mm, é uma produção do Cinema8ito e faz parte dos 5 curtas do projeto FBI. 
Visitem o site da mostra, está bonito o programa.
https://casapeiro.wordpress.com/2016/03/08/todas-as-mulheres-no-cinema-mostra-de-curtas-metragens/





A histeria digital é ancestral.

Mesmo antes de Goebbels, mesmo antes da caça às bruxas, a histeria sempre foi a arma política de efeito mais certeiro.
Agora que o golpe está se desenhando no grito e na pancadaria, o Brasil será devolvido para os colonizadores ("Nos devolvam o Brasil", é o que se escuta entre os defensores do fundamentalismo).
Á força, Dilma está impedida de governar, pararam o país, ninguém sabe qual foi seu dia de trabalho ontem, se sancionou ou vetou alguma lei que nos interesse. O país parou e todos vamos pagar caro por isto.
Há milhões de pseudo ricos advogando pela própria escravidão, E como ninguém gosta de história, vejo gente festejando nas passeatas, rumo aos seus piores tempos, como boiada que caminha pro matadouro.
Se acontecer o golpe, a nação relaxa. Ninguém aguenta mais sindicatos, representações, direitos humanos, leis protetivas pra qualquer grupo esdrúxulo.
Os negros voltarão para a cozinha, as mulheres voltarão para a cozinha, as crianças pobres voltarão para o borralho, os latinos voltarão para a cozinha, os sem terra voltarão para a cozinha, casais gays precisam voltar pra o armário (da cozinha)... Bá, vai ficar intransitável essa cozinha!!
Sem cotas, sem ações afirmativas, sem saco pra igualdade, sem casa, sem quintal, sem escola, sem nada, o país vai ficar servil como já foi. Para cada 5 na casa grande, 5 mil a servi-los sem uma constituição que os proteja.
Tecnicamente, acho interessante um fenômeno arcaico continuar funcionando através dos séculos. A manipulação nos faz ver que não interessa se temos internet, acesso à informação em tempo real e veículos diversos, outros pontos de vista e alternativas para refletirmos livremente, pra exercitarmos o diálogo da sensatez.
A massa não sabe ler, a massa está ocupada xingando, está em comoção e na histeria não vê as fontes menores.
Já diziam os sábios de todos os credos, se você está em fúria, não pondera. Respira, acalma, espicha o pensamento...
Pensando em pensar, repito o que rezamos há anos sobre o nosso modelo político, onde tudo é mais do mesmo e uma hora tinha que implodir.
Você não faz esquerda namorando com a direita.
A presidenta nos apresentou parceiros políticos difíceis de digerir num momento em que o país se pretendia moderno e democrático. 
De representantes pastores em um Estado que deixou de ser laico até uma coronela latifundiária escravista. Dilma namorou com o diabo por imposição do partido.
Os mais velhos, pra falar bem ou mal dela contam o mesmo conto. Dilma era uma guerrilheira foda, dura na queda.
Porém, nem precisamos vê-la ao lado de Kátia Abreu ou Michel Temer pra saber que ninguém chega ao poder em nosso sistema sem beijar o diabo.
Tempos obscuros se aproximam, pessoas com "cara de esquerdistas" já são linchadas nas ruas por senhoras que ontem pareciam sãs, fazendo suas compras no xópin.
Caso venham outros 20, 30 anos de zumbilândia, desigualdade e medo até outras gerações saírem pra rua e reiniciarem um novo ciclo, veremos, velhinhos como viram nossos pais, a Globo viva mentindo que era apenas um canal informativo e não apoiou o golpe.
Veremos pessoas com cara de paisagem, que estiveram dançando sobre tumbas e acendendo as fogueiras, alegando que nunca foram coniventes com o golpe. Todos, do nada, serão apenas vítimas.
A falta de educação, a desinformação, a recorrência e a fofoca são e sempre serão a carta na manga dos poderosos e suas eminências.
>bw<

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ontem eu vi o Cigano Igor e fiz retrato de uma revolução perfumada.

Bom dia lindo dia!
O que dizer de uma geração que só sabia fazer compras e quando acorda pra política sai pra rua com roupas de marca e uma lata de cerveja na mão gritando em coro: "Vai tomar no cu"?
Ontem, saindo do estúdio onde eu estava trabalhando, passei pela calçada da fama e fui gravando as vísceras da passeata até chegar na João Teles.
Não tinha nada de muito interessante pra retratar, na verdade. Carros importados buzinavam, senhores bem vestidos saíam de bistrôs lindamente iluminados com luz de velas e gritavam: "Vagabunda". Jovens corriam com o celular na mão, prontos pra festa, procurando os amigos; sentadas nos cafés mais chiques da cidade diante de drinques e acepipes, senhoras comentavam orgulhosas seus posts de "Lula cachacheiro" no feicibuque.
Eram pessoas brancas, cheias de perfume, numa espécie de micareta da zona nobre, Tentei entrevistar porteiros e serviçais, que eram os únicos não brancos, mas os olhares eram severos e eles ficavam tensos, tímidos, sacudiam a cabeça num não.
As meninas loiras desfilavam com a bandeira do Brasil numa performance que me lembrou os desfiles de 7 de setembro que as escolas faziam quando eu tinha 8 anos e loiras bonitas da oitava série eram destaque fazendo piruetas e todos cantavam o hino nacional. Sério, i-gual-zi-nho!!
Em dado momento, avistei o Cigano Igor! Levava um ar de líder, a caráter com bandana verde e roupa de academia levando uma bandeira do tamanho de seus músculos. A propósito, muitas pessoas com lindos corpos usavam roupa de ginástica. Quem passava à margem do desfile de grife com alguma roupa que destoasse tornava-se alvo de olhares hostis e logo era apontado, tinha que desviar o caminho. Eles estavam exaltados e logo descobriam os inimigos infiltrados.
Em nenhum momento conseguimos escutar qualquer discurso politizado, alguma palavra de ordem com algum pedido concreto.
Senhoras chiques gritavam: "Dilma vagabunda!".
Me pareceu que ali, a ideia transcendia qualquer apelo político. Estive no meio dos rebeldes de vitrine e, pertinho da miscelânea de fragrâncias importadas, entre algumas pessoas que ainda não sabiam bem como se age na rua, - pois novatas em momentos mundanos que não fosse aquele carnaval em Salvador em 1996 - e outras já mais descoladas, se divertindo com amigos; caras malhados de olho nas meninas, casais caros com cachorrinhos de marca, vi algo positivo que unia a todos.
Vi que, agora, gente que devorou livros de boas maneiras tem um lugar pra falar palavrão aos berros. É como uma terapia em grupo. Muito melhor que copa do mundo e carnaval. Senhoras com aaaanos de trauma porque não puderam gritar "porraaa!" quando alguém pisou no seu pé naquele jantar no Juvenil em 1965 soltaram finalmente o urro: "Putaaaa!"
Achei bonito, viu.
Até que começaram a me estranhar e eu, que não sou boba nem nada comecei a gritar: "É isso, morte aos bolivarianos"; E meus amigos gritavam: "Corta a barba desses comunistas". E eu fiquei louca e abri os braços e gritava e os senhores faziam festa pra mim e eu dizia: "MORTE AOS COMUNISTAS!";
Foi uma be-le-za!
Depois, já no meio da Independência, um maior número de pessoas estranhas ao desfile começaram a aparecer ao redor pra assistir e, de repente, os manifestantes pararam como quem não soubesse pra onde ir. Estavamos nos distanciando demais das lindas ruas ricas, o que fazer? O grito arrefeceu... murmúrios. Uma jovem com a bandeira falou: "- Mãe, pra lá é o centro?"
Percebi um certo desconforto de alguns ao se afastarem do Moinhos de Vento. Creio que eles deram ré e foram pro Parcão, porque ir pra rua tudo bem, mas centrão já é demais.
Descemos a João Teles rumo ao aniver do Fredi Chernobyl. Eles ficaram lá, liderados pelo Cigano Igor.
Foi lindo.
Assinado: A rapariga que foi na manifestação e gritou um monte de palavrão oba!
>bw<

segunda-feira, 14 de março de 2016

A vida não precisa morrer antes de você perceber.

Sobre a comoção ontem, no Tributo ao Júpiter Maçã, queria refletir aqui,discretamente, no meu cantinho...
Ali, com as minhas lentes - melhores amigas por detrás de quem me oculto sempre nos grandes encontros - me deixei observar pessoas que conheço há tanto tempo, rindo e chorando, dividindo.
E aquela hora que quase todo mundo foi pro palco mas alguns ficaram encolhidos num canto com o olhar em outro espaço-tempo e não ousei retratar o momento, conexão íntima;
E as pessoas com quem falei e que me abraçaram com um carinho que naquele exato instante parecia, talvez, mais verdadeiro porque a morte tem um papel paradoxal; ela une, desnuda.
Parece que a falta despe a gente, desburocratiza. Parece que é preciso morrer pra daí ser real a aceitação, reconhecimento entre os pares.
Pois, na verdade, somos todos da mesma turma, não interessa se alguns tem gravadora outros não; alguns grandes produtoras outros não; alguém ficou famoso o outro não; alguns preferem ser independentes, outros querem segurança; alguns são loucões, outros acadêmicos.
O que ficou pra mim, ali, vendo a noite por detrás da grande angular, da macro, da objetiva, foi a verdade que todo mundo quer, mas muitos temem; sobre valorizar o outro, desprezar as competições vazias, admirar as pessoas enquanto elas estão vivas, fazer homenagens todo santo dia.
Por mim, as pessoas ficariam sempre naquele estado que estavam ontem, sempre assim, pura emoção.

]bw[