sexta-feira, 29 de agosto de 2008

vem, anda comigo pelo planeta...


Wender!

Viu, achei muito interessante a nossa discussão no msn ontem,
nada mais foi que começarmos a pensar linguagem, conceito das exibições e relação do Cine.Sangre com o público. Não sei se tu percebe, mas
ao termos opiniões diferentes e debatermos isto, e você me mostrar o VT mais
linear que usou em suas mostras, estamos dando vida ao Cine.Sangre.

Hoje interagimos quase todos, mas tu não tava on line!!
Falamos desde cedo uns com os outros pelo msn,
parece que tem alma já a nossa reunião, e acho
que a lista cine8 mais uma vez muda algum mundinho, rerer.
To me a-chando! uauaauau

Vê só, o fato de eu ter a liberdade de citar apaixonadamente o Vitor Ramil
no release, porque penso filosóficamente o universo gaúcho (isto é redundante?),
enquanto o Maurício vem com roquenrou contemporâneo e gringo
no VT e tu é do trash e o Albert do software livre, tudo isto mostra que a gente tem liberdade, cada qual entende e quer o Cine.Sangre a seu modo.
Creio que a alma do nosso ajuntamento fica mais livre.

Então, não sei se consigo ir desde hoje à noite pro sopé da sierra :(
porque tá complicado
organizar 4 mostras e 3 viagens que tenho ao longo
de todo o mês de setembro... Pra variar eu cruzo o país,
do frio ao calor, e tem filmes pra finalizar...
ando meio estressada de aeroporto, uma dor fudida no corpo...
se tivesse um Deus ele ia me deixar quietinha lá em Niterói, no silêncio,
editando imagens com o Edu. Mas enfim,
na hora que to no ar me animo muito:)
Indescritível essa solidão acompanhada.

Ir pra Dois Irmãos hoje eu quero muito porque daí é
função de rodoviária, é mais mochileiro, imagens mais massa!!
Tu não acha que rodoviárias e mercados são outros planetas???

Bom, tou cansaaadaaaa... São seis da manhã e quase não dormi. Daí,
fazendo os DVDs da mostra, descobri que dois filmes
eu vou ter que converter em cima da hora :( Porque me mandaram
em um formato sinistro que nenhum DVD quer ler. rerer
To usando um laptop e um pc e to rateando, precisava ter alguém aqui comigo,
desde a época do super8 em 98 que eu me enrolo toda quando to organizando
os filmes. Acho que so machista! Se tem um ar masculino no ambiente
eu me sinto mais segura de fazer a função, auauauauau.

Então, li no teu blog que a vinhetinha do Maurício pro cine.sangre
não é toda original, que é em cima de cenas que já existem num clipe.
Na real, eu sempre faço vinhetas nonsense pras mostras do cinema8ito
porque nosso conceito é este. Somos artistas e explicação
é pra porteiro. Quem fica curioso e é inquieto,
vai na mostra nos instigar, perguntar, debater, ver do que se
trata essa comunicação, se quiser mete pau, se nos amar entra pra turma.
E este é o público que o Brasil precisa, pessoas pensantes
e que saem da frente da TV e não ficam só aceitando e se dizendo 'público'.
Dã.

Mas enfim, acho que em cada cidade que fizermos o Cine.Sangre
os organizadores devem fazer a seu modo. Acho que isto
é mais democrático. Respeito o jeito de cada um e bóra lá.
Mesmo o Maumau tendo usado imagens que já existem
eu achei legal porque tem gente do país inteiro que ficou impressionada
e mandam e-mails porque queriam estar
aqui no sul. Tem gente de outros estados querendo
que juntemos seus filmes e tal.

Os comerciais de TV do FLõ são todos originais, roteiros produzidos por pequenas equipes do cinema8ito, e sempre doidos
porque a idéia é invadir a caretice da TV com o inesperado.
Isto desestabiliza a galera. E nossa luta é esta,
imagens livres e audiovisual independente do formato caretão.

Por outro lado, eu achei que o Maumau acertou a mão ao passar a idéia
da mostra. A respeito de como nossos
filmes se relacionam com o RS, de como o poder constituído quer colocar vários artistas no lixo porque
estes têm os mais diversos olhares, são desobedientes,
mas mesmo assim eles resistem. Foi o que entendi do VT.

RESISTÊNCIA E CORAGEM! É isto que a vinheta me passa.
Ou seja, o Maumau fez um trabalho de releitura que vale nos
dias de hoje, onde os VJs e DJs chegaram pra amolecer a dureza
da propriedade.

E acho que nossas vinhetas devem ser sempre
livres estéticamente pra fazer a diferença,
em especial mudar o padrão daquelas vinhetas quadradas em 3D
encomendadas e sem sangue, pra festivais de purpurina... eca! rerer
Manda matá, uauaauauau!

Bah, tu precisa ir na mostra!!! Porque daí já troca figurinhas com
os coletivos que conseguirem estar presentes
pra quando fizeres o Cine.Sangre aí já ter mais intimidade
com o povo!!

É isso ae Wender \o/ Tamo Vivo!
Outubro to nos pampas gaúchos de novo
então vamo tocando por msn as combinações pra o Cine.Sangre
em São Leo ? Tu nem sabe quanta idéia tenho aqui! Aproveitarei os voos pra organizá o pensamento.

Pax
biAh

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

\o/ Trailer Trailer Trailer \o/

Pessoas Legais...

Quem está no Festival de Gramado pode assistir o trailer do nosso longa-metragem,
o BITOLS, no stand da Fundacine :)

Pra quem não está lá, oferecemos aqui,
que não é a mesma qualidade... mas todo mundo já pode ir se preparando pra
breve estréia róquenrou do filme ... linguagem universal do mundo paralelo...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O solstício e a morte árabe


Já não se pode sair com câmera nas ruas, isso me mata de ansiedade... eu que fico caminhando nos mercados da vida, falo com todo mundo que seja estranho, não muito com os que seriam conhecidos.

Ontem fui procurar Ruedas pra customizar, uma nova mania que depois explico! Tomando chimarrão numa loja de gaudério, engatei mais um papo de rua. Sobre o fato de que as alpargatas gaúchas e argentinas agora são falsas. Boas mesmos só as Ruedas uruguaias... Se não for sizal e lona, de que me adianta customiza-las? eu dizia... O senhor que comprava erva concordava...

Também ontem, voltei a pensar que cada mercado público, de cada capital, tem seu cheiro, misturança particular, mesmo que se pareçam tanto entre si... o cheiro não, só a aparência. Eu faço imagens, quando posso, mas o cheiro não grava junto pra provar a teoria!! Enquanto pensava no assunto, voltei a sofrer porque não posso mais sair com a câmera pelas ruas, gravando as rotinas. Que já me roubaram algumas... câmeras e rotinas!

No rush das seis, esperando o Rio Branco-Anita, perguntei a um senhor de idade quanto era mesmo a passagem. Ele respondeu prontamente, me olhou preocupado, perguntou se eu era de longe e já emendou a falar de sua vida. Dava um filme! Que sua mulher está entrevada e ele não consegue uma nova. 'Porque mulher nova, me desculpe a franqueza, só quer duas coisas... E nem preciso dizer o que, né moça?
Isso mesmo, só aquelas duas coisas. Dinheiro e (mais baixo) sexo!'

Ele pretende buscar uma mulher 'lá fora'.
Onde é lá fora? Eu pergunto.
Ele me responde: - Taquari ué, no meio do mato... A gente acaba tendo que abandonar o mato uma hora, mas volto lá e encontro uma mulher. A minha achou que era nova, foi fazer o que queria, acabou atropelada. Tá lá! E eu não posso ficar sozinho. Como vou ficar sozinho? Olhe, cuide esta bolsa! Vocês levam tudo na bolsa, depois te roubam, machucam pra tirar tua bolsa. Guarda a carteira! Eu acordava em Taquari e não tinha relógio, tinha era o galo. E quando a galinha cantava eu ia lá e buscava o ovo...

ESta foi a história de segunda, agora já é terça.
Saí a resolver coisas solitárias de artista, pesquisar sabe? Silêncio.
Só as cinco e meia devo estar no lugar onde testo meus transfers.
Saí andando devagar, garganta seca, pensando...
Eu gostaria de ser aquela foto da Theda Bara, ave de rapina diante do esqueleto
de alguma vítima. No entanto, tenho sido o esqueleto.
Até porque sempre tenho essa mania cristã de acreditar, dormir pouco, comer pouco e ficar com a garganta seca. Como se isto me pudesse inspirar melhor.
Mas, por vezes, penso que só aspiro.

Falta um minuto pras quatro e ainda nao comi nada, o dia é sol, minha voz tá descansando, meus olhos trabalhando.

Queria escrever, encontrar as pessoas que me lêem, contar o que vi nestes dois dias, embora não seja muito, talvez. Antes de resolver um computador com urgência, entrei numa ferragem com cara de anos 50, eu suponho, ou 60...
Entrei com meu eterno ar de turista. Tinha umas armadilhas pequenas de arame e madeira. Algo tosco, artesanal, como uma micro-gaiolinha.
Quatorze reais... Caro eu pensei, mas comprei duas. Talvez se tornem luminárias.
Mas o que estou querendo é voltar a fazer minhas mulheres de terracota crua,
que gritam, boca aberta, presas numa gaiola com a mão no coração.
Bem, mas nem todas eu prendia em gaiolas e, afinal, tri Theda Bara,
fiz até um homenzinho, com o penis empinado, deitado, se contorcendo em uma cama
de pregos. Mas isto já tem uns 6 anos e a faxineira já tratou de quebrar a ponta
do pênis dele. Preciso consertar isto.

Depois das gaiolas segui pela Voluntários da Pátria, vagar...
Perguntei pra um rapaz onde tinha uma lan house. Ele vendia churros,
me deu uma vontade... Mas churros engorda e eu, afinal, estou querendo me punir
e tenho passado uma certa fome. Apontou-me a galeria...
Uma placa em forma de seta mal feita, com luzinhas feias, dizia : INTERNET
Maravilha... Lá me vou!

A galeria tem lojas de calcinhas a 2 reais. Entrei numa delas, remexi no balaio. O tecido é meio áspero. Tinha até uma calcinha do Inter... Mas não, esquece, não são bem acabadas pensei... Hmmm. Quase compro a calcinha do Inter com uma pena vermelha, tipo um pompom meio magrinho... Ah! Impossível!

Andei mais, cheguei na Lan House, ele me ofereceu o andar de cima, que é mais tranquilo. Não é bem um andar. É um lugar para pessoas pequenas como eu. Apertadinho, baixinho, cheio de micro escaninhos azuis com computadores.
Me passou pela cabeça que este é o lugar mais escondido do mundo todo, pelo menos hoje, bem agora. Aqui ninguém... ninguém, só eu, solta. Mas e acaso no mundo lá fora é diferente? Hmm...

E agora já são quase cinco horas, preciso de um café do mercado urgentemente, depois andar com cara de nada até o lugar onde faço meus transfers... Muito turismo ainda hoje.

biAh

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

je t'aime... moi non plus e a estética do cangaço


Se eu disser que... O amor... Eu acho que o amor é uma palavra muito forte para a pessoa dizer "meu amor". Não existe amor, não, menina.

Eu só punha ouro, chapéu bonito, bornal enfeitado, roupa cheia de bordado. Gostava de perfume. Eu tomava banho com perfume! Pra mim perfume me lembra de mato, e é como se eu não tivesse tomado banho.

Quando não tinha água, era com perfume mesmo. Isso era aquele sofrimento... Os homens davam a primeira água que aparecia para as mulheres fazerem a higiene delas, que é diferente deles, né? Às vezes, o cheiro ficava tão forte e tão ruim entre a gente, que teve muita história de a polícia achar cangaceiro por causa do fedor. Era muito quente, muita roupa, entao suava...

Zé tirou a alpercata dele e mandou eu calçar. Quando eu calcei, ele disse: "agora nunca mais vai me deixar". De fato, nunca deixei mesmo. Acho que era uma simpatia porque eles acreditavam muito em reza, em oração, em tudo eles acreditavam.
Não namorei o Zé Sereno. Não sabia o que era namoro... Vou te dizer: eu nunca beijei não, sabia... Nossa vida era só andar, andar, andar, e pronto.

Foi em cima das pedras. Ele forrou bem, assim, com uma coberta. Depois deitou, e pronto. Era uma coisa muito difícil, viu?... Não sabia o que ele ia fazer, né?... Fui forçada. Nem sabia que existia isso. Naquele momento me senti nojenta... Tive muito nojo... chorei mais ou menos.
Que carinho nada! Não tinha carinho nenhum! Ele nunca me beijou, nem no rosto. Eu nem sabia se tinha beijo de boca, nada.

Eu admirava o Zé Sereno, porque ele era valente, calmo, não demonstrava toda a valentia à toa. Era a mesma coisa que o Lampião. Lampião nunca dizia "eu sou valente, atirei em fulano, matei, briguei". Ele nunca falou isso. Eram todos quietinhos, isso eu admiro.

A gente tem orgulho na hora que está dentro da bagunça mesmo. Tem orgulho de ser mulher e de ter força, de lutar, de ser companheira, de viver com um cangaceiro até o fim da vida dele!

Fui traída por ele. Aaaaaave-maria... eu não sei como ainda tenho cabelo, viu?
Da primeira vez tinha pouco tempo que estava no bando. Fomos pra uma fazenda, que era do meu tio, pra nos esconder. Lá, tinha a Estelina, minha prima. Eu estou vendo o diabo da moça, ela era gordinha, de cabelo bem liso. E eu era magrinha. Começaram um baile com realejo, gaita de boca, todo mundo dançando. E eu procurando Zé, e não achava. Fui no alpendre e, quando olho, os dois sentados lá, só a luz da lua. Olhe, eu vi, voltei, e fiquei a noite toda na cozinha com vergonha de ver eles namorando, você não acha?

Ele tinha um ciúme invocado, emburrado, daquele ciúme sem falar. E o pior né? De não saber por que está com raiva, que maltrata a gente. Mas eu já sabia o que era... É horrível isso.

Não, eu nao tinha medo disso, não. Nunca pensei na morte. Queria viver. Mas não é fácil, não, ser mulher, viver no mato, ficar grávida no mato, ter um filho no mato... outros dois já nasceram mortos.

Lembro de um aborto. Eu estava grávida de uns cinco meses, mais ou menos. De repente senti muita vontade de comer jaca, o Zé saiu pra procurar em tudo que é canto e não achou. Eu não comi e foi por isso que comecei a sentir muita dor. Chamaram a parteira e ela disse que o bebê ia nascer. Umas cinco horas depois ele nasceu já morto, coitado, de boquinha aberta. Ele estava com vontade de comer jaca, tenho certeza.

Quando tinha uma mulher esperando bebê, eles tinham cuidado demais e não deixavam a mulher e o companheiro sozinhos. Aí teve uma época que Lampião viajou, levou uns cangaceiros e deixou outros com Zé Sereno, pra dar mais proteção. Maria Bonita ficou comigo. Ficamos num coito perto do Rio São Francisco e era ótimo, eu mais Maria descíamos todo dia pra tomar banho, lavar roupa, todo dia, todo dia. Lá teve uma emboscada e tivemos de sair correndo, eu grávida, imagine você... Pari no mato mesmo, lá perto, onde tinha água. Estava com Maria Bonita, os homens saíram de perto. Comecei a sentir as dores, aí ela armou uma coberta no chão e deitei. Fiz muita força a tarde toda e, à noite, o menino nasceu. Foi ela que fez meu parto. Daí, os homens vieram correndo pra ver como ele era. Nossa, eu sentia tanta dor, parecia que iam abrir minhas cadeiras, ave-maria... Aí, enfiei uns panos dentro da calça pra estancar o sangue e seguimos viagem.

Olhe, acho que não tem dor pior, viu? Mas, se você resolver ter filho, pode pedir para o médico te dar aquela injeção que tira a dor, hoje em dia já existe.
No outro dia, Lampião deu o nome, João do Mato. Eu nem tinha idéia de nada disso de nome, né. Eu mandei João para um coiteiro que era amigo, que eu sabia que ia cuidar bem dele. Era sempre assim: a gente não podia ficar com os filhos, engravidava e sabia que tinha que dar a criança. Mas eu soube que João não resistiu nada e morreu seis meses depois...

Ah... É a pior coisa que existe. Ter um filho e dar para os outros. Mas a vida era tão ruim, tão corrida, cansada, sacrificada, que a gente levava tudo assim no ar. Não sei... era uma coisa dura, pesada, tão cheia de sofrimento que a gente vivia paralisada, parecia que não sentia mais as coisas, sabe?

Um dia meu irmão falou que ia arranjar de eu ir embora porque os cangaceiros iam passar por lá. Nesse mesmo dia passaram, Zé Sereno estava entre eles. Zé mandou meu irmão levar comida pra eles no riacho e também a menina, que era eu.
Ele marcou oito dias, e disse que voltava. Não era pra eu dizer a ninguém que ia ser levada... Aquilo remoendo dentro de mim, eu nem conseguia brincar mais.

Naquela noite eles chegaram, meus primos arranjaram sanfona para tocar. Eu nem olhava na cara de Zé Sereno, só rezava: "Meu Deus, fazei com que esse homem não queira que eu saia". Quando foi de manhã cedinho a cangaceira Neném veio e disse que eu me preparasse pra sair. Saí com o vestido fino de baile que eu estava.
Logo nos embrenhamos no mato e andamos o dia todo. Quando caminhavam, pisavam sempre no mesmo lugar que o companheiro, se eu tirasse uma pedra do lugar, eles iam lá e punham onde estava. A Neném me explicou que era pra não deixar pista para os macacos.
A gente não conversou. Não dava tempo, todo mundo angustiado porque sabia que a Força vinha atrás, tinha medo. De noite entramos numa casa e Zé mandou fazer uma comida. Ouvimos um barulho estranho. Quando demos fé, era a polícia. Não demorou nada e começou o tiroteio. Neném morreu na hora. No cangaço, homem chorava.

Encontramos Lampião, e foi a primeira vez que o vi. Ele olhou pro Zé Sereno e perguntou porque tinha me levado. Ele disse: "porque ela vai ser minha mulher". Lampião me achou muito nova. Aí comecei a falar com Maria Bonita, ela me deu uma roupa dela. Ela era gorda e baixinha, mas vesti assim mesmo. Era mato, né? Não tinha nada demais. Ficamos amigas, não tinha tempo pra conversar, mas quando a gente estava cansada dizia: "Ah, isso não é vida"... Mas a gente não vivia só de tristeza não. Às vezes até brigava com o marido...

Eu costurava as minhas roupas, bornais...Não tinha obrigação de nada. Fazia o que queria, comia o que queria. Não tinha esse negócio de obrigação como dona-de-casa, eu era dona-do-mato. A rapadura era o que mais a gente comia, dá sustança às pessoas. Diz que doce dá diabete, mas não tinha nenhum diabético lá no mato. Olha, eu chorei com sede.

Eu mexia com a Mauser, que era um revólver pequenininho, e com o Parabellum, que é grande. A única mulher que atirou mesmo foi a Dadá. As outras não atiravam porque a nossa parte era dar força aos maridos. Parece que eles confiavam muito na gente e nós neles.

Ouvi o primeiro tiro, que já tampou tudo, não enxergava ninguém. Saí sozinha na frente, a polícia atirou e pegou na Enedina. Os miolos dela voaram todos em cima de mim. Continuei correndo e gritando: "Mataram a Enedina!"
Zé Sereno estava vivo, foi ele quem deu a notícia da morte de Lampião, Maria Bonita e todos os outros.

Lampião era uma pessoa que, no silêncio dele, na calma, no sossego, vencia tudo. Tinha caráter, era de respeito.

Nos entregamos na Bahia, quando o Zé recebeu uma carta do governo dizendo que o Getúlio Vargas ia dar ordem de anistia... Um dia deixamos tudo pra trás, saímos eu ele e a menina no colo. Fomos embora no relento, que nem esses andantes, sabe?
Não vou nem falar o que sofri aqui nessa São Paulo. A pior coisa que tinha era quando as crianças diziam: "Mãe, fulano disse que não quer brincar comigo, que sou filho de bandido". Eu dizia: "Vocês não são filhos de bandido, são filhos de gente. Seu pai é Zé Sereno. Um dia vocês vão entender".

Ah... Se alguém me der uma passagem de volta...

(Livre resumo da entrevista com a ex-cangaceira Dona Sila, Revista TPM, Maio 2001.)