sábado, 21 de janeiro de 2017

Livre olhar. Liberdade para filmar.

Assisti pela primeira vez "Diavolo in corpo", Marco Bellocchio, 1986.
Imagino que deva ter sido polêmico na época, devido às cenas de sexo verdadeiro entre os protagonistas. 
Pessoalmente, gostaria de rodar uma cena de sexo explícito em um filme que ainda não pude começar a tentar recursos devido ao excesso de projetos atuais. Mas o meu roteiro pede sexo a vera.
Ok, sei que vai dar uma puta incomodação. Até fumar cigarros em cena querem proibir. A ficção no cinema e no teatro, pra alguns desentendedores de arte, não pode buscar a perfeição.
Lembro de assistir algumas entrevistas coletivas do "Antichrist", Lars von Trier, 2009. Certos jornalistas, diante de uma obra impactante como aquela, só conseguiam pensar nos órgãos genitais do elenco, como se nunca tivessem visto antes ou ficassem pelados só de olhos fechados. Chegavam ao cumulo de perguntar à Charlotte Gainsbourg porque havia aceitado fazer cenas reais de sexo. Ela respondia com sua elegância implacável: - Porque o roteiro pedia.
A atriz tem seu corpo como instrumento e o entrega à obra.
O jornalista tem seu ponto de interrogação como ferramenta e o vende para o senso comum. Calma, não estou generalizando. Nem toda a atriz é destemida e nem todo o jornalista é boçal.
Voltando ao Diabo no Corpo, assim como outros filmes não pornográficos onde há cenas reais de sexo - para quem trabalha com elenco pode ser óbvio o que penso - a intimidade dos atores os fez se saírem mais do que bem em todas as demais cenas. A cena de sexo oral é boa justamente porque não tem o apelo obrigatoriamente fake dos filmes pornográficos. Gostei bastante da naturalidade e me parece que foi nesse laboratório que se desenhou todo o resto. 
Só um parêntese. Eu dou spoilers sempre e não peço desculpas porque não vejo cinema como um joguinho de abobadinhos que não querem ter o sustinho atrapalhado. Geralmente, assisto os filmes fora do seu prazo, acho que tem mais graça, então me sinto mais a vontade ainda pra fazer spoiler, já que a maioria das pessoas já viu mesmo.
Enfim, porque cenas de sexo bem filmadas ajudam a performance de um elenco? Ah, isso é óbvio. Se você tirou a roupa no set, as personagens entram mais fácil. E se você transa com o colega de cena (em cena, não estou falando de fofoquinha sobre casos entre colegas de trabalho), você derruba barreiras que precisam não existir para um filme ser bom.
Os laboratórios que vivenciei como elenco e-ou diretora sempre foram ricos de estratagemas para nos sentirmos mais íntimos e, claro, no processo haviam momentos de trabalhos corporais coletivos que operavam milagres. Daí minha teoria de que quando há cenas de sexo, sejam elas reais ou não, os laboratórios para dar veracidade às cenas vão colaborar imensamente para outros momentos, sejam eles de tensão, briga, despedida, reencontro...
Ok, tomara que isso não faça, como sempre, um monte de senhores se assanharem com piadinhas achando que vou querer transar com eles porque falo abertamente sobre sexo no cinema.
E tomara que não pensem que estou querendo criar um modelo de preparação de elenco que envolva sexo. Não é nada disso. Cada filme é um filme. Estou apenas refletindo sobre o fato de, em pleno 2017, ainda fingirmos que sexo não existe e ficarmos no "ai meu Deus" quando aparece num filme, porém se o filme for pornô com um sexo agressivo machista e ruim, pode. Daí tantos degenerados, abusadores e cretinos espalhados pela sociedade a fora. No dia em que olharmos com liberdade e naturalidade a vida e a arte e onde elas se cruzam, acho que estaremos adultos enquanto humanidade.
Um beijo
biAhweRTher

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

1999 .... ASSISTA O FILME MAIS LOUCO DA DIRETORA DE ARTE MAIS ASSUSTADORA DA CIDADE!

Hoje volto para a beira do mar. Trabalhar no FLõ sob as ondas por uns dias. 
Mas antes de pegar a estrada com as minhas gatinhas quero mostrar um filme que disponibilizei no meu Vimeo nesta madrugada, após muitos anos de pedidos do elenco para que eu o fizesse.
CHAMA-SE "O Fim", Dirigi produção e arte. Fiz a locução, inventei elementais e seres estranhos e pintei corpos nus.
Foi rodado numa quente madrugada de janeiro de 1999, nas catacumbas do CEUE, em super 8. Usamos PlusX e Ektachrome até onde me recordo, mas meus alfarrábios de cronogramas e riders técnicos tem tudo anotado, isso é sempre bem bacana de lembrar e comentar. Os diários de pré produção, rodagem e estréia desse filme valeriam um livro.
Eu tinha vergonha dos meus primeiros porque, sendo uma jovem confrontadora e diferente, passei muito bullying.
O FIM, na verdade não foi meu primeiro filme, em 1997 nós começamos a rodar o 16 mm "A Verdade às Vezes Mancha" e em 1998 comecei a Rodar "Lilith... a Última Viagem do Século". Lilith... rolou o país e fez muitos fãs, estreou em 1999 também, se não me engano. O "Verdade" só estreou no ano 2000, junto com o meu 35 mm "Suco de Tomate" que foi muito mais famoso e rodou o mundo. Naquela época valorizávamos Gramado, mas ninguém aplaudia nossos filmes.
Nossos amigos faziam filmes legais, engraçados ou com citação de grandes mestres. E tinha os filmes loucos do Cristiano Zanella, que eu amava. Mas era quase só eu de mina. Dirigindo eram menos minas ainda. Os filmes passavam e a galera se abraçava e se beijava. Os meus passavam e todo mundo ficava em silêncio.
Eu ia ganhando fãs lá fora enquanto viajava com os filmes, levando oficinas e mostras, o Cinema na Mochila... mais tarde, o FLõ festival do livre olhar.
Mas os prêmios eram mirrados porque ninguém sabia o que fazer com o que nós fazíamos. Alguns jurados vinham se explicar. Ganhamos prêmios de júri popular e isso é bom, mas nunca achei bonito não me reconhecerem como a grande diretora de arte que sou. Isto me magoava muito, pois os entendidos sabem que sou foda e meus amigos que ganhavam prêmios dirigindo arte sabiam que sempre mandei ver como ninguém. Nunca mandei assistente de arte ao xópin pedir roupinha emprestada e pouco aluguei objetos. Sempre desenhei, fiz maquete e construí cada ponto de luz, cada roupa maluca. Fiz mesas. cadeiras e camas penduradas em árvores para nossas cenas...
Enfim... ASSISTAM "O FIM". É um filme de quando eramos crianças mas nele há muitos nomes que hoje são os fodas das artes aqui no sul. O diretor João de Ricardo é um deles. Messias Gonzalez e muitos outros que depois eu linco. E tem até o Carlos Carneiro, que tinha 20 anos, já era a pessoa mais querida e foi assistente pra comprar cerveja pro André Arieta(sem minha cerveja, não rodo) e (quase) aparece no final, como um policial.

NO MEU CANAL: 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Sobre críticos e agressores.

Observei que toda a crítica, até a mais injusta e maliciosa feita pelo pior inimigo, pode ser interpretada e utilizada para o meu bem. Claro, nunca o nosso olhar entende exatamente o que outra voz nos dirige pois as partículas se reposicionam no caminho entre nós e fica só a impressão, a marca do gesto que define se a mensagem é de amor, de ódio, de vingança, de agradecimento... O resto, o texto, é bobagem.
Não são plenamente os critérios alheios que importam numa crítica, mas um diálogo paralelo. Só o receptor da mensagem tem o poder de definir se o tiro é de chumbo ou de pétalas, nunca o crítico mensageiro. A crítica para o crítico é como a obra para o autor, depois que sai, é desconstruída e reinterpretada e não há o que ele possa fazer a respeito.
Assim, concluí que uma crítica, mesmo que muito peçonhenta, é como um anagrama que só cabe a mim transpor,
 Depende apenas de qual parte minha vai recebê-la. Pode ser o umbigo, pode ser o cérebro, pode o coração ou uma parte que não sabia que havia em minhas entranhas ou almas.
Escolher com quais olhos vou escutar e ler é primordial pra que eu saiba fazer uso, ou não, dos olhares extrínsecos.

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A crítica ganhou sinônimo de agressão, quando não é. Quando é agressão, não é crítica. Já recebi críticas bem ácidas de pessoas inteligentes e formadoras de opinião. Era pessoal, pois sou muito politizada e, em nosso meio, se você confronta o estabelecido vai pra fogueira sem dó. Só que aquelas pessoas eram entendidas, tinham a voz e o direito à crítica em espaços especializados. Apesar de injustas, eram formais e eu tinha que fazer uma limonada com elas. Daí, aprendi que mesmo que seja uma crítica maldosa, sem ética e tendenciosa, você sempre vai tirar algo de bom que pode ajudá-la a melhorar. Nem que seja aprendendo a controlar o ego, a ser fria ao ler coisas horrorosas a seu respeito, a saber cozinhar o tema antes de sair dando respostas.

Assinado: A leonina menos egocêntrica da cidade (ou não).

Tudo menos inveja.

Quando der aquela incontrolável vontade de invejar algo legal que alguém fez, saia correndo, se ame e goze.
Depois volte do seu canto com a paz de quem está satisfeito, conheça de novo a invenção do outro e pense:
"Puxa, que coisa bem linda isso! Mais uma pessoa genial como eu, a fazer coisas incríveis que melhoram esse mundo louco, cheio de ódio contra o qual temos que lutar".
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Entende? Não inveje, faça parte \o/
Todo mundo sabe, mas nunca é demais repetir que o pior inimigo do invejoso é ele mesmo. É como servir-se da própria carne aos poucos.
O remédio é amar-se. Gostar de si.
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Observei que o senso comum, essa mania de que só celebridades e ricos de ocasião são possuidores
de dons especiais sobre-humanos é o combustível maior da cobiça que leva a essa raiva cega geradora dos zumbis do século XXI, se esfolando uns aos outros no trabalho, em casa, na escola, no xópin...
Tudo isso não é você, são bobagens que a publicidade, o mau jornalismo, o seu patrão e os rotuladores contratados pelas grandes corporações andam colocando na sua cabeça fragilizada.
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A sofreguidão é tanta no seu coração, que até o tom de voz dos ídolos destes tempos é desesperado. Já notou que cantores, apresentadores, blogueiros, pastores... todos esses milionários que moram em um portal inalcançável que fica do outro lado da tela, todos eles gritam até quase jogarem os pulmões na sua cara? Quando você está em paz, essa gritaria não te representa.
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Você, entretanto, é livre para considerar anormais as emulações obrigatórias, mesmo que alguém te ache um mentiroso por não sentir inveja, gostar da sua vida e não querer a do outro.
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Há modos simples para não se deixar levar por esse surto de sofreguidão que assola a globalização padronizadora dos gostos e o achatamento das ideias e essa mania de sentar diante das telas e ver o quanto o outro é melhor, mais bonito e rico que você. Esse jeito é se gostar, é duvidar da maioria, se conhecer, falar sozinho, se descobrir brilhante e, claro, se masturbar.
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Estão mentindo pra você que você é um invejoso quando seus olhos discordam da maioria e não acham geniais as duplas sertanejas só porque são ricas, nem linda demais a mulher dos lábios injetados só porque está em todos os programas dando entrevista. Essas imagens recorrentes adoecem você e esse é o princípio do surto de zumbis eletrônicos.
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Você não é proibido de discordar e não é invejoso por ser crítico, você apenas está a caminho de ter o seu próprio olhar.
Há em você uma pessoa bem mais impressionante do que há em muitos que você inveja, então se prestar a ser mais um invejando e pincelando ódio no mundo é uma perda de tempo idiota.
Não invejar, é simplificar, é libertador.
Um beijo.
biAhweRTher
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

SOBRE HOMENS INCOMPLETOS E SUA INUTILIDADE

Já me aconteceu de ter parceiras incríveis trabalhando comigo em pré produções e, do nada, elas terem que sair de projetos porque nos dedicamos demais e os carinhas delas começavam a exigir que se afastassem. Teve um ano do FLõ, que a pessoa mais apaixonada pelo projeto foi obrigada a sair e sofreu muito. Era o namorado ou o festival.
Quando se trata de processos livres - não falo de arte vendida em galeria de xópin, mas de hibridismo, festivais independentes, filmes e etc - a gente dorme e acorda com o trabalho porque não existe o critério padrão de espaço-tempo. Não há um relógio que desligue sua criatividade, não há uma parede que defina o local da sua sensibilidade. Tudo e todos são referências e inspiração.
Não estou aqui dizendo que se trata de uma regra, estou apenas elaborando sobre minha experiência como liderança de coletivos, que começou lá nos anos 90 e não é nada pequena.
Desculpae os meninos machos, mas é bem recorrente que quando você está trabalhando só com manas, gays ou rapazes já conscientes da relevância do seu eu feminino,
as coisas vão rolando muito mais intuitivas, profícuas e menos desconfiadas, burocráticas.
NÃO estou dizendo que um grupo sem machistas é perfeito, digo que é necessário. Claro que há discordância entre pessoas criativas e isso é importante, faz parte, é salutar, empurra pra frente. Óbvio que meninas se estranham no meio do processo.
Mas quando há um homem na equipe ou há um homem, de fora, com poder de decisão sobre as escolhas de uma das mulheres da equipe, tudo fica mais truncado e começam a surgir desconfianças.
Dialogar com mulheres, gays e homens femininos sobre processos criativos e levar adiante tais processos é algo parecido com as ondas do mar. Uma complementa, continua a outra.
Nada é duro demais porque a arte necessita de adaptações, a produção e as tomadas de decisão encerram nuances e subjetividades, tal qual as próprias obras que iremos expor, exibir, performar.
 A necessária humanização de um grupo, a sensibilidade de saber que cada qual tem seu tempo e para cada um o tratamento e as expectativas são diferentes... são itens muito mais facilmente alcançáveis quando todos os homens envolvidos são humanos já treinados para entender, aceitar e festejar o feminino que habita todos os seres vivos.
Claro, as linhas curvas dos relacionamentos não deveriam faltar em qualquer local de trabalho, não importa qual a matéria, mas isso é um crescimento que a humanidade ainda levará uns mil anos pra compreender.
Porém, quando o trabalho envolve arte, daí todos os espinhos fálicos e todos os cantos angulares das relações devem ser p r o i b i d o s. Simples assim. Num coletivo que trabalha com arte, não cabem pessoas que vêem as mulheres como seres menores a precisar de alguém que pense por elas. Em um coletivo que trabalha com expressões artísticas não cabem homens que pensam que todos os gestos de uma mulher são recatos para seus pênis. Pessoas que oprimem a si mesmas inutilizam as vivências saudáveis, minam, desmotivam, corroem.
Gentilezas \o/
biAhweRTher

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O mesmo diário.

Balanço na rede amarela, olhando, escutando, me afogando no mar. Ao meu lado, Júlia Albertine, perra leal. Ao redor as felinas, Uma e Glau, uma atenta, outra preguiçosa.
Praia vazia.
Foram-se como chegaram, histriônicos, eletroeletrônicos, glutões, alcoolizados. Em nome da paz, as bombas assaltaram a tranquilidade dos animais.
A despeito do rastro de latinhas e ossos, os pássaros estão em festa.
O ano não é novo, o ano não existe, assim como as fronteiras espaciais que dividem os jardins, as cidades, os países, guardando retirantes de olhos fundos no limbo do tempo e do espaço.
O ano não é novo, é apenas um número qualquer que marca o início do círculo carcomido. A vida humana é uma cobra que devora o próprio rabo.
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Balanço na rede amarela, pra lá e prá cá, namorando o mar.
Resolvo visitar a outra rede, que se diz social. Antissocial. Segue a mesma, como nos últimos dias, todos esquizofrênicos. Tentamos pensar positivo mas desistimos, tentamos acreditar mas duvidamos, tentamos nos fortalecer mas nos divorciamos.
As notícias hoje – confesso que li por alto – são sobre as primeiras tragédias do ano. Prefeitos fantasiados assumem seus postos, cinismo, descrédito. Novas notícias sobre assassinatos no país em nome da intolerância e do extremismo.
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Antissocial, largo a rede e fico na rede amarela, o mar está verde, o mar está tanto, o mar está. Um rapaz se aproxima do portão:
- Oi, quer milho verde?
- Quanto? - Negocio o desconto. Ele conta uma receita que sua irmã inventou.
- Tchau, guria!
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Algum vizinho solta duas bombas, livrando-se do estoque que sobrou. Lembram tiros de canhão ou algo assim. Mais uma bomba.
Pensei em começar um movimento anti bombas nos festejos. Em nome das bombas que estão matando crianças nas guerras, em nome dos animais que não tem nada a ver com nossos valores doentios. Pensei... não sei. Vai que algumas pessoas aderem... Soltar bombas em festejos nos tempos de guerra (que são todos os tempos) me parece um deboche, um sarcasmo, algo de criança má, egoísta, mal educada.
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Mais tarde, se não chover, vou sair dessa rede e caminhar até a reserva Tupancy, encontrar as capivaras que este ano ainda não vi. O parque, agora, é uma espécie de zoo para divertir humanos e não um local para preservar as características nativas.
Hoje, os loteamentos oprimiram o Tupacy e o transformaram num intruso entre os carros de som e o exibicionismo. Já não se vêem mais os orgulhosos casais de marrecas desfilando com seus filhotes rumo ao mar. Não mais.
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Aproximam-se nuvens. Tomara que chova no final da tarde, daí eu vou lá na vendinha e compro farinha e faço bolinhos de chuva e começo a reler alguma biografia. Verão sem biografias foda pra gente comentar o ano todo, não é verão.
O bem te vi canta como se a vida fosse perfeita. As aves negras dão rasantes nas ondas. O casal de quero-queros ensinando o pequeno filhote a voar, o mar, o mar, o mar...


Um beijo.
biAhweRTher


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Terapeutas e Réus

Outra decisão para 2017 é tentar julgar menos.
A gente vê o tempo todo a galera afirmando que não julga os demais, pois julgar os outros é coisa de babaca.
Impressão minha, ou chamar alguém de babaca é um julgamento (emissão de conceito, opinião sobre alguém ou algo)?
Por isso, talvez o melhor é a gente assumir que julgamos, sim.
É tão da nossa natureza que institucionalizamos o julgamento como o topo na solução de conflitos em todos os sistemas organizados (ou nem tanto) da existência humana desde o início dos tempos. Aliás, já se sabe que várias comunidades não humanas se resolvem em julgamentos.
Não é de todo ruim julgar, ruim é não pensar, elaborar, aprimorar e ser imparcial.
Deixar de julgar os outros duvido que deixemos e nem adianta mentir. Talvez o que devamos mesmo é nos embasar mais, termos mais conhecimento dos fatos e do caráter daquele que tomamos por réu em confronto aos nossos próprios critérios de ética e conduta em momentos de disputa ou mesmo de exibicionismo.
Porque né... entre tantos julgamentos, a gente sempre julga que a razão é nossa.
O melhor modo é pensar bastante. Espichar muito o pensamento. E, no caso do nosso país, bastante terapia.
Isso! Que em 2017 o Brasil consiga fazer uma terapia em grupo. Eu to dentro e até participo da vaquinha pra pagar a equipe de terapeutas que vamos ter que importar de algum lugar. Talvez da Islândia? Do Uruguay? De Galápagos? De um planeta distante?
Um beijo.
biAhweRTher

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

2017 ANOS ENFRENTANDO TROLLS.

Enquanto meu perfil principal segue bloqueado porque postei uma foto de arte onde quase se podia ver um mamilo, as redes sociais fazem um pacto com grupos que as utilizam pra organizar ataques a feministas, gays, negros....
A maior parte das páginas de incitação e organização de espancamentos e perseguição está nas redes sociais em grupos fechados e até fanpages.
Estava pensando agora nas grosserias que um certo ex-músico e seus seguidores (muitos deles fakes cheios de ódio de mulheres, negros e gays) me fizeram no tuíter pelo fato de eu defender a liberdade de gênero. Ainda bem foi pela internet pois haviam ali perfis de pessoas bem perigosas, como um tal de @O_Martorelli que odeia refugiados e pessoas do sexo feminino. Suas postagens são, na maioria, abusivas ao extremo, não se tratam de "opinião" mas de ódio gratuito e ainda assim segue ali, agredindo e ameaçando quem bem entender.
Os espancamentos, como o que levou à morte aquele senhor assassinado por defender travestis, acontecem todo o tempo em versão virtual nas redes sociais e por que a maioria das pessoas não tem defesa, eles vão se fortalecendo e indo espancar nas ruas.
Desta vez, tudo começou por eu lhes dizer que deveriam respeitas as pessoas que não tem uma família "tradicional".
O ex-músico passou a me perseguir e incitar outros a cometerem deboches. Mas não era de hoje que me tratava como uma idiota e trazia seus seguidores para me atacarem.
Printei o que me disseram e bloqueei o mentor e os mais grosseiros,
Em um mês é o segundo caso de ataque moral na internet que vou levar para a justiça, após muitos anos passando de tudo.
Acredito que, como alguns já tem feito no exterior, o certo é começarmos a processar os administradores das redes sociais.
Por exemplo, no caso das recorrentes perseguições do feicibuque ao meu trabalho como fotógrafa.
E sobre as gangues virtuais, percebi que muitas pessoas estão processando este tipo de agressão e ganhando causas.
Resolvi que é o certo a fazer. Assim é que eles vão parar, quando perceberem que ninguém mais os teme. Até porque não adianta ocultar-se sob um perfil falso. Há maneiras bastante simples de revelar seus rostos.
E essa é uma das minhas decisões para o novo ano.
Não vou deixar de divulgar meus trabalhos, como muitos me aconselham pra eu "não me incomodar." Nem vou "tomar cuidado" ao defender a igualdade e o respeito.
Serei eu mesma mais do que nunca e não vou fugir da internet e perder meus fãs, meus clientes, meus parceiros e a possibilidade de ver todos os dias amigos que estão longe.
Seguirei sendo eu mesma e, se for o caso, processarei até esse tal de Deus preconceituoso que alguns falsos religiosos inventaram pra usar como desculpa para seus atos psicopatas e fortunas sujas.
De resto, adoro ano novo com chuva porque daí estraga a festa das poluições na beira da praia, os pássaros cantam livres, dá pra ler um livro de boa escutando o mar.
Renovar as energias no silêncio e em paz.
Um beijo.
biAhweRTher

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O VÍDEO MAIS INGÊNUO DA CLARICE FALCÃO

Estava escrevendo um texto sobre o clipe da Clarice Falcão, que deixou tantas pessoas com ódio dela, mas sou demorada. Então vou postar aqui uma compilação de impressões que escrevi pra algumas pessoas que, sabendo do meu trabalho com nu, vieram me perguntar o que achei do vídeo.
Primeiramente, quero dizer que se você não conhece o trabalho e a relevância da Clarice entre jovens, talvez não tenha entendido bem (embora eu ache que a simplicidade do filme descomplica o entendimento se você é uma pessoa envolvida com comunicação, arte, internet, desconstrução do moralismo).
Clarice, juntamente com seu ex namorido Gregório prestou um super serviço e seguiu sozinha e maravilhosa depois de se separarem. São pessoas livres, leves, esclarecidas, cultas e desmontam essa bobagem de que "essa nova geração é alienada e mimimi".
O trabalho deles com o Porta dos Fundos foi fundamental, é revolucionário no que se refere a usar a internet pra questionar o momento político moralista, carola, direitista, fascista do país.
Clarice é uma mina filha de pais intelectuais, me sinto à vontade com os discursos dela porque também cresci numa casa entre livros, informação e pensamento esquerdista.
Como toda a mana de hoje, ela defende o empoderamento feminino e debocha do medo que as pessoas tem da realidade, como por exemplo o medo do pênis e da vagina porque tentam nos obrigar a fingir que nosso corpo é vazio no meio das pernas.
Dado o contexto, vamos ao clipe.
É um filme claramente debochado e ao mesmo tempo complexo em sua simplicidade infantil,
Sim, não é imoral, mas bem infantil o modo como a equipe criativa retratou a nudez.
Quem conhece o trabalho dela, sabe que a estética da Clarice incomoda as pessoas que ainda estão muito ligadas em explicações acadêmicas para a arte. Ela irrita sobremaneira aqueles que consideram imprescindíveis os vibratos e as superproduções. E por outo lado, o clipe incomodou muito quem faz e pensa vídeo clipe do mesmo modo como tecnicamente se contróem os filmes de casamento. Ou seja, você tem que usar um padrão e você tem que fazer uma vitrine de equipamentos e softwares.
De todas as raivinhas que li sobre o clipe a que menos entendo é o choque com a exibição dos pênis e das vaginhas, já que a nudez ali está super natural, sem qualquer apelo erótico.
Aliás, aí está o mérito do vídeo.
Ela mostra órgãos sexuais com tanta naturalidade e infantilidade que ninguém sente tesão e, pra mim, é por isso que irritou a galera que prefere mulher pelada chupando a barriga no comercial de cerveja e paus agressivos em cenas machistas de filmes pornô.

Um beijo.
biAhweRTher

VOCÊ PRECISA ENTENDER QUE O MUNDO MUDOU!

Várias pessoas que leem meus textos e acompanham os comentários já perceberam que sofro assédios nauseantes de um sem número de senhores repugnantes que frequentam meu feicibuque.
Mais uma vez, vou comentar o fato pois não sou só eu, claro, que passo por isso.
Não sei quanto às outras mulheres, mas sinto um nojo tão profundo que não dá pra traduzir em palavras. É a mesma sensação que nos vem quando algum estranho passa a mão na rua. É um misto de ódio, náusea e impotência. Triste demais.
Me constranjo, fico me policiando quando redijo um texto, reviso várias vezes ou deleto quando percebo que geram comentários que parecem diálogos de filme pornô dos anos 1970. 
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Eu não tinha que explicar isto, mas ontem, quando teci comentários sobre os caras me azarando no supermercado porque eu estava sozinha de minissaia as onze da noite comprando vinho, fiz uma crítica, uma piada sobre o fato de muitos homens não terem ainda desembarcado em 2017. 
Estava rindo da cara dos homens e não pedindo cantadas baratas nos comentários ao post.
Também, se escrevo um texto sobre a sensação de sair sozinha de carro à noite escutando música e cantando pela cidade, não tem entrelinhas, é uma coisa que faço há anos quando quero ficar c o m i g o, bem feliz, pois eu me amo e a d o r o minha companhia. 
Não estou procurando homens pelas ruas ou na internet. 
Não sou de comentar minha vida pessoal, então não sei de onde tiraram que estou procurando namorado ou um sexo casual. Não entendo os convites insistentes de alguns homens horrorosos pra sair no sábado, como se eu por acaso, só porque não posto selfies bregas agarrada num dono não tivesse com quem sair no sábado!!
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De uma vez por todas, quando estou sozinha não é porque não tenho sexo no meu lindo lar-ateliê que vocês nunca poderão conhecer, mas simplesmente porque não sou propriedade de ninguém e foi-se o tempo que uma mulher tinha que andar 24 horas por dia com um dono levando-a pela coleira pra que não ser assediada. Mas que história é essa de me tratarem como uma mulher que, por não expor um status de relacionamento, não exige que vocês metam seus rabos no meio das pernas?
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Isso que vocês fazem senhores, essas piadinhas metidas a elogios, são abusos que atrapalham imensamente a tranquilidade da gente, tiram o direito de ser o que somos, de brincar, de rir. 
É muito ruim ter que cuidar tudo o que se diz pois algum senhor desesperado sem tratamento psicológico pode pensar que é uma mensagem direta pra ele.
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Alguns agem inbox e são de uma insistência inexplicável diante do silêncio. Talvez dentro da lógica dos abusadores, se você cala é porque consente ou está se fazendo de difícil.
Outros ficam com piadinhas em comentários públicos que eu deleto sem pedir licença, pois não sou obrigada... 
Mas como são muitas pessoas e comentários, às vezes demoro pra ver que alguém passou da linha do respeito, então fico profundamente envergonhada quando percebo que algo nojento está por horas ou dias entre as reações e antes de eu deletar alguém já leu e resolveu andar também pelo viés dos mal amados (que são aqueles homens que ainda não entenderam que internet é vida real, não um enorme chat pra buscar um sexo virtual enquanto a sua senhôra ressona).
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Não estou dizendo que caras mais novos também não sejam inconvenientes e despreparados para a naturalidade no relacionamento interpessoal, como se não fosse natural andarmos por aí vendo que existem pessoas de todos os gêneros e o mundo não é um imenso puteiro cheio de meninas e meninos à disposição das suas mãos e teclados lamacentos. 
Mas, infelizmente, precisamos assumir que os senhores de mais de 50 anos, quando resolvem se expor ao ridículo são imbatíveis. 
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Quando eu era pequena, minha mãe vivia reclamando disso. Não tinha internet naquela época, mas os vizinhos mais velhos eram como os de hoje, mesmo sabendo que ela era uma moça casada, na dela com seus filhos, vinham abordá-la com elogios (eles juram que assédio é um elogio brincalhão) e ela sofria muito com isso, mas acho que não comentava com meu pai e nem comentava com as amigas, pois muito provavelmente eram as esposas dos tais vizinhos. Sofria quieta, mas os tempos mudaram e eu comento porque isso pode ajudar de algum modo.
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Não sejam tarados abusivos, não venham com a velha desculpa de que o meu modo de escrever ou vestir é o problema pois o problema é a sua interpretação abusiva.
Se escrevi algo que lhe pareceu uma insinuação, seja menos egocêntrico; se usei minissaia e acha que só pode ser porque quero dar pra você, procure um terapeuta; se fui no supermercado sozinha comprar um vinho e só por isso você pensa que eu estava caçando, você está se tornando perigoso; se eu escrevo que saí de carro sozinha escutando música e você interpreta que fui em busca de um homem, se enfie numa camisa de forças.
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Não senhores, ninguém está procurando vocês. Possivelmente nem a esposa de vocês os quer e já tá preparando as malas faz horas pra ir embora com um cara que vive no nosso século.
E quando eu escrevo que alguns homens ficaram com os olhos em cima de mim porque eu fui no super de minissaia toda linda buscar um vinho, eu não estava me sentindo lisonjeada porque estar linda é uma contingência que independe de vocês. 
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Ninguém é bonita pra vocês, tirem essa idiotice da cabeça! Ninguém sequer nota vocês, tanto que precisam vir na internet fazer comentários horrorosos em textos de minas livres.
Nós somos bonitas quando estamos realizadas e felizes, somos bonitas pra nós mesmas.
Quanto a mim, ainda estou puta da vida com as reações ao meu texto de ontem, não preciso usar uma merda de um super mercado pra arrumar sexo pois sou tão maravilhosa que minhas relações pessoais são duradouras, saudáveis, lindas e se dão de modos não desesperados. 
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E não esqueçam, busquem uma terapia senhores, virem gente, desembarquem em 2017 ou abandonem o barco e vão viver em outra dimensão.
biAhweRTher

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

GASLIGHTING É TENDÊNCIA.

De dois em dois meses algum homem feio, grosseiro, desses que acha chique jogar cocô no mar gaúcho, odiar nordestinos e brigar por causa de futebol, invade meu espaço para me ofender. Claro, pelo tipo de vida que levo, esses homens nunca terão a mínima possibilidade de me ver de perto, ver o quanto é linda a minha vida, as minhas pessoas, leves os meus dias no meu lar-ateliê com as pessoas que amo, meus clientes, amigos, as gatas e a minha cadela Júlia Albertine. Nunca terão o direito de vivenciar, entender meus processos criativos, participar dos meus projetos voluntários ou ser motivo de inspiração pra meus filmes, contos, poesias visuais, retratos e risos.
Mas eles vem. Noto que ficam à espreita, juntando ódio a cada post meu, a cada vitória, a cada texto que muita gente partilha, a cada imagem que toca pessoas, cada obra que alguém compra, cada elogio que recebo.
Eles ficam no sombrio espaço dos stalkers e, um certo dia, não aguentando tanto ódio de uma mulher feliz e livre, eles cospem.
Como hoje, um senhor bem grosseiro, que nunca teria acesso a mim sem ser metendo o pé na porta, entrou em minha timeline e nas mensagens inbox com a desculpa de defender o governo Sartori, que venho criticando.
Ele veio do nada, nem sabia que era seguidor da minha página e não entendo por que o é.
Veio e me chamou de louca, mal amada, doentia, petralha, esquerdopata, solitária, doente (mais uma vez), mal recebida em todos os lugares (oi?), necessitada de tratamento, sem amor (mais uma vez) e tudo aquilo que os machistas decoram no curso de gaslighting.
Depois de dizer tudo isto, ele riu: "estou tremendo de medo", "não falei nenhuma mentira", "o que falei não é ofensa"...
Eles vêm, e na sua masmorra não os ensinaram que ao chamarem uma pessoa de louca eles precisam não só provar como pagar pelo dano moral.
Infelizmente pra ele, não sou solitária. Mas tenho mil amigas que optaram pela solidão e são muito felizes.
Infelizmente pra ele não me falta sexo, Mas conheço mil gentes que preferem não fazê-lo e estão bem de boa....
De ontem prá hoje vi várias pessoas de esquerda, mulheres, trans, músicos e atores anunciando que estão ganhando na justiça ações contra tais desocupados. Me parece a nossa melhor saída.
Optar pela humanidade não é uma decisão fácil no planeta das luzinhas tecnológicas e do vício em compras. Mas força na peruca! Sou esquerdopata :)




Um beijo.
biAhweRTher

A mão do monstro

Já passei momentos tristes por causa dos meus projetos de auto retratos nus. A qualquer divulgação de exposição ou de processo criativo, qualquer pedacinho de um retrato e já me denunciam, ofendem, o feicibuque bloqueia, ameaça, perco minhas fanpages, anônimos me insultam em meu blog. As mesmas pessoas que me odeiam por causa da arte sobre o meu corpo, estão todo sando dia festejando a publicidade que objetifica a mulher, usando o corpo nu pra vender apartamento, cerveja, pastel, barbeador...
Precisamos falar sobre isso, de eu não poder ser dona do meu corpo. Se meus retratos são arte e refletem, ilustram, discutem, perguntam eles são imorais. Mas se meu corpo estiver a mercê, não for templo de minha própria expressão, mas objeto de uma fila de homens que se masturbam. Se meu corpo deixa de ser meu e seu retrato passa por outras lentes, filtros e pós produções como um objeto que vai servir para vender produtos, daí minha nudez não ofenderá, não irritará, não te levará a enojar-se e me denunciar?
Me explique sobre o seu moralismo e a minha imoralidade.
biAhweRTher


A MÃO DO MONSTRO. auto retrato - câmera lomo em caixa estanque - 35 mm - interferência digital, aqualine e canetinhas coloridas.
Hey pessoas, o meu livro Moscas Volantes, finalmente vai sair da internet e dos meus rabiscos amassados na gaveta das calcinhas e vai ganhar. em 2017, bem no meio do FLõ festival do livre olhar, uma sessão de autógrafos. O processo criativo, claro, vocês vão acompanhar - alguns já o fazem - alguns dos rascunhos no meu blog. Acho que já tenho uma revisora, mas antes eu mesma vou revisar os contos já publicados e os que escrevi a mão ou na máquina de escrever (sim, às vezes uso isso). Aqui vai um dos contos, ainda no rascunho porque não me importo de mostrar meus erros.
http://biahwerther.blogspot.com.br/p/moscas-volantes.html
>>>Moscas Volantes e O conto dos anjos
E Rita seguiu seu caminho errante.
Morreu, nasceu, coloriu as crinas dos cavalos, rasgou as bandeiras, visitou um cemitério no interior do Uruguai, descansou nas armadilhas e desembarcou, finalmente, em 2015.
O mundo estava outro, o mundo estava louco! Choviam navalhas e, à noite, todos bebiam drinques feitos de olhos, línguas e bílis e riam e babavam e rezavam e clamavam, inquietos e barulhentos.
Arranjou um emprego! Regadora de campos minados e cuidadora da fogueira nos arredores da cidade. Lá se apaixonou pelo rapaz que consertava as minas e guardava segredos. De Rita, ele soube tudo. Sorriso encantador e olhares com luzinhas dentro, nas longas tarde do campo minado, ele perguntava e perguntava, se deleitava com as respostas mas de si nada revelava.
Nas noites de sábado, ela ficava só, mantinha o fogo sempre aceso, tinha medo. Escutava os fantasmas do passado e jantava suas dúvidas, brindando com os besouros.
Naquele ano, muito se falou em Deus e o namorado de Rita falava também. Mentia e orava a Deus, egoísta citava Deus, faltava e chamava Deus, se esquecia e esperava por Deus.
Num certo final de semana, Rita se distraiu. Esqueceu de manter acesa a fogueira. Resolvida a voltar para os caminhos do tempo, levou apenas o cantil com o que restara da água no regador. Deixou secarem as minas. Asas no deserto.
Na segunda feira, quando chegou no campo de trabalho para fazer a manutenção das minas, ele a procurou no silêncio. Ao lado de uma fogueirinha apagada, apenas os besouros a lhe entregar um bilhete que dizia:
“Meu amor.
Se aceito que você me engane, se finjo que não sei, não é porque sou tola, mas para não constranger suas escolhas. Se permito que me use para alimentar suas tardes tristes nesse campo minado cinza para, longe de mim, exibir como troféus as violetas que colheu das minhas veias, não é porque sou ingênua. Apenas me parece uma troca justa! Você me dá suas esmolas e eu lhe dou os sonhos que me sobram e nem tenho onde guardar, pois sigo sem parada, sempre a procurar.
Se deixo que encare a mim como um parêntese, um hiato, o dia de folga do que realmente importa na sua existência pálida é apenas porque me basta ser o espelho, o seu lado inverso, o ponto que renega, o que você mais oculta, o nervo, a parte que te envergonha. Sou aquilo que você nunca conseguirá resgatar do porão, aquela que você guarda no sótão e, pra te agradar, consegue caminhar sem tocar o solo, sem fazer barulho no piso, sem deixar pegadas no chão. Porque eu flutuo e, sendo assim, me vou.
Fui os teus cinco minutos, você a lâmina afiada. Sou o teu segredo, você foi tudo, mas agora que matei suas minas... agora você é nada.
Adeus. Rita de Cássia”

biAhweRTher

sábado, 17 de dezembro de 2016

Porque o meu festival nunca foi exclusivo para exibição de filmes?

Primeiramente por que festivais de cinema se assumem "competitivos" e não me sinto bem em festividades onde as pessoas se encontram, sorriem, bebem juntas, mas no fundo querem provar que são melhores umas que as outras.
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Trabalhar com cinema, aqui em casa, é diferente do jeito como todos os meus amigos cineastas trabalham. Eu acreditava que era pelo fato de eu fazer artes hibridas e, para muitos especialistas em cinema, isto é algo que transita entre a traição e o amadorismo.
Porém, com o passar dos anos acabei aceitando o fato de que a minha desobediência resistente, a minha falta de pressa e meu gosto pela falta de foco, não me trouxe tantos inimigos assim. Gerou fofocas, batalhas e, sim, pelo menos um inimigo que quer até hoje me ver morta (chegou a me dizer isso na cara), alguns invejosos e meia dúzia de fofoqueiros que já desistiram de torcer pela minha derrota, pois a essas alturas já se viu que o meu jeito de viver e laborar não dá espaço para derrotas já que eu as incorporo no processo e as transformo.
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Mas a verdade é que desde o primeiro dia em que apareci no mundo dos cineastas com um ponto de interrogação na ponta da língua, a maioria foi com a minha cara ou, se não foi, aprendeu a me aceitar e relaxou.
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O que mais me torna inconveniente em alguns momentos, insuportável em outros e fora da turma sempre é o fato de o cinema brasileiro ter uma história baseada no machismo.
Na cidade onde moro isto ainda é muito presente, mas de modo geral noto que ainda não se confronta muito esse fato.
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Por exemplo, já vi dezenas de vezes meninas e meninos do cinema beijando os pés da Helena Ignez não por ela ser quem é, por ter transcendido a objetificação, mas por ter sido "musa" do Cinema Novo e do Cinema Marginal, esposa de "nada menos" que três monstros sagrados do cinema nacional: Glauber Rocha, Júlio Bressane e Rogério Sganzerla.
Preciso confessar que o mal estar que me causa a designação "musa" transcende o estômago e vai até a minha aura.
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Cinema, para mim, desde o primeiro momento em que peguei em uma câmera ainda muito jovem, já querendo rasgar o roteiro, é um lugar onde as pessoas envolvidas vivem. É um planeta em outro tempo-espaço, paralelo.
Neste planeta existem os mais ricos e os mais pobres, os bem comportados e os subversivos, os livre e os comprometidos, os que repetem modelos e os que não os aceitam.
Mas é um universo paralelo cheio de códigos e dogmas internos que alguns, entre eles eu, não respeitam.
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Quando dirijo um festival que mistura o cinema com outras artes e tira ele da sala e busca filmes experimentadores, sinto que alguns colegas me olham como se eu estivesse desconstruindo o templo, usando o banheiro com a porta aberta. Pois se a competição não é o princípio, os segredos são desnecessários.
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O hibridismo expõe, funciona como uma suruba criativa, inventiva aumentando nossas possibilidades de viver a vida real. Para alguns é imoral, para outros é libertação, objetivo, missão.
Em todas as minhas viagens de cinema eu filmava uma cena dos passos das pessoas comuns no lado de fora das salas, encontros, premiações, debates... Mais tarde, estudando no Instituto de Artes da UFRGS eu fazia o mesmo, ficava na frente daquele prédio filmando as pessoas que por ali passavam sem precisar de nós, sem interesse em saber qual tipo de atividade acontece dentro daquele prédio...
Ali fora do nosso limbo, dezenas, centenas, milhares de pessoas passam pra lá e prá cá vivendo suas vidas, correndo seus caminhos sem dar conta da nossa existência vaidosa, sobrevivendo sem precisarem de nós.
Chegar a essas pessoas sem ser marionete das grandes corporações talvez seja possível se nos sentirmos parte, como o menino empacotador, tal qual a secretária do dentista ou o dono da padaria. E algo me diz que deixar de lado essa necessidade de definir qual arte ou artista é melhor ou se expressa de modo mais certo, mostrar a intimidade da arte com processos abertos e vivenciar a multi-expressão talvez sejam ótimos caminhos.
Agora, se você acredita que um cineasta não é um artista, possivelmente não chegou até o final do texto.
Um beijo.
biAhweRTher

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

DO ALTO DE SUAS TORRES, OS PRÍNCIPES NOS INVEJAM

O discurso de Madonna ao receber prêmio de Mulher do Ano pela Billboard é viral. A confirma como uma das mães das feministas que minam e transfiguram o mundo pop nestes tempos globalizados.
Ela e outras da sua geração abrira na indústria machista de personalidades pops, indiscretas torneiras que foram gerando cascatas obscenas.
Hoje temos de Lady Gaga à Valeska Poposuda usando seu poder dentro da própria indústria para dar exemplo de libertação, desconstruindo a ilusão de que existe um perfil e um nicho exclusivo para a mulher feminista.
A quem interessa um enquadramento das feministas?
Quem acredita que feministas precisam ser letradas, ou discretamente maquiadas ou bem comportadas, ou "básicas", ou sem sutiã, doutoras, ou engajadas em grupos institucionalizados?
Nada disso!
Liberdade é para todas, seja uma índia velha, uma puta nova, uma dona de casa solitária, um perua, uma Madonna ou a Xuxa... uma trans, a Laerte Coutinho...
Mulher é mais que uma mãe dócil ou uma boa comunicadora, vai além do útero e da representação, transcende o óbvio, o volume do quadril e o agudo da voz.
Você pode dar o grito de liberdade dentro do seu quarto na periferia ou no microfone como mulher do ano.
Dançarinas de funk ou bailarinas clássicas, escritoras de auto-ajuda ou anarco-feministas, todas podemos e devemos viver, querer e ser.
Disputarmos para ver quem é mais feminista é tão machista quanto puxarmos os cabelos brigando pelo pau do cara imbecil que trai a sua mina e ainda sai dando risada porque as loucas se pegam por causa dele ao invés de se abraçarem e saírem avuando pelo mundo.
A guerra entre as manas tem os dias contados.
Cada vez mais garotas estão repensando o sentimento de inveja que aprenderam a sentir das mulheres "loucas"; a raiva que foram educadas para sentir das mulheres livres; a concorrência que lhes foi incutida.
Se cuidem, manas, porque essa obrigação de achar que mulher que mostra o corpo é objeto sexual pode ser uma pegadinha bem amarga. O corpo é seu, faça com ele o que bem quiser. Recatadas não são elegantes, são apenas medrosas.
...
E aqui no mundo onde fazemos arte, a verdade grita.
Seja entre artistas independentes, seja entre grandes nomes, as minas mandam, hoje, nos bastidores e nos palcos.
Ok, pra isso ainda enfrentamos deus e o diabo, que são amigos inseparáveis quando o tema é feminismo.
Ainda há muitos caras com síndrome de barbie tardia, reclamando se a mina tá velha, se tá gorda, se é negra, se é trans... Mas enquanto se iludem que podem impedir que sejamos o que bem quisermos, a gente faz sucesso. Esperto é o cara que aceita, pra doer menos e desapega dos abusos que treinou e o levam a sujeitar-se à masmorra da existência humana: o principezinho preso na torre.
....
Olhe ao redor, se você é artista, e compare. Quando uma mina foda se coloca e enfrenta, ela faz mil vezes mais sucesso do que um cara que faça a mesma atividade (muitas vezes roubando ideias das suas garotas).
É que exatamente o inexplicável que trazemos de nascença e que os homens usam contra nós para exercer preconceito, domínio e exclusão; exatamente os sextos sentidos e as "loucuras" de mulher que nos fazem sofrer Gaslighting é o que nos faz destacar-nos.
Cada vez mais o empoderamento das minas está mostrando que quando uma mulher se ama, o cara inteligente não tenta competir pois tem uma grande probabilidade de sair perdendo. E é daí que vem a tortura psicológica. Tentam nos convencer de que existimos para agradar e servir homens porque, livres, descobriremos que o poder feminino é infinito.
...
Se te chamarem de louca, agradece.
Para os homens que passam pelas nossas vidas tentando nos escravizar e explorar nossos talentos enquanto nos tentam diminuir, há um único conselho:
Carinha, faz a sua, de boa, sem querer pisar na mina que está ao seu lado, pois a grande probabilidade, se quiser brincar de pódio, é você sair perdendo. Hoje em dia, a sua mina nunca está exatamente a mercê, sozinha no mundo.
Enquanto você se mantém encastelado, no mundo feminino tudo está no seu lugar, graças a nós mesmas.
biAhweRTher
Um beijo
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"Estou aqui em frente a vocês como um capacho. Quer dizer, como uma artista feminina. Obrigada por reconhecerem minha habilidade de dar continuidade à minha carreira por 34 anos diante do sexismo e da misoginia gritante, e do bullying e abuso constante.” Madonna
....

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Crônica da Noite Pacata

A moça na vendinha com o filho pequeno, olhando os preços das garrafinhas de cerveja.
O filho grita:
- Mãe, posso pegar um sorvete?
- Pode!, responde ela.
O rapaz da vendinha:
- Tu não quer levar 6 longnecks por 30 reais?
- Bá, eu ia levar uma, mas já que tenho exatamente 30 pila, me dá as 6.
E eu pensei: "Mas e o picolé da criança?"
Dois minutos depois estou eu com a minha cadela na rua e ela logo na frente, já com uma cerveja aberta, bebendo feliz da vida.
E o menino triste, sem sorvete, ao lado dela.
Sério, chorei.
(...)
Curiosamente, no mesmo prédio que ela adentrou com o menino que, só ela não percebeu, tinha uma bola de tênis na garganta,
um homem de cinquenta anos matou a mãe ano passado, e ficou convivendo com o cadáver em uma caixa que ele cimentou no quarto dela. 
(...)
Antes disso, nessa tarde, furtivamente, visitei Cecília, a peguei no colo e cantei para ela A História de uma Gata. Mas isso já é para outro blog.

biAhweRTher

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

o olhar é único, mas o festival é coletivo

Após 5 anos de descanso, pois eu precisava cuidar do meu trabalho autoral e tempo pra estudar,
estamos voltando com o FLõ, o meu filho mais complexo, mais diverso, mais plural e mais livre.


TE INSCREVE: http://livreolhar.wixsite.com/meuflo

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ACOMPANHA: https://twitter.com/FLo_livreolhar
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PERGUNTA: flo@cinema8ito.com

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Chape

Eu conheci bem Chapecó, na época que o André coordenava a pós de cinema lá. O lugar que mais amei e visitei algumas vezes para fotografar e viver junto à borboletas azuis foi a Trilha do Pitoco. Mas em geral era visitado por turistas, pois os chapecoenses são super tranquilos e MUITO trabalhadores e focados. Vários nem sabiam que ali pertinho da entrada da cidade estava um paraíso com suas cascatas.
Futebol é um momento solene, mas nem torcendo são muito espalhafatosos. Há pouco pra se fazer nas noites. O xópin de lá é pequeno e quando eu frequentava a cidade era bem novinho, mas uma das poucas distrações. Não era pesado como os nossos, pois as pessoas não ostentam tanto em roupas e perfumes. Eles gostam mesmo é de ficar passeando de carro no sábado, pra lá e prá cá, escutando sertanejo. Mas não fazem barulho até tarde.
A gente fazia jantares tarde da noite e ficávamos no jardim numa piscininha, no meio da semana, e os vizinhos não entendiam nada pois madrugam todo o dia e vão trabalhar. Nos sábados acordam cedo, lavam o carro, cortam a grama.
É uma cidade bem religiosa, pacata e ingênua. Uma sociedade, claro, com alguns preconceitos pois é uma população da serra, na maioria branca. Havia um mendigo só. Sério isso. E algumas vezes moças me olharam com desconfiança no aeroporto, pois era a única mulher de short embarcando sozinha a noite. Sim, isso também é sério.
A tragédia com o Chapecoense, numa cidade como aquela, é um trauma de proporção que nós, calejados da agressividade e do ódio em Porto Alegre, não teríamos condição de compreender.
Quanto à homenagem na Colômbia, é um tipo de amor que nós, brasileiros, perdemos pelo caminho. A chave caiu no bueiro.

Um beijo.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Avós Vampiras.

Quando meu filho era pequeno, eu sofria preconceito e tentavam me afastar dele porque eu não comia carne, porque eu tinha uma banda, porque eu fazia filmes, porque eu não queria fazer concurso....Tinha vezes que eu ia buscar ele na escola e a vó dele já tinha pego e levado pra casa dela, pois dizia que eu não o cuidava direito. Quando eu ia nas reuniões de pais, ela já estava lá, dava presentes pra vice-diretora. Nas fotos, eu estava sempre do lado, abatida, e ela agarrada nele, proprietária. E daí ela dizia pras tias e amigas que eu era omissa. Várias pessoas me odiavam e olhavam pra mim pensando coisas ruins, muito fui chamada de vagabunda quando na verdade eu tinha que brigar muito pra o pai dele me ajudar a não deixar levarem ele.
Eu amamentei ele até quase 4 anos, porque era um jeito de o pai dele não poder tirar ele de casa toda a hora pra levar pra casa de sua mãe.
Eu tinha sempre esse argumento da amamentação. Várias vezes eu saí de casa com ele pensando em não voltar, mas eu não sabia pra onde ir.
Era traumático. Eu fui virando uma robô porque eu sofria muito abuso psicológico. Eles me pegavam e levavam até o aeroporto e eu assinava autorização pra ele viajar com a vó. Ele foi pra Disney, foi pra Salvador, pro Rio, pra mil lugares com ela... Tinha vezes que viajavam em períodos escolares e eu brigava muito, mas o pai dele era bom na gaslighting.
Um dia ela começou a treiná-lo para tratá-la como "mãe" e não encontrei uma só pessoa que entendesse que aquilo não podia ser normal. Todos achavam que eu estava exagerando.
Então começaram as ameaças de ir na justiça e tirarem a guarda de mim, porque eu era artista, então não poderia provar que tinha condições financeiras pra dar a ele o que a vó podia. Os natais nunca eram na nossa casa e eram pesados pra mim. Foi se tornando normal uma marca em mim de irresponsável, despreparada e burra. Nada que eu fizesse, por mais sucesso que tivesse, comprovava minha capacidade como mulher e mãe pois na família era consenso que minhas conquistas eram obra, na verdade, do pai do meu filho que é considerado um grande pai, embora nem more mais no RS há anos e não seja presente.
Esses momentos horríveis tem um gosto. Há dias, quando a família me faz coisas ruins, que esse gosto volta. É como uma ressaca que não tem remédio. Acho que esse é o tipo de dor que nunca passa, mesmo que a gente nasça de novo umas mil vezes.

biAhweRTher

domingo, 6 de novembro de 2016

Domingo, 06 de novembro, 2016.

Arrotam que o comunismo não deu certo como se tal fato significasse que o capitalismo é um sucesso. 
Você se distrai defendendo a segregação, o sistema de castas, os muros e cercas que separam pobres de ricos. Você abstrai a verdade que grita a cada assalto que você chora. 
Enquanto você ostenta a roupa e o celular montados por algum trabalhador escravizado, boliviano, peruano ou sírio, você foge da verdade. Imigrantes ocupam as ruas de Paris, crianças índias são assassinadas por jagunços dos coronéis no extinto "pulmão do mundo" no Brasil.
Você se ilude com seus brinquedos enquanto jovens ocupam escolas, povos esquecidos confrontam a polícia nas ruas do planeta Terra.
Mães se perdem dos seus bebês famintos nas fronteiras carcomidas. Você sorri e segue com suas sacolas de compras, atrás da dieta da moda, o cabelo da moda, a frase de efeito da moda, o tutorial de moda. Milhares de humanos e não humanos comem seu lixo, mães humanas e não humanas choram e sangram. Você descarta a empatia e segue, ruminando seu hambúrguer.
Milhões, neste exato instante, vagam esfomeados por desertos, estradas, pequenos botes nos mares tristes, longe das praias fechadas, usurpadas pelas grandes fortunas.
Você se intromete, censura o buraco que seu vizinho usa ou não para fazer sexo enquanto um senhor de gravata italiana ferra você e o seu vizinho.
O comunismo não ter dado certo não é o que deveria nos importar agora. O que nos mata, o que nos assassina, o que nos suicida é o capitalismo.
Não é mais no cinema, nos livros de ficção nem nos quadrinhos. Não é o passado mal contado nem um futuro distante. É agora.
A cada agressão entre eu e você, a cada agressão sua ao morador das ruas, a cada vítima da violência policial, a cada vítima da barbárie contemporânea. O dia da invasão dos castelos e condomínios por parte dos esfomeados e revoltados é hoje e não adianta você festejar porque o país matou o PT, pois essa guerra tem milhares de anos, antes de mim, de você, e do PT.
Não sobrará pedra sobre pedra, não existirão muros nem cercas elétricas, não haverão milícias nem feudos. Não adiantam câmeras nem todas as trancas. Nada vai impedir que uma esmagadora maioria de renegados se revolte contra os senhores do capital e seus capachos.
Ouça as vozes, ele já estão aqui na rua e já não há mais diálogo. O medo que os escravizados sentiam do dono das terras vem dando lugar ao ódio, as cadeias não tem espaço para todos os ladrões de pão injustiçados, violadores culpados, estupradores, psicopatas, esquartejadores, mulheres enlouquecidas, crianças que desconhecem os sonhos.
O caos está feito e não foi o socialismo, o comunismo, o esquerdismo, os ripongas, os maconheiros... até porque eles foram vencidos.
A bestialidade é hoje. Parabéns, o capitalismo venceu.
Benvindo á selvageria pós colonial.

biAhweRTher