quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Crônica da Noite Pacata

A moça na vendinha com o filho pequeno, olhando os preços das garrafinhas de cerveja.
O filho grita:
- Mãe, posso pegar um sorvete?
- Pode!, responde ela.
O rapaz da vendinha:
- Tu não quer levar 6 longnecks por 30 reais?
- Bá, eu ia levar uma, mas já que tenho exatamente 30 pila, me dá as 6.
E eu pensei: "Mas e o picolé da criança?"
Dois minutos depois estou eu com a minha cadela na rua e ela logo na frente, já com uma cerveja aberta, bebendo feliz da vida.
E o menino triste, sem sorvete, ao lado dela.
Sério, chorei.
(...)
Curiosamente, no mesmo prédio que ela adentrou com o menino que, só ela não percebeu, tinha uma bola de tênis na garganta,
um homem de cinquenta anos matou a mãe ano passado, e ficou convivendo com o cadáver em uma caixa que ele cimentou no quarto dela. 
(...)
Antes disso, nessa tarde, furtivamente, visitei Cecília, a peguei no colo e cantei para ela A História de uma Gata. Mas isso já é para outro blog.

biAhweRTher

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

o olhar é único, mas o festival é coletivo

Após 5 anos de descanso, pois eu precisava cuidar do meu trabalho autoral e tempo pra estudar,
estamos voltando com o FLõ, o meu filho mais complexo, mais diverso, mais plural e mais livre.


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Chape

Eu conheci bem Chapecó, na época que o André coordenava a pós de cinema lá. O lugar que mais amei e visitei algumas vezes para fotografar e viver junto à borboletas azuis foi a Trilha do Pitoco. Mas em geral era visitado por turistas, pois os chapecoenses são super tranquilos e MUITO trabalhadores e focados. Vários nem sabiam que ali pertinho da entrada da cidade estava um paraíso com suas cascatas.
Futebol é um momento solene, mas nem torcendo são muito espalhafatosos. Há pouco pra se fazer nas noites. O xópin de lá é pequeno e quando eu frequentava a cidade era bem novinho, mas uma das poucas distrações. Não era pesado como os nossos, pois as pessoas não ostentam tanto em roupas e perfumes. Eles gostam mesmo é de ficar passeando de carro no sábado, pra lá e prá cá, escutando sertanejo. Mas não fazem barulho até tarde.
A gente fazia jantares tarde da noite e ficávamos no jardim numa piscininha, no meio da semana, e os vizinhos não entendiam nada pois madrugam todo o dia e vão trabalhar. Nos sábados acordam cedo, lavam o carro, cortam a grama.
É uma cidade bem religiosa, pacata e ingênua. Uma sociedade, claro, com alguns preconceitos pois é uma população da serra, na maioria branca. Havia um mendigo só. Sério isso. E algumas vezes moças me olharam com desconfiança no aeroporto, pois era a única mulher de short embarcando sozinha a noite. Sim, isso também é sério.
A tragédia com o Chapecoense, numa cidade como aquela, é um trauma de proporção que nós, calejados da agressividade e do ódio em Porto Alegre, não teríamos condição de compreender.
Quanto à homenagem na Colômbia, é um tipo de amor que nós, brasileiros, perdemos pelo caminho. A chave caiu no bueiro.

Um beijo.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Avós Vampiras.

Quando meu filho era pequeno, eu sofria preconceito e tentavam me afastar dele porque eu não comia carne, porque eu tinha uma banda, porque eu fazia filmes, porque eu não queria fazer concurso....Tinha vezes que eu ia buscar ele na escola e a vó dele já tinha pego e levado pra casa dela, pois dizia que eu não o cuidava direito. Quando eu ia nas reuniões de pais, ela já estava lá, dava presentes pra vice-diretora. Nas fotos, eu estava sempre do lado, abatida, e ela agarrada nele, proprietária. E daí ela dizia pras tias e amigas que eu era omissa. Várias pessoas me odiavam e olhavam pra mim pensando coisas ruins, muito fui chamada de vagabunda quando na verdade eu tinha que brigar muito pra o pai dele me ajudar a não deixar levarem ele.
Eu amamentei ele até quase 4 anos, porque era um jeito de o pai dele não poder tirar ele de casa toda a hora pra levar pra casa de sua mãe.
Eu tinha sempre esse argumento da amamentação. Várias vezes eu saí de casa com ele pensando em não voltar, mas eu não sabia pra onde ir.
Era traumático. Eu fui virando uma robô porque eu sofria muito abuso psicológico. Eles me pegavam e levavam até o aeroporto e eu assinava autorização pra ele viajar com a vó. Ele foi pra Disney, foi pra Salvador, pro Rio, pra mil lugares com ela... Tinha vezes que viajavam em períodos escolares e eu brigava muito, mas o pai dele era bom na gaslighting.
Um dia ela começou a treiná-lo para tratá-la como "mãe" e não encontrei uma só pessoa que entendesse que aquilo não podia ser normal. Todos achavam que eu estava exagerando.
Então começaram as ameaças de ir na justiça e tirarem a guarda de mim, porque eu era artista, então não poderia provar que tinha condições financeiras pra dar a ele o que a vó podia. Os natais nunca eram na nossa casa e eram pesados pra mim. Foi se tornando normal uma marca em mim de irresponsável, despreparada e burra. Nada que eu fizesse, por mais sucesso que tivesse, comprovava minha capacidade como mulher e mãe pois na família era consenso que minhas conquistas eram obra, na verdade, do pai do meu filho que é considerado um grande pai, embora nem more mais no RS há anos e não seja presente.
Esses momentos horríveis tem um gosto. Há dias, quando a família me faz coisas ruins, que esse gosto volta. É como uma ressaca que não tem remédio. Acho que esse é o tipo de dor que nunca passa, mesmo que a gente nasça de novo umas mil vezes.

biAhweRTher

domingo, 6 de novembro de 2016

Domingo, 06 de novembro, 2016.

Arrotam que o comunismo não deu certo como se tal fato significasse que o capitalismo é um sucesso. 
Você se distrai defendendo a segregação, o sistema de castas, os muros e cercas que separam pobres de ricos. Você abstrai a verdade que grita a cada assalto que você chora. 
Enquanto você ostenta a roupa e o celular montados por algum trabalhador escravizado, boliviano, peruano ou sírio, você foge da verdade. Imigrantes ocupam as ruas de Paris, crianças índias são assassinadas por jagunços dos coronéis no extinto "pulmão do mundo" no Brasil.
Você se ilude com seus brinquedos enquanto jovens ocupam escolas, povos esquecidos confrontam a polícia nas ruas do planeta Terra.
Mães se perdem dos seus bebês famintos nas fronteiras carcomidas. Você sorri e segue com suas sacolas de compras, atrás da dieta da moda, o cabelo da moda, a frase de efeito da moda, o tutorial de moda. Milhares de humanos e não humanos comem seu lixo, mães humanas e não humanas choram e sangram. Você descarta a empatia e segue, ruminando seu hambúrguer.
Milhões, neste exato instante, vagam esfomeados por desertos, estradas, pequenos botes nos mares tristes, longe das praias fechadas, usurpadas pelas grandes fortunas.
Você se intromete, censura o buraco que seu vizinho usa ou não para fazer sexo enquanto um senhor de gravata italiana ferra você e o seu vizinho.
O comunismo não ter dado certo não é o que deveria nos importar agora. O que nos mata, o que nos assassina, o que nos suicida é o capitalismo.
Não é mais no cinema, nos livros de ficção nem nos quadrinhos. Não é o passado mal contado nem um futuro distante. É agora.
A cada agressão entre eu e você, a cada agressão sua ao morador das ruas, a cada vítima da violência policial, a cada vítima da barbárie contemporânea. O dia da invasão dos castelos e condomínios por parte dos esfomeados e revoltados é hoje e não adianta você festejar porque o país matou o PT, pois essa guerra tem milhares de anos, antes de mim, de você, e do PT.
Não sobrará pedra sobre pedra, não existirão muros nem cercas elétricas, não haverão milícias nem feudos. Não adiantam câmeras nem todas as trancas. Nada vai impedir que uma esmagadora maioria de renegados se revolte contra os senhores do capital e seus capachos.
Ouça as vozes, ele já estão aqui na rua e já não há mais diálogo. O medo que os escravizados sentiam do dono das terras vem dando lugar ao ódio, as cadeias não tem espaço para todos os ladrões de pão injustiçados, violadores culpados, estupradores, psicopatas, esquartejadores, mulheres enlouquecidas, crianças que desconhecem os sonhos.
O caos está feito e não foi o socialismo, o comunismo, o esquerdismo, os ripongas, os maconheiros... até porque eles foram vencidos.
A bestialidade é hoje. Parabéns, o capitalismo venceu.
Benvindo á selvageria pós colonial.

biAhweRTher

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O dia mais incrível é sempre hoje.

O dia mais incrível é sempre hoje.
Eu sou tri positiva sempre. Por exemplo, to tri doente e vou ter que fazer 3.452.943 exames. Mas isso tem um lado muito bom pois fiquei na cama até meio dia e assisti Tubarão. É um filme tenebroso pra quem defende animais. Odiável, apesar daqueles ótimos figurinos anos 70.
Depois o Gabriel chamou pra mim o táxi pra eu me arrastar pro médico. Eu nunca me arrumo, mas quando estou doente fico 3 horas me enfeitando, porque sou saudável demais pra sair pra rua com cara mórbida.
Me fui.... o táxi mais velho que o Papa. Rangia ao sabor do vento, sob o cinza outonal da nossa primavera.
O motorista era estudante de Teologia, falava mal do vício das pessoas pelo uátizap, mas ficava lendo mensagens. Me falou de Cristo, que ele previu essas religiões eletrônicas que vendem boa sorte. Me disse que os evangélicos de igrejas modestas e realmente servas do Senhor estão bastante horrorizados com o que as igrejas xópin, dos pastores-políticos, estão a prometer, deturpando a busca pela pureza da alma.
Eu queria descer do táxi pra entrar na clínica, mas ele estacionou e ficou uns 5 minutos tentando me converter.
A secretária do médico era uma senhora de uns 55 anos que não foi com minha cara. Eu sei, eu sou simpática demais com recepcionistas e isso irrita. Reclamou porque eu disse só o meu último sobrenome; se zangou porque eu esqueci o nome do médico já que era minha primeira vez ali; ficou braba por o coiso da unimed tava demorado...
O médico era um senhor de mais de 70 anos. Fez gracinha, me chamou de lindinha e depois de apalpar minha barriga disse que ela estava bem boa. Quando meu filho marcou a consulta pra mim, cheguei a dizer pra ele tentar uma médica mulher. É que desde os 13 anos tenho péssimas experiências com médicos senhores de idade. Não sei se é azar... Desculpa, não gosto de gracinha comigo dentro do consultório. Já não basta uma pessoa estranha metendo a mão na gente? Não precisa sorrisinho, bunitinha, cuidadinho, vozinha.
Táxi da volta, um guri todo sarado com umas tribais saindo pelas mangas justas. Ficou me contanto o porque de votar no Junior Marchezan. Achei curioso porque ele metia o pau na soberba da classe média, reclamava da falta de segurança para as famílias pobres, estudantes, trabalhadores da periferia. Falava em favor dos moradores de rua e que há pessoas que estão no crime porque não tem emprego, porém acha que grande parte dos jovens do crime tem jeito. Mas por fim, vai votar no Junior porque a campanha publicitária é melhor.
Legal, não discuto.
Em casa, rola um trabalhinho pra fazer de noite. Eu vou. Ficar doente em casa é chato pra caralho e além do mais, se tu tá te sentindo mal, acho que as imagens da tua câmera ficam mais sensíveis, entende...?
Dois beijos.
biAhweRTher

domingo, 23 de outubro de 2016

Missa Dominical

Claro que uma pessoa, ateia ou religiosa, tem seus defeitos e suas belezas. Ninguém é puro só por que acredita em Deus; ninguém é justo só por que decodifica os grandes pensadores.
Porém, minha tendência é confiar mais em pessoas ateias por motivos gritantes subjetivos e muito por experiências pessoais. Já vi muita gente grudada num rosário e vivendo sob a égide dos movimentos mais preconceituosos da história.
Simplificando, se você respeita as outras espécies, se você se incomoda com a desigualdade, sofre com o sofrimento alheio e luta por um mundo melhor sendo ateu, sua essência é pura por que é natural em você o sentimento de justiça.
Agora, se você não sabe como ser uma pessoa legal se não for obrigado a crer que há um senhor zangado, invisível e opressor lhe fazendo tremer diante do pecado para que você se obrigue a respeitar o próximo... daí.. poxa, seu caráter inspira cuidados.
Religião é como as drogas, você escolhe a sua favorita mas pode muito bem viver sem ela a não ser que você seja uma pessoa propensa a se entregar aos vícios. Eu adoro umas três religiões. Meu pai era ateu e não curtia esse meu lado místico, mas eu achava que era como tomar suplemento alimentar sabe. Em casa me davam terragran pro corpo e livros pra mente, na rua eu curtia entrar na igreja ou visitar a umbanda junto com a minha vó como quem toma uma vitamina pra alma. A mitologia da umbanda é linda, a igreja católica quando está vazia em seus ecos me dá uma certa paz. Depois comecei a curtir budismo e tive minha fase de visitar Três Coroas que, no final dos anos 90, virou modinha... Mas estou sabendo que eu, sozinha, é que preciso me melhorar e respeitar os outros. Só depende de mim ser alguém descente e honesta e isso eu aprendi com meu pai ateu que conhecia a bíblia de trás pra frente pois considerava uma publicação política e foi o cara mais digno, justo e tomado pela empatia que já conheci..
Um beijo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Sobre dividir processos criativos com homens.

Passei a vida entre uma maioria de meninos. Nas bandas que toquei, era só eu entre garotos. Nos meus filmes, uma maioria de rapazes. Nas empresas onde trabalhei (sim, eu também, antes de me aceitar artista, fui escravinha de senhores cretinos) e até na minha primeira faculdade, Administração. E fui uma coisa horrorosa quando era casada: a mulher por detrás da obra do homem. Coisa que muitas garotas ainda fazem, infelizmente.
Havia uma tensão, uma necessidade de provar o tempo todo, uma ansiedade, uma apneia, menos direito à voz, várias situações de assédio. Houveram centenas de episódios onde eu sabia que estava sendo excluída de situações, como numa confraria de paus, embora eu fizesse parte ativa (muitas vezes a mais ativa pois mulheres sabidamente são produtoras dedicadíssimas) desse ou daquele grupo de trabalho. 
Era difícil trazer a baila sensações de desconforto porque, não raro, alguém desprezava, outro me chamava de paranóica e sempre terminávamos na melhor saída desmobilizadora e desmotivadora que os homens encontram: "Está na TPM?"
Faz pouco que me entreguei primeiramente ao que é meu - artisticamente falando -, aos meus desejos e sonhos antes dos sonhos e desejos dos outros. 
Tenho buscado equipes de mulheres e gays. Não é por acaso, é opção. 
Há em mim uma escolha de trabalhar com poucos homens, até porque eles trazem certos preços que já não me sinto disposta a pagar. Em geral, tem mais preguiça de escutar e acham chatas as contextualizações e os processos que fogem de modelos pré-prontos. São mais arrogantes, se enrolam mais pra se entregar com amor a um projeto. Não digo que não consigam, mas é preciso ter paciência com eles até que relaxem. 
No mais das vezes, tem um vício de duvidar de metodologias orientadas por mulheres, tentam modificar o que já foi decidido num ímpeto competitivo que, muitas vezes, nem percebem, é inerente à sua educação; sentem dificuldade de serem dirigidos por mulheres sem antes desconfiarem. Relutam a entregar-se e isto trunca os processos e atrapalha substancialmente a circulação das energias.
Apesar de terem esses vícios, inconsciente coletivo, cultura de superioridade, aceito homens nas minhas equipes pois acho muito positiva a diversidade, acho necessária. 
Contudo, neste momento, estou preferindo que sejam minoria os homens nos meus ambientes de trabalho porque perde-se tempo demais preparando a recepção aos carinhas, sabendo-se que a maioria chega com uma certa altivez desnecessária, em posição de defesa, pouco a vontade; menos propensos a relaxar e gozar do trabalho coletivo; mais disponíveis a serem o centro em lugar de simplesmente parte e eu, nesta fase da vida, já não me sinto obrigada.
Um beijo.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

GASES BOVINOS E O EFEITO ESTUFA.

Vários amigos, assim como eu, na fatídica noite do domingo das eleições, desabafaram a auto-crítica, óbvia conclusão de que somos um povo servil, moralista, consumista e apaixonados por essa situação de adoradores de uma casa grande que nos atira seus restos.
Passadas as horas, ânimos menos exaltados (a gente se acomoda e nos adaptamos rápido), estou lendo verdadeiros desagravos.
Especialmente aqueles diretamente envolvidos com educação, passaram a analisar a situação política do país por um viés, talvez, mais vitimista... me desculpem.
A lógica que vai se moldando é a de que estaríamos, ao sair do sério com a vergonha nas urnas, culpando o povo e a esquerda e esquecendo de culpar os tentáculos do #Golpe, a malícia dos senhores poderosos, a podridão nos castelos...
Fico em dúvida sobre isentar a todos nós. O povo brasileiro já saiu dos limites da fome e a escola estava a cada ano mais inclusiva. Ao longo do governo Lula/Dilma, as pessoas começaram a "consumir" e fizemos festa para esse fenômeno que, aliás, irritou muito a cultura das castas. Lembram dos episódios de repulsa porque os antes descamisados agora desfilavam em aeroportos?
O que acontece, a meu ver, é que seja rico, seja pobre, o país tem síndrome de dona Florinda. Quando nos apresentaram possibilidades, logo pensamos em ter um carro, nunca investimento pessoal em cultura - só pra dar um exemplo.
De minha parte, essa era uma das minhas náuseas em relação às gestões do PT no planalto. Me parecia que o "poder de compra" era mais importante do que eliminarmos o poder das construtoras, as propinas, a morte do povo índio em nome da monocultura e do desmatamento... O que importava era baixar os impostos para as pessoas comprarem geladeiras e carros (o Brasil é apaixonado por carros, lembram?). Não perceberam que esse marketing era um tiro no pé?
Não acho que é culpa do PT, claro, pois desde os portugueses e dos jesuítas, o Brasil se mostrou um país ingênuo que se deslumbra com coisinhas, espelhinhos e celulares.
Simplicidade, em países progressistas, é ouro, aqui é uma vergonha. Ricos, médios ou pobres, somos essencialmente "consumidores" e não vemos nenhum problema em nos reduzirmos a isso. Somos caipiras que não valorizam o que há de bonito na caipirisse. Ainda estamos na fase de nos deslumbrarmos com as luzes da cidade e quando as pessoas perceberam que para ser um país sério, teríamos que ser menos consumistas, fizemos birra e nos jogamos no chão do super mercado.
A gente elege playboys e senhoras de laquê por livre escolha. Eles não vão dividir o brioche conosco, mas ao menos podemos adorar o inalcançável.
Se Lula é como nós mortais, ele só pode ter roubado os pedalinhos, porque nossos filhos não tem que ter pedalinhos.
Se Marcela é loira e Temer é "Maçom" (brasileiro tem tesão pela maçonaria mesmo não sabendo o que é isso), ela e ele tem o direito de ocupar a presidência e devolver a ela os ares de castelo e não queremos nem saber se eles são investigados por milhões e trilhões de pedalinhos escondidos no exterior.
Nós sabemos que os eleitos moralistas e fascistas são cretinos e que posamos de idiotas, mas não estamos nem aí.
O guri pobre e o guri rico querem a mesma coisa: um tênis bem caro, um carro bem caro, uma mulher peituda. A diferença é que um, sem pai, rouba ele mesmo, o outro espera o pai articular um roubo numa sala atapetada.
Eu sei, você vai citar a força do povo da caatinga e dos imigrantes como exemplo de força. Mas essa qualidade já não é da maioria há décadas. Compramos roupas e celulares costuradas por escravos e estamos felizes assim porque nos parece moderno.
Não consigo dividir o povo e achar que a direita domina sozinha.
A esquerda deu poder à direita porque é tudo a mesma coisa.
Não há esquerda ou direita, há ladrões sendo eleitos porque sofremos de uma mania de banalizar nossa existência.
Somos aquele escravo que festeja o nascimento do bebê da sinhazinha.
Um beijo.
biAhweRTher

sábado, 17 de setembro de 2016

O Retrato das Costas

Tenho uma teoria de que o cinema gaúcho não se reinventa porque as pessoas se fecham demais em seus grupos e não se disponibilizam a conhecer aqueles que vivem aqui mas experimentam. Por que sim, você não precisa ser gringo para experimentar.
Por exemplo, as pessoas que fazem o cinema tradicional costumam me encontrar e perguntar o que eu ando fazendo. Em geral, pelo fato de eu ter deixado de participar dos festivais tradicionais, de tapete vermelho, alguns acham que devo estar vivendo de rendas (rolava até uma lenda de que eu sou rica e só por isso brincava de desconstruir os cerimoniais).
Sinto, por experiência e por me espraiar sem turma fixa, que por estar fora de um "circuito", na verdade posso até estar mais ativa do que as pessoas que se aprisionam ao tempo-espaço dos festivais onde um filme perde o prazo de validade em dois anos e você não tem mais tantas oportunidades para ele.
Sendo que eu misturo artes visuais e... enfim, 8ito artes no meu projeto de vida, consigo fazer do meu trabalho algo atemporal em muitos sentidos.
Primeiramente, todos os anos consigo me expor em projetos no exterior sem precisar provar nada para as bancas dXs senhorXs entendidXs com sua pompa, ordens e clichês.
Segundamente, sou livre para levar o tempo que me parecer melhor para terminar um trabalho ou mesmo levar a público em forma de work in progress sem que isto soe subversivo demais.
Dando uma entrevista nesta semana, cheguei a me deter nesta parte, que talvez seja a mais incrível pra mim, de eu poder usar sem preconceito nem medo tanto a internet, como rua, como espaços de arte ou eventos de multiexpressão na busca pelo público e, deste modo, encontrar pessoas de idades e pensamentos até opostos que me acompanham como persona ou a projetos meus em especial, entendo as transformações, processoss e o meu crescimento.
Vejam, colegas, vocês precisam sair do casulo e olhar o mundo e perceber que existem diferentes conceitos, metodologias, entendimentos no modo de expressar uma obra audiovisual.
O fato de um profissional não participar da corrida pelo pódium dos festivais glamourosos, bem como o fato de este profissional desconstruir os modelos de roteiro, produção e pós produção não leva o mesmo a ficar parado. Muito pelo contrário. O nome disto é coragem, me parece... talvez...
Quando estudo meu público, noto que estou conseguindo o que quero, que é renegar a busca pelo "público alvo". Pois né, eu não sou atleta do tiro com arco!
Para me conhecer, gostando ou não, seguindo ou abandonando, tenho visto pessoas de 18 a 70 anos, de variadas cidades, culturas e gêneros. Bem, amores, se batesse no peito abandonando a minha vida sem foco e me assinasse cineasta gaúcha.. hum, acho que eu seria infeliz e teria um público homogêneo demais.
Eu diria que toda a vez que alguém - em especial pessoas que lideram entidades de cinema e tomam pra si atividades como mapeamento, difusão, fomento, diversidade e inclusão - me encontra e pergunta o que ando fazendo, quando eu estou entre as pessoas do meio que mais tem seguidores, links produtivos e incessante atividade, fico pensando que o mundo do cinema tradicional realmente preferiu acomodar-se e não vale a pena nem tentar colaborar para que enlouqueça um pouco.
Se você é do "meio" e não sabe o que ando fazendo é porque não sabe o que os fazedores de arte independente andam fazendo. Se você dirige uma entidade e só está inteirado dos trabalhos de festival, diria que o fato fica preocupante, pois, em tese, você deveria saber muito bem o que ando fazendo e como me viro para buscar recursos para o meu trabalho.
Conhecer os diferentes olhares, mesmo os incomodativos, contribui enormemente no trabalho de todos, então me parece meio ruim para o público quando a maioria das pessoas que preparam as obras que nos retratam só acompanha o trabalho dos adeptos obedientes, da corrida glamourosa, das fichas de inscrição, dos prazos, dos jurados-sempre-os-mesmos e das cerimonias sob controle.
Por tudo isso (e vou tentar postar esta crônica nas páginas de entidades de cinema), na próxima vez que você me encontrar, não pergunte o que ando fazendo ou, pior, se parei de filmar, simplesmente pelo fato de não ter saído uma matéria na ZH sobre meu mais recente trabalho. Para não ficar mal, faça de conta que se interessa pelo mundo fora da casta e já venha me dando os parabéns. Prometo que eu vou ser legal e fingir que acredito que você sabe o que acontece na vida aqui fora.
Gentilezas
biAhweRTher

sábado, 27 de agosto de 2016

Vítrea

Sobre mim, o manto da invisibilidade
Hoje visto a camisa de força dos normais
Especular, recebo o sol e desintegro
Descarnada, pela enxovia vigio a vida 
Sinto! Um raio penetra meu nada
Desigualo, transpareço, permeio
Me movo, saio.
biAh weRTher
(Série Minimal - Hospital Psiquiátrico São Pedro.)


biAhweRTher Estúdio Multicriativo

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Às mulheres que odeiam mulheres.

Meu propósito é não ser inimiga de qualquer outra mulher simplesmente porque algum homem resolveu que devemos nos odiar, como se fôssemos peças de um jogo de poder masculino.
Quando meu filho tinha uns 5 ou 6 anos, uma atriz carioca ligou pra minha casa e me disse coisas pesadas sobre os horrores que eu fazia com o pai do meu filho. Eu nem sabia que ela existia, mas eles tiveram um caso rápido e ela sabia tudo sobre uma pessoa que eu nunca fora e imaginava que nós dois não estávamos mais juntos, enquanto para todos ao nosso redor nós éramos dois jovens pais artistas e queridos. Era uma lenda o que ele contara a ela, vitimando-se por não encontrar melhor método para uma conquista.
Ela tinha uma voz forte e poderosa enquanto eu, todo mundo sabe, tenho voz de criança e me intimido com gritos, então foi uma conversa com ares de uma mulher dando ordens pra uma menina. Depois ainda me enviou um e-mail citando grandes teatrólogos, sobre a liberdade. Nunca respondi nada, mas sei que até hoje eles são amigos e ela pensa que sou uma dona de casa louca, emboletada, recalcada, feia e frígida. Deixa pensar.
Minha curiosidade sobre a guerra entre mulheres começou naquele momento, pois acho que ganhei uns mil cabelos brancos com o susto daquele contato inesperado.
Descobri que ela era mais velha, já tinha uns 40 anos e era mais forte do que eu como mulher. Parecia muito resolvida, bem relacionada no Rio e com um pensamento feminista. Vi nela uma pessoa bacana.
Então, sendo tudo isso, porque ela acreditara que eu seria totalmente avessa ao que sou de fato? Porque ela não me perguntara nada e saíra me definindo a partir do que ouvira de um carinha de vinte e poucos anos que dependia de mim para se sentir seguro e gritar "ação" nos seus filmes?
Esta triste questão ficou mais forte em mim conforme percebi que a comunidade feminista às vezes pode ser machista sem perceber.
As coisas foram andando na minha vida e eu fui escondendo estes e outros abusos piores como se, de fato, devesse algo. Quem sabe eu não era mesmo uma louca?
No final de 2014, nada mudara. Naquele início de verão, recebi uma longa mensagem de uma mulher de SP, estudante de psicologia, mãe de uma adolescente e produtora cultural. Se você visse o perfil, acharia bonito o seu jeito resolvido como mulher e, vendo meu modo, pensaria que seríamos boas amigas.
Mas, ao contrário, ela me acusava de estar perseguindo como uma psicopata um homem com quem ela estava querendo ter algo mais sério. Esse homem era o de sempre, um cara que me fizera coisas muito ruins e tentava manter a relação íntima comigo, já tendo colocado droga em minha bebida. Do nada, para criar laços e despertar nela uma vontade de protegê-lo, ele resolveu contar a ela uma velha história às avessas.
Minha pergunta continuava no vácuo e minha garganta não tinha voz.
Por que tantas mulheres acreditam em qualquer fofoca masculina e se apiedam e resolvem tomar conta deles se tornando inimigas de outras mulheres sem conhecê-las?
Por que as mulheres não tem coragem de conversar entre si nem curiosidade da versão feminina sobre uma espécie de guerra que a sociedade machista alimenta entre nós?
Ontem postei um texto discreto sobre Gaslight.
Cinco garotas de idades absolutamente diversas vieram no meu inbox e contaram situações de abuso por parte de namorado, ex-marido, pai, diretores de projetos nos quais trabalham e, pasme, amigas defensoras do poder masculino. As situações vividas por elas são assustadoramente semelhantes às que vivi e vivo. Pedi que se manifestassem em resposta ao meu post, pra me fortalecer pois gostaria de não me constranger em falar mais abertamente, gostaria de trocar e me unir. Quero muito criar um canal para falar da "desmaquiagem".
Todas as 5 me disseram que não podem falar publicamente a respeito pois ficariam constrangidas, porque temem, porque as pessoas que cometem abuso psicológico contra elas tem apoio até mesmo de seus familiares ou de outras mulheres que acreditam que elas são loucas embora só tenham conhecido uma versão dada pelo homem que as abusou e resolveu vitimar-se diante de suas pretendentes virtuais.
Além dessas mulheres aparentemente resolvidas, com seus batons vermelhos, que tomam as dores dos rapazes vítimas, há ainda as amigas, mães, avós e tias que sempre vão dizer que você não deve se expor relatando que foi abusada sistematicamente por um homem considerado socialmente um cara legal e querido.
Como me disse o homem que roubou um projeto meu junto com uma mulher que jura que eu o persigo mas nunca perguntou minha versão dos fatos:
- Tu acha mesmo que vale a pena sair contando que te excluí do filme e que a ideia do projeto era tua? Todo mundo te acha louca, tu tem vários inimigos no cinema. Nem tuas amigas vão acreditar em ti.
Sim, enquanto eu ficar calada pra não ser deselegante e ele espraiar sem que eu me defenda o que bem entender sobre minha personalidade, talvez haja quem não acredite em mim.
Sabem, no momento de vida em que estou, sendo que já provei que nenhum homem fez minha carreira mas eu fiz a de vários, e que não tenho medo de passar fome caso todos se voltem contra mim; apesar de parecer tão frágil nos meus 53 quilos, sendo que não me assusto com o fato de algumas mulheres tomarem partido de algum homem que eu precise enfrentar,
acho que resolvi correr os riscos.
Se eu fosse vocês, gurias, parava de brigar por causa de homem.
Em lugar de se distrair com tolas competições, olhe pra dentro e preste muita atenção em situações sistemáticas que ocorrem com você com a desculpa de que é brincadeira ou até com ares de preocupação e cuidado. Preste atenção em típicos assédios que muitas sofrem dentro de suas próprias casas diariamente como uma tortura chinesa lhe tornando dependente e tirando a vontade de enfrentar os desafios: "Você é louca", "Nenhum homem vai te aguentar", "Ninguém mais vai te amar", "Você nunca vai conseguir", "Você está gorda", "Você é uma frígida", "Você é uma louca". "Você é louca", "Você e louca"...
Assinado: A rapariga mais corajosa da cidade.
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Gaslight

Tantos blogs e canais sobre como a gente faz para maquiar nossas verdades e "defeitos". Dicas pra disfarçar isso e parecer aquilo. A melhor depilação, o volume e o tom... Máscaras e máscaras em favor do medo e da submissão.
Me sinto a margem. Acordo nos anos 1950 e passo o dia procurando as saídas para o presente. Há tanta coisa que eu queria dividir mas, aparentemente, só eu sinto, vejo, sofro. Tem dias que sinto como se eu fosse a única a perceber algo errado e que há sempre alguém com o poder de desligar a minha luz simplesmente porque nasceu com um privilégio, pacto silencioso de toda uma sociedade. Não acontece com você de às vezes se sentir exausta de uma luta de entrelinhas? Como um escudo invisível que todos sabem que ali está mas fingimos que não está e se eu disser que vejo, alguém com um pênis vai dizer que estou louca e que ninguém vai me aguentar, ninguém vai me amar se eu continuar estragando este lindo dia de sol e normalidade imaginando vultos; e alguma amiga dirá que isso não se comenta publicamente porque estaremos nos expondo e pode ser pior.
Mesmo que eu usasse pintura na minha cara, ainda assim sentiria uma falta tremenda de lavar o rosto e sair pra rua e ver mais mulheres discutindo, relatando como elaboram o que há embaixo da maquiagem, nos eventos de bate papos superficiais, quando sabemos que grande parte de nós esconde sistemáticos abusos morais, emocionais e gaslight. Só eu noto que, em nossa cultura, muitos homens confundem amor com dominação e abuso e que por gerações e gerações isto é tido como normal?
Queria mil canais sobre Não Maquiagem. Sinto uma vontade do tamanho do mundo de escutar que não estou louca, que não preciso mais disfarçar.‪#‎GaslightNuncaMais‬
_bw_

sexta-feira, 15 de julho de 2016

No meu país

No país onde vivo, é rotina acordarmos com notícias de que jovens gays foram sequestrados, torturados e barbaramente mortos. No meu país, vários religiosos seguidores de pastores extremistas festejaram o ataque à uma boate em Orlando há algumas semanas, onde dezenas de pessoas foram mortas. Para eles era a justiça divina.
No meu país, é comum sabermos notícias a respeito de grupos fora da lei, pagos por latifundiários que assassinam crianças indígenas.
Em meu país, cresci sabendo que grupos paramilitares atacam com armas de fogo, na calada da noite, grupos de crianças sem teto, enquanto dormem sem pai nem mãe. E turmas de jovens de boas famílias assumem a identidade dos piores espectros, ateando fogo nos corpos famintos, desenganados dos moradores das rua
No meu país, a polícia é treinada para desconfiar de pessoas negras, pobres ou que não ostentam riquezas, sequestrando e assassinando friamente todos os dias pais que estão voltando do trabalho, mães que saíram pra comprar o pão, crianças que brincam diante das suas casas humildes, jovens que estão voltando de uma festa simplesmente porque são jovens cheios de vida, assim como os meninos ricos da sua idade a quem são reservados mais direitos.
No país onde vivo, em nome da religião, muitos líderes da política e da igreja incentivam seus seguidores a acreditar que as dezenas de estupros - muitos deles coletivos - sofridos pelas mulheres são culpa das vítimas.
O país onde nasci é um dos países mais inseguros, cheios de preconceito, fundamentalistas e agressivos do planeta.
No meu país, há centenas e centenas de grupos organizados para massacrar cidadãos ou mesmo templo de religiões diferentes da sua crença, na calada da noite, disseminando medo e terror.
Por isso, quando vejo os atos terroristas que estão ocorrendo no mundo, não me sinto distante, não me sinto num país de mais sorte, não acredito que o lugar onde vivo está livre de uma guerra santa.
O país onde vivo, amo, trabalho e tenho sonhos é mais um lugar perigoso, que sangra devastado, onde terroristas atacam inocentes; onde o o ódio é disseminado em nome do poder, 
das riquezas e de um Deus que pode ser o signo de muitos pesadelos.
Amém.
]bw[

terça-feira, 12 de julho de 2016

Quem matou a casa do Mario Quintana?

Fazer arte é paz, exibi-la é uma guerra.
Não tenho me pronunciado ou participado efetivamente das lutas para salvar a CCMQ, a Sala PF Gastal ou mesmo a TVE...
Eu não tinha nem 19 anos quando comecei nesta vida, então me espraiar pelos espaços culturais desta e de tantas outras cidades do país era mais do que mera burocracia. Na minha sede, com tanta fome, me sentir parte era como se um mundo mágico abrisse as portas para as minhas ideias e pessoas já reconhecidas me dessem boas vindas ao seu planeta livre.
É que, o meu olhar muito cheio de asas, via tudo como um lar, independente da idade das pessoas, da sua relevância, fama, da arte em que eram especialistas, da casa onde estariam ocasionalmente seus espetáculos.
Era o mundo das artes, onde eu queria morar fosse eu filiada a um partido, anarquista ou alienada, acadêmica ou da rua.
Até hoje, me sinto grata por ser mais uma entre tantos toda vez que participo de algum momento com gente foda, porque pra mim tudo é mais difícil já que sou considerada "polêmica". As pessoas demoram mais quando deparam com o meu nome.
De verdade, sofri muitas perseguições porque nunca fiz acordos pra usar recursos e espaços públicos. Nunca me liguei a um partido e nunca puxei o saco. Se eu via gente se beneficiando por vias não éticas eu ficava puta da vida e, ingênua, ia nas reuniões pra colocar em cheque o nosso modo de pensar a cultura como o gaúcho da casa grande que divide a sociedade em castas.
Pronto, arranjei mil inimigos bem mais fortes e ricos que eu... Até hoje, aqui e ali, encontro pessoas que me perseguiram. Uns mantém os mesmos olhos sobre mim, ferinos. Outros se redimiram e hoje são meus pares e me fazem carinhos.
Pensar na morte desses espaços que são de toda uma população e não foram regados,
me faz sofrer como alguém que sabia que tinha algo caminhando mal, mas eu era uma ninguém e todos me chamaram de louca, sofri alijamentos e, claro, muito machismo que é o tempero que não pode faltar.
Diferentes da TVE e da Rádio Cultura, que desde a minha adolescência, independente do quanto estivessem caindo aos pedaços no jogo dos partidos políticos, jornalistas e outros funcionários nos recebiam com os braços abertos;
as casas culturais que tínhamos para desenvolver nossos projetos, sempre tiveram uma cortina política que manejava os gestos dos seus gestores, repetindo critérios desgastados. Uma precaução injustificada residia sobre suas mesas. Se você passasse por ela, o sol se abria para o teu encontro com o público, mas o problema era passar. Muitos de nós, ultrapassamos a mata fechada das seleções com uma foice.
Existiram momentos em que sentei nas salas de senhores importantes desta cidade e os enfrentei e exigi espaço para meus projetos. A última vez foi nos 10 anos do Cinema8ito, quando precisei ir à público para ser recebida e poder usar por uma semana uma das salas da CCMQ para fazer uma retrospectiva dos nossos filmes.
Mês que vem,, por exemplo, o meu filme mais importante faz 15 anos e, apesar de sua relevância como curta brasileiro, aqui em Poa não haverá um só "curador" que o festejará, então se eu quiser fazer um evento vou ter que me preparar pra mendigar uma sala, algum estagiário vai ficar responsável por me dizer que tem que esperar a apreciação de algum diretor que sabe muito bem quem eu sou e de qual filme falamos mas vai me deixar esperando e esperando e, se eu não falar grosso, vai passar a data e... nada de evento.
Para mim, tais atitudes de uma política rançosa é que estão matando os nossos espaços.
Ou seja, não são só os senhores cretinos da política, mas nós como produtores culturais que precisamos repensar nossas micro políticas.
Vários de nós, por não serem de algum partido ou serem contra as vantagens que uns tem por serem amigos de alguém e "bons moços", sofreram dissabores ao longo das suas carreiras.
Há ainda os espaços não públicos, mortos pelas redes midiáticas porque a liberdade de expressão dá menos lucro... Nós aceitamos quietinhos e fomos correndo lamber as botas da grande mídia.
Em minha carreira, negociei com vários gestores de casas de cultura pelo país todo, secretarias, entidades e até no MinC, observando a característica de cada um com esse meu jeito meio autista e essa mania de ir sozinha em reuniões com secretários de cultura e diretores escolhidos pelos partidos da ocasião ou porque são famosos.
Fui aprendendo desde cedo que haviam partidos políticos envolvidos com cada casa pública de cultura nesta cidade, estado, país, então eu fazia uma política da simpatia com os senhores atrás das mesas para ser aprovada a minha entrada e, depois, era com os funcionários, já meus conhecidos que eu objetivava os projetos e não precisava usar uma máscara.
Sobre a Casa de Cultura Mario Quintana, quantos momentos lindos dirigi ou participei como convidada nos teatros, cinemas, corredores, salas de oficinas... Desde o meu grande festival que ocupava vários espaços da casa e de outras por vários dias a eventos coletivos como os últimos que participei: em 2010, projetei nas paredes do prédio que já pedia socorro, em 2014 fui VJ em um espetáculo no Teatro Bruno Kiefer.
Assim como tantos outros, a CCMQ é um dos espaços públicos que estão misturados na nossa existência como artistas, experiências que deveriam apenas nos fortalecer pra nos manter crescendo, nunca nos entristecer a ponto de pensarmos em desistir.
Minha geração, ao ver as portas das casas públicas se fechando solenemente para a maioria, começou no início deste século os coletivos, que são pequenas casas livres de convivência e residência, são nichos, diversidade, alternativas. Contudo, há projetos que desenham-se para públicos mais amplos e espaços maiores e tal opção já não temos a não ser que façamos um trabalho sem personalidade.
Quando os espaços de cultura definham é como se a história pessoal de todos nós, artistas, morresse um pouco pois elas estão misturadas com a gente, circulando nas nossas veias assim como nós circulamos em seus corredores sentindo o perfume das invenções que nos alimentam.
biAh weRTher

sexta-feira, 17 de junho de 2016

No baile dos vampiros.

A morte nos parece um castigo desde que inventamos religiões, então ela passou a ser o melhor modo de uns controlarem os outros.
Dizem que antes da inventarmos esse Deus à nossa imagem e semelhança, você matava pra comer e não pra exibir uma cabeça em cima da mesa ou um corpo em cima da cama ou um enforcado numa cadeia, um corpo estirado num beco sujo, desfigurado numa cruz a título de troféu.
Me parece que o caminho do significado de amor se confunde com a trilha que nos leva até a morte. Quanto mais longe do final, mais perto estamos do egoísmo e de todas as nossas rasas aventuras centradas no umbigo. Quanto mais próximos do término, mais sensíveis. Dizem...
Não que seja uma regra, mas observo que as pessoas na iminência da morte por estarem muito doentes ou velhas ou suicidas ou a mercê de algozes, ganham o dom de ver com mais clareza o que realmente importa e se desnudam mais e perdem mais as armaduras e se misturam mais com o simples, menos com o simplório. É como se você passasse a vida sendo um idiota que não aproveita as vivências e deixasse pra, do nada, tornar-se
um sábio assimilador das verdades mais complexas ao submergir no colapso
dos últimos meses, dias ou segundos, dependendo do caso.
Há quem peça perdão, há quem aprenda a perdoar, há quem apenas goze pela primeira vez na vida justo na hora da morte, que é nascer ao contrário mesmo que não exista um outro lado.
Último suspiro me lembra orgasmo, daí a compreensão do amor se estabelece na proximidade da morte.
É mais comum identificarmos bullying entre grupos muito jovens, como é mais comum vermos linchamentos morais entre pessoas adultas e-ou idosas da facção consumista - onde consumismo é sinônimo de incompetência e ingenuidade, logo infantil.
Um parentese. Não quero mais dizer que os adultos mudérnos estão infantilizados porque sei que pode parecer que não valorizo a infância, quando acho fundamental ser criança pela vida a fora. Então, hoje eu resolvi que adultos consumistas e obtusos não são tão infantis assim, eles querem ser jovens e bancam os abobadinhos viciados em posses mas, ao invés de crianças, são apenas cretinos e superficiais. Ponto.
A morte está perto.
Mas há toda uma publicidade que fala de um futuro banhado a ouro e eterna juventude, fazendo os mais despreparados (aqueles que eu vinha considerando infantilizados) crerem que podem escapar de morrer ali na esquina sem prévio aviso. Talvez todo este produto chamado dinheiro não seja, afinal, para comprar um terreno no céu, mas para pagar propina ao anjo da morte.
A parte estas infantilidades (ops! cretinices) cada vez fica mais necessária a proximidade do fim para que o grande corpo, essa verdade da qual somos parte e não centro, tente se salvar de um ocaso sem poesia. Isso mesmo, talvez a morte seja um poema tão libertador que foge das rimas.
Pode ser tarde, pode dar tempo... Quem sabe o modo de disseminarmos o amor essencial e não aquele vendido nos sites de compras, seja o reconhecimento e a delícia de morrer um pouco todos os dias ao invés de deixar pra levar o susto no momento derradeiro como quem não sabe que ele viria. E virá.
Deveríamos é cantarolar sobre o outro lado do começo para os bebês, cantar sobre o amor que vem com a proximidade da morte como se falar do fim pra quem está no começo fosse antes uma obrigação e nunca uma heresia. A descoberta e familiaridade com o fim ao invés da fuga.
É que talvez, sentindo a morte como o espectro mais presente, não queiramos tanto matar o outro, mas sim viver em nós mesmos o suficiente para vivermos todos enquanto é pra se viver.
A cada dia vamos em direção ao ponto final fugindo como o diabo foge da cruz para um impossível reencontro com aquilo que nunca voltará. Vamos deixando escapar o amor que ensina a não matar aos poucos a vida que está ao nosso redor cheia de mortes inúteis em nome da imortalidade.
Somos, na vida eterna, o sadismo dos meninos que machucam pequenos animais e dos normais que apedrejam os diferentes; somos aqueles que participam de linchamentos sem saber o que fez o açoitado pois o que vale é o quanto nos excita o cheiro de sangue.
Morrer é a primeira necessidade da vida, morrer feliz a cada instante pelo amor mais sublime ao invés de nos matarmos a cada momento em nome do ódio.
Viver em busca da eterna juventude que não entende o valor da morte é como comprar ingresso para um infinito baile dos vampiros.
]biAhweRTher[

quarta-feira, 8 de junho de 2016

|O FILME SOBRE JÚPITER APPLE|

|||diário da diretora|||

"O GAROTO DE JÚPITER"
Lá pelos 10 anos, Flávio já tinha um violão. Segundo a mãe, dona Iara, ele não dava tanta atenção para o instrumento quanto para os vinis de rock que começou a colecionar cedo como todo o menino de classe média em Porto Alegre no final dos anos 70. Nessa época, parece que a família ainda não percebia que aquele não era um garoto comum.
Por volta dos 12 anos, percebendo um maior interesse pelo violão, sua avó resolveu pagar um curso para que aprendesse música, mas após a quarta aula o menino chegou em casa insatisfeito e declarou:
- Mãe, não quero aprender a tocar "Parabéns a Você", eu quero é tocar Beatles!!!
E assim foi. Após abandonar as aulas, ele logo estaria compondo. O pai, um professor de Física meio distante dos gestos de carinho, já então divorciado da mãe, percebendo o dom ou pela insistência do filho, o presenteou com uma guitarra. 
No colégio Rosário, as notas do menino que amava os 4 garotos de Liverpool despencaram para o subsolo do prédio onde morou toda a infância na rua Cauduro, enquanto sua alma flutuava em direção a um planeta que um dia ele chamou de Júpiter, onde aprendeu sozinho a cantar e tocar vários instrumentos; passou por São Paulo, todo o país, Londres e Paris entre muitas mulheres e grandes parceiros de hits radiofônicos; cambaleando em becos sujos, pulsando em palcos, embriagado em lugares do caralho e quartos de hotel.... O garoto por vezes vinha visitar a Terra para homenagear este planeta, até que, numa tarde, nunca mais aterrissou deixando todos aguardando o seu último show.
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DIÁRIO, 07 de junho de 2016
Aniversário do meu pai que também não mora mais aqui. 
Muito frio na tarde de sol, meu lindo chapéu de brechó - sou uma porto alegrense! . Saio ansiosa, prestes a começar mais um trabalho que talvez um dia faça parte do mosaico histórico do pólo criativo mais provinciano do país.
Meu encontro é com a mãe de Flávio Basso no Ateliê Bestiário, um dos lugares da cidade onde sou artista residente. O ateliê fica dentro da Marquise 51, nada menos que seu selo e um dos últimos lugares onde Júpiter Maçã tocou. Pocket show antes da falência múltipla de seus órgãos.
Eu e dona Iara namoramos por cerca de dois meses pelo telefone e redes sociais até nos encontrarmos pessoalmente. Queria eu que nada fosse às pressas, tudo mais sensorial do que obrigatório.
Cheguei a comentar o projeto superficialmente com amigos meus e de Flávio, mas não queria começar nada oficial antes de criar uma intimidade com sua mãe pois algo me dizia
que ali estava o meu argumento, o elo perdido entre a minha dúvida e o meu próprio olhar definitivo. O que conheci do Júpiter é algo entre nós e parcial, assim como foi com cada uma das outras centenas de pessoas que passaram por sua tumultuada vida, a maioria bem mais íntima dele do que eu. Sua mãe sabe do começo e do fim, onde se fez muito presente por iniciativa dele nos derradeiros dois anos. O miolo da história somos todos nós e seu público, como numa lenda.
Desde a noite de sua morte eu sabia que iria fazer o filme mas não entendia ainda como isto se daria. Um documentário? Uma ficção? 
Nada certo dentro de mim além da incerteza. 
Eu só sabia que não queria contar um conto sobre uma lenda urbana, mas sobre uma alma inquieta e criativa, mais humana do que célebre.
A conversa de horas foi esclarecedora como uma luz no final do túnel onde um menino-homem está sentado em um piano e sonha que vai fazer um filme.
Entendi que farei um documentário ficcional. Depois de meses com uma profusão de ideias feito a hora do rush, relaxei. Percebi os tons, os sons, a primeira cena, a cena final. Visualizei o tempo correndo nos 47 anos do menino Júpiter.
Cheguei em casa, sentei no computador, fiz alguns contatos para primeiras entrevistas e em duas horas rascunhei 3 cenas, direto, sem tomar água, sem fazer xixi, sem tirar as botas, sem ligar o ar condicionado neste outono invernal a 7 graus sendo que odeio frio. Aqueceram-me as ideias.
O nome do filme é: "O Garoto de Júpiter"
Me parece fácil de entender. mas caso alguém não compreenda, ao longo do processo todos terão oportunidade.
biAh weRTher

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A mulher, o homem e o neologismo.

Sou feminista e pago o preço, mas me incomodo quando
alguém me chama de "lutadora". Eu não quero briga, sou pela paz. Quando sofro com o machismo não entendo como uma luta e sim como uma agressão unilateral da qual sou vítima e devo me defender e ser defendida pela justiça, conscientização, uma sociedade com acesso à cultura e educada para a igualdade e não para a guerra.
É uma fronteira translúcida, pode ser uma utopia
e alguém menos sensível pode achar bobagem, mas pra mim é uma diferença brutal.
Ok, eu xingo o Bolsonaro e não consigo evitar o ódio de estupradores e seus defensores; eu sofro de TAG por conta de abusos sofridos por parte de homens com os quais me relacionei ou trabalhei e estes sentimentos tem a ver com guerra e, por isso mesmo, eu preferiria não senti-los. Não os exulto nem me orgulho quando sou bélica porque isto é consequência dos traumas causados por uma sociedade que promove a competição e desigualdade nos relacionamentos.
As palavras são muito importantes pra algumas mulheres, mesmo estando fora de moda a leitura e na moda escrever sobre moda e nada mais.
Então - alguém vai me odiar por isto - também não utilizo a expressão "empoderamento". Poder pra mim pode virar um monstro e o seu derivado, ainda que positivo, pode ser deturpado por uma maioria, como toda a palavra solta numa passeata ou em grupos específicos.
O símbolo da conscientização tem que ser simples, direto. Uma palavra que gere outras e não uma que tente dar um novo sentido ao que massacra: poder.
O novo sentido está nas nossas ações e o título desta novidade deve ser novo.
Poder não tem como ser sinônimo de igualdade, poder
é um palavrão, assim como guerra. Dói até pensar, envergonha até sussurrar porque lembra tudo o que milhões e milhões sofreram e sofrem em nome do vício que alguns tem pelo poder.
Por exemplo, percebo que as mesmas pessoas que adotaram o empoderamento como palavra de ordem não acreditam que exista um homem feminista e eu acho que sim e que as palavras criam uma força de cabo de guerra quando deveriam unir.
Sim, você acha que estou falando de temas pequenos quando há mulheres sendo espancadas bem agora. Me desculpe, não deixo de pensar em tudo o que estamos vivendo, cada uma de nós há séculos e séculos. Apenas não acredito em heróis e heroínas e que um homem não pode querer sinceramente a liberdade de uma mulher.
Mais além, as mesmas pessoas que acreditam que homens não podem ser feministas, defendem o direito das mulheres machistas cometerem as piores ofensas à outras mulheres, gerarem e educarem o pior tipo de homem, porque elas são vítimas cegas que ainda não "desconstruíram" o machismo no qual vivem aprisionadas, coitadas... vítimas defendendo seus algozes, escravizando outras mulheres através de seus filhos que elas criam pra manterem a escravidão.
É como se algumas de nós já começassem a acreditar que sim, o feminismo é o contrário do machismo, quando não é. Como se homens e mulheres estivessem destinados a serem inimigos, quando não estão. É tudo uma questão de cultura, educação e união pela mudança dos sentidos.
Eu não, não perdoo e não vejo nenhum coitadismo em senhoras que batem panelas, em mulheres maldosas tomadas pelo preconceito, em esposas de eduardos cunhas, em escravistas odiadoras da liberdade alheia, em pastoras gritonas, em mulheres que riem e culpam uma menina da periferia estuprada por 33 inimigos.
Há vítimas entre mulheres que não desconstruíram o machismo e há mulheres entre mulheres que são seres humanos desonestos e machistas porque lhes parece conveniente.
Assim como há homens que estão num processo de desconstruir
o machismo porque percebem que não lhes será tirado nada vital se conviverem com a igualdade de gêneros.
E sobre o meu desconforto em utilizar a expressão empoderamento quando falo da consciência de que eu sou digna de respeito e dona do meu corpo e dos meus pensamentos... Não há muito o que explicar, apenas acho um vocábulo pouco feminino e com uma vogal que fecha os lábios num círculo apertado. Expressões abertas me parece que unem mais. Coisas como liberdade, vontade, amizade, igualdade e palavras que ainda não foram inventadas, estarão livres e únicas e não serão derivadas de outras costelas.

]bw[

segunda-feira, 30 de maio de 2016

uma porta encerrada

dentro do meu vazio
há um lugar secreto
porão de um navio
onde navego morta
com um pequeno buraco
por onde observo a vida

e há uma porta
na forma de uma ferida
fenda aberta nas tuas costas
no meio das minhas pernas
por onde escondi as asas
quando caminhei nas ruas
no eco das palavras tuas

aqui ninguém me invade
daqui ninguém me escuta
daqui ninguém me expulsa
ela é fora, ela é dentro
ela é longe do meu centro
ela é tudo o que tenho

os mistérios que eu lia
mas você me proibia
cemitério das verdades
o fogo que consumia
no porão da eternidade
o olho, a negação
a maldade

]bw[