sábado, 27 de agosto de 2016

Vítrea

Sobre mim, o manto da invisibilidade
Hoje visto a camisa de força dos normais
Especular, recebo o sol e desintegro
Descarnada, pela enxovia vigio a vida 
Sinto! Um raio penetra meu nada
Desigualo, transpareço, permeio
Me movo, saio.
biAh weRTher
(Série Minimal - Hospital Psiquiátrico São Pedro.)


biAhweRTher Estúdio Multicriativo

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Às mulheres que odeiam mulheres.

Meu propósito é não ser inimiga de qualquer outra mulher simplesmente porque algum homem resolveu que devemos nos odiar, como se fôssemos peças de um jogo de poder masculino.
Quando meu filho tinha uns 5 ou 6 anos, uma atriz carioca ligou pra minha casa e me disse coisas pesadas sobre os horrores que eu fazia com o pai do meu filho. Eu nem sabia que ela existia, mas eles tiveram um caso rápido e ela sabia tudo sobre uma pessoa que eu nunca fora e imaginava que nós dois não estávamos mais juntos, enquanto para todos ao nosso redor nós éramos dois jovens pais artistas e queridos. Era uma lenda o que ele contara a ela, vitimando-se por não encontrar melhor método para uma conquista.
Ela tinha uma voz forte e poderosa enquanto eu, todo mundo sabe, tenho voz de criança e me intimido com gritos, então foi uma conversa com ares de uma mulher dando ordens pra uma menina. Depois ainda me enviou um e-mail citando grandes teatrólogos, sobre a liberdade. Nunca respondi nada, mas sei que até hoje eles são amigos e ela pensa que sou uma dona de casa louca, emboletada, recalcada, feia e frígida. Deixa pensar.
Minha curiosidade sobre a guerra entre mulheres começou naquele momento, pois acho que ganhei uns mil cabelos brancos com o susto daquele contato inesperado.
Descobri que ela era mais velha, já tinha uns 40 anos e era mais forte do que eu como mulher. Parecia muito resolvida, bem relacionada no Rio e com um pensamento feminista. Vi nela uma pessoa bacana.
Então, sendo tudo isso, porque ela acreditara que eu seria totalmente avessa ao que sou de fato? Porque ela não me perguntara nada e saíra me definindo a partir do que ouvira de um carinha de vinte e poucos anos que dependia de mim para se sentir seguro e gritar "ação" nos seus filmes?
Esta triste questão ficou mais forte em mim conforme percebi que a comunidade feminista às vezes pode ser machista sem perceber.
As coisas foram andando na minha vida e eu fui escondendo estes e outros abusos piores como se, de fato, devesse algo. Quem sabe eu não era mesmo uma louca?
No final de 2014, nada mudara. Naquele início de verão, recebi uma longa mensagem de uma mulher de SP, estudante de psicologia, mãe de uma adolescente e produtora cultural. Se você visse o perfil, acharia bonito o seu jeito resolvido como mulher e, vendo meu modo, pensaria que seríamos boas amigas.
Mas, ao contrário, ela me acusava de estar perseguindo como uma psicopata um homem com quem ela estava querendo ter algo mais sério. Esse homem era o de sempre, um cara que me fizera coisas muito ruins e tentava manter a relação íntima comigo, já tendo colocado droga em minha bebida. Do nada, para criar laços e despertar nela uma vontade de protegê-lo, ele resolveu contar a ela uma velha história às avessas.
Minha pergunta continuava no vácuo e minha garganta não tinha voz.
Por que tantas mulheres acreditam em qualquer fofoca masculina e se apiedam e resolvem tomar conta deles se tornando inimigas de outras mulheres sem conhecê-las?
Por que as mulheres não tem coragem de conversar entre si nem curiosidade da versão feminina sobre uma espécie de guerra que a sociedade machista alimenta entre nós?
Ontem postei um texto discreto sobre Gaslight.
Cinco garotas de idades absolutamente diversas vieram no meu inbox e contaram situações de abuso por parte de namorado, ex-marido, pai, diretores de projetos nos quais trabalham e, pasme, amigas defensoras do poder masculino. As situações vividas por elas são assustadoramente semelhantes às que vivi e vivo. Pedi que se manifestassem em resposta ao meu post, pra me fortalecer pois gostaria de não me constranger em falar mais abertamente, gostaria de trocar e me unir. Quero muito criar um canal para falar da "desmaquiagem".
Todas as 5 me disseram que não podem falar publicamente a respeito pois ficariam constrangidas, porque temem, porque as pessoas que cometem abuso psicológico contra elas tem apoio até mesmo de seus familiares ou de outras mulheres que acreditam que elas são loucas embora só tenham conhecido uma versão dada pelo homem que as abusou e resolveu vitimar-se diante de suas pretendentes virtuais.
Além dessas mulheres aparentemente resolvidas, com seus batons vermelhos, que tomam as dores dos rapazes vítimas, há ainda as amigas, mães, avós e tias que sempre vão dizer que você não deve se expor relatando que foi abusada sistematicamente por um homem considerado socialmente um cara legal e querido.
Como me disse o homem que roubou um projeto meu junto com uma mulher que jura que eu o persigo mas nunca perguntou minha versão dos fatos:
- Tu acha mesmo que vale a pena sair contando que te excluí do filme e que a ideia do projeto era tua? Todo mundo te acha louca, tu tem vários inimigos no cinema. Nem tuas amigas vão acreditar em ti.
Sim, enquanto eu ficar calada pra não ser deselegante e ele espraiar sem que eu me defenda o que bem entender sobre minha personalidade, talvez haja quem não acredite em mim.
Sabem, no momento de vida em que estou, sendo que já provei que nenhum homem fez minha carreira mas eu fiz a de vários, e que não tenho medo de passar fome caso todos se voltem contra mim; apesar de parecer tão frágil nos meus 53 quilos, sendo que não me assusto com o fato de algumas mulheres tomarem partido de algum homem que eu precise enfrentar,
acho que resolvi correr os riscos.
Se eu fosse vocês, gurias, parava de brigar por causa de homem.
Em lugar de se distrair com tolas competições, olhe pra dentro e preste muita atenção em situações sistemáticas que ocorrem com você com a desculpa de que é brincadeira ou até com ares de preocupação e cuidado. Preste atenção em típicos assédios que muitas sofrem dentro de suas próprias casas diariamente como uma tortura chinesa lhe tornando dependente e tirando a vontade de enfrentar os desafios: "Você é louca", "Nenhum homem vai te aguentar", "Ninguém mais vai te amar", "Você nunca vai conseguir", "Você está gorda", "Você é uma frígida", "Você é uma louca". "Você é louca", "Você e louca"...
Assinado: A rapariga mais corajosa da cidade.
]bw[

Gaslight

Tantos blogs e canais sobre como a gente faz para maquiar nossas verdades e "defeitos". Dicas pra disfarçar isso e parecer aquilo. A melhor depilação, o volume e o tom... Máscaras e máscaras em favor do medo e da submissão.
Me sinto a margem. Acordo nos anos 1950 e passo o dia procurando as saídas para o presente. Há tanta coisa que eu queria dividir mas, aparentemente, só eu sinto, vejo, sofro. Tem dias que sinto como se eu fosse a única a perceber algo errado e que há sempre alguém com o poder de desligar a minha luz simplesmente porque nasceu com um privilégio, pacto silencioso de toda uma sociedade. Não acontece com você de às vezes se sentir exausta de uma luta de entrelinhas? Como um escudo invisível que todos sabem que ali está mas fingimos que não está e se eu disser que vejo, alguém com um pênis vai dizer que estou louca e que ninguém vai me aguentar, ninguém vai me amar se eu continuar estragando este lindo dia de sol e normalidade imaginando vultos; e alguma amiga dirá que isso não se comenta publicamente porque estaremos nos expondo e pode ser pior.
Mesmo que eu usasse pintura na minha cara, ainda assim sentiria uma falta tremenda de lavar o rosto e sair pra rua e ver mais mulheres discutindo, relatando como elaboram o que há embaixo da maquiagem, nos eventos de bate papos superficiais, quando sabemos que grande parte de nós esconde sistemáticos abusos morais, emocionais e gaslight. Só eu noto que, em nossa cultura, muitos homens confundem amor com dominação e abuso e que por gerações e gerações isto é tido como normal?
Queria mil canais sobre Não Maquiagem. Sinto uma vontade do tamanho do mundo de escutar que não estou louca, que não preciso mais disfarçar.‪#‎GaslightNuncaMais‬
_bw_

sexta-feira, 15 de julho de 2016

No meu país

No país onde vivo, é rotina acordarmos com notícias de que jovens gays foram sequestrados, torturados e barbaramente mortos. No meu país, vários religiosos seguidores de pastores extremistas festejaram o ataque à uma boate em Orlando há algumas semanas, onde dezenas de pessoas foram mortas. Para eles era a justiça divina.
No meu país, é comum sabermos notícias a respeito de grupos fora da lei, pagos por latifundiários que assassinam crianças indígenas.
Em meu país, cresci sabendo que grupos paramilitares atacam com armas de fogo, na calada da noite, grupos de crianças sem teto, enquanto dormem sem pai nem mãe. E turmas de jovens de boas famílias assumem a identidade dos piores espectros, ateando fogo nos corpos famintos, desenganados dos moradores das rua
No meu país, a polícia é treinada para desconfiar de pessoas negras, pobres ou que não ostentam riquezas, sequestrando e assassinando friamente todos os dias pais que estão voltando do trabalho, mães que saíram pra comprar o pão, crianças que brincam diante das suas casas humildes, jovens que estão voltando de uma festa simplesmente porque são jovens cheios de vida, assim como os meninos ricos da sua idade a quem são reservados mais direitos.
No país onde vivo, em nome da religião, muitos líderes da política e da igreja incentivam seus seguidores a acreditar que as dezenas de estupros - muitos deles coletivos - sofridos pelas mulheres são culpa das vítimas.
O país onde nasci é um dos países mais inseguros, cheios de preconceito, fundamentalistas e agressivos do planeta.
No meu país, há centenas e centenas de grupos organizados para massacrar cidadãos ou mesmo templo de religiões diferentes da sua crença, na calada da noite, disseminando medo e terror.
Por isso, quando vejo os atos terroristas que estão ocorrendo no mundo, não me sinto distante, não me sinto num país de mais sorte, não acredito que o lugar onde vivo está livre de uma guerra santa.
O país onde vivo, amo, trabalho e tenho sonhos é mais um lugar perigoso, que sangra devastado, onde terroristas atacam inocentes; onde o o ódio é disseminado em nome do poder, 
das riquezas e de um Deus que pode ser o signo de muitos pesadelos.
Amém.
]bw[

terça-feira, 12 de julho de 2016

Quem matou a casa do Mario Quintana?

Fazer arte é paz, exibi-la é uma guerra.
Não tenho me pronunciado ou participado efetivamente das lutas para salvar a CCMQ, a Sala PF Gastal ou mesmo a TVE...
Eu não tinha nem 19 anos quando comecei nesta vida, então me espraiar pelos espaços culturais desta e de tantas outras cidades do país era mais do que mera burocracia. Na minha sede, com tanta fome, me sentir parte era como se um mundo mágico abrisse as portas para as minhas ideias e pessoas já reconhecidas me dessem boas vindas ao seu planeta livre.
É que, o meu olhar muito cheio de asas, via tudo como um lar, independente da idade das pessoas, da sua relevância, fama, da arte em que eram especialistas, da casa onde estariam ocasionalmente seus espetáculos.
Era o mundo das artes, onde eu queria morar fosse eu filiada a um partido, anarquista ou alienada, acadêmica ou da rua.
Até hoje, me sinto grata por ser mais uma entre tantos toda vez que participo de algum momento com gente foda, porque pra mim tudo é mais difícil já que sou considerada "polêmica". As pessoas demoram mais quando deparam com o meu nome.
De verdade, sofri muitas perseguições porque nunca fiz acordos pra usar recursos e espaços públicos. Nunca me liguei a um partido e nunca puxei o saco. Se eu via gente se beneficiando por vias não éticas eu ficava puta da vida e, ingênua, ia nas reuniões pra colocar em cheque o nosso modo de pensar a cultura como o gaúcho da casa grande que divide a sociedade em castas.
Pronto, arranjei mil inimigos bem mais fortes e ricos que eu... Até hoje, aqui e ali, encontro pessoas que me perseguiram. Uns mantém os mesmos olhos sobre mim, ferinos. Outros se redimiram e hoje são meus pares e me fazem carinhos.
Pensar na morte desses espaços que são de toda uma população e não foram regados,
me faz sofrer como alguém que sabia que tinha algo caminhando mal, mas eu era uma ninguém e todos me chamaram de louca, sofri alijamentos e, claro, muito machismo que é o tempero que não pode faltar.
Diferentes da TVE e da Rádio Cultura, que desde a minha adolescência, independente do quanto estivessem caindo aos pedaços no jogo dos partidos políticos, jornalistas e outros funcionários nos recebiam com os braços abertos;
as casas culturais que tínhamos para desenvolver nossos projetos, sempre tiveram uma cortina política que manejava os gestos dos seus gestores, repetindo critérios desgastados. Uma precaução injustificada residia sobre suas mesas. Se você passasse por ela, o sol se abria para o teu encontro com o público, mas o problema era passar. Muitos de nós, ultrapassamos a mata fechada das seleções com uma foice.
Existiram momentos em que sentei nas salas de senhores importantes desta cidade e os enfrentei e exigi espaço para meus projetos. A última vez foi nos 10 anos do Cinema8ito, quando precisei ir à público para ser recebida e poder usar por uma semana uma das salas da CCMQ para fazer uma retrospectiva dos nossos filmes.
Mês que vem,, por exemplo, o meu filme mais importante faz 15 anos e, apesar de sua relevância como curta brasileiro, aqui em Poa não haverá um só "curador" que o festejará, então se eu quiser fazer um evento vou ter que me preparar pra mendigar uma sala, algum estagiário vai ficar responsável por me dizer que tem que esperar a apreciação de algum diretor que sabe muito bem quem eu sou e de qual filme falamos mas vai me deixar esperando e esperando e, se eu não falar grosso, vai passar a data e... nada de evento.
Para mim, tais atitudes de uma política rançosa é que estão matando os nossos espaços.
Ou seja, não são só os senhores cretinos da política, mas nós como produtores culturais que precisamos repensar nossas micro políticas.
Vários de nós, por não serem de algum partido ou serem contra as vantagens que uns tem por serem amigos de alguém e "bons moços", sofreram dissabores ao longo das suas carreiras.
Há ainda os espaços não públicos, mortos pelas redes midiáticas porque a liberdade de expressão dá menos lucro... Nós aceitamos quietinhos e fomos correndo lamber as botas da grande mídia.
Em minha carreira, negociei com vários gestores de casas de cultura pelo país todo, secretarias, entidades e até no MinC, observando a característica de cada um com esse meu jeito meio autista e essa mania de ir sozinha em reuniões com secretários de cultura e diretores escolhidos pelos partidos da ocasião ou porque são famosos.
Fui aprendendo desde cedo que haviam partidos políticos envolvidos com cada casa pública de cultura nesta cidade, estado, país, então eu fazia uma política da simpatia com os senhores atrás das mesas para ser aprovada a minha entrada e, depois, era com os funcionários, já meus conhecidos que eu objetivava os projetos e não precisava usar uma máscara.
Sobre a Casa de Cultura Mario Quintana, quantos momentos lindos dirigi ou participei como convidada nos teatros, cinemas, corredores, salas de oficinas... Desde o meu grande festival que ocupava vários espaços da casa e de outras por vários dias a eventos coletivos como os últimos que participei: em 2010, projetei nas paredes do prédio que já pedia socorro, em 2014 fui VJ em um espetáculo no Teatro Bruno Kiefer.
Assim como tantos outros, a CCMQ é um dos espaços públicos que estão misturados na nossa existência como artistas, experiências que deveriam apenas nos fortalecer pra nos manter crescendo, nunca nos entristecer a ponto de pensarmos em desistir.
Minha geração, ao ver as portas das casas públicas se fechando solenemente para a maioria, começou no início deste século os coletivos, que são pequenas casas livres de convivência e residência, são nichos, diversidade, alternativas. Contudo, há projetos que desenham-se para públicos mais amplos e espaços maiores e tal opção já não temos a não ser que façamos um trabalho sem personalidade.
Quando os espaços de cultura definham é como se a história pessoal de todos nós, artistas, morresse um pouco pois elas estão misturadas com a gente, circulando nas nossas veias assim como nós circulamos em seus corredores sentindo o perfume das invenções que nos alimentam.
biAh weRTher

sexta-feira, 17 de junho de 2016

No baile dos vampiros.

A morte nos parece um castigo desde que inventamos religiões, então ela passou a ser o melhor modo de uns controlarem os outros.
Dizem que antes da inventarmos esse Deus à nossa imagem e semelhança, você matava pra comer e não pra exibir uma cabeça em cima da mesa ou um corpo em cima da cama ou um enforcado numa cadeia, um corpo estirado num beco sujo, desfigurado numa cruz a título de troféu.
Me parece que o caminho do significado de amor se confunde com a trilha que nos leva até a morte. Quanto mais longe do final, mais perto estamos do egoísmo e de todas as nossas rasas aventuras centradas no umbigo. Quanto mais próximos do término, mais sensíveis. Dizem...

Não que seja uma regra, mas observo que as pessoas na iminência da morte por estarem muito doentes ou velhas ou suicidas ou a mercê de algozes, ganham o dom de ver com mais clareza o que realmente importa e se desnudam mais e perdem mais as armaduras e se misturam mais com o simples, menos com o simplório. É como se você passasse a vida sendo um idiota que não aproveita as vivências e deixasse pra, do nada, tornar-se
um sábio assimilador das verdades mais complexas ao submergir no colapso
dos últimos meses, dias ou segundos, dependendo do caso.
Há quem peça perdão, há quem aprenda a perdoar, há quem apenas goze pela primeira vez na vida justo na hora da morte, que é nascer ao contrário mesmo que não exista um outro lado.
Último suspiro me lembra orgasmo, daí a compreensão do amor se estabelece na proximidade da morte.
É mais comum identificarmos bullying entre grupos muito jovens, como é mais comum vermos linchamentos morais entre pessoas adultas e-ou idosas da facção consumista - onde consumismo é sinônimo de incompetência e ingenuidade, logo infantil.

Um parentese. Não quero mais dizer que os adultos mudérnos estão infantilizados porque sei que pode parecer que não valorizo a infância, quando acho fundamental ser criança pela vida a fora. Então, hoje eu resolvi que adultos consumistas e obtusos não são tão infantis assim, eles querem ser jovens e bancam os abobadinhos viciados em posses mas, ao invés de crianças, são apenas cretinos e superficiais. Ponto.

A morte está perto.
Mas há toda uma publicidade que fala de um futuro banhado a ouro e eterna juventude, fazendo os mais despreparados (aqueles que eu vinha considerando infantilizados) crerem que podem escapar de morrer ali na esquina sem prévio aviso. Talvez todo este produto chamado dinheiro não seja, afinal, para comprar um terreno no céu, mas para pagar propina ao anjo da morte.
A parte estas infantilidades (ops! cretinices) cada vez fica mais necessária a proximidade do fim para que o grande corpo, essa verdade da qual somos parte e não centro, tente se salvar de um ocaso sem poesia. Isso mesmo, talvez a morte seja um poema tão libertador que foge das rimas.

Pode ser tarde, pode dar tempo... Quem sabe o modo de disseminarmos o amor essencial e não aquele vendido nos sites de compras, seja o reconhecimento e a delícia de morrer um pouco todos os dias ao invés de deixar pra levar o susto no momento derradeiro como quem não sabe que ele viria. E virá.

Deveríamos é cantarolar sobre o outro lado do começo para os bebês, cantar sobre o amor que vem com a proximidade da morte como se falar do fim pra quem está no começo fosse antes uma obrigação e nunca uma heresia. A descoberta e familiaridade com o fim ao invés da fuga.
É que talvez, sentindo a morte como o espectro mais presente, não queiramos tanto matar o outro, mas sim viver em nós mesmos o suficiente para vivermos todos enquanto é pra se viver.

A cada dia vamos em direção ao ponto final fugindo como o diabo foge da cruz para um impossível reencontro com aquilo que nunca voltará. Vamos deixando escapar o amor que ensina a não matar aos poucos a vida que está ao nosso redor cheia de mortes inúteis em nome da imortalidade.

Somos, na vida eterna, o sadismo dos meninos que machucam pequenos animais e dos normais que apedrejam os diferentes; somos aqueles que participam de linchamentos sem saber o que fez o açoitado pois o que vale é o quanto nos excita o cheiro de sangue.

Morrer é a primeira necessidade da vida, morrer feliz a cada instante pelo amor mais sublime ao invés de nos matarmos a cada momento em nome do ódio.
Viver em busca da eterna juventude que não entende o valor da morte é como comprar ingresso para um infinito baile dos vampiros.

]biAhweRTher[

quarta-feira, 8 de junho de 2016

|O FILME SOBRE JÚPITER APPLE|

|||diário da diretora|||

"O GAROTO DE JÚPITER"
Lá pelos 10 anos, Flávio já tinha um violão. Segundo a mãe, dona Iara, ele não dava tanta atenção para o instrumento quanto para os vinis de rock que começou a colecionar cedo como todo o menino de classe média em Porto Alegre no final dos anos 70. Nessa época, parece que a família ainda não percebia que aquele não era um garoto comum.
Por volta dos 12 anos, percebendo um maior interesse pelo violão, sua avó resolveu pagar um curso para que aprendesse música, mas após a quarta aula o menino chegou em casa insatisfeito e declarou:
- Mãe, não quero aprender a tocar "Parabéns a Você", eu quero é tocar Beatles!!!
E assim foi. Após abandonar as aulas, ele logo estaria compondo. O pai, um professor de Física meio distante dos gestos de carinho, já então divorciado da mãe, percebendo o dom ou pela insistência do filho, o presenteou com uma guitarra. 
No colégio Rosário, as notas do menino que amava os 4 garotos de Liverpool despencaram para o subsolo do prédio onde morou toda a infância na rua Cauduro, enquanto sua alma flutuava em direção a um planeta que um dia ele chamou de Júpiter, onde aprendeu sozinho a cantar e tocar vários instrumentos; passou por São Paulo, todo o país, Londres e Paris entre muitas mulheres e grandes parceiros de hits radiofônicos; cambaleando em becos sujos, pulsando em palcos, embriagado em lugares do caralho e quartos de hotel.... O garoto por vezes vinha visitar a Terra para homenagear este planeta, até que, numa tarde, nunca mais aterrissou deixando todos aguardando o seu último show.
|||||||||||||||||||||||||||
DIÁRIO, 07 de junho de 2016
Aniversário do meu pai que também não mora mais aqui. 
Muito frio na tarde de sol, meu lindo chapéu de brechó - sou uma porto alegrense! . Saio ansiosa, prestes a começar mais um trabalho que talvez um dia faça parte do mosaico histórico do pólo criativo mais provinciano do país.
Meu encontro é com a mãe de Flávio Basso no Ateliê Bestiário, um dos lugares da cidade onde sou artista residente. O ateliê fica dentro da Marquise 51, nada menos que seu selo e um dos últimos lugares onde Júpiter Maçã tocou. Pocket show antes da falência múltipla de seus órgãos.
Eu e dona Iara namoramos por cerca de dois meses pelo telefone e redes sociais até nos encontrarmos pessoalmente. Queria eu que nada fosse às pressas, tudo mais sensorial do que obrigatório.
Cheguei a comentar o projeto superficialmente com amigos meus e de Flávio, mas não queria começar nada oficial antes de criar uma intimidade com sua mãe pois algo me dizia
que ali estava o meu argumento, o elo perdido entre a minha dúvida e o meu próprio olhar definitivo. O que conheci do Júpiter é algo entre nós e parcial, assim como foi com cada uma das outras centenas de pessoas que passaram por sua tumultuada vida, a maioria bem mais íntima dele do que eu. Sua mãe sabe do começo e do fim, onde se fez muito presente por iniciativa dele nos derradeiros dois anos. O miolo da história somos todos nós e seu público, como numa lenda.
Desde a noite de sua morte eu sabia que iria fazer o filme mas não entendia ainda como isto se daria. Um documentário? Uma ficção? 
Nada certo dentro de mim além da incerteza. 
Eu só sabia que não queria contar um conto sobre uma lenda urbana, mas sobre uma alma inquieta e criativa, mais humana do que célebre.
A conversa de horas foi esclarecedora como uma luz no final do túnel onde um menino-homem está sentado em um piano e sonha que vai fazer um filme.
Entendi que farei um documentário ficcional. Depois de meses com uma profusão de ideias feito a hora do rush, relaxei. Percebi os tons, os sons, a primeira cena, a cena final. Visualizei o tempo correndo nos 47 anos do menino Júpiter.
Cheguei em casa, sentei no computador, fiz alguns contatos para primeiras entrevistas e em duas horas rascunhei 3 cenas, direto, sem tomar água, sem fazer xixi, sem tirar as botas, sem ligar o ar condicionado neste outono invernal a 7 graus sendo que odeio frio. Aqueceram-me as ideias.
O nome do filme é: "O Garoto de Júpiter"
Me parece fácil de entender. mas caso alguém não compreenda, ao longo do processo todos terão oportunidade.
biAh weRTher

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A mulher, o homem e o neologismo.

Sou feminista e pago o preço, mas me incomodo quando
alguém me chama de "lutadora". Eu não quero briga, sou pela paz. Quando sofro com o machismo não entendo como uma luta e sim como uma agressão unilateral da qual sou vítima e devo me defender e ser defendida pela justiça, conscientização, uma sociedade com acesso à cultura e educada para a igualdade e não para a guerra.
É uma fronteira translúcida, pode ser uma utopia
e alguém menos sensível pode achar bobagem, mas pra mim é uma diferença brutal.
Ok, eu xingo o Bolsonaro e não consigo evitar o ódio de estupradores e seus defensores; eu sofro de TAG por conta de abusos sofridos por parte de homens com os quais me relacionei ou trabalhei e estes sentimentos tem a ver com guerra e, por isso mesmo, eu preferiria não senti-los. Não os exulto nem me orgulho quando sou bélica porque isto é consequência dos traumas causados por uma sociedade que promove a competição e desigualdade nos relacionamentos.
As palavras são muito importantes pra algumas mulheres, mesmo estando fora de moda a leitura e na moda escrever sobre moda e nada mais.
Então - alguém vai me odiar por isto - também não utilizo a expressão "empoderamento". Poder pra mim pode virar um monstro e o seu derivado, ainda que positivo, pode ser deturpado por uma maioria, como toda a palavra solta numa passeata ou em grupos específicos.
O símbolo da conscientização tem que ser simples, direto. Uma palavra que gere outras e não uma que tente dar um novo sentido ao que massacra: poder.
O novo sentido está nas nossas ações e o título desta novidade deve ser novo.
Poder não tem como ser sinônimo de igualdade, poder
é um palavrão, assim como guerra. Dói até pensar, envergonha até sussurrar porque lembra tudo o que milhões e milhões sofreram e sofrem em nome do vício que alguns tem pelo poder.
Por exemplo, percebo que as mesmas pessoas que adotaram o empoderamento como palavra de ordem não acreditam que exista um homem feminista e eu acho que sim e que as palavras criam uma força de cabo de guerra quando deveriam unir.
Sim, você acha que estou falando de temas pequenos quando há mulheres sendo espancadas bem agora. Me desculpe, não deixo de pensar em tudo o que estamos vivendo, cada uma de nós há séculos e séculos. Apenas não acredito em heróis e heroínas e que um homem não pode querer sinceramente a liberdade de uma mulher.
Mais além, as mesmas pessoas que acreditam que homens não podem ser feministas, defendem o direito das mulheres machistas cometerem as piores ofensas à outras mulheres, gerarem e educarem o pior tipo de homem, porque elas são vítimas cegas que ainda não "desconstruíram" o machismo no qual vivem aprisionadas, coitadas... vítimas defendendo seus algozes, escravizando outras mulheres através de seus filhos que elas criam pra manterem a escravidão.
É como se algumas de nós já começassem a acreditar que sim, o feminismo é o contrário do machismo, quando não é. Como se homens e mulheres estivessem destinados a serem inimigos, quando não estão. É tudo uma questão de cultura, educação e união pela mudança dos sentidos.
Eu não, não perdoo e não vejo nenhum coitadismo em senhoras que batem panelas, em mulheres maldosas tomadas pelo preconceito, em esposas de eduardos cunhas, em escravistas odiadoras da liberdade alheia, em pastoras gritonas, em mulheres que riem e culpam uma menina da periferia estuprada por 33 inimigos.
Há vítimas entre mulheres que não desconstruíram o machismo e há mulheres entre mulheres que são seres humanos desonestos e machistas porque lhes parece conveniente.
Assim como há homens que estão num processo de desconstruir
o machismo porque percebem que não lhes será tirado nada vital se conviverem com a igualdade de gêneros.
E sobre o meu desconforto em utilizar a expressão empoderamento quando falo da consciência de que eu sou digna de respeito e dona do meu corpo e dos meus pensamentos... Não há muito o que explicar, apenas acho um vocábulo pouco feminino e com uma vogal que fecha os lábios num círculo apertado. Expressões abertas me parece que unem mais. Coisas como liberdade, vontade, amizade, igualdade e palavras que ainda não foram inventadas, estarão livres e únicas e não serão derivadas de outras costelas.

]bw[

segunda-feira, 30 de maio de 2016

uma porta encerrada

dentro do meu vazio
há um lugar secreto
porão de um navio
onde navego morta
com um pequeno buraco
por onde observo a vida

e há uma porta
na forma de uma ferida
fenda aberta nas tuas costas
no meio das minhas pernas
por onde escondi as asas
quando caminhei nas ruas
no eco das palavras tuas

aqui ninguém me invade
daqui ninguém me escuta
daqui ninguém me expulsa
ela é fora, ela é dentro
ela é longe do meu centro
ela é tudo o que tenho

os mistérios que eu lia
mas você me proibia
cemitério das verdades
o fogo que consumia
no porão da eternidade
o olho, a negação
a maldade

]bw[

sábado, 28 de maio de 2016

Eu na Península.

Adotei meu nome artístico na adolescência , dentro de um momento de profunda depressão, querendo viver de arte, saindo da casa dos pais como uma espécie de renegada, me sentindo velha, engolindo a vida a seco e repetindo: eu aguento. Morei sozinha numa casa gigante de 4 quartos, quase sem móveis, uma goiabeira e 30 gatos. Foi onde aprendi a fazer partos felinos e comida vegana. Na época eu andava pelas ruas com o Werther embaixo do braço, era frio e eu criava roupas pretas... Pouco mais tarde viria meu filho e eu fundaria, entre outros oitos, o Cinema8ito. Na apresentação do evento onde participo dia 31, na Península, os organizadores citaram:
"Quando a exaltação definha, fico reduzido à mais simples das filosofias: a da resistência (dimensão natural das fadigas verdadeiras). Aguento sem me acomodar, persisto sem me aguerrir: sempre transtornado, jamais desanimado; sou uma boneca Daruma, um joão-bobo sem pernas no qual despegam piparotes incessantes, mas que finalmente retoma o prumo, graças a uma quilha interior (mas qual seria minha quilha? A força do amor?). É o que diz um poema popular que acompanha essas bonecas: A vida é assim, cair sete vezes e levantar oito" (Werther)
Amor.


É DIA 31 NA GALERIA PENÍNSULA: https://www.facebook.com/events/1300222196673178/

RESISTÊNCIA É CRIAÇÃO

Entendemos a resistência como criação seguindo os passos de um pensamento que deseja a diferença. Neste momento de labirintos políticos e lutas convidamos artistas, produtores, realizadores, coletivos, profissionais da cultura e a sociedade civil para uma conversa-debate sobre o processo, os símbolos e as implicações imediatas da atual política instalada no Brasil. A proposição é criarmos um grito de resistência em meio a esta dimensão confusa e catastrófica, partindo do pressuposto de que arte e cultura não são apenas pra garantir o trabalho e exercício intelectual do artista, mas (e sobretudo) existem para garantir a atividade do pensamento e da prática do corpo social, da população como um todo. Central e periférica, do Oiapoque ao Chuí. A responsabilidade da construção de um processo político e cultural também é nossa, agentes culturais.
Local: Galeria Península (Andradas, 351). Porto Alegre.
Data: 31/05 (terça-feira) às 19h

DEBATE ABERTO E PÚBLICO

Participam do debate:

Patricia Argollo Gomes
Psicologa, Mestre em Psicologia Social e Institucional/UFRGS, Dra. em Informática na Educação/UFRGS, Docente, Apaixonada por Arte, Pensamento e Escrita, Militante pelos Direitos Hunamos. Meu conceito chave é Trans.

Ana Albani
Doutora em Artes Visuais pelo PPAV UFGRS. Professora no Instituto de Artes da UFRGS, nos cursos de Artes Visuais e Historia da Arte, onde desenvolve pesquisa sobre Crítica Institucional. Vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas - Anpap gestão 2015/2016. Atua como curadora e critica de arte.

Pedro Guindani
Nascido em Porto Alegre em 1985, Pedro Guindani atua no mercado audiovisual do Rio Grande do Sul como diretor, produtor e roteirista desde 2006. Entre seus principais trabalhos como diretor e roteirista, estão os premiados curtas-metragens "Os Olhos de Capitu" (2007) e "O que ficou pra trás" (2014), nos quais atuou como diretor e roteirista; a minissérie "Bocheiros" e o longa-metragem "Terráqueos: Vestígios de uma Era Digital" (2014), nos quais foi produtor executivo, assim como nas três primeiras edições do FRAPA - Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre.

Lucas Maróstica
é estudante de jornalismo da PUC, ativista LGBT e representante da União Nacional dos Estudantes no Conselho Estadual de Juventude. 

biAh weRTher
fazedora de cine desconstrução*fotógrafa dos gestos submersos*tocadora de theremin*escrevedora de moscas volantes*misturadora de tecnologias* VJ *mochileira do Cinema8ito*desenhadora de nuvens e ventos*criadora de vestidos, coisas com luz dentro, patuás e música experimental.

Francisco Dalcol
Jornalista, crítico, pesquisador e curador independente. Doutorando em Artes Visuais (História, Teoria e Crítica) pelo PPGAV/UFRGS com pesquisa voltada às relações entre arte e política nas práticas artísticas contemporâneas baseadas em viagens, expedições, percursos e deslocamentos. Em 2016, ministrou o curso "Arte e política, arte política ou política da arte? Imbricações entre estética, crítica e política nas artes visuais" pela Anis Cursos, no Santander Cultural.

Nanni Rios
Jornalista formada pela UFSC com especializações em jornalismo digital (PUCRS) e economia da cultura (UFRGS), atua como produtora cultural e ativista pelos direitos humanos em Porto Alegre. É uma das integrantes do coletivo cultural Aldeia, onde mantém uma livraria e promove eventos literários com foco em literatura de autoria feminina e gênero e sexualidade. Às segundas-feiras, apresenta o programa Virada Mix, no canal Octo, sobre diversidade sexual, racial, cultural e de gênero. É uma das produtoras da festa de música brasileira Cadê Tereza?.

Apoio:
Galeria Península

AB i Sal

Hoje acordei feliz e quente. Céu azul mais uma vez. Pássaros de novo. Meu amigo bem te vi cantando na janela e eu me sentindo completa. Vim até a internet disposta a repetir o que falei ontem: Não quero mais saber de tristezas. Fingirei que foi um pesadelo saber que usamos uns aos outros; nos matamos e aos outros com um conta gotas ou com o tiro certeiro. As gentes se machucam, tiram sangue, mentem e saracoteiam em cima das outras. Expulsamos uns aos outros do caminho do sol com o dedo apontado na cara, gritando: vai que a noite mais abissal te aguarda. Assim, damos as costas e foda-se.
Os mais espertos empurrando os mais frágeis pra um terreno árido sem perceber que assim se sufocam também.
Não sobra ninguém quando alguém sangra por força do ódio coletivo, em nome de interesses banais.
Eu era feliz hoje de manhã e queria só repetir que agora aqui é só paz, amor, gentileza, lealdade, sexo (consentido e prazeroso) e risos.
Mas cheguei na internet e ao primeiro enter levei a primeira porrada do dia. As notícias e a competição estão enlouquecendo uns e congelando o coração de outros.
A culpa não é da internet, óbvio. Como não foi um dia do rádio, dos correios, da televisão ou o código morse.
As ferramentas não são o problema, a água turva somos nós, egoístas.
A gente consegue matar a beleza do amor usando até sinal de fumaça. Somos bons na maldade... treinados.
Nós mentimos tanto que eu não posso ser diferente. Também quero mentir. Vou mentir então que tudo foi um sonho ruim e acordei segura porque a gente se ama, nos respeitamos, a gente não mata aos poucos ou com um tiro certeiro aquele que está ao nosso redor desprevenido. E a gente não precisa estar em guarda até dormindo, como num campo de batalha.
Hoje perambulei sozinha com a verdade por lugares desconhecidos reconhecendo minha distração.
Abstraio mas não traio. Ainda não desisti do propósito de falar só de coisa boa que nem aquela mulher de voz trêmula que faz propaganda de iogurteira.
Até sumir do mapa, morrer, virar moradora da última caverna não habitada do planeta ou fingir que tudo está bem quando não está, pode ser uma coisa boa, desde que alguém viva melhor por causa disso. Desde que exista algum sobrevivente.
Quero fugir pra um outro lado em busca de ficar melhor, ser melhor, porque o pior a nossa cara estapeada já sabe de cor.
]bw[

sábado, 21 de maio de 2016

Sobre o nada

Ainda sobre ser artista, a nossa coragem precisa ser dobrada quando dentro do nosso mundo e até dentro de nós mesmos encontramos inimigos. A arte não tem definição nem mesmo do seu espaço e, assim, pode ter muitos porteiros numa mesma porta por onde não caberia sequer o filhote de um rato; e diversos juízes de uma luta que não era pra ser guerra mas é.
Ainda sobre viver de uma coisa que sai da gente e não tem serventia pra uma grande maioria, a nossa coragem tem que ser redobrada quando dentro do nosso mundo existem inimigos movidos por uma competição em busca do nada, do efêmero, de algumas migalhas que uma pequena parcela da platéia nos jogará em forma de estrelas e a gente vai se empurrar e rastejaremos pra juntar e tomar banho com elas pois talvez pareça até pra nós mesmos que a gente só precisa de elogios e uns troféus de muito mau gosto que a gente pode picar, temperar, costurar, reciclar, comer e vestir e sobreviver.
Ainda sobre o artista, a nossa criatividade é uma colagem de aplausos e cuspe que a gente veste e despe e lambemos feridas e é só.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A autora é uma sogra?

Acontece de tudo nessa louca relação entre quem cria, a cria e quem se apropria. 
Há pouco eu postei no meu twitter: "Nada me deixa mais magoada que as pessoas divulgarem imagens do meu trabalho e não darem os créditos. Talvez porque eu me dedico demais..."
Sim, pode ser por que a gente se dedica muito e há segredos e uma relação íntima ao extremo entre nós e a nossa criatividade, mas deve ser mais porque a gente se sente mãe daquilo que criamos... o que dá no mesmo, talvez. Sei lá, com a obra, um artista divide coisas que nunca com uma pessoa mesmo que durma junto por 50 anos.
Me perco pensando nisto porque é contraditória a situação de artistas como que eu passam a vida querendo criticar a propriedade em várias circunstâncias mas defendem a autoria.
A ver, a gente se constrange em colocar o nome na frente, em bater demais no peito, mas a gente espera que as pessoas sejam éticas ou atentas, cuidadosas por assim dizer.
É tudo delicadíssimo e em sintonias muito finas isto da propriedade intelectual.
Só sei que acontece o tempo todo, muitas vezes as pessoas fazem sem querer, por distração, mas machuca e é mais forte que a nossa crítica ao ego do artista.
Quando acontece comigo - e eu deveria já estar habituada - me dá uma dor engraçada e me prova que a propriedade intelectual é algo que transcende a razão. Sinto uma coisa quente no estômago, uma certa náusea, susto e uma decepção com a vida quando algo que saiu das minhas entranhas estranhas aparece como se fosse gerado por outra. Sabe quando tu é assaltada e te levam algo que tu demorou muito pra conseguir; ou quando o teu filho pequeno some no meio do super mercado e te dá uma dor e o teu corpo se curva? É assim a sensação quando não me dão os créditos. Parece exagero, mas tenha certeza que é assim com muitos artistas.
Então a gente poderia dizer que essa necessidade que o criativo tem de assinar seu trabalho em contradição com a vergonha de fazê-lo por parecer excesso de vaidade é um sentimento maternal.
Como não querer deixar o filho ir.
Fico entre as duas vias tentando ser racional.
Primeiramente, creio que a pessoa que inventa, cria, se dedica, passa anos até fazendo um projeto artístico (eles são sempre mais complexos de criar do que parece), precisam se desprender e deixá-los ir.
Segundamente, enquanto o autor de uma obra tem o direito de se desprender, as outras pessoas que fazem parte dela em algum momento ou apenas espraiam por gostar, tem o dever de desenvolver uma natureza sensível ao fato de que a obra que lhe dá prazer veio do ventre de alguém (o artista seria a sogra?) e, portanto, antes de usar e abusar da criação do outro é necessário entender qual é a relação do artista com aquela arte.
Há obras que a gente quer dividir (como no meu projeto FBI, em que enviamos o copião do nosso filme pra outros cineastas reeditarem à seu prazer); há obras que você deixa fazerem download mas não gostaria que remixassem; há trabalhos que você não mostra nem pra pessoa mais próxima e se alguém mexer nas suas gavetas e a encontrar você vai sofrer tanto que talvez não sobreviva.
Você quer entregar para o mundo aquilo que inventa e quando chegar no mundo vai virar outra coisa e não há o que você possa fazer a respeito. Só que esta outra coisa, como um filho, sempre fará parte de você lá no princípio do seu caráter.
Tenho uma certeza de que nesta complicada matemática da autoria o segredo está na delicadeza, na sutileza de uma cultura que não veja as coisas aos pedaços e sim os elos e continuidades.
Há coloridos cordões que nos ligam eternamente ao que sai de dentro de nós e eles precisam ser solenemente respeitados.
Só com menos ansiedade e menos consumismo a gente consegue perceber estas linhas que abraçam a tudo e todos enquanto sociedade, e nisto entra a arte.
biAhweRTher

quarta-feira, 11 de maio de 2016

A mulher e a câmera.

Não sou daquelas pessoas que fala muito sobre as opções técnicas do trabalho. Atualizações dos softwares, micro diferenças entre uma câmera e outra, a guerra das tecnologias, plataformas e marcas... Bá, prefiro pensar na luz. 
Tenho fases... Depende da estação do ano, de como vai o sol, se está nublado, se é um surfista no mar, uma foto de moda, a natureza, o velhinho distraído no centro da cidade, a formiga invisível ou uma banda num palco com uma péssima iluminação vermelha.
Admito que me apaixono por lentes, isto é verdade. Mas não falo muito delas, durmo com elas. E isto é sério, quem dorme comigo sabe que não é raro dividirmos a cama com uma câmera. Tanto que, há alguns anos, numa oficina de cine desconstrução em alguma capital qualquer do país, eu mandei um garoto nervoso dormir com a super 8. Dito e feito, no outro dia ele estava super relaxado e do seu olhar saíram lindas imagens em movimento.
Nessa confusão toda que fica na cabeça, no coração, no estômago e no sexo, fazer imagens - ao menos no meu entendimento - é muito mais sensibilidade do que foco, do que a fita métrica, do que escolher o Iso, O olho sabe, é orgânico... desculpa dizer esta bobagem, mas é talento e não há decoreba na subjetividade.
Comecei um álbum na minha fanpage com as fotos que considero incríveis mas foram rejeitadas solenemente pelos clientes. Felizmente é um fato tão novo pra mim que só há fotos de um cliente e tomara que fique nisto por um bom tempo
Em abril fiz uma sessão de fotos
barata e improvisada como eu gosto porque exige criatividade. Sem recursos pra produção, sem maquiador, assistente, veículo de produção, equipamento de luz.
Só tinha grana pra nós, eu e as lentes.
Fomos. Temos.
Apesar de reunião prévia, de um estudo de referências e de eu ter feito uma pré produção, a sessão que pra mim resultara em 4 séries fantásticas em locações dentro do Hospital Psiquiátrico São Pedro, desagradou imensamente o cliente. Faz parte, não gostar acontece, desrespeitar o profissional é proibido.
Bastante satisfeita com o resultado, sob pressão de um deadline mortal do cliente, optei por uma metodologia. Enviei primeiramente uma série de fotos artísticas para ele ir aprovando enquanto eu ia trabalhando fotos mais naturalistas e uma boa diversidade estética. Agi sem pensar no cachê pois quando eu aceito um trabalho não penso nisto e não trabalho com menor ou maior dedicação, Compro a ideia.
Para minha surpresa, com apenas dez por cento dos retratos enviados, o cliente já um pouco irritado e apressado, me enviou uma print com uma análise fria e meio humilhante que continha riscos e setas sobre as imagens avaliando micro pontos de meia dúzia de fotos que, me pareceu, eu deveria corrigir. Junto vinha uma observação em caixa alta: As outras não gostei. Ponto.
O cliente era muito jovem e talvez nunca tivesse se relacionado com um profissional, então eu respirei, me mantive muito afável e pedi que ele ficasse calmo, larguei o trabalho de um outro cliente bem mais relevante e passei a madrugada enviando fotos em uma outra estética, começando uma tentativa de contemplado e segura de que conseguiria porque foram centenas de disparos com isos, lentes, cenários, luz variados,
Não cheguei a enviar nem metade das opções e descobri que o cliente nem fizera download das fotos, cortando relações e me deixando feito boba por dias a trabalhar para tentar agradá-lo.
Acendi meu incenso, meditei e retornei aos outros trabalhos de relação mais normal.
No dia seguinte, ainda meio sem entender o que tinha se passado, recebo o contato de uma banda de Berlim, pra qual já trabalhei como VJ, pedindo fotos pra uma capa e encarte de CD.
Ora, o trabalho para o jovem cliente que não fora legal comigo era semelhante a este, então pensei: Será que existe um Deus e isto é uma compensação por eu ter sofrido um belo alijamento ainda ontem?
Não sei nada sobre isto!
Quero dizer, não me apetece ficar exultando a câmera nova, o paranauê caro e apenas os sucessos. Eu gosto de falar sobre conceito, sobre autoria, sobre o respeito, sobre a tentativa de fazer os clientes entenderem que "eu to pagando" não pode pautar as relações de trabalho. Gosto de falar sobre erro, sensibilidade e aquilo que a gente aprende na faculdade, sobre esconder a humanidade no ambiente de trabalho..
Eu conheci um fotógrafo que me disse: Se eu sinto que vai ser desconfortável ou se vou ser maltratado, cobro 4 vezes mais.
Pode ser uma boa... Mas há momentos que a gente não pode prever. A única certeza que eu tenho é que eu, além de criar esta vitrine das imagens não aprovadas que, apesar disto, me dão orgulho, vou inventar uma outra redação para contratos de trabalho.
Meus contratantes, a partir de agora, tem que me
assegurar que amam o que fazem, que gostam de olhar nos olhos de quem contratam, que sabem que estão contratando pessoas e não robôs ou escravos e que conversar, respeitar, viver com felicidade e honestidade todos os momentos, profissionais ou pessoais é estar pleno e isto vale mais do que mil notas de dinheiros.
Paz, Amor e Gentileza \o/