terça-feira, 19 de setembro de 2017

17 anos

A censura pós democracia não é de agora. Os meninos comportados da classe média é que só a percebem agora.
Quando realizei, em 2000-2001, o "Suco de Tomate", passei por poucas e boas. Em cena, duas moças filmavam sem querer duas mulheres mais velhas que transavam e depois matavam um garoto de programa. As moças cineastas acabavam velando o filme e lavando as mãos. Eu canto com voz fofa na música do final.
Pagamos a produção com um prêmio Iecine. Para finalizar o filme, 35 mm, um trabalho caro, finalização em SP... tentamos os recursos via Fumproarte. Na última defesa, uma senhora da banca teve um piti e diante de todos os concorrentes, numa tarde traumática na sala PF Gastal, ela deu um parecer enojado, disse que meu filme era uma pornochanchada barata que não deveria ser paga por recursos públicos.
Envergonhada, me retirei segurando as lágrimas. Encontrei o Giba Assis Brasil ao sair da sala e fiquei constrangida por que ele me viu chorando e eu já estava ficando famosa por ter a sensibilidade exacerbada.
Vendemos um carro e terminamos o filme que passou por mais humilhações. Jurados e críticos odiavam ou amavam e, em algumas salas, quando eu chegava, era silêncio. Tudo bem, eu já tinha feito vários super8itos e um 16 mm e sempre fizeram silêncio para meus filmes em alguns festivais. Só que com este filme acontecia algo pior. Moralistas não gostavam porque tinha sexo, entendidos em cinema reclamavam que não tinha nudez absoluta... Reclamação não faltava.
Numa dessas sessões, como eu nunca assisto meus filmes com o público pois fico ansiosa, era o Festival de Curtas de SP, saí da sala e fui num buteco ao lado. Encontrei o Júpiter. A Cris Lisbôa se juntou a nós. Ficamos ali, bebendo cerveja barata e escutando o Júpiter, coisas que ele estava precisando contar e zangado porque a Cris tem um sotaque fortíssimo de Uruguaiana e ele achava que ela estava debochando por ele ser gaúcho...
Mas sobre o Suco de Tomate, se me trouxe lágrimas, me deu prazeres. Esteve em 13 países, ganhou um Curta nas Telas, abrindo pra um longa estrelado pela Juliette Binoche, o que me deixou nas nuvens. Exibi em canais de televisão no país todo e, a melhor experiência, foi selecionado para um festival em Manchester.
Ali, vendo o filme viajar, eu liguei o foda-se para a censura da sociedade brasileira e ali eu entendi que meu caminho não pode estar aprisionado aos critérios de quem decide qual de nós pode ter as facilidade de fazer arte com recursos públicos e qual de nós vai pedir esmola. (Essa já é a resposta para quem vive me perguntando porque ando relutante com os editais).
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Agora é 2017.
Sganzerla possivelmente levaria porrada de ambos os lados se fosse rodar, hoje, o Bandido da Luz Vermelha.
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A censura na arte não é só de uma via. "Direitistas" não querem arte e pronto, odeiam a liberdade dos sentidos e pronto. "Esquerdistas" querem arte, mas no mais das vezes, preferem orientar o olhar do artista para terem certeza de que está politicamente correto, representativo, engajado ou o escambau.
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Muitos me dizem: Até sou de acordo que você faça um filme sobre Júpiter Maçã, mas desde que mostre "tudo".
Bem, sim, meu roteiro está mostrando tudo, só que é um tudo pelo meu ponto de vista. É um filme autoral ou preciso abrir o roteiro para uma banca de censores numa sala enfumaçada?
Sabem, me parece que a esquerda e a direita das pessoas que tem grana pra consumir arte no Brasil são dois irmãos em uma mesma família, cada qual no seu quarto, dando opiniões a partir do mesmo wi-fi. O que difere é que o quarto da esquerda tem posters mais descolados e o quarto da direita uma decoração mais comportada.
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Obrigada a todos os que me mandaram bonitas mensagens que me fortalecem. Claro que não vou desistir deste filme, estou mergulhada nele. Mas como seria melhor se as pessoas fizessem seus próprios trabalhos e deixassem eu executar o filme sobre o Júpiter em paz. Depois de pronto, caso não gostem, é outra história. É gosto e pronto.
https://vimeo.com/87211593
Um beijo
biAhweRTher

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Em cada um de nós, um carrasco.

Linda manhã de chuva.
Finalmente dormi, e muito, umas 13 horas de sonhos inquietos, com essa sensação ruim no peito.
Ando preocupada com a censura que está se estabelecendo mais escancarada após o caso da exposição Queermuseu.
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Sinceramente, duvido que um só autor esteja agora tranquilo ao trazer a público sua obra. E digo mais, o escracho vem de vários lados em todos os grupos e sítios da sociedade digital. Já vi artistas sofrerem o diabo, sofrerem patrulha porque alguém "ouviu dizer" que seu clipe era racista ou machista. Já vimos todos vidas encerradas bem cedinho após bullying virtual.
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Todos nós temos esta tendência horrorosa e bagaceira de nos unirmos na internet pra massacrar alguém. De escutar uma fofoca e não perguntarmos para a vítima a sua versão ou nem nos preocuparmos com o bem estar de quem está sendo agredido coletivamente.
Todos nós temos um lado grotesco que adora tirar sangue, participar de um linchamento como quem vai a uma peça de teatro.
Note bem, quem participar de qualquer gritaria, a partir de agora, seja fofocas inbox, seja escracho público, que tenha consciência de que está sendo parte efetiva na organização da repressão no Brasil.
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Linda manhã de chuva.
Finalmente dormi, e muito, umas 13 horas de sonhos inquietos, com essa sensação ruim no peito.
Ando preocupada com a censura que está se estabelecendo mais escancarada após o caso da exposição Queermuseu.
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Sinceramente, duvido que um só autor esteja agora tranquilo ao trazer a público sua obra. E digo mais, o escracho vem de vários lados em todos os grupos e sítios da sociedade digital. Já vi artistas sofrerem o diabo, sofrerem patrulha porque alguém "ouviu dizer" que seu clipe era racista ou machista. Já vimos vidas encerradas bem cedinho após bullying virtual.
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Todos nós temos esta tendência horrorosa e bagaceira de nos unirmos na internet pra massacrar alguém. De escutar uma fofoca e não perguntarmos para a vítima a sua versão ou nem nos preocuparmos com o bem estar de quem está sendo agredido coletivamente.
Todos nós temos um lado grotesco que adora tirar sangue, participar de um linchamento como quem vai a uma peça de teatro.
Note bem, quem participar de qualquer gritaria, a partir de agora, seja fofocas inbox, seja escracho público, que tenha consciência de que está sendo parte efetiva na organização da repressão no Brasil.
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Noto xs amigsx que estão morando fora do país mais intranquilxs, intrigadxs, assustadxs do que nós com a intolerância que nos golpeia sem descanso.
Será que por estarmos submersos nesse processo de golpe e ditadura digital, estamos como as vacas a caminho do matadouro? Num pavor letárgico? Numa tácita aceitação, como se fosse inevitável vivermos agora um longo período de mórbida mordaça?
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Ok, seguimos em plena produção, cada qual com seus espetáculos, shows, filmes, exposições... Estamos firmes, criando. Olha a tua timeline e vê que hoje a noite, vários colegas estarão firmes em shows e estreias.
Todos eles correm o risco de aparecer horas depois apontados pelo dedo tecnológico do "boicote", uma expressão que falamos mais ao longo dos dias do que verbalizamos palavras como "amor" ou "pão".
Qualquer um pode ser o próximo a ser escrachado, abusado porque alguém viu uma entrelinha em sua obra que poderia denunciar um desvio de caráter. Aliás, todos já estamos com medo a cada opinião, a cada defesa da livre expressão. Ainda não me esqueci do rapaz de SP, que possivelmente nunca entrou num museu, a me chamar de vagabunda na página do Santander Cultural. As ofensas que vieram a seguir em caixa alta, aos berros, não li. Preferi respirar mais ao ver nomes de vários amigos a cada notificação, imaginei que haveriam várias pessoas assinando embaixo do meu ponto de vista e isto já me tranquilizou um pouco.
Mas se sucedeu uma avalanche revoltada comigo após minha avaliação na página. Lembro a cada um desses episódios sofridos por colegas, que em 2003 tive um surto de pânico após sérios ataques virtuais sucessivos e fiquei um ano sem coragem para trabalhar. Sim, não é de hoje que começamos a forjar este momento covarde. Há quanto tempo estamos sendo assediados pelo ódio muitas vezes sem rosto em nossos blogs e timelines?
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Bem, minha pergunta é sobre o que vamos fazer? Vocês sabem que vereadores de São Paulo entraram com pedido de "investigação" sobre os artistas e obras? Sabem que o político, falso líder religioso acusado de estupro, Feliciano, já está "inspecionando" os artistas da exposição?
Ficam várias perguntas:
O Santander Cultural tem consciência de que, ao ceder e encerrar a exposição com aquela carta pública, abriu um rasgo num limite e que por esse podem escapar fantasmas que comem cérebros?
A discussão que segue, com o curador da Queermuseu e outros artistas basta, sendo que está mais uma vez limitada a um público de arte e artistas?
Como faremos para debater mais amplamente, com a sociedade, os perigos da censura?
Um beijo.
biAhweRTher

terça-feira, 5 de setembro de 2017

TODAS AS ACADIMIAS DO MUNDO.

Eramos adolescentes, revoltados com a faculdade, debochávamos dos colegas riquinhos e fazíamos fanzines. As academias de puxação de ferro também nos pareciam uma ovação à futilidade.
Em resumo, a gente era do contra, tanto que fizemos uma banda que se chamava, por deboche, Academias Chiquérrimas.
A mim, parecia que toda a academia, fosse pra cabeça ou pro bíceps, guardava as mulheres num abatedouro.
Mais de 20 anos se passaram. A meu ver, poucas mudanças.
É noite e assisto uma entrevista, no programa "Conversa com Bial", com a Secretária Executiva da Academia Brasileira de Letras, que lá trabalha desde 1966. Mais de meio século...
Sobre mulheres e academias, segundo ela, houve muita resistência dos imortais quando nomes de mulheres passaram a ser cogitados para vestir o fardão. Relata que a esmagadora maioria dos homens não queria nem pensar em mulheres na casa (até hoje são ao todo 7 manas entre as centenas de acadêmicos em 120 anos).
Curiosamente, a senhora, muito simpática, conta alegre da marcante passagem em que uma mulher visitou a casa para tomar chá com os grandes homens das letras.
Leila Diniz, quando estrelou "Todas as Mulheres do Mundo" tornou-se objeto de desejo de todos os senhores da cultura, da TV, do cinema, das praias... então foi convidada especial para ornar um dia inesquecível na ABL. Um dia ricamente registrado em fotos.
Os imortais, colocaram seus babadores e fardões e a receberam para uma tarde na Acadimia de Cuidadores da Língua.
Hoje, na entrevista, quase 50 anos passados, a secretária da academia, folheava para a câmera uma revista da casa. Páginas e páginas de senhores pertinho dela, babando, abraçando, sorrindo, fazendo gracinhas ao pé do ouvido de Leila Diniz, que era uma mulher tão foda, mas ali nos retratos parecia tão infantilizada...
A secretária teria feito de propósito tal paralelo? Não... claro que não.
Mas o fato é que da entrevista se compreende que mulheres escritoras eles não queriam, a opinião de Leila sobre literatura não devia ser tão importante.
O que a casa queria, ao que parece, era colocar os dedos, os narizes e os olhos sobre o objeto que aparecia de lingerie na tela de cinema.
E as Academias Chiquérrimas?
Era só uma banda juvenil no underground dos anos 90 onde eu era vocalista, baixista e tecladista e tinha que ser meio Leila Diniz, meio foda, muito punk porque os garotos eram todos uns machistas e queriam que eu fosse só uma xícara de chá no meio do palco.
Ricas ou não, famosas ou não, velhas ou não, importantes ou não, fardadas ou não, parece que assim são todas as acadimias do mundo.
Um beijo.
biAhweRTher

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Preciso falar mais um pouco sobre o Apanhador Só

Sinto necessidade de voltar ao tema.
Quando discuto machismo não consigo usar expressões como "macho" "escroto" "passar pano" "quero mais que morra" "banda nojenta" "otário". Talvez porque já sofri assédios, então se eu saísse chamando alguém de "macho escroto" me sentiria irmã gêmea do homem que ao receber o meu não às suas investidas aqui no inbox me chamou de "vaca mal comida". E olha, eu não quero mesmo ter qualquer semelhança com ele.
Se eu pudesse, diria para as pessoas mais novas que estão querendo levantar um debate, que se alimentem com bons textos feministas e também não específicos. Qualquer coisa que enriqueça a palavra e inspire o exercício do pensar e reproduzir pensamentos. Se peguem em referências e valorizem as ideias que saem das suas bocas e teclados.
Textão é bom, sim. Muito melhor do que "macho, você é um merda" (e muitos são mesmo, mas não nos igualemos, pulemos o óbvio), podemos contribuir com pensamentos bem mais ricos e ideias que colaborem a conscientizar homens e mulheres.
Conscientização é como uma conquista. Você come pelas beiradas, não adianta xingar. E a cada pessoa que olhar pra você e der sinal de que você a fez parar pra pensar, você teve uma vitória imensamente maior do que gritar pra um monte de caras que eles são escrotos (pessoalmente eu tenho um problema sério com esse vocábulo, começo a digitar e já me dá uma náusea, haahahah, ofenderia mais a mim do que a quem eu desejasse ofender).
No meu blog, para contribuir, já escrevi, do meu jeito todo rebuscado, sem dar os nomes e sem ofender ninguém, sobre pessoas próximas que foram estupradas, sobre assédios que sofri e sofro. Me parece... só parece, que as mulheres que de fato passaram por agressões, em geral não reduzem o assunto a uma mera troca de ofensas. Algumas esperam anos, se cuidam, se tratam. recomeçam a vida e só após superar tentam chamar uma reflexão sobre sua experiência. O perigoso é se nós, de fora, dermos uma dimensão de ódio para o desabafo dessas mulheres.
Assim, quem tem o que dividir, contribuir, irá se encolher, com medo da avalanche que poderá se tornar sua vida.
Melhorar o mundo não será possível com ódio, como guerra não pode salvaguardar a paz. Precisamos um diálogo entre todos, sem a sede de vingança.
Vingança é uma faca de dois gumes. Vingança é diferente de justiça e diferente de lutar por uma cultura de igualdade.


beijos
biAhweRTher

sábado, 19 de agosto de 2017

Está no ar, está nas nuvens, está em todxs nós.

A esta hora, hoje, no Theatro São Pedro, a Apanhador Só, banda que está lançando um trabalho de muita qualidade, estaria com borboletas no estômago, no lindo camarim de um dos teatros mais cobiçados pelos artistas do país inteiro.
O público, muita gente, estaria ocupando os lugares ansioso, naquele clima bonito de sábado a noite. O cenário delicado à espera. Os familiares orgulhosos, a imprensa presente, a postos para as críticas que, garanto, seriam lindas, pois o trabalho é ótimo.
Mas não haverá show, não acontecerão shows por um bom tempo.
...
Até que ponto estamos todos, meninas e meninos, homens e mulheres, preparados pra fazer dessa perda um ganho?
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Não pode ser de graça que o palco hoje fique num triste e tenso silêncio como em silêncio ficam todos os dias mulheres artistas, mulheres DE artistas, groupies, donas de casa, arquitetas, jornalistas, desempregadas, faxineiras, menores de idade, velhas, mulheres drogadas ou contra as drogas, ateias e evangélicas, direitistas ou esquerdistas, petralhas ou coxinhas, lisas ou crespas.
Silenciosas diante de abusos.
...
Como já fui mais de uma vez vítima de machismo entre quatro paredes (abra a primeira champanhe quem não foi!), sinto necessidade de debater mas não tenho coragem de expor agressores. E porque? Porque sou genuinamente feminista e feminismo para mim começa nessa raiz empática que não se aparta de mim. Quero mudar a sociedade, não quero matar meu algoz. Me preocupo com quem não foi um bom parceiro, o entendo como uma vitima da cultura machista. Não consigo me mover pelo ódio pois considero um tiro no pé. Nos vejo como dois lados de uma mesma moeda, reféns no mesmo quarto escuro.
....
Me divido em duas, uma compreende a necessidade de uma discussão ampla na sociedade, tal qual o desabafo da Clara causou, como um grito geral, como um desabafo de muitas e o alerta a muitos. A outra é parte de milhões de mulheres em silêncio.
Sim, é crime rapazes. Vocês cometem crimes quando abusam e precisam libertar-se desse monstro que os habita.
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Quem também já foi vítima, quem um dia foi agressor, quem é filho de vítima, quem viu algo acontecer e não fez nada ou fez pouco, quem acha bonito homens passarem DST para suas mulheres, quem acha tranquilo bater na namorada...
Não importa o lado, todos estão no telefone, nas redes sociais, na rua, no bar, nos comentários que seguem os artigos de jornais.
Todos estamos falando sobre isto e assim devemos agradecer à Clara por abrir o debate com a coragem de falar de si e ser julgada.
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E, acreditem, precisamos agradecer ao músico em questão, que assumiu sua culpa, calando os que tentaram colocar em dúvida o desabafo da vítima.
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Precisamos conversar, todos nós, sem segredos, sem esconder o dedo quebrado, sem mentir que nunca passou por isso, sem ocultar o trauma numa garrafa de vinho, sem fingir que é normal ser taxada de louca, sem rivotril pra aguentar, sem mentir que o "meu carinha não, ele é feministo" - quando nenhum homem de fato é. Sem esconder até do próprio espelho que o cara que você ama já transou a força com você.
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A ideia que apoio não é demonizar ninguém, mas pensar e falar, a vontade.
O que apoio é aproveitarmos o momento pra refletir sobre um problema que é bastante sério, que em proporções maiores ou menores, mata mulheres no planeta inteiro, de todas as idades todos os dias. Seja as mantendo vivas mas sem o amor próprio, seja lhes tirando a voz e o direito de igualdade ou de sobrevivência, seja lhes levando pra um caixão.
O machismo mata.
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Essa é a única dor que não vê classe social, religião ou cor da pele. Une o silêncio, o medo e piedade que sentem quase todas pelo próprio abusador.
Me incomoda falar abertamente sobre o que provavelmente já sofri, pois sinto empatia por quem teria me machucado, não quero prejudicar carreira ou vida pessoal de ninguém. Mesmo se a pessoa deixou meu palco as escuras algumas vezes, não desejo impingir a ele tamanha dor.
...
Assim, empáticas, quando temos filhos não queremos falar dos problemas fora de casa, mesmo sabendo que isto ajudaria a outras mulheres e filhos, porque não queremos prejudicar os abusadores.
...
Somos mulheres, não vamos perder o cuidado até com quem é fruto da cultura machista e não se dispões a se modificar.
Porém, já que somos tão preocupadas com nossos machistas de estimação, precisamos perceber que ao debater e ao tirar-lhes o conforto dos melhores palcos, os estamos ajudando, melhorando nossos homens preparados desde pequenos para o machismo.
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Não acho que devemos nos deter no caso específico da Clara ou outros que temos lido mas não causaram tanto impacto. Entendo que precisamos ver a situação como um todo.
Não me sentiria a vontade pra falar sobre os detalhes do casamento da Clara em um bate papo e, de fato, noto que ninguém está. Estão todos numa roda de conversa que lida com a memória, coisas que vimos ou vivemos e que foram despertadas pela Clara.
Quero uma roda de conversa onde as presentes se dispam das vergonhas por serem vítimas e os presentes falem sobre seus ódios quando machucam suas mulheres.
Cada um de nós é como todos nós, ninguém sabe o porque.
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Eu estaria disponível para falar da sociedade dia e noite num encontro que permeasse cada relação com cada homem e mulher que encontro no dia a dia.
...
Estou, faço parte dessa discussão de um modo amplo quando me expresso a partir do meu trabalho e quando me revolto em momentos específicos.
Como artista e produtora, estou com uma tristeza grande hoje por saber que o palco está vazio lá no teatro.
Me coloco no lugar da banda que cancelou seu momento mágico por perceber que é preciso pensar o machismo.
Deve ser um momento muito difícil. Mas é icônico e necessário. Há centenas de homens agora, repensando atitudes, outras centenas de homens com ódio da Clara mas sem coragem de comentar pois o assunto está quente e está feminista, ainda bem.
Há milhares de meninas detectando algo errado em relações abusivas.
...
Me parece que já estamos além do desabafo da Clara. Não pode ser pessoal, entendem? Quando a banda denunciada posta um pedido de desculpas e assume que é preciso discutir amplamente, é porque estamos todos de acordo.
Não percamos a oportunidade.
Ocupemos o palco também com a igualdade, o mea culpa e rodas de conversa. O espetáculo não pode ser superficial, é preciso verdade.
Um beijo.
biAhweRTher

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Muito é Pouco.

Já aguentei muita coisa nesses 20 anos de carreira. Mas foi coisa séria. Como cineasta, cheguei a ficar doente e sem trabalhar todo o ano de 2004, pois sofri recorrentes difamações pesadas, machistas de outros jovens cineastas que faziam um festival que se considerava "concorrente" ao meu, embora o meu projeto fosse anterior.
Isso tudo a gente passa, acontece porque artistas tem umbigo gigante e esquecem a que viemos ao mundo. Nos colocamos demais em primeiro lugar, antes da nossa tarefa, antes dos motivos da lida.
Como atuo em várias artes, meus problemas se multiplicam nesse quesito. Pessoas plagiando fotos ou não dando créditos em músicas... Acontece de quando em vez. Ano passado tive um roteiro roubado, fotos e vídeos plagiados. Este ano está indo tranquilo.
Acabo desistindo de brigar porque o mundo gira. Por exemplo, os dois ex-colegas que roubaram meu roteiro não conseguiram levar adiante o projeto. Perderam mais do que eu, pois para eles a sensação de vitória era mais relevante. Eu não quero ganhar nada, faz anos que nem me inscrevo em festivais e eventos competitivos. Acho um saco esse glamour falacioso.
Enfim, nunca consegui processar ninguém. Sofro de início, depois resolvo meditar, superar, esquecer e seguir a vida criando minhas coisinhas.
Por exemplo, nessas brigas por direitos autorais, me parece sempre que a pessoa que plagia algo, plagia o que já nem somos mais, pois nos modificamos e, com sorte, melhoramos.
Tanto que, no mais das vezes, criticamos nosso próprio trabalho assim que o finalizamos, Ou ficamos paranoicos, revisando e reeditando com medo de levar a público, como se nunca estivesse pronto.
Não é raro você lançar uma obra nova e no dia seguinte achar que podia ser melhor pois teu olhar se aprimora com as experiências.
Então... sei lá, não entendo quando um artista entra na justiça e tira do ar um trabalho com milhões de visualizações por causa de uma discussão com seu parceiro criativo. Me parece que a fama rouba o dom do diálogo (ou bate boca) comum e humano.
Pra mim, é como matar o filho porque discutiu com o ex marido.
Ando certa de que ter apenas milhares de fãs seja meu segredo de felicidade. Milhões de gentes e dinheiros talvez faça o artista esquecer o que o levou até lá.
Um beijo.
biAhweRTher

sábado, 29 de julho de 2017

SABÁ.

Antes de meu pai morrer, havia uma tradição nos sábados, quando eu não estava viajando ou trabalhando. Era almoçar com meu filho e depois entrar no carro e ir pra zona sul, na casa dos meus pais, escutar as histórias de família que ele contava. Gravei muitas, cheguei a colocar uma em um de meus filmes.
Depois minha vida mudou muito e agora, aqui em casa nos sábados bonitos as coisas tem um sabor mais silencioso. Um pouco como energizar-se para escrever as próprias histórias e reconhecer-se nas já escritas pelos antepassados.
Cuidar da casa, do conhecimento e do corpo é o que eu faço.
É curioso pois na verdade eu apenas voltei a ter sábados parecidos com os dos meus 18 anos. Entre fazer limpeza de pele e do quarto e adubar as plantinhas, gosto de ler biografias e assistir filmes sobre ídolos (hoje vou assistir um filme sobre Jeff Buckley).
Não sei quanto a vocês, mas as biografias fazem a gente pensar sobre nossas histórias pessoais. Humanizam nossos exemplos e de algum modo nos remetem à vida real. Rir e chorar com as misérias inevitáveis de grandes pessoas nos faz eliminar as ilusões sobre uns serem mais ou menos que outros.
Assim, antes de cair a noite, nos sábados, penso em como eu quero ser útil e nem melhor nem pior que os outros.
Pensar na responsabilidade de estar viva é como quando eu era criança e eu queimava as folhas secas na chácara e a fumaça ardia nos olhos até que algum adulto vinha gritando pra eu não brincar com fogo.
As pessoas vaidosas como eu deveriam aproveitar-se do espelho pra entender o quanto as histórias humanas individuais podem ser todas muito parecidas.
Na minha geração, crescemos dentro de centros de compras. Foi algo que se deu, não tivemos opção, uma voz acima de nossas cabeças indicava escadas rolantes, vitrines e portas de vidro. Talvez por isso a maioria de nós anda acreditando que crescer é ser melhor, mais bonito e mais jovem que os demais.
Porém, se a gente se aquieta algumas horas e pensamos sobre o que herdamos e o que deixaremos como herança, talvez seja possível ver que há pessoas mais novas aprendendo com a gente e não são os ensinamentos infantilizados e inseguros sobre uma eterna juventude que precisamos deixar.
Penso que, como adultos, temos o poder de mudar uma cultura inteira, coisa que crianças, adolescentes e idosos não tem.
Gente adulta, que toma as decisões nas famílias pode dizer que agora tudo vai mudar e o espelho de vidro pouco importa quando espelhos são a nossa função como elo e filtro entre gerações anteriores e posteriores. Não é pouca responsabilidade!
Não quero daqui há 30 anos ter ensinado sobre como e onde comprar coisas.
Daqui há 30 anos eu quero ter ensinado pessoas a me verem como igual, sendo eu mais velha e verem como iguais todos os seres que respiram ao nosso redor.
Mesmo eu gostando de me olhar no espelho e me sentir bonita com os meus cabelos molhados e negros, quero não esquecer de mergulhar nos meus olhos e ver neles mais do que a minha vaidade, mas as minhas vergonhas, as coisas que preciso mudar e os medos que preciso superar. E tentar entender o que viveu, pensou e me deixou a minha vó, de quem herdei a beleza dos meus cabelos e olhos negros. Ser o que somos, fomos e seremos ao invés de tentar burlar o tempo e ofuscar minhas semelhanças como quem queima as memórias no fundo do pátio.
Na verdade, ando percebendo que a marca da minha geração não deveria ser a necessidade de beleza e eterna juventude; posses e competição; trancas eletrônicas e terceiras pessoas.
Minha conclusão é que nossa função como adultos é muito simples. Não temos que provar que hoje em dia todos são jovens, não temos que provar que a nossa é a era digital nem que somos uma geração gourmetizada na mesa, na cama, nas férias, no sábado, no instagram.
Nada disso. A única coisa que precisamos alcançar e deixar para os mais novos é o equilíbrio. Acho que é isto o que nos cabe nesta nossa vez de tatuar alguma
coisa no tempo. O ... e q u i l i b r i o ...
A harmonia que virá apenas através do nosso conhecimento, perdas, vitórias, vergonhas e orgulhos pessoais e únicos. Sem tutorial, sem fórmula, sem dica, sem palestra, sem nada que se compre com o cartão de crédito.
Um beijo
biAhweRTher

terça-feira, 25 de julho de 2017

É PROIBIDO DISCORDAR (ou tomara que cheguemos aos 70 anos).

Ney Matogrosso (foto 1) tem 70 anos e abriu as portas pra todos os cantores de 30 se empoderarem hoje pelos palcos diversos.
O Ney, um artista sempre à frente, já sofreu muito preconceito e formou uma opinião - direito seu, claro. Ele se diz humanista e prefere não levantar bandeiras divididas em gavetas. Mesmo sendo gay, ele prefere não se identificar com uma causa isolada, pois vê todas as lutas com a mesma relevância: buscam por igualdade, dignidade e respeito os negros, as mulheres, as trans...
O moço da segunda foto é o Johnny Hooker, um cantor de uns 30 anos que está ficando famoso porque é muito talentoso e porque já emplacou músicas nas trilhas da Globo.
Johnny, ao ler que Ney não se alinha à uma causa específica, rebateu rapidamente na rede dos 140 caracteres, alegando que Ney é apenas um senhor de 70 anos que ficou parado em algum lugar dos anos 1970.
Após a declaração de Johnny, talvez por não terem lido a íntegra da entrevista do Ney, as unhas afiadas da internet começaram a arranhar seu pescoço. Alguns acham que ele está se negando a assumir que é gay (o que não procede); outros acreditam que ele está traindo um movimento específico; outros apenas o chamam de velho, esquecendo que para lutar contra o preconceito é preciso não ter preconceito.
Minha conclusão, amores, é apenas uma.
Se você começa a defesa da sua causa dividindo o mundo entre jovens e velhos, a sua causa já está perdida.
De resto, nesse mundo dos famosos da vez versus os que se mantém vívidos e profícuos por 50 anos sem cair no ostracismo, a única certeza que se pode ter é a de que o tempo e o espaço são uma invenção para vender uma nova banda pop e hambúrguer. Cuidado com a vaidade, pois a fama é fugaz.
PS.: O Ney Matogrosso até pode ser um velho chato de 70 anos, mas já estamos na quinta geração a copiar a maquiagem dos seus olhos e suas plumas. Inventem algo novo antes de depreciá-lo. Inspirar-se no figurino pra ser moderno é fácil, ser destemido a ponto de mudar os olhos da sociedade é outra história.
Um beijo
biAhweRTher
*Pics baixadas do planeta google.

domingo, 9 de julho de 2017

Quando o funk é mais rock que o roquenrou

Grande parte dos meninos e meninas de cultura branca ganham uma boa guitarra dos pais no natal, são criados para se imaginarem superiores intelectualmente, com mais bom gosto para as coisas da vida, até por terem mais acesso. Moram no apartamento de classe média e tem um preconceito exacerbado em relação às MCs do funk que vivem do outro lado da cidade.
Contraditoriamente moralistas, reclamam do rebolado nas expressões de periferia mas rebolam os cabelos ao som das letras mais machistas e consumistas que os roqueiros gringos conseguiram escrever em inglês nos últimos 50 anos. Só pra constar, seus bisavós também já reprimiram o samba.
Beijinho no ombro, sem pedir licença, há tempos as funkeiras vem se empoderando e abordando questões feministas, não que sejam obrigadas. Quem quiser que rebole pra ganhar a vida e não é o moço de faculdade, amante de Bukowski que vai se achar no direito de sentar no seu quarto cheio de posters de vocalistas machistas e resolver se está permitido às funkeiras falarem de sexo em suas letras. 
Se você olhar ao redor estamos lotados de metaleiros que bradam discursos de ódio, machismo, white power, homofobia... Ok, mas isso é outra história, foi apenas um parêntese. 
Uma coisa me incomodava ainda em algumas funkeiras, que era a competição por homem em algumas letras que, a bem da verdade, estão mirrando. De qualquer modo, como qualquer outro estilo, o funk tem também várias vertentes e vai se misturando, Há funk que namora o rap, o samba, o rock, o eletrônico... por ai vai. 
Li em algum lugar que a Valeska Poposuda modificou a letra do seu antigo hit Beijinho no Ombro, por considerar que ele incentiva uma disputa vazia entre mulheres. De fato, na periferia, onde a maior parte das casas é sustentada por minas, o empoderamento e a cooperação feminina é questão de sobrevivência. Deixe para as estudantes da escola de princesas se puxarem os cabelos por causa de homem.
Achei muito roquenrou a atitude da Valeska, como acho a MC Carol muito roquenrou e várias outras minas que estão chegando e apontando o dedo na cara da sociedade.
Não sou muito adepta do rock clássico. Minhas bandas sempre misturavam estilos e as novas bandas livres que estão rolando, retomando a tendência em renegar um "estilo", não aceitando que lhes imprimam um rótulo, são as que mais me agradam. Isso sim é rock, no sentido de atitude diante da sociedade.
Com certeza, você vai me falar de gosto musical, que está além de atitude e letra. Concordo, há bandas com letras extremamente babacas mas os caras tocam muito. Mas como eu canso de escutar sempre a mesma coisa, sigo pensando que o rock clássico se basta nas primeiras bandas, há décadas. Não vejo graça em escutar guris fazendo um cover disfarçado de autoria. Existem vinis antigos que os seus avós podem lhes apresentar. Hoje ninguém mais precisa sair de casa pra escutar uns carinhas cantando que "óh garota, eu sou foda, eu sou sujo, eu fumo muito baseado, eu vou te comer." Vai nada, você é só imagem!
Inclusive, como o rock tradicional está velhinho, acho que nunca veremos um ídolo aparecer na mídia, com seu botox, fazendo um mea culpa, como fez a Valeska Poposuda e modificando alguma letra que, há 30 anos, faz adolescentes baterem cabeça enquanto entoam que meninas são vadias e eles podem matá-las caso elas transem com outros caras.

Um beijo
biAhweRTher

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Noventa e Poucos.

O Cristiano estava há tempos esperando eu digitalizar alguns materiais que ilustrassem uma entrevista sobre os tempos em que convivi com o Flávio Basso. Tomei vergonha (ou coragem) e encarei de frente meus vinte e poucos. É que sou de viver intensamente a hora exata e virar as páginas sem culpa. Tenho essa mania de achar um saco essas pessoas que vivem de lembranças... Sou fascinada pelo presente. Contudo, surpresa, quando a gente fez coisas incríveis pode ser muito divertido fuçar nas memórias.
Caixas, caixas, caixas e caixas num quarto que existe aqui em meu lar estúdio. Um aposento mais reverenciado do que organizado, onde você abre a porta solenemente caso seja convidado... Quantas coisas fizemos cedo demais, a ponto de alguns já terem morrido, cedo demais.
A princípio eu procurava só pelo Júpiter no Megazine, mas sendo que estou desenhando meu novo site e blábláblá, não apenas ressuscitei materiais para o meu filme, O Garoto de Júpiter, como fui submergindo em dezenas de outros nomes, rostos, momentos, motivações.
Lembrei que por um tempo tivemos um jornal mensal, um tabloide intitulado Megafolha, prova viva, juntamente com alguns flyers, de que naquela casa em surto toda a cena bebia, vendia demos e zines, fazia poquet shows, cineclubes, happenings, exposições, discursos e até um sexo rapidinho no banheiro da produtora, que ficava no andar de cima. 
Creio que não sabíamos bem o que estávamos fazendo. Na verdade, tínhamos uma casa anárquica onde podíamos mostrar nossas invenções e receber outros jovens artistas que também faziam o que bem quisessem. 
Em resumo, o Megazine foi uma viagem de apenas dois anos que valeram 20 e ninguém que tenha hoje 20 sabe do que se trata até porque, como eu disse no começo, costumo virar as páginas e não ficar remoendo o passado.
Neste final de semana arregaçamos as mangas e começamos as digitalizar aquele planeta inteiro. Estremeço. Parte da nossa história, cerca de 200, 300 artistas da minha geração ou já mais velhos na época, passavam por uma porta que eu mesma pintara como quem constrói uma casa na árvore.
Eu pensava que era só uma brincadeira, hoje percebo que era um eixo do modo de vida nos anos 90; um gosto que nunca mais vivenciaremos e precisa sair dos meu enorme armário pra respirar. 
Aquela festa meio grunge, meio psicodélica. embalada pela MTV, foi mais relevante do que eu, uma das jovens anfitriãs de Porto Alegre naqueles dias, imaginara. Hoje diríamos que era "tendência" pessoas muito jovens administrarem espaços onde outros jovens podiam entrar e fazer o que bem entendessem enquanto os vizinhos chamavam a polícia. Hoje, aquela bagunça juvenil até as 6 da manhã, seria impossível na cidade do Júnior.
E nesta lida da recuperação da memória, o primeiro material que resolvi publicar se trata de um texto que André Arieta, aos 23 anos e pai do meu filho, à época com apenas dois, escreveu para o Megafolha, sobre a morte de Kurt Cobain. 
Até onde me recordo, o Megazine existiu entre 1995 e 1997, quando fechamos as portas pois tínhamos resolvido passar a fazer só filmes - película, por favor! Super8. 16mm, 35mm - mas essa história é por conta do Cinema8ito.
O texto nesta imagem do nosso jornalzinho foi escrito pelo André em 1994, quando da morte de Kurt, o que pode significar que foi uma publicação tardia ou que, distraída, estou errando em um ano o período em que existiu o Megazine. Mas isso pouco importa por enquanto. 
Leiam, é bonito.
biAhweRTher

terça-feira, 20 de junho de 2017

Unfocused Antenna

Me pergunto como se sentem os demais artistas que ousam a multi expressão quando a especialização, a exigência de "foco", a expectativa de que nossos corpos, dons e vidas estejam cada vez mais divididos em micro gavetas dentro de micro compartimentos.
Fico curiosa em saber como os outros multiartistas se resolvem na sua relação com a imprensa (é um dos maiores problemas pois releases exigem um modelo e nós não usamos moldes); como se entendem com a diversidade de clientes, parceiros, associados, fãs e até haters que não sabem bem o que odiar em você.
Ando faz horas querendo inventar uma discussão, um encontro mesmo, entre pessoas que, como eu, dizem a cada fase do ano uma profissão quando lhes perguntam. Tem dias que estou artista visual (confesso que gosto quando meu trabalho pode ser identificado como tal pois é uma definição bem genérica), há dias que sou fotógrafa, contista, cineasta, musicista, trilheira, designer, VJ..
Tenho DRT como diretora de arte e roteirista, mas nos meus filmes faço do argumento até a edição... O preconceito é horroroso. Já vi muitas pessoas técnicas dando um risinho sobre nós, "faz-tudo" que tiramos o trabalho de pessoas especializadas.
De fato, o processo de expressão do artista é muito mais subjetivo do que objetivo - ou deveria - e cada trabalho é um. Há momentos em que você percebe que precisa trabalhar com 40 pessoas, há outros em que assina tudo, não precisa mais do que a sua solidão.
Fácil não é. Você precisa dominar muitos softwares, linguagens, nomenclaturas, sensações, técnicas, conceitos, problemáticas, filosofias, especificidades, generalizações...
Um dos desafios é a parte humana. Isso de você não ter os tiques de uma turma específica.
Sabe? Não tem o churrasco da firma e não chega a saber as fofocas íntimas de ninguém. Ninguém perdoa uma pessoa que não faz parte, que não se identifica de cara com um grupo e suas piadas internas.
Há dias, em que sinto vontade de conversar com profissionais como eu, sobre as saídas pra sermos respeitados, mesmo não sendo entendidos, pois não é pra nos entender. Você entende aquele que responde, mas creio que somos pessoas que só fazem perguntas quando estão cuidando de suas atividades e tornando público o seu trabalho.
Há de tudo na minha não-rotina de trabalho, menos segurança, menos a concretude de uma profissão tradicional. Você se pergunta todos os dias sobre porque todos a sua volta sabem explicar em uma frase o que fazem profissionalmente.
Pra piorar, você sabe, sabe muito bem que você nunca mais vai tentar escolher entre todas as atividades que você ama, ainda que você tenha que morrer com 200 anos pra ver finalizados um terço dos seus planos. Se você decidir hoje que vai abandonar todo o resto e ser só fotógrafa, por exemplo, no meio da madrugada você vai acordar com uma poesia ou um vídeo na cabeça e quando o sol nascer tudo vai estar ao mesmo tempo mais uma vez.
De tudo isto, a única certeza que eu, pelo menos, tenho é que nada do que eu faço é um projeto sozinho. Todas as minhas obras são a continuidade de um trabalho só que os outros talvez entendam depois que eu estiver muito velha ou muito morta pra estar em atividade.
Talvez seja por isto que tanta gente não entende o que fazemos. Talvez seja porque nossos projetos sejam todos parte de um mosaico que nós não terminamos ainda e, assim, um dia, cada pessoa que participou de algum modo, que comprou, contratou, assistiu, entendeu ou odiou seja parte de uma obra única que a gente fez pela vida toda e talvez ninguém saberá pra que serviu exatamente isto mas conseguirá ver o seu todo, completinho.
Um beijo.
biAhweRTher

terça-feira, 6 de junho de 2017

PSEUDO ARROZ E PORTA RETRATOS

Há alguns dias,
uma professora de Educação Física, em Curitiba, percebendo que os seus alunos eram agressivos demais e humilhavam os menos fortes fisicamente, pesquisou um método para ajuda-los a repensarem suas atitudes.
Ela apresentou uma dinâmica com dois potes cheios de grãos de arroz para incentivar as crianças a pensarem nos danos causados pelas palavras de ódio entre si. Ao gritarem palavras de incentivo a um pote, o arroz ficava branquinho; ao dizerem impropérios ao outro, o arroz ganhava bolor.
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Ela poderia ter usado outra mágica, como um conto de fadas, mas preferiu a interatividade.
Não deu outra. Surgiram alguns certos de que ela tem um dom divino e outros muito revoltados.
Parte da internet gritava que a educadora estaria fazendo pseudo ciência e surgiu quem pedisse punição e "intervenção" da Secretaria de Educação, pois haveria uma fuga de conteúdos científicos, dos programas, temas que deveriam ser rigidamente definidos para serem tratados em aula. Pior, parece que ela tirou os alunos da sala e os levou para um ambiente mais ensolarado.
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Apesar de as matérias deixarem claro que se tratava de uma professora de Educação Física, li uma senhora preocupada sobre o que deseria um professor que leva alunos para o pátio, para algum parque, para longe do ambiente tradicional de aula para lhes incutir pseudociência?
Curioso é que a professora não falou em Deus, não pregou alguma religião. Ao que se sabe, ela quis aliar humanidade às rotinas. Era só uma aula alertando contra os males do bullying que, já no meu tempo, quando eu era atleta na escola, rolava muito pesado nas aulas de Educação Física por motivos óbvios, é onde se destacam as lindas e fortes.
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Entre os revoltados, muitos se apresentam orgulhosos estudantes de Direito ou Medicina e, portanto, sabem o que dizem. Adorei ver que as pessoas médias, no país, ainda sonham que Médicos, Engenheiros e Advogados estão acima dos demais. E achei lindo ver pessoas que, embora acadêmicas, claramente não tiveram muitos exercícios lógicos, argumentativos; nem uma mera dissertação básica nos tempos de escola. Sequer uma aulinha de pensamento, filosofia, matemática das ideias....
Essa notícia me lembrou que estamos querendo a todo o custo eliminar as disciplinas humanas das escolas e que universidades caça niqueis, vendedoras de diplomas estão chovendo aos montes no país com programas mais "enxutos".
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Lembrei ainda que fomos criados correndo atrás de canudos em branco e que os mais dignos de orgulho nas famílias são os que preferem ter um diploma em uma péssima faculdade propagandeada no camburão do Huck do que ter uma profissão - "superior" ou não - que os satisfaça intimamente (há postos técnicos carentes de profissionais no país, então muitas empresas buscam profissionais no exterior).
Lembrei ainda dessa notícia sobre os jovens de classe alta de ensino médio de duas escolas em Porto Alegre, que promovem festas onde se fantasiam de trabalhadores sem canudo, considerados como pessoas que não deram certo.
Mas se o trabalho que faz a base da sociedade onde vivem os príncipes e princesas é "sub profissão", o arroz bolorento da professorinha de Curitiba não é o suprassumo da verdade, o resumo mais fiel da sociedade brasileira?
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O pseudo ensino, no Brasil, é uma bagunça que começa anos antes, na pseudo família.
 Pessoalmente, frequentei 3 faculdades em 3 grandes universidades diferentes em períodos diferentes. Era sempre igual. Noventa por cento dos estudantes não quer pensar a instituição como um espaço social do qual faz parte ativa e não passiva; logo, ao passar por ele, você tem que criticá-lo, vivenciá-lo e deixá-lo diferente e melhor para os próximos, de modo que seja garantida uma continuidade evolutiva.
Nah! Tudo é sempre bobinho. Entre decorar textos ou fazer copy past do google, colar nas provas, fumar um baseado, ser o mais bem vestido ou o mais revolucionário de ocasião... a maioria escolhe alienar-se, aguentar o que for ruim, não olhar para os lados, fazer ou copiar os trabalhos, pegar logo o diploma e correr para o porta retratos.
É possível que boa parte dos universitários do país esteja com o pavio curto porque estuda o que não gosta ou faz o que gosta mas tem que enfrentar brigas com as pessoas que pagam seus estudos.
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Acho interessante pensar nesse ingênuo episódio da professorinha e os potes de arroz pra ver o quanto estamos afundando pra além do fundo do poço como sociedade.
E mais interessante ainda é pensar que, diante dessa caça aos diplomas, qualquer um que ame sua profissão precisa tomar muito cuidado na nova velha sociedade que o Brasil reinventou.
Só que, talvez, os professores precisem tomar mais cuidado ainda.
Mais do que jornalistas de fato, artistas críticos ou policiais honestos, talvez os professores sejam os profissionais mais oprimidos entre Religião e Ciência - onde uma pode ser a outra.
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A piada é que no resto do mundo os buracos negros da religião e da ciência estão conversando e encontrando elos.
Será que o Brasil agora é uma país fundamentalista?
Não sei, só sei que eu não aguentaria lecionar para crianças e jovens neste nosso momento. Na minha memória de criança, criar estratégias para que seus alunos se humanizassem ou se interessassem pelos conteúdos, fazia um professor se destacar positivamente diante da maioria das famílias, escolas e estudantes. Esses foram os professores que a gente trouxe pela vida, nunca os que nos humilhavam ou incentivavam atos de preconceitos. Hoje, incentivar que alunos de classe média sintam vergonha de prováveis familiares sem diploma é motivo de festa; criar modos de despertar nos alunos um olhar menos bolorento e mais igual, já pode ser motivo de apedrejamento.
Um beijo.
biAhweRTher

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O Paul, As crianças, A vaca e o Frango.

Quando escuto a marca Paul McCartney não me dá vontade de pagar muitos dinheiros pra ir no seu show. O nome, hoje em dia, me remete a coisas como o projeto "Segunda Sem Carne". Foi ele quem lançou o “Meat Free Monday" na Grã-Bretanha.
A propósito da cultura de comer carne versus o atraso no debate sobre o holocausto animal e as propagandas sinistras de produto feito de sangue, tenho minhas dúvidas quando mostram as crianças que nascem veganas como uma novíssima geração que está começando a chegar iluminada.
Acontece que minha irmã mais velha nasceu vegana e sei de outros casos. Assim, do nada, no meio de uma família de estancia. Eu mesma vim num parto humanizado numa cama de fazenda e há parentes vários que trabalham com gado, cavalos e essas lidas por este país. Deve ter sido um susto a outra chegar dizendo que bicho ela não iria colocar na boca.
Ok, não duvido que estejam ocorrendo mais e mais casos de crianças que já nascem sabendo, mas me parece que também há mais pais que não obrigam as crianças a comerem carne. A evolução é natural. No caso da minha irmã, o raro mesmo foi meus pais não a obrigarem a comer carne. Ela era uma criança que hoje chamariam de índigo por diversos motivos além deste, então acho que não saberiam dizer não a ela. E não tinha nada a ver com saúde ou vaidade, era uma questão de não comer seres sencientes.
É bonito isto, quando a maioria de nós tem que passar a vida se debatendo num assunto tão óbvio.
Na verdade, o que sobra em capacidade de sentir, coexistir e da razão do existir em muitas espécies escravizadas, nos falta como humanos.
Vejam que nosso dilema é ter que decidir entre o cheirinho do churrasco e a lágrima de um ser escravo que vive no aguardo de ser trucidado a pauladas e chutes, muitas vezes ainda bebês.
Todo mundo sabe, todo mundo vê o que estamos fazendo de horroroso, mas todo mundo acha "bichisse" pensar nisto.
Bom almoço \o/ Eu vou ficar só no cafezinho hoje.


Um beijo
biAhweRTher

sábado, 29 de abril de 2017

O Elo.

Todo mundo sabe que não acredito que pessoas adultas são as que tem mais poder de compra.
Acho que adultos são aquelas pessoas que já entenderam que gente grande é uma ponte, o elo entre os que estão nascendo e os que estão chegando ao fim.
Ando faz dias pensando
sobre nossos velhos pais e avós (pra quem ainda os tem).
Hoje mesmo, estive conversando com uma amiga sobre como cada velhinho está enfrentando essa fase da vida, quando se deparam com solidão, preconceito, dores...
Estou percebendo alguns idosos felizes e cheios de graça, outros ranzinzas e sem paciência... Mas todos nos deixam preocupados, sem dúvida, pois ficam mais a mercê das maldades do mundo.
Claro, cada pessoa é uma pessoa, mas estou começando a ver o quanto é fundamental nós sermos corajosos ao longo da vida. Sermos verdadeiros, não guardarmos nada, não fingirmos o que somos, não cedermos ao senso comum, não nos obrigarmos a um modelo, padrão de comportamento que nos sufoque, que nos faça guardar a verdade do que somos nas profundezas secretas.
Desavisados e egoístas, pensamos que ao ficarem velhinhas as pessoas, tal qual os bebês, não seguram apenas o xixi, os gases. Só se pensa nisso.
Mas tem outra coisa que pessoas mais velhas soltam. É a personalidade, que fica mais livre. Eles se mostram e a gente nem sempre percebe.
Se você passar a vida fingindo ser o que não é apenas pra agradar, você pode se tornar um velhinho ácido e com mais dificuldade de socializar.
Velhos não são apenas corpos delicados, são um infinito interior. Velhos são mais vida do que morte.
Então, me preocupo com nossos velhos porque nossa vida atual de adultos nos deixa sem tempo e não sei se estamos educando os mais novos a serem melhores do que nós em relação aos velhos.
E sobre nós mesmos, como faremos quando
somos uma geração quase sem filhos? Muitos com apenas um filho, outros optaram por não tê-los e outros por serem pais aos 40 anos.
Ou seja, já percebemos que quando for nossa vez nós talvez sejamos uma geração de solitários em milhões de apartamentos, viciados em remédios,
pois nós mesmos dividimos as pessoas em gerações e interesses excludentes como nos comerciais?
E me pergunto se não somos infantilizados demais numa sociedade que comercializa a eterna juventude, de modo que não saberemos ver as muitas belezas de histórias vividas pois só pensamos em bobagem. (Leio muitos textos de velhos azedos dizendo que não há nada de bom em ser velho).
Não consigo acreditar que não existe beleza na velhice, pois se você tiver coragem de sair por aí abrindo as portas e sabendo escolher os nãos e os sins que não trairão a sua transparência, você talvez se relacione com mais felicidade com o inevitável ponto final. Você entenderá sua utilidade.
Nada é mais lindo do que não se arrepender dos arrependimentos. Nada é mais tranquilo do que ver o tempo como uma parte de algo imenso e não um filme de terror. Deve ser triste passar a vida escondendo você de você mesmo e dos demais. A velhice das pessoas demasiadamente controladas e obedientes pode ser mais revoltada do que um adolescente.
 Sei lá... Ando pensando nisso tudo, pois muitos da minha geração estão levando um susto ao descobrirem que os pais estão velhos e a gente, muitas vezes ainda com reações adolescentes, não viu que agora está chegando uma outra fase, a de cuidar dos velhinhos, perdoá-los pelos erros, ter paciência para a troca de papeis, arranjar tempo pra ser a ponte. Nós no meio, no olho da pré e pós memória, o elo do qual depende a continuidade.
Um beijo, vou pra rua louquear enquanto é tempo. Tentar despir meu eu pra não perder tempo.

biAhweRTher

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Anorexia

Fazer greve é incomodar, paralisar o que não vai bem.
Sendo assim,
fazer greve hoje, no meu caso, é existir, insistir e trabalhar porque nossa existência incomoda mais existindo.
Sendo artista, a frente de uma startup que 90 por cento dos possíveis investidores (inclusive as instituições públicas) não entende pois é desconstruída, pensei... pensei...
e cheguei a esta conclusão.
É trabalhando que gente como nós incomoda uma sociedade que olha pra nossas obras, textos, ideias e confrontos e pergunta onde está o trabalho e nos tem por vagabundos.
Quem sentirá minha falta se eu hoje fizer greve e não escrever uma crítica sobre a superficialidade dos adultos brasileiros e um machismo que derruba as fronteiras entre direitistas e esquerdistas em ambientes de trabalho?
Se eu parasse hoje, no máximo, atrasaria ainda mais algumas contas que nem são minhas, mas da sociedade que troca cultura e arte por entretenimento e pouco apoia mas exige gratuidade.
Quem perderia com a minha parada? Alguém perdoará os trabalhos e pagamentos que estão atrasados.
Meu patrão são todos e quem quiser.
Greve contra os trabalhadores da cultura a esmagadora maioria da sociedade faz todo santo dia, nos esmagando contra os muros; nos escondendo nos sótão e porões de suas vidas; nos excluindo, tanto que muitos cidadãos tem raiva de greve pois incorporaram dóceis a cultura da submissão.
Greve, os trabalhadores da cultura e do auto retrato social fazem todo santo dia contra sua própria sanidade, para conseguirem levar projetos para um país que os desdenha. Independente da posição política, a política da maioria é consumir mais e mais produtos industrializados; mais e mais roteiros adivinhados.
A greve no mundo dos artistas - não marionetes da grande mídia e das majors, falo de artistas de fato - é a de fome.
Estou trabalhando hoje e esta é a minha greve. E não me importa o que os detentores do pensamento crítico com suas mãos macias, sentados sobre seus textos acadêmicos e títulos me digam a respeito de traição. Eu hoje estou trabalhando.

sábado, 15 de abril de 2017

Beco do Batman

Peguemos dois pontos a respeito da arte no mundo contemporâneo:

Peguemos dois pontos a respeito da arte no mundo contemporâneo:

1) Arte de rua é tão arte quanto a arte de museu. Não adianta o leigo ou parte dos entendidos espernearem que sua reprodução na sala, dividindo espaço com a tela gigante de tv é mais respeitável. Não pague mico, você lacrimeja diante da obra do Basquiat, se masturba por Nova Iorque, então caia na real. A arte escapuliu dos espaços sagrados, limitados à alguns entendidos e colecionadores com tacinha na mão e um dicionário de sinônimos.
2) Seja nas novíssimas e diversas expressões, seja na arte clássica, a obra se separa do autor, como um filho sai da casa do pai, leve consigo uma herança ou uma porta na cara.
Ou seja, não é de arte que falamos quando um senhor toca tinta cinza sobre obras de rua, inspirado em um prefeito playboy, colecionador de relógios de ouro.
Quando alguém se desentende com um artista arrogante e cobre sua obra com tinta cinza, estamos falando de política e ignorância.
Nem os piores fascistas desconsideram a arte, é só ver os espólios de guerra. Quem depreda a arte são os extremistas religiosos, com sua política de fingir que a história pode ser apagada.
Por exemplo, Monteiro Lobato era racista, porém os mais lúcidos não entendem que sua obra deva ser queimada em praça pública num Fahrenheit 451 às avessas. Na história da humanidade encontramos artistas que serviram aos piores fascistas, há mafiosos e líderes religiosos medievais; outros abusaram de mulheres ou foram até assassinos.
Ou seja, se alguns artistas de rua se tornaram invasivos, você não muda sua relação com a sociedade, matando suas obras.
Você não coloca em julgamento a obra, entende? Ela é para discutirmos nosso estado de vida, de morte, de direito, de opressão.
A arte é a parte boa. o resultado, o espelho. A parte a qualidade, o preço do pincel utilizado; se o suporte é o muro ou a tela; o tema ou não-tema, o local onde está exposta, o discurso, a possibilidade de ser levada no bolso ou modificada pela chuva.
A arte é a discussão em vida e depois da morte.
Um beijo.
biAhweRTher

quinta-feira, 6 de abril de 2017

S O L

Encontrei este texto, de 6 de abril de 2013, no meu segundo perfil do facebook.
Não é um material tão incrível, penso eu, como leitora. Contudo, me trás a memória de um momento importante da vida, de início de uma longa transição, o encontro comigo e a necessidade da solidão. Tomada de decisões que me levaram à atual fase profícua e entre muitas pessoas... Além do mais, algumas leitoras que admiram minha escrita se sentiram tocadas quando publiquei.
Assim, copio aqui no blog pra não perdê-lo.
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S O L

Solidão deveria ter outro nome. Deveria ser um palíndromo que começa e termina com sol.
Nunca parei antes a comparar as intensidades da solidão sozinha e da solidão acompanhada. 
Essa semana, nas passeatas, eu encontrava e me perdia dos amigos. Prender-se, perder-se. Su-bli-me! 
Até os 18 anos eu tinha uma coisa que um espírita chamou de desdobramento e a psicóloga chamou de: hum-hum. 
Era mágico. Muitas vezes, quando estava na minha cama, eu me via, fora do corpo. Queria pedir ajuda, claro. Mas quem diz que a voz saía? Minha consciência estava com o corpo de cima, que voava sobe mim, preso ao meu corpo real por feixes de luz multicolorida que saíam do meu umbigo. Um dia, vivo, meu segundo corpo quase saiu pela janela, flutuando. Pavor! E se eu nunca mais voltasse em mim?
Casualmente, quando eu saí da casa de meus pais pra descobrir o mundo, nunca mais vi os feixes de luz saindo do meu umbigo. O que não significa que não tenho mais de um corpo, um na terra, outro no céu, mas não consigo mais ver aquilo que os prende um ao outro. O certo é que, hoje, aprecio como se fosse um orgasmo quando me perco na multidão. O corpo que voa, saindo pela janela, deixando o outro ali a descansar seus medos.
A propósito, acho que já escrevi várias vezes sobre isso, de não saber nada sobre turmas e bandos. Distraio-me e traio (não confundir lealdade com fidelidade, por favor!).
É uma emoção sem limites falar com estranhos – que são todos - num diálogo contínuo, pela vida afora. Uma vez, as 6 da tarde, no meio da Cinelândia lá no Rio, eu e um amigo começamos a gritar coisas loucas de braços abertos, rodando e, ao nosso redor, todos estavam loucos, vendendo, tocando guitarra por moedas, falando de futebol, discutindo, se rindo, reclamando da chuva, correndo pra algum lugar. Ninguém nos via!!! Foi nesse dia que tive a certeza de que pode ser lindo quando ninguém me percebe.
Nesse mundo cheio de bengalas que nós inventamos pra fugir de nós mesmos, talvez o mais próximo do auge de liberdade que possamos conhecer, seja estarmos sós. De preferência, sem referências, mas daí é pedir demais. Fechar-se num pequeno grupo talvez dê uma sensação de confiança. Assim, você é sempre obrigado a ser muleta de alguém e, claro, exigir que outros se prestem ao mesmo papel.
Hoje, tirei a tarde de sábado pra esse silêncio da garganta, falação dos pensamentos. Algumas horas sem ninguém é tão ou mais incrível que as festas loucas entre vários amigos, bebendo, fumando, dançando.
Nunca perguntei se todos pensam como eu, se todos sentem essa mesma explosão luminosa, metafísica, quando tiram um tempo pra se sentirem sós, soltos no mundo, pequenos, uma gota, uma bolha, um micro ponto.
Não consigo lembrar-me quando foi a primeira vez que me escondi das outras pessoas a pensar, ler, fotografar, fazer nada, olhar as nuvens, sentir o cheiro dos jasmins lá no sítio. Desde que me conheço por gente, faço isso, eu fujo em direção a ninguém. Depois, já adolescente, veio essa mania de viajar sozinha, perder-me, falar com estranhos, sumir. Insegurança de não ter ninguém ao redor que saiba meu nome. Ninguém a me julgar, ninguém para me ajudar. 
Combustível. Substância. Solidão. 
Sol
Uns emprestam sua companhia, alguns se prestam, outros se dão.
Lua. Vou a uma festa!
biAhweRTher

sexta-feira, 10 de março de 2017

A minha parte mais bonita.

As mudanças que se operaram em mim, para melhor, vem do meu feminismo. Esta verve, esta coisinha, essência que estava aqui desde que eu era um mero grão e que tentaram sepultar desde cedo, então só se mostrava quando me sufocavam pela décima vez, quando me oprimiam de novo, quando me abusavam novamente. O feminismo em mim só vinha em forma de raiva, de ira, de revolta, de urro, de não aguentar mais, tornando-se uma parte difícil, um lado meu do qual me peguei tento vergonha muitas vezes porque ele era rude e o usavam contra mim, me apontando, me excluindo, me julgando.
Porém, num certo dia quando acordei, notei que ele estava livre, solto no meu peito, na garganta, pelo quarto. E era parte real, fluído, natural, belo, intrínseco.
Um dia - ou aos poucos - não vi mais sentido em envergonhar-me do meu estado crítico diante do meu eu covarde e da cultura que me rodeia.
Meu feminismo já não precisava ficar oculto até não poder mais.
Meu feminismo, num certo momento veio todo, floresceu em mim e não havia mais como separá-lo de qualquer das minhas células, poros, neurônios... Descobriu a senha, me tomou toda e ficou plácido, me trouxe respostas.
Nunca fui tão bonita porque meu feminismo é a melhor parte de mim; nunca fui tão completa, nunca tão honesta, tão tranquila e tão segura... Nunca fui tão feliz antes de entender que feminismo é o meu feminino liberto dos modelos, meu eu sem máscaras, minhas vontades respeitadas e minha coragem aumentada.
Se eu gritar é porque preciso, se eu sorrir é de verdade, se eu trepar é porque quero, se eu chorar é porque sou humana, se me revoltar é porque penso, se sou perfeita é porque sou imperfeita, se estou linda é porque sou única, se digo não é porque não. 
biAhweRTher

quinta-feira, 9 de março de 2017

Dando a luz.

Hoje estávamos iniciando a pré-produção das montagens do eixo de Artes Visuais do FLõ festival do livre olhar, lá na La Photo Galeria e numa certa hora uma chuva gigante veio lavando tudo e trazendo a noite. 
Algo começou a mudar dentro de mim naquele momento. Vi minha equipe se empoderando, sentindo-se dona do festival. Fiquei pequena, observando. Meu nervosismo de pré festival foi dando lugar a uma sensção de segurança e paz. Vi as pessoas que eu apresentei umas as outras convivendo, trocando ideias e se tornando amigas, tomando pra si decisões, enriquecendo o nosso mundo.
Percebi que chegou o momento em que o festival se liberta um pouco do meu útero criativo, intelectual, conceitual.
Senti que ele começa a tomar forma não só a partir dos meus sentidos, leituras, interpretações.
O Bom Fim estava às escuras, andei nas ruas e, pela primeira vez em meses, tive uma necessidade de perder o controle do que acontece, descansar algumas horas da liderança.
Comprei um malbec e só penso em ficar sozinha ou com alguém que não esteja sabendo nada sobre o festival.
Vejo pessoas que não conheço divulgando e comentando os eventos. Assisto os artistas (são cerca de 100 obras/projetos no programa), mais de 300 envolvidos direta e indiretamente em cada exposição, espetáculo, sessão de filmes...
Observo-os partilhando orgulhosos suas participações, alguns sem mesmo saber que há uma pessoa chamada biAhweRTher que inventou esta casa cheia de janelas.
É que não importa quem foi, importa quem seremos.
Nunca desisto do que eu quero, sou workaholic e idealista no nível máximo. O envolvimento das pessoas é diretamente proporcional à minha paixão, mesmo que eu, em algum momento, já não tenha a mínima importância.
O festival é como nossos filmes, nossas músicas, nossos escritos e invenções. Há o momento em que não temos mais domínio algum sobre elas.
Ainda assim, apesar de isto ter crescido e não ser mais só um projeto meu no silêncio do meu lar estúdio, eu consigo entender onde eu queria chegar e sinto orgulho de mim, por unir tantas pessoas, por fazer o quase impossível num país que odeia artistas independentes.
É como estar sentada sobre essas nuvens cinzas, sentindo o ar mais fresco e gostando de si mesma.
Sem falsa modéstia, não sei porque eu faço tudo isto, mas sei porque aprendi a gostar de mim.
Que a semana do dia 21 a 26 de março de 2017 seja o melhor que pudermos fazer, ser e subverter.
Um beijo

biAhweRTher

quarta-feira, 8 de março de 2017

O PECADO INFINITO.

É sobre levar o mundo nas costas desde que nos conhecemos por gente, sejamos anarquistas, subversivas, carolas ou niilistas; libertárias, covardes, amordaçadas no porão, de baton, tensas, intensas, vazias recatadas do lar. O elo é uma ferida.
É sobre o fardo e um grito. 
E é sobre essa emoção que está envolvendo boa parte de nós no mundo inteiro no dia de hoje. 
Cada uma é um pequeno mundo gerador de vidas e de mortes - normalmente a própria.
Apenas mais uma, me sinto uma formiguinha, me sinto um dragão, uma leoa, uma ET, uma moça que usa o manto da invisibilidade... Só sei que estou com borboletas no estômago, na garganta está meu coração.
E sendo prática, preciso, devo parar algumas horas para participar da mobilização mundial de hoje. Como dizemos no cinema8ito... 8... i n f i n i t o, 8ito é par, 8ito é coletivo.
Se eu não for encontrar minhas iguais hoje, se eu não sair às ruas, minha culpa será imensa.
Se eu for, a produção do FLõ festival do livre olhar vai parar por algumas horas e minha Culpa também será imensa.
C U L P A. A chave que manipula as minas e nos torna, HOJE, manas. Culpa, o segredo criado pelas instituições para controlar nossos passos. Seja ateia, seja carola, seja puta, seja virgem, seja velha, seja nova, há sempre um espectro apontando um delito inexistente, eficiente.
Precisamos discutir, superar,
desconstruir a culpa.
A propósito de pecado, esta foto foi censurada várias vezes pelo facebook. Fiquei de "castigo" por publicá-la inteira então, aqui, a cortei. Certa vez, um rapaz, ao vê-la, me disse que sentia nojo e avisou que estava "denunciando". A expressão denunciada, censurada, era só minha pele nua suja de vermelho. Infração.
Um beijo e força para todas as manas neste dia de LUTA! Que todos os dias sejam assim. Que não exista competição entre nós, só o olhar e a voz de cada uma, diferente, única, a complementar os milhões de outros olhos e vozes. #NenhumaaMenos
biAhweRTher
Clandestina
Biah Werther II


terça-feira, 7 de março de 2017

Pelos Pelos

Existe cultura, cultura, cultura e cultura. Umas para nosso sim, outras para o não.
Quando eu tinha uns 13 anos comecei a depilar partes do meu corpo por uma imposição. Cegamente comecei a fazer algo que nunca tinha feito parte dos meus pensamentos a respeito do meu corpo porque algumas amigas começaram a me cobrar isto e alguns meninos riam de meninas com pelos no corpo.
A primeira vez fiz escondida de minha mãe, usando um aparelho de barba do meu pai. Cortei minha perna embaixo do chuveiro e saiu muito sangue. Me senti num rito de passagem sozinha naquele banheiro de azulejos azul calcinha.
Foi ruim passar a fazer parte de tal cultura, espécie de obrigação.
É tão fora dos meus valores, tão irrelevante me depilar para me sentir mais mulher ou mais bela, que nunca fui num desses lugares onde as mulheres se torturam com ceras quentes. Só conheço pelos filmes e acho meio ridículo.
Hoje, infantilizar o corpo da mulher tirando todos os pelos, em determinados nichos, é uma obrigação, uma lei. Claro que não faço parte disto, mas me depilo como quem carrega um fardo. Pra ter menos trabalho e porque me machuco  s e m p r e  com lâminas, compro uns cremes caros que facilitam mas pesam no orçamento, então eu sou daquelas que podem passar por você de biquini na praia toda linda com os pelinhos das pernas bem faceiros e se você não curtir dou muita risada e penso:
Você tá revoltadinha porque ainda não me viu no inverno, por debaixo de mil casacos!!
Depilação não é higiene. Higiene é banho. Depilação é uma bobagem cultural pra agradar caras machistas e uma sociedade patética que quer todas as mulheres fingindo que tem doze anos para excitar senhores pedófilos.
Um beijo.
biAhweRTher

domingo, 5 de março de 2017

Fastfood de carne humana.

Desconfio de quem consegue sorrir, dormir, entrar num fastfood, neste domingo, 
sentir-se em casa dentro do ambiente frio de cores estudadas e mensagens subliminares.
Não confio em alguém que consegue viver normalmente após o assassinato do menino João,
que teve seu frágil corpo espancado até a morte por seguranças do fastfood Habib's. 
Ele foi jogado na calçada a espera dos corvos da nossa cultura: Nós.
O apelo que todxs devemos fazer não é o da hashtag do dia para amenizar nossa responsabilidade.
O apelo é para nossa própria consciência, ao som dos gases de nossas entranhas.
O apelo é diante do espelho, é sobre empatia.
Sinta vergonha se você é um pai que pensa que só importa na sua sociedade aquilo que acontece "da porta pra dentro", pois sua ignorância o impede de entender que somos um corpo só.
Envergonhe-se se você é uma mãe que ensina competição e arrogância pois dignidade, amor e respeito são direitos de todos, não apenas dos seus filhos.
Não se iluda, não se entenda imune, não se julgue imaculado.
Cada um de nós matou João e matamos a cada minuto dos nossos dias boçais todos os outros meninos e meninas sem lar, viciados, sem pais, sem país, com seus olhos que são o espelho do qual fugimos idiotizados, ruminando, rosnando, correndo dessas crianças como se os monstros fossem eles e não nós.
Todas as crianças são de todos os pais, responsabilidade de todos. Assim está escrito nas leis mais básicas de todas as sociedades desde que o mundo é mundo. Você não sabe porque está ocupado fazendo compras e chutando crianças de rua.
Se você não sabe nada sobre isto, está na hora de entender antes que seus muros não sejam suficientemente altos para segurar a culpa lá fora. Sinta medo de você mesmo, tome um banho na vergonha e mude antes que o seu bunker seja invadido por você próprio, pelo lado seu que está lá fora, espelhando o seu escárnio. Todo o ódio que se revelará contra a injustiça e virá contra você, emanou do seu egoísmo. Não haverão muros suficientes. Você não é vítima, você é cumplice.
#BoicoteHabibs
biAhweRTher